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HELENA

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dessa tolice, e hoje era 
capaz de entrar, de noite, num cemitério... E daí talvez não: 
os corpos que ali dormem têm direito de não ouvir mais um 
só rumor de vida.
Estácio havia chegado ao último degrau da escada. As 
últimas palavras ouviu-as ele com os olhos fitos na irmã e en-
costado ao poial de pedra.
— Quem lhe ensinou essas ideias? Perguntou ele.
— Não são ideias, são sentimentos. Não se aprendem; 
trazem-se no coração. Senhor especialista em geometria, 
continuou balançando caprichosamente o chicote, — veja se 
transcreve em algum livro estas figuras de minha invenção, e 
comece cavalgar comigo.
Com um movimento rápido prendeu a saia do vestido, e 
caminhou para diante. Estácio acompanhou-a, a passo lento, 
como solicitado por dois sentimentos diferentes: a afeição que 
o prendia à irmã, e a estranha impressão que ela lhe fazia sen-
tir. Quando chegou à porta da cavalariça, viu aparelhados dois 
animais, o cavalo de seus passeios da manhã, e a égua que a tia 
cavalgava uma ou outra vez.
— Que é isso? Disse ele. Por ora vamos a algumas indica-
ções somente, aqui no terreiro.
— Justamente! Respondeu a moça.
Um escravo, que ali estava, trouxe um tamborete. Estácio 
aproximou-se de Helena, que afagava com a mão branca e fina 
as crinas da égua.
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— Como se chama? Perguntou ela.
— Moema.
— Moema! Ora espere... é um nome indígena, não é?
Estácio fez um sinal afirmativo. Helena tinha um pé sobre 
o tamborete; repetiu ainda o nome da égua, como quem refletia 
sobre ele, sem que o irmão percebesse que não era aquilo mais do 
que um disfarce. De repente, quando ele menos esperava, Helena 
deu um salto, e sentou-se no selim. A égua encurvou o colo, como 
vaidosa do peso. Estácio olhou para a irmã, admirado da agilidade 
e correção do movimento, e sem saber ainda o que pensar daquilo.
Helena inclinou-se para ele.
— Fui bem? Perguntou sorrindo.
— Não podia ir melhor; mas o que me admira...
As patas de Moema interromperam a reflexão do moço. A 
cavaleira balançou o chicotinho, e o animal saíu a trote largo 
pelo terreiro fora. Estácio, no primeiro momento, deu um passo 
e estendeu a mão como para tomar a rédea ao animal; mas a 
segurança da moça logo lhe deixou ver que ela não fazia ali 
os primeiros ensaios. Ficou parado, de longe, a admirar-lhe a 
elegância e a destreza. No fim de vinte passos, Helena torceu 
a rédea e regressou ao ponto donde saíra.
— Que tal? Disse ela logo que estacou. Terei jeito para a 
equitação?
— Criança!
— Que é isso? Já aprendeu? interveio D. Úrsula, do alto da 
varanda, onde acabava de chegar.
— Estava caçoando conosco, disse Estácio. Vê como sabe 
montar?
— Ela sabe tudo, murmurou D. Úrsula entre dentes.
Estácio montou no cavalo. Consultou o relógio; eram sete 
horas e meia.
— Permite que o acompanhe? Perguntou Helena.
— Com uma condição, disse ele; é que tem que ter juízo. 
Não quero brincadeiras; a égua é aparentemente mansa, mas 
não deve brincar com ela. Já vejo que você é capaz de muitas 
coisas mais.
— Prometo ir pacificamente.
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Helena cumprimentou a tia com um gesto gracioso, deu de 
rédea ao animal e seguiu ao lado do irmão. Passado o portão, 
seguiram os dois para o lado de cima, a passo lento. O sol estava 
encoberto e a manhã fresca. Helena cavalgava perfeitamente; de 
quando em quando a égua, instigada por ela, adiantava-se alguns 
passos ao cavalo; Estácio repreendia a irmã, a seu pesar, porque 
ao mesmo tempo que temia alguma imprudência, gostava de lhe 
ver o branco do busto e a firme serenidade com que ela conduzia 
o animal.
— Não me dirá você, perguntou ele, por que motivo, sa-
bendo montar, pedia-me ontem lições?
— A razão é clara, disse ela; foi uma simples travessura, 
um capricho... ou antes um cálculo.
— Um cálculo?
— Profundo, hediondo, diabólico, continuou a moça sorrin-
do. Eu queria passear algumas vezes a cavalo; não era possível 
sair só, e nesse caso...
— Bastava pedir-me que a acompanhasse.
— Não bastava. Havia um meio de lhe dar mais gosto em 
sair comigo; era fingir que não sabia montar. A ideia momentâ-
nea de sua superioridade neste assunto era bastante para lhe 
inspirar uma dedicação decidida...
Estácio sorriu do cálculo; logo depois ficou sério, e per-
guntou em tom seco:
— Já lhe negamos algum prazer que desejasse?
Helena estremeceu e ficou igualmente séria.
— Não! murmurou; minha dívida não tem limites.
Esta palavra saiu-lhe do coração. As pálpebras caíram-lhe 
e um véu de tristeza lhe apagou o rosto. Estácio arrependeu-se 
do que dissera. Compreendeu a irmã; viu que, por mais inocen-
tes que suas palavras fossem, podiam ser tomadas à má parte, 
e, em tal caso, o menos que se lhe podia dar era a descortesia. 
Estácio aparentava ser o mais polido dos homens.
Inclinou-se para ela e rompeu o silêncio.
— Você ficou triste, disse Estácio; mas eu desculpo-a.
— Desculpa-me? Perguntou a moça erguendo para o irmão 
os belos olhos úmidos.
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— Desculpo a injúria que me fez, achando que estava sendo 
grosseiro.
Apertaram-se as mãos, e o passeio continuou nas melhores 
disposições do mundo.
Helena deu livre curso à imaginação e ao pensamento; suas 
falas exprimiam, ora a sensibilidade apaixonada, ora a reflexão 
da experiência prematura, e iam direitas à alma do irmão, que 
se comprazia em ver nela a mulher como ele queria que fosse, 
uma graça pensadora, uma seriedade amável. De quando em 
quando faziam parar os animais para contemplar o caminho 
percorrido, ou falar acerca de um acidente do terreno. Uma vez, 
aconteceu que iam falando das vantagens da riqueza.
— Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão 
a maior felicidade da terra, que é a independência absoluta. 
Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior 
que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de 
sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que 
submete o homem aos outros homens. A riqueza compra até o 
tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê 
aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, 
terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.
O preto de quem Estácio havia falado, estava sentado 
no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das 
duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O 
preto não atendia aos dois cavaleiros que se aproximavam. Ia 
cortando a fruta e deitando os pedaços de casca ao focinho do 
animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que 
parecia alegrá-lo infinitamente. Era homem de cerca de quarenta 
anos; ao parecer, escravo. As roupas eram sujas; o chapéu que 
lhe cobria a cabeça, tinha já uma cor envelhecida. No entanto, 
o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo o caso, a 
serenidade do espírito.
Helena voltou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. 
Ao passarem por ele, o preto tirou respeitosamente o chapéu e 
continuou na mesma posição e ocupação que dantes.
— Tem razão, disse Helena; aquele homem gastará muito 
mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples 
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questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo 
modo, quer o desperdicemos, quer o economizemos. O essen-
cial não é fazer muita coisa no menor prazo; é fazer muita coisa 
aprazível ou útil. Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, 
esse mesmo caminhar a pé, que lhe alongará a jornada, e lhe fará 
esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.
Estácio soltou uma risada.
— Você devia ter nascido...
— Homem?
— Homem e advogado. Sabe defender com habilidade as 
causas mais melindrosas. Nem estou longe de crer que o próprio 
cativeiro lhe parecerá uma bem-aventurança, se eu disser que 
é o pior estado do homem.
— Sim? Retorquiu