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Reflexão sobre o movimento antimanicomial pelo olhar do filme Nise

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Reflexão sobre o movimento antimanicomial pelo olhar do filme Nise: O Coração da Loucura
Ao longo do desenvolvimento da humanidade a “loucura” tomou diferentes significados e formas. Na Idade Média comportamentos estranhos e fora da norma eram considerados frutos de ação demoníaca e aqueles que agiam assim estavam possuídos. Com o tempo as deficiências mentais desenvolveram um aspecto ético, sendo o louco por quis ser louco, era um defeito moral.
Durante a Renascença os “loucos” eram recolhidos e internados em locais onde são colocados para trabalhar de trabalho. A internação se torna um grande medo da população até a segunda metade do século XVIII onde os “loucos” são soutos e colocados sob os cuidados de suas famílias. A loucura se tornou uma vergonha, algo a ser cercado e contido para não causar escândalo e vergonha para a família.
No fim do século XVIII o internamento se torna asilo com objetivo de manter a sociedade segura e conter a loucura. Entende-se que o louco deve ser punido, privado, colocado como dependente, infantilizado. Apesar da relativa humanização dada a estes tratamentos, como a retirada das correntes, o louco é monitorado, contido de outras maneiras. Estabelece o normal e o anormal. 
No século XIX a loucura é patológica, doença. Quem reconhece o louco é o não-louco, havendo grande ênfase na normalidade e nos médicos Só o racional, o objetivismo é válido. Os especialistas aumentam e existe um discurso social, sendo o louco o incompetente social, que é incapaz de produzir. Os tratamentos são compostos por eletrochoque, cirurgias - lobotomia, terapia medicamentosa, contenção, etc.
Nise da Silveira, uma grande figura histórica da luta pelo melhor tratamento dos doentes mentais, chega ao Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro na metade do século XX. Em 1946 ela fundou nessa instituição a "Seção de Terapêutica Ocupacional" e em 1952 ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, onde expunha o trabalho artístico de seus pacientes, valorizando esses trabalhos como uma nova forma de compreender a mente dos esquizofrênicos. Ambos esses momentos são retratados no filme de 2015, Nise: O Coração da Loucura.
No filme vemos como ela reage aos tratamentos “tradicionais” aos quais os pacientes são submetidos. Sua recusa em seguir esses métodos agressivos a leva a ser transferida para a terapia ocupacional que é altamente negligenciada e desprezada pelos outros psiquiatras.
O filme nos mostra a luta dela para encontrar um método mais adequado para tratar os pacientes, que ela chama no filme de clientes, afirmando que aqueles que devem ter paciência e assim, sendo pacientes são os profissionais da saúde. 
Foi retratado no filme como ela foi desprezada por seus esforços, assim como ignorada e sabotada. Os cães, que agiam como terapeutas e suporte emocional para os doentes, foram mortos e isso deu origem a uma das cenas mais marcantes e emocionalmente fortes do filme.
Ela persiste e nos mostra como a observação, a escuta e o cuidado podem ajudar muito mais do que os chamados tratamentos, possibilitando uma ideia dos eventos que desencadearam a doença e como a arte é uma grande ferramenta para vislumbrar a mente desses “loucos”.
Todo esse trabalho desenvolvido por Nise ocorreu antes do inicio efetivo do movimento social pelos direitos dos pacientes psiquiátricos em nosso país, em 1978. Foi um movimento plural formado por trabalhadores integrantes do movimento sanitário, associações de familiares, sindicalistas, membros de associações de profissionais e pessoas com longo histórico de internações psiquiátricas.
Todo o contexto histórico por trás da loucura e as diferentes formas pelas quais foi vista e tratada fazem uma imagem forte e extremamente relevante para uma análise do movimento antimanicomial. Ao longo dos anos várias atitudes foram tomadas em prol do fechamento dos manicômios, o CAPS e o SUS sendo grandes passos nessa direção. A lei Paulo Delgado, sancionada em 2001 dá novo impulso à reforma: oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios. Lentamente, mas com firmeza, a saúde no Brasil se move para o fim dos manicômios.