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um mundo cheio de odores que
você nunca sonhou que existissem,
odo res que dizem mais sobre o
ambiente que o rodeia do que você
já imaginou olhando para ele. Isso
foi exatamen te o que ocorreu a um
jovem paciente do Dr. Oliver Sacks
(história narrada no livro O Homem
que confundiu sua mulher com um
chapéu e outros ca sos clínicos). Ou
então, imagine que você está
andando de skate sem ca pacete em
uma calçada e cai, batendo a
cabeça. Quando retorna à consciên
cia, o mundo não tem mais odor:
você não sente o cheiro da grama,
nem de perfume ou do lixo. Até a
sua comida perdeu muito do gosto,
e agora você só come para
sobreviver porque não tem prazer
em comer.
O mecanismo neural responsável
pela olfação é realizado por uma
cadeia de neurônios que começa no
nariz. Este, por conseguinte, é
considerado o órgão receptor da
olfação (embora participe também
de outras funções importantes,
como a respiração e a fala). A
anatomia do nariz humano, bem
como a dos mamíferos em geral, é
bem adaptada para a canalização
do ar inspirado e o seu
direcionamen to à traqueia e aos
pulmões. As pa
redes internas do nariz são cober
tas por uma mucosa, na qual estão
incrustados os neurônios quimior
receptores da olfação. A estrutura
da mucosa nasal é simples consiste
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em uma única camada celular com
posta por neurônios receptores ol
fatórios, células de suporte seme
lhantes a gliócitos e as chamadas
células basais, que são precursoras
de novos gliócitos. Em meio a esses
elementos existem glândulas produ
toras de muco.
SAIBA MAIS!
A infecção pelo vírus Sars-CoV-2 responsável pela pandemia de Covid-19 em 2020 fez
com que algumas pessoas tivessem perda do olfato (anosmia), sintoma que apareceu
mesmo em pacientes que apresentaram a forma leve da doença. O que acontece com o
Sars-CoV-2 é que ele possui uma instalação especial para penetrar essas células. O vírus
Sars-CoV-2 utiliza basicamente duas proteínas da superfície das células para entrar
nelas: ACE2 (enzima conversora da angiotensina-2) e TMPRSS2 (protease
transmembrana serina 2). Ao anali
sarem a expressão genética dessas células, os cientistas descobriram que as células de
su porte semelhantes a gliócitos, presente nas fossas nasais, apresentam alta expressão
dos genes ACE2 e TMPRSS2. Desta forma, suspeita que por essa afinidade o vírus
invada e da nifique as células de sustentação e, consequentemente, afeta neurônios
sensoriais olfativos.
HORA DA REVISÃO!
Gliócitos, células gliais ou neurogliais, são células que mantém os
neurô nios unidos, dando assim sustentação física ao sistema nervoso.
São as células responsáveis pela nutrição, defesa e auxílio dos
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O muco é continuamente secretado
pelas glândulas e também pelas cé
lulas epiteliais, e torna-se totalmen
te renovado a cada 10 minutos. É
viscoso, formado principalmente por
mucopolissacarídeos, e contém en
zimas e anticorpos que conferem
uma proteção inicial contra
moléculas nocivas e
microrganismos que pene tram pelo
nariz. O muco tem gran de
importância funcional para a ol
fação, pois é nele que se dissolvem
as moléculas odorantes, antes de
entrar em contato com a membrana
dos neurônios receptores. Recente
mente se descobriu que o muco con
tém também proteínas ligadoras de
odorantes, especialmente produzi
das pela mucosa nasal, cuja função
é “capturar” os odorantes
lipossolúveis (que se dissolvem com
dificuldade no meio aquoso do
muco), facilitando o seu contato
com a membrana dos
quimiorreceptores.
A população de quimiorreceptores é
totalmente renovada em cada 6 a 8
semanas, através da proliferação e
diferenciação das células basais. Os
quimiorreceptores “velhos” desapa
recem e novos neurônios assumem
o seu lugar. Esse é um exemplo
notá vel que contraria o dogma de
que os neurônios são incapazes de
proliferar depois de terminado o
desenvolvi mento ontogenético.
Os quimiorreceptores olfatórios são
neurônios bipolares cujo dendrito
aponta em direção à cavidade nasal
terminando em uma intumescência
bulbosa que emite de 6 a 12 cílios
muito finos. Os cílios ficam imersos
no muco nasal, formando uma
densa rede enovelada na superfície
da mu
cosa. É justamente na membrana
dos cílios que se encontram
concentradas as moléculas
receptoras responsáveis pela
transdução quimioneural, que são
chamados receptores olfatórios.
Do outro polo do neurônio receptor
emerge um axônio direcionado para
cima, que penetra na cavidade cra
niana através dos orifícios da placa
crivosa do osso etmoide. Por toda a
mucosa nasal, o conjunto dos
axônios dos quimiorreceptores vai
formando filetes nervosos que se
distribuem em forma de leque,
convergindo dor salmente para o
etmoide. Os axônios dos
quimiorreceptores são na realida de
as fibras de primeira ordem do
sistema olfatório. Os filetes
nervosos que eles formam
constituem o primei ro nervo
craniano, o nervo olfatório. Esse é
um nervo diferente, pois não
constitui um cilindro compacto como
os demais, mas sim um leque de fi
letes separados que vão terminar no
bulbo olfatório no encéfalo.
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Figura
18. Bulbo olfatório. Fonte: SILVERTHORN (2017, p. 326).
Em roedores, uma estrutura olfatória
acessória na cavidade nasal, o órgão
vomeronasal (OVN), é conhecida por
estar envolvida em respostas com
portamentais a feromônios sexuais.
Estudos anatômicos e genéticos su
gerem que não há um OVN
funcional em seres humanos,
porém os expe rimentos realizados
com compostos que se acredita
atuarem como fero mônios
humanos sugerem que os se res
humanos possam se comunicar por
sinais químicos.
O bulbo olfatório fica posicionado
estrategicamente dentro do crânio,
bem no ponto onde as fibras pri
márias atravessam a placa crivosa.
O bulbo tem a forma de um gânglio
situado na base do encéfalo e nele
estão situados os neurônios de se
gunda ordem da via olfatória, bem
como interneurônios que realizam
os primeiros estágios de processa
mento da informação transduzida
pelos receptores e levada ao encéfa
lo. Os neurônios de segunda ordem
da via olfatória são as células
mitrais e as células tufosas,
chamadas de células m/t. Elas
recebem sinapses axodendríticas
das fibras olfatórias primárias
dentro de estruturas his tológicas
especializadas chamadas
glomérulos (Ver figura 17).
12. TRANSDUÇÃO
OLFATÓRIA
Quando um odorante se liga a um
receptor molecular ocorre uma mo
dificação alostérica neste, que ativa
a Golf pela face interna da
membrana do cílio. A Golf liga-se a
uma molé cula de GTP³, e uma de
suas subuni dades destaca-se do
receptor e ativa
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uma cadeia de segundos mensagei
ros. Na grande maioria dos
quimiorre ceptores, o segundo
mensageiro é o AMP cíclico
(AMPc), sintetizado pela enzima
adenilil ciclase sob ativação da Golf.
O AMPc ativa enzimas fos
forilantes (cinases) que provocam a
abertura de canais inespecíficos de
cátions, despolarizando a
membrana e assim provocando um
potencial receptor que se espalha
por toda a célula, até o cone de
implantação do axônio olfatório. A
entrada de para o interior dos cílios
provoca a abertu ra de canais de
dependentes de . Como a
concentração desse ânion no
interior dos cílios é maior que a
con centração externa, resulta a
saída de e uma despolarização
ain
por pequeníssimas concentrações
de odorantes. Estima-se que os
seres humanos são capazes de
perceber odorantes em
concentrações de pou
cas moléculas por trilhão de molécu
las de ar.
MAPA – TRANSDUÇÃO OLFATÓRIA
ODORANTE
Ativa
Receptor no
da maior. Esse é um
mecanis mo
multiplicador do efeito
dos
Golf
neurônio olfatório
odorantes, que
explica a grande
sensibilida de que
temos para
cheiros
produzidos
Ativa
AMPc ( a
despolarização e
aumenta a
sensibilidade
para o cheiro
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odorantes podem ativar o mesmo
neurónio. A estimulação da mucosa
com um odorante constituído por um
só tipo molecular, assim,