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Abelhas nativas sem ferrão - Jerônimo Vilas-Boas

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Vale ressaltar, portanto, que conceber e sistematizar os processos de produção 
propostos neste Manual também foi um grande desafio. De maneira geral, pode-
mos dizer que tais processos têm base na experiência prática da meliponicultura 
que tem sido desenvolvida no Brasil, organizam-se de acordo com a legislação já 
existente para as abelhas sem ferrão e, quando inexistente, inspiram-se em diretri-
zes gerais da legislação aplicada à apicultura.
Processamento integral dos produtos 
das abelhas nativas sem ferrão
Legislação aplicada
Uma vez que estamos tratando de produtos de origem animal, é o Ministério 
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) que regulamenta, em âmbito fe-
deral, os derivados das abelhas. Hierarquicamente, a principal legislação que temos 
sobre o assunto é o famoso Riispoa (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária 
de Produtos de Origem Animal), cuja nova versão (a original é de 1952) foi publica-
da recentemente por meio do Decreto n° 9.013 de 29 de março de 2017.
O grande avanço do novo Riispoa foi finalmente dedicar atenção à meliponi-
cultura, separando os produtos das abelhas do gênero Apis (mel, pólen apícola, 
geleia real, própolis, cera de abelhas e apitoxina) dos produtos das abelhas nativas 
sem ferrão: mel de abelhas sem ferrão, pólen de abelhas sem ferrão e própolis 
de abelhas sem ferrão. Infelizmente, o cerume não foi contemplado. Apesar do 
avanço, o Decreto apenas define os produtos que existem e estabelece parâmetros 
básicos de produção. A legislação que efetivamente direciona os procedimentos 
da cadeia produtiva deve ser (e está sendo) definida em regulamentos técnicos 
complementares.
De maneira geral, os regulamentos complementares legislam em três escalas: 
infraestrutura (diretrizes para a construção das agroindústrias); processos (padro-
nização dos procedimentos de produção); e produtos (normas de identidade e 
qualidade dos produtos).
Tratando de infraestrutura e processos, merecem destaque a Instrução Norma-
tiva n°16, de 23 de junho de 2015 e a Instrução Normativa n° 5, de 14 de fevereiro 
de 2017, que tratam de forma diferenciada as agroindústrias de produtos de ori-
gem animal de pequeno porte. Enquadram-se nessa categoria empreendimentos 
da agricultura familiar, ou equivalente, cuja área construída não seja superior a 
250 m2. 
Apesar de serem concebidas com base na cadeia da apicultura, mencionam a 
meliponicultura: a IN n° 05/2017, em seu artigo 54, estabelece que “para o pro-
cessamento de produtos de abelhas silvestres nativas podem ser utilizadas as mes-
mas dependências industriais e equipamentos utilizados para produtos de abelhas 
Apis mellifera, no que couber à tecnologia de fabricação”. 
Em suma, essas INs deixaram a desejar no detalhamento de parâmetros espe-
cíficos para a meliponicultura, mas trazem benefícios ao prestigiar empreendimen-
tos de menor escala. Conheceremos um pouco mais desses benefícios ao longo 
dos terceiro e quarto capítulos.
Sobre os produtos, tivemos avanços importantes em nível estadual: Bahia, 
Amazonas, Paraná e São Paulo publicaram regulamentos técnicos de identidade e 
qualidade específicos para o mel de abelhas sem ferrão. A legislação de São Paulo, 
que teve como base a proposta dos pesquisadores Ricardo Costa Rodrigues de Ca-
margo (Embrapa Meio Ambiente) e Maria Isabel Berto (Instituto de Tecnologia de 
Processamento integral dos produtos das abelhas nativas sem ferrão 109
Alimentos), publicada na revista científica Brazilian Journal of Food Technology, é 
a mais abrangente. Ao contemplar todas as formas de beneficiamento de mel que 
têm sido utilizadas no Brasil constitui um regulamento democrático, o qual, com 
pequenas adaptações, pode perfeitamente ser adotado por outros estados e pelo 
governo federal. No final desse Manual (Anexo 2) o trecho desse artigo que trata 
especificamente da proposta técnica de regulamento para o mel de abelhas sem 
ferrão está disponível para consulta.
Já os outros produtos – pólen de abelhas sem ferrão, própolis de abelhas sem 
ferrão e cerume – não possuem regulamentos técnicos nem em nível estadual. En-
tretanto, mesmo com diferenças marcantes, podemos dizer que a forma de benefi-
ciamento desses produtos possui analogias com os seus equivalentes na apicultura. 
Dessa forma, o meliponicultor que se aventurar na exploração comercial de seus 
produtos pode buscar inspiração na Portaria n° 06, de 25 de julho de 1985, que 
estabelece as normas higiênico-sanitárias e tecnológicas para mel, cera de abelhas 
e derivados, e onde este Manual também se apoiou para descrever os processos 
de produção.
Também é importante destacar que o registro das agroindústrias e dos pro-
dutos regulamentados pelo Mapa pode ser realizado nas Secretarias estaduais ou 
municipais de Agricultura. Nesse caso, a comercialização limita-se ao estado ou 
município de registro.
A limitação municipal ou estadual ou para a comercialização dos produtos, 
entretanto, só existe se o município ou o estado não tenham aderido ao Sistema 
Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa). O Suasa é um sistema 
de inspeção sanitária (em fase de implantação desde 2006) organizado de forma 
unificada e descentralizada entre a União (responsável pela coordenação por meio 
do Mapa), os estados (instâncias intermediárias) e os municípios (instâncias locais). 
Em termos práticos, a principal vantagem do Suasa é viabilizar a comercialização 
dos produtos inspecionados pelo SIM ou pelo SIE em todo o território nacional.
Os estabelecimentos de coleta e beneficiamento
O Riispoa, em seu artigo 22, define dois tipos de estabelecimentos para o pro-
cessamento dos produtos das abelhas:
I - unidade de extração e beneficiamento de produtos de abelhas; e
II - entreposto de beneficiamento de produtos de abelhas e derivados.
A unidade de extração é definida como:
 “§ 1º (...) estabelecimento destinado ao recebimento de matérias-primas de 
produtores rurais, à extração, ao acondicionamento, à rotulagem, à armazenagem 
Manual Tecnológico110
e à expedição dos produtos de abelhas, facultando-se o beneficiamento e o fra-
cionamento”. 
A unidade de extração é, portanto, o estabelecimento mais básico, priorita-
riamente concebido para colheita e pré-beneficiamento dos produtos, mas com a 
possibilidade, dependendo de seu projeto, de também beneficiar, fracionar e expe-
dir produtos ali colhidos. A unidade de extração não pode receber matérias-primas 
pré-beneficiadas em outros estabelecimentos (mel em baldes, por exemplo) e nem 
a elaboração de derivados (compostos, extratos e etc.). 
 Já o entreposto, é definido como:
“§ 2º (...) estabelecimento destinado à recepção, à classificação, ao beneficia-
mento, à industrialização, ao acondicionamento, à rotulagem, à armazenagem e à 
Se os produtos forem 
comercializados somente no 
município onde o estabeleci-
mento se encontra, o regis-
tro sanitário da agroindústria 
pode ser realizado no Ser-
viço de Inspeção Municipal 
(SIM), vinculado à Secretaria 
Municipal de Agricultura.
Quando se pretende comer-
cializar em outros municípios 
do estado ou se o município 
não possui SIM, o registro 
deve ser feito no Serviço de 
Inspeção Estadual (SIE).
Os produtos comercializados 
em abrangência interestadu-
al devem ser registrados no 
Serviço de Inspeção Federal 
(SIF) vinculado ao Mapa. A 
solicitação deve ser enca-
minhada ao escritório da 
Superintendência Federal de 
Agricultura do Mapa.
De forma geral, o registro dos estabelecimentos processadores de produtos de origem 
animal pode ser sintetizado da seguinte maneira:
Fonte: KITAWA-LIMA & VILLAS-BÔAS (2018)
Processamento integral dos produtos das abelhas nativas sem ferrão 111
expedição de produtos e matérias-primas pré-beneficiadas provenientes de outros 
estabelecimentos de produtos de abelhas e derivados, facultando-se

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