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Abelhas nativas sem ferrão - Jerônimo Vilas-Boas

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acontecer em caso de morte da rainha poedeira ou 
em caso de enxameagem. 
Normalmente, as rainhas virgens das Meliponini são um pouco menores e mais 
escuras que as operárias, enquanto as rainhas virgens das Trigonini são maiores. 
Depois da fecundação o ovário das rainhas se desenvolve, dilatando seu abdome 
e tornando-as notavelmente maiores que as outras. Esse fenômeno é chamado 
fisogastria e por isso as rainhas poedeiras também são conhecidas como rainhas 
fisogástricas.
1. De forma geral, feromônios são substâncias químicas que, captadas por animais da mesma espécie (intraespecífica), 
possibilita o reconhecimento mútuo e sexual dos indivíduos.
O universo das abelhas e das colônias 19
Rainha da abelha Uruçu-Amarela – Melipona flavolineata. (Foto: Cristiano Menezes)
Comparação entre uma 
rainha fisogástrica e uma 
operária da abelha Jandaíra 
(Melipona subnitida).
Manual Tecnológico20
O mecanismo de formação das rainhas é 
a principal diferença entre os Meliponini e os Trigonini
Entre os cientistas, existem diferentes conceitos sobre o processo biológico que 
determina o nascimento de rainhas em colônias de meliponíneos. Entre as diferentes 
espécies, inclusive da mesma tribo, também existem pequenas variações. Entretanto, 
existe um parâmetro básico que define a formação de rainhas e determina a principal 
diferença entre os grupos Meliponini e Trigonini:
Nas espécies da tribo Meliponini não há construção de células reais. Todas as células 
de cria são iguais. A determinação do número de rainhas que nasce, entre todos os 
ovos disponíveis, é definida por uma proporção genética. Já as abelhas da tribo Trigonini 
constroem células reais, que são maiores que as células comuns. Por conta deste tama-
nho, as larvas que se desenvolvem nesse tipo de célula recebem mais alimento, o que 
determina a formação de uma nova rainha virgem.
Essa diferença deve ser assimilada pelo meliponicultor principalmente para aplica-
ção dos métodos de divisão induzida de colônias.
Células reais em favos de cria da abelha Jataí – Tetragonisca angustula.
(Foto: Cristiano Menezes)
O universo das abelhas e das colônias 21
As operárias são os indivíduos mais abundantes da população de uma colônia. 
Elas cuidam da defesa, da limpeza, manipulam os materiais de construção, coletam 
e processam o alimento. Ou seja, representam a grande força de trabalho da colônia. 
Uma operária pode ser facilmente reconhecida pois, além de abundante, é a única 
que tem corbícula, uma estrutura presente nas patas traseiras. A corbícula é como se 
fosse um pequeno cesto acoplado nas pernas das operárias, onde elas carregam o 
pólen, resina, barro e outros materiais de construção coletados na natureza.
Operária da abelha mesoamericana Xunan-Kab (Melipona beecheii) com destaque para a corbícula.
Operária da abelha Uruçu-
Boca-de-Renda (Melipona 
seminigra) com resina na 
corbícula. (Foto: Cristiano 
Menezes)
Manual Tecnológico22
Os machos são indivíduos reprodutores e vivem basicamente para acasalar 
com rainhas virgens. Entretanto, diferente dos zangões das abelhas Apis mellifera, 
podem realizar alguns pequenos trabalhos, como a desidratação de néctar e a ma-
nipulação de cera. Por terem o porte do corpo muito parecido com o das operárias, 
nem sempre é fácil identificar um macho. Entretanto, um olhar mais aguçado é 
capaz de evidenciar suas características marcantes: ausência de corbícula; man-
díbulas um pouco menores; antenas levemente mais compridas (um segmento a 
mais que a das operárias); e, em muitas espécies, coloração mais clara da face. A 
forma mais fácil de visualizar um macho é nos aglomerados que eventualmente 
formam na parte exterior da colônia, quando aguardam as rainhas virgens para 
acasalar. Estes aglomerados podem chegar a centenas de machos.
Macho de Uruçu-Amarela (Melipona mondury): comportamento típico, pousado do lado de fora da colmeia. Detalhe 
das manchas brancas na face. (Foto: Luiza Guasti)
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Materiais de construção
Todos os elementos estruturais de uma colônia de meliponíneos são constitu-
ídos com três materiais básicos: cera, barro e resina vegetal. Diversamente utiliza-
dos entre as espécies, são usados puros ou misturados, constituindo compostos 
como o cerume, a própolis e o geoprópolis. Outros materiais como sementes, 
fibras vegetais e até excrementos animais são utilizados em ocasiões específicas.
Materiais básicos
Cera: produzida na própria colônia, é secretada por abelhas jovens em glân-
dulas existentes no dorso do abdome. De coloração branca, é raramente utilizada 
pura, sendo geralmente misturada com resinas vegetais constituindo o cerume.
Barro: coletado na natureza, pode possuir diversas cores dependendo da ori-
gem mineral. Em alguns casos é usado puro, mas é mais comum ser misturado 
com resinas vegetais constituindo o geoprópolis.
Resina vegetal: coletada na natureza de diversas espécies de plantas, é trazida 
para a colmeia como matéria-prima. É armazenada em pequenos aglomerados 
viscosos e pegajosos, facilmente encontrados das áreas periféricas da colônia. Na 
literatura e no linguajar dos meliponicultores é frequentemente tratada como si-
nônimo de própolis. Esse tratamento, entretanto, pode gerar algumas confusões, 
uma vez que o termo “própolis”, consagrado pela apicultura, se refere à mistura 
de resina com cera, enzimas e, eventualmente, outras substâncias. Como sabe-
mos, as abelhas sem ferrão também misturam resinas e cera, mas produzem com 
essa mistura uma variedade de derivados que vai além da própolis “clássica”. Elas 
eventualmente também usam as resinas puras, para vedação ou para defesa, fato 
que não é observado entre as Apis. Logo, tratar resina vegetal como sinônimo de 
própolis é um reducionismo. Vale ainda lembrar que, do ponto de vista comercial, 
a substância central explorada com a própolis é a resina vegetal. É ela que contém 
as propriedades terapêuticas e ela que é diluída e concentrada para fabricação 
do “extrato de própolis”. Uma vez que essa estimada substância se encontra nas 
colônias de abelhas sem ferrão em variados materiais, compreender as diferenças e 
classificar as matérias-primas é fundamental para organizar a produção e valorizar 
a atividade.
Manual Tecnológico24
Compostos
Cerume: mistura da cera branca (pura) com resinas vegetais em uma propor-
ção em que a cera predomina. Sua cor varia de acordo com a quantidade e com o 
tipo de resina utilizada na mistura. Produzido por todas as espécies de abelhas sem 
ferrão, é material constituinte das principais estruturas dinâmicas de uma colônia: 
potes de alimento, favos de cria e invólucro.
Própolis bruta: mistura de resinas vegetais com cera em uma proporção em 
que as resinas predominam. Produzido principalmente pelas espécies da tribo Tri-
gonini, é material utilizado para vedação de frestas e construção de batumes. Em 
seu clássico livro “Vida e Criação de Abelhas Indígenas Sem Ferrão” o Prof. Paulo 
Nogueira-Neto usa o termo “própolis misto” 
para se referir ao mesmo material. As espécies 
do gênero Scaptotrigona (Benjoi, Canudo, 
Mandaguari, Tubi, etc.) são grandes produto-
ras de própolis bruta.
Geoprópolis: produzido exclusivamente 
pelas espécies da tribo Meliponini, é a mistura 
de barro com resinas vegetais. Como um tipo 
de cimento, é material utilizado para vedação 
de frestas e construção de batumes. A colora-
ção do geoprópolis também varia conforme os 
materiais que o constituem.
Caixa de Uruçu-Amarela (Melipona fulva) vedada com 
geoprópolis de diferentes cores. 
Entrada de uma colônia de 
Uruçu-Boi (Melipona fuliginosa) 
ornamentada com sementes
para se referir ao mesmo material. As espécies 
do gênero Scaptotrigona (Benjoi, Canudo, 
Mandaguari, Tubi, etc.) são grandes produto-
 produzido exclusivamente 
pelas espécies da tribo Meliponini,

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