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DECISAO JUDICIAL - LEGITIMA DEFESA

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As provas orais, em geral, 
consolidam-na, tampouco se aferindo maior desafio 
neste ponto, em virtude da natureza dos crimes 
praticados, instilados por conta do liame parental entre 
as duas vítimas e J.A.S.A., adolescente que mantivera 
um namoro com o acusado. A identificação deste 
tampouco deu margem a dúvidas, tendo em vista a 
própria existência da decisão judicial concessiva de 
medidas protetivas (fls. 18/20), já tornando segura a 
confirmação do algoz, que, ademais, tanto na fase 
policial (fls. 06), como em juízo, CONFESSOU, ao menos, 
a prática do delito previsto no artigo 24-A, da Lei nº 
11.340/2006, como bem reconhecido na sentença. Este 
aspecto do caso, igualmente trazido com segurança à 
lume por conta dos sobejos indícios iniciais de autoria 
atrelados à autuação em flagrante (fls. 01), não 
encontrou maior contumélia nas demais provas orais. Os 
ofendidos Luzia e Claudemir, embora não tenham 
apresentado narrativas perfeitamente concêntricas 
sobre todos os fatos, confirmaram, em juízo, a 
presença de Fernando na residência deles, o que tornou 
cabal, pois, a violação das medidas protetivas de 
proibição de aproximação das vítimas (a r. decisão judicial 
de fls. 18/20, embora nominalmente se tenha referido apenas a Luzia, 
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estendeu-a a quaisquer familiares desta, aqui se incluindo, por dilação do 
conceito civil de parentela, o cônjuge varão) e, consequentemente, 
de contato da mesma forma, inclusive para se evitar 
ofensa à integridade física e psíquica daquelas (Claudemir 
foi fisicamente agredido, e ambos os genitores de J.A.S.A., ameaçados de 
morte pelo réu).
Não obstante tenha Luzia confirmado 
as ameaças apenas contra Claudemir, em juízo, 
ponderando, enfim, que o entrevero com o réu se 
limitaria àquele último (por ele não aceitar o namoro da filha com 
Fernando), a depoente não soube explicar, então, o porquê 
de ter ligado ao marido pedindo por socorro. Sua 
narrativa judicial contrariou, inclusive, o relato prestado 
na etapa inquisitiva (fls. 04), quando não só admitira ter 
ela própria sofrido ameaças, como ainda representara 
contra o réu (caso contrário, sequer se teria preenchido, ao menos 
neste caso, condição de procedibilidade à ação penal para o delito em 
comento). Ademais, tampouco se poderia acolher, 
genuinamente, a versão judicial de Luzia (abrandada por 
razões não esclarecidas), tendo em vista que havia sido ela 
própria a buscar apoio institucional nos moldes da 
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Lei Maria da Penha, tendo protagonizado as 
informações que embasaram a decisão judicial 
concessiva de medidas protetivas (fls. 18/20), proferida 
aproximadamente uma semana antes dos crimes aqui 
averiguados. 
Claudemir, que também representara 
contra Fernando (fls. 05), já trouxe relato mais assertivo, 
eis que plenamente confirmatório de suas primeiras 
declarações, além de respaldado pelos testemunhos 
policiais. Claudemir tanto confirmou ter sido agredido por 
Fernando com uma “paulada no peito” (o que se harmoniza 
plenamente com as confirmações periciais, como visto), como ainda, 
corroborando o crime de descumprimento de medidas 
protetivas (confessado pelo réu em juízo, torno a salientar), 
assinalou ter recebido ameaças de morte. As 
testemunhas de defesa, Valdemir (pai do réu, portanto, a rigor, 
suscetível de ser dispensado de compromisso) e Wanderlei nada 
presenciaram sobre os fatos propriamente ditos, não 
tendo podido sobre eles prestar esclarecimentos 
específicos. Embora aquele último tenha declarado, em 
juízo, que vira Claudemir e outros três ou quatro 
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indivíduos, armados com pedaços de pau, em 
perseguição a Fernando, observo que tal narrativa 
permaneceu isolada no contexto das provas, sem 
ressonância no relato obtemperado de Luzia, e com 
respaldo, apenas, no próprio interrogatório de Fernando. 
Todavia, observo que o increpado não chegara a 
declinar o cenário fático acima descrito em suas 
primeiras declarações (fls. 06), nas quais, para além 
afirmar sua intenção em conversar com a então 
namorada J.A.S.A., se limitou a negar todos os crimes, 
inclusive o de ter danificado a residência das vítimas 
(o que foi atestado pelas provas orais e pelo laudo pericial de fls. 62/70). 
Noutros termos, sobressai, entre os dois relatos de 
Fernando contradição que, assim como se dá com o 
testemunho de Wanderlei, exige que se acolham as 
narrativas judiciais nessa linha com considerável cautela. 
Ademais, Wanderlei, por deter vínculo pessoal com a 
família do réu e, quiçá, nutrir ponto desfavorável contra 
Claudemir (em razão da suposta ameaça na delegacia), como 
explanado, igualmente deve ter suas declarações 
analisadas cuidadosamente, já que não se provou 
equidistante das partes. 
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Situação diametralmente oposta é a das 
policiais militares Marcos e Valmir, os quais, tendo 
atuado, por dever de ofício, na autuação em flagrante 
de Fernando, não detinham qualquer interesse direto (que 
se tenha, ademais, arguido, menos ainda, comprovado) no desate da 
causa. E, confirmando a versão de Claudemir, os 
brigadianos salientaram que nenhuma das duas 
vítimas aceitava o namoro do acusado com a filha 
delas, tanto que também fizeram menção, em juízo, à 
decisão judicial concessiva de medidas protetivas de 
urgência (fls. 18/20). Além disso, enquanto Marcos 
particularmente ressaltou que a própria Luzia contatara 
Claudemir por telefone (cônjuge do qual estava, em verdade, 
separada de fato, e chamara para dormir na casa dela), por conta de 
ameaças anteriores de Fernando, Valmir destacou ter 
bem observado, na data dos fatos, as lesões no peito 
de Claudemir. Ademais, em tom uníssono, os dois 
policiais aduziram, sob o pálio do contraditório, que 
Fernando gritava, a todo momento, que iria “matar 
todo mundo”, o que veio consolidar a confirmação dos 
delitos de ameaça para ambas as vítimas do presente 
caso.
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No mais, impende recordar, como bem 
exposto na própria r. sentença, que o delito de ameaça 
perfaz CRIME FORMAL, consumando-se com a própria 
exteriorização, por palavras ou gestos, de mal injusto e 
grave. Assim, é irrelevante que Claudemir não se tenha 
deixado abater pelas promessas de mal grave 
vociferadas pelo acusado. Ademais, considerando a 
virulência da investida, como se nota dos danos à casa 
(fls. 62/70) da confirmação judicial, pelos policiais, da 
necessidade de desforço físico para contenção do 
réu, estaria Claudemir não só albergado pelo manto da 
legítima defesa (própria e de terceiro), como também pela 
autorização legal de autotutela, em se cuidando de 
“invasão” domiciliar perpetrada pelo desafeto Fernando, 
sobretudo em confessada circunstância de 
descumprimento de ordem judicial impondo medidas 
protetivas em favor das vítimas. 
Por outro lado, estas últimas, como 
qualquer medida jurídica de natureza cautelar, 
sustentam-se conforme a necessidade, em virtude de 
comportarem parcial cerceamento de direitos individuais; 
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o fato de terem sido posteriormente levantadas (fls. 206) 
em nada compromete, portanto, o reconhecimento 
técnico da prática de crimes de ameaça. A concordância 
ministerial reflete a posição técnica da instituição, que 
não só atua como

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