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ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA DDIIAAGGNNÓÓSSTTIICCOO AARRQQUUEEOOLLÓÓGGIICCOO DDAA ÁÁRREEAA DDEE IIMMPPLLAANNTTAAÇÇÃÃOO DDAA PPCCHH SSÃÃOO JJOOÃÃOO,, CCEERRQQUUIILLHHOO,, SSPP SÃO PAULO, JULHO DE 2004 ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 1 DIAGNÓSTICO ARQUEOLÓGICO DA ÁREA DE IMPLANTAÇÃO DA PCH SÃO JOÃO – CERQUILHO, SP EXECUÇÃO SCIENTIA CONSULTORIA CIENTÍFICA S/C LTDA. Rua Henrique Botticini, 150 05587-020 – São Paulo, SP Tel.: 3726-3006; tel./fax: 3726-2389 Arqueóloga responsável: Dra. Solange Bezerra Caldarelli E-mail: solange@scientiaconsultoria.com.br RESPONSÁVEL PELO RAP ARCADIS TETRAPLAN Av. 9 de Julho, 5617 – cj. 8-A 01407-200 – São Paulo - SP Tel. (11)3167-5551 Contato: Eng. Marcos Virgílio da Silva E-mail: mvirgilio@yahoo.com EMPREENDEDOR AES TIETÊ S.A. Estrada Municipal Mogi-Guaçu, km 293 13840-970 – Mogi-Guaçu, SP Tel.: (19) 3831-9590; 3831-9579 Contato: Eng. Odemberg Veronez E-mail: odemberg.veronez@aes.com mailto:solange@scientiaconsultoria.com.br mailto:mvirgilio@yahoo.com mailto:odemberg.veronez@aes.com ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 2 SUMÁRIO Introdução 03 1. Localização e características do empreendimento 04 2. Contexto Ambiental 09 3. Áreas de Influência Indireta e Direta 16 4. Área Diretamente Afetada 31 5. Avaliação de impactos e medidas recomendadas 37 6. Referências bibliográficas 38 7. Equipe técnica 40 ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 3 INTRODUÇÃO A AES Tietê S.A., por meio do processo de privatização iniciado na década de 1990, adquiriu parte da estatal paulista de energia CESP – Centrais Elétricas de São Paulo – e passou a ser responsável pela geração de energia elétrica de diversas Pequenas Centrais Hidrelétricas, integrantes de um patrimônio não operacional recebido. O presente relatório tem por objetivo apresentar os resultados da avaliação arqueológica realizada na área prevista para implantação da Pequena Central Hidrelétrica (PCH) São João, localizada no Rio Sorocaba, no município paulista de Cerquilho e próxima ao município vizinho de Cesário Lange. Com essa pequena central, a empreendedora, AES TIETÊ S.A., pretende realizar o aproveitamento hidrelétrico de estruturas de barramento do rio, já existentes, utilizadas para contenção de cheias e captação para abastecimento de água da cidade de Cerquilho. A inclusão desse empreendimento hidráulico num parque de unidades geradoras de energia elétrica deverá ocorrer pela motorização eletromecânica da barragem. . De acordo com o RAP do empreendimento, o período mais provável da edificação das estruturas já existentes corresponde à primeira metade do século XX, entre as décadas de 1920 e 1930; essa datação foi aferida com base na análise do material empregado na construção da barragem. Depoimentos coletados no local, entretanto, apontaram o início dos anos 1940 para a construção do barramento (TETRAPLAN, 2004). Assim, os elementos construídos e os equipamentos já existentes constituiriam, de uma perspectiva histórica, um testemunho importante tanto no que se refere a um quadro de implantação de obras ligadas a melhoramentos públicos durante as primeiras décadas da República, quanto no que tange ao estudo das técnicas construtivas e das matérias-primas então empregadas. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 4 1. LOCALIZAÇÃO E CARACTERÍSTICAS DO EMPREENDIMENTO1 1.1 - Localização e acessos A PCH São João está situada no trecho médio do Rio Sorocaba, afluente da margem esquerda do Rio Tietê, este último pertencente à sub-bacia do rio Tietê e afluente do Rio Paraná pela mesma margem. Este empreendimento localiza-se aproximadamente a sete quilômetros da sede do município de Cerquilho, região central do Estado de São Paulo. O local do eixo de seu barramento apresenta-se nas coordenadas geográficas 23º 09´53´de latitude Sul e 47º 47´51´ de longitude Oeste. O acesso ao local do aproveitamento pode ser feito a partir de São Paulo, por meio da SP-280, Rodovia Castelo Branco, até o entroncamento com a SP-127, à direita, em direção a Cerquilho. A cerca de sete quilômetros do centro urbano desta cidade, por estrada vicinal de terra, atinge-se a região do empreendimento, localizada nas imediações da Usina de Açúcar e Álcool Santa Maria. Partindo-se de Campinas toma-se a SP-75, que liga esta cidade a Sorocaba até o entroncamento para a cidade de Itu, onde se toma, à direita, a SP-300, Rodovia Marechal Rondon. Segue-se por esta última até o entroncamento com a SP-127, tomando-se esta rodovia em direção a Cerquilho. A seguir, o mapa de localização do empreendimento (Figura 1). 1 Dados inteiramente extraídos do RAP do empreendimento (TETRAPLAN, 2004). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 5 Figura 1 – Localização do município de Cerquilho, no Estado de São Paulo. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cerquilho#/media/ File:SaoPaulo_Municip_Cerquilho.svg Figura 2 – Localização do empreendimento, no município de Cerquilho. Fonte: Tetraplan, 2004 https://pt.wikipedia.org/wiki/Cerquilho#/media/ ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 6 1.2 – Características do empreendimento A barragem São João não é referenciada nos documentos do setor elétrico ou no cadastro da ANEEL por ter, inicialmente, o objetivo de regularizar a vazão da PCH existente a jusante (atualmente operada pela indústria Ferroligas Piracicaba). Posteriormente foi aproveitada para captação de água visando o abastecimento de Cerquilho, operada pelo Serviço Autônomo de Águas e Esgotos do município. Para o aproveitamento hidrelétrico, será possível utilizarem-se as estruturas já existentes desse barramento, localizado no rio Sorocaba, afluente do rio Tietê pela sua margem esquerda, que por sua vez é afluente do rio Paraná pela mesma margem. O reservatório formado tem extensão de cerca de 16 quilômetros, acumulando um volume de água estimado em 9.266.663 metros cúbicos; ele se apresenta assoreado junto às estruturas do barramento, principalmente na margem esquerda. O barramento onde se pretende implantar a PCH, com cerca de 120 metros de extensão e altura máxima de oito metros; é formado por duas barragens de alvenaria em pedras argamassadas, entre as margens do rio e suas ombreiras, confinando dois vertedouros que ocupam toda a calha do rio e suas margens, eles também de alvenaria em pedras argamassadas. Entre a margem esquerda e o leito do rio tem-se um vertedouro de superfície. Entre a margem direita e o leito do rio tem-se um vertedouro composto de cinco vãos, não controlados, tendo associado aos quatro vãos, no leito do rio, descarregadores de fundo. Um quinto descarregador está localizado na barragem da margem direita.O estado de conservação é bom. A barragem da margem direita, construída em alvenaria de pedras argamassadas e concreto, tem cerca de nove metros de altura máxima e se apresenta em bom estado de conservação, apenas com desgastes superficiais e erosões localizadas – rachaduras, cantos quebrados, sinais de desgaste ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 7 superficial.. Os descarregadores de fundo e o intermediário, bem como os demais vãos da barragem da margem direita possuem suas paredes internas e ranhuras das comportas situadas junto ao seu paramento de montante com desgastes superficiais e erosões, além de trincas e rachaduras. As comportas dos descarregadores, todas de madeira com quadro em perfil metálico, estão parcialmente destruídas ou inexistem. As ranhuras das comportas dos vãos e dos descarregadores, os perfis metálicos que compunham o dispositivo de apoio daquelas peças, a superfície da soleira do vertedouro, oparamento de montante de todo o barramento , todos esses itens necessitam de reparos. .A barragem da margem esquerda, construída em alvenaria de pedras argamassadas fecha o reservatório entre o vertedouro de crista livre e a ombreira esquerda; tem cerca de oito metros de altura máxima. Uma escada de peixe, localizada a jusante da barragem da margem direita. Em sua extremidade direita é dotada de quatro degraus, nos quais formavam-se pequenos poços devido a sua geometria; dela existem atualmente apenas o degrau mais elevado e as paredes laterais. Conecta-se ao reservatório através de uma passagem, existente na barragem da margem direita. A jusante das estruturas do barramento, na margem direita do rio Sorocaba, tem- se a Estação de Captação/Elevatória do Sistema de Abastecimento d’Água da cidade de Cerquilho. Em resumo, o arranjo final definido para a implantação da PCH São João no rio Sorocaba é composto por um barramento, existente, constituído por duas barragens de alvenaria em pedras argamassadas e concreto, situadas entre as margens do rio e suas ombreiras, por vertedouros e por um circuito de adução, com suas estruturas de controle. Os procedimentos a serem adotados na recuperação deste barramento não consideram o alteamento das estruturas. As atividades a desenvolverem-se na etapa construtiva são indicadas a seguir. De início, a instalação do canteiro de obras, dos acessos, melhoria da estrada existente. A implantação da PCH e das estruturas adjacentes ocorrerão em duas etapas: ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 8 a) construção de ensecadeira na margem esquerda, de estrutura de controle; escavação do canal de adução, de desvio e de fuga; construção de dique lateral; construção de canal para desvio do Rio Sorocaba durante as obras; b) construção de ensecadeira no canal adutor, a jusante do canal de desvio; das ensecadeiras de montante e jusante, transversais ao leito do rio; desvio do curso do rio; recuperação das estruturas do barramento já existentes no leito do rio e na sua margem direita; relocação da estação de captação de água; montagem dos equipamentos eletro-mecânicos (pórtico, comportas, turbina, gerador, etc.); obras de instalação da subestação e de conexão da linha de transmissão; finalização do desvio do rio e enchimento do reservatório Para a recuperação das estruturas existentes e a construção das demais estruturas componentes da PCH São João – canais, túneis, casa de força, câmara de carga, tomada de água, etc. - serão necessários o desvio e o controle do rio Sorocaba. Associada à Pequena Central Hidrelétrica, construir-se-á uma subestação e uma linha de transmissão associada. A subestação de 13,8 kv será constituída por dois transformadores elevadores, cada um ligado a seu respectivo gerador, e um conjunto de manobra de 13,8 kv. Cada transformador elevador está ligado a um gerador respectivo e alimentara o conjunto de manobra 13,8 kv. O sistema de transmissão associado à usina será em 13,8kV, interligando-se diretamente com a rede de distribuição 13,8kV da cidade de Cerquilho, distante aproximadamente cinco quilômetros da subestação de São João. Desta forma, não está prevista a instalação de torres de transmissão. O reservatório da PCH São João deverá ter cumprimento total de 16 quilômetros e perímetro de 36 quilômetros, totalizando uma área equivalente a 2,94 quilômetros quadrados e volume de 9.720.000 metros cúbicos. A área a ser inundada corresponde à área ocupada pelas águas nos períodos de cheia do rio. A vida útil prevista para o reservatório é de 50 anos. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 9 2. CONTEXTO AMBIENTAL2 O empreendimento tem sua Área de Influência Indireta – AII – constituída pela Bacia do Médio Rio Tietê e de seu principal afluente na margem esquerda, o Rio Sorocaba. O RAP do empreendimento considera como área de influência direta - AID - da PCH São João a Bacia do Rio Sorocaba a jusante do reservatório existente, incluindo-o. A área de influência diretamente afetada – ADA – do empreendimento foi situada entre o Reservatório São João e o Reservatório da empresa Ferro Ligas; refere- se à área das obras e aquela que sofrerá o impacto direto delas. 2.1. Aspectos hidrográficos. No quadro das Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, a Bacia do Médio Tietê e do Rio Sorocaba pertence à UGRHI-10 – Sorocaba/Médio Tietê. A Bacia do Médio Rio Tietê abrange o trecho do Rio Tietê compreendido desde a saída do Reservatório de Pirapora até a Barragem de Barra Bonita; a área de drenagem é de aproximadamente 6.830 km2. Os principais afluentes da margem direita são os Rios Jundiaí, Capivari e Piracicaba; na margem esquerda, o Rio Sorocaba. De Pirapora até a Usina Hidrelétrica de porto Góes, o Rio Tietê e seus afluentes apresentam-se bastante aerados, por drenar, nesse trecho, parte do Planalto Atlântico Cristalino, que os condiciona a vencerem obstáculos de rochas mais resistentes, com grandes turbilhonamentos em quedas d’água e corredeiras. 2 Texto extraído do RAP do empreendimento (Florescer, 2002; TETRAPLAN, 2004). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 10 Daí para jusante, o Rio percorre a Depressão Periférica, onde os afloramentos de rochas mais resistentes são raros, alcançando finalmente a província geológica das Cuestas Basálticas, onde, juntamente com o Rio Piracicaba, ele forma um boqueirão, para enfrentar, aí, novo trecho de quedas d’água e corredeiras, atualmente inundado pelo reservatório de Barra Bonita. O Rio Sorocaba é o afluente mais importante da margem esquerda do Médio Tietê, drenando uma área de 5.269 km2, com o trecho superior no Planalto Atlântico e o restante na Depressão Periférica, nos afloramentos de terrenos do Grupo Tubarão. Ele é formado pelos Rios Sorocabuçu e Sorocamirim, cujas cabeceiras encontram-se nos municípios de Ibiúna, Cotia, Vargem Grande Paulista e São Roque. A Bacia do Rio Sorocaba contém as sub-bacias Alto Sorocaba, Sorocaba/Pirajibu, Baixo Sorocaba-Sarapuí/Pirapora-Tatuí. 2.2. Aspectos geológicos, geomorfológicos e pedológicos. A Geologia da área sob estudo constitui-se por rochas de idade variando entre o Pré-Cambriano e o Cenozóico. A Bacia compõe-se pelas seguintes unidades estratigráficas: Embasamento Cristalino, Grupo Tubarão, Grupo Passa Dois, Grupo São Bento, Grupo Bauru e Sedimentos Cenozóicos. O Embasamento Cristalino ocupa as porções leste e sudeste da UGRHI-10, onde ocorrem três unidades principais cristalinas Pré-Cambrianas: - Complexo metamórfico supracrustal de baixo grau metamórfico (fácies xisto verde), constituído por metassedimentos (metarritmito, metassiltito, metarenito, metargilito e mármore impuro), representados pelo Grupo Açungui e São Roque; - Complexo metamórfico supra e infracrustal de médio e alto grau metamórfico, constituído de xistos, gnaisses, anatexitos e migmatitos; - Complexos granitóides de extensão e composição diorítica e granítica cortam o complexo de baixo, como o de médio e alto grau metamórfico. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 11 O Grupo Tubarão apresenta dois ciclos: inferior glacial, representado pelo Subgrupo Itararé, e superior pós-glacial, ou Formação Tatuí. - Subgrupo Itararé – os sedimentos, do Carbonífero inferior ao Permiano, assentam-se em discordância sobre os arenitos Devonianos da Formação Furnas ou diretamente sobre o Embasamento Cristalino. Constitui-se, principalmente, de arenitos finos a grossos, lamitos e diamictitos nas partes superior e inferior, enquanto a parte média forma-se por arenitos finos, siltitos e lamitos, Os arenitos, em geral, são feldspáticos ou arcosianos. Ele representaria uma seqüência sedimentar depositada num ambiente marinho ou flúvio-lacustre durante um ciclo glacial. Litologicamenteapresenta-se como ciclos e mostra rápida mudança de fácies lateralmente. - Formação Tatuí – assentada em discordância sobre a Itararé, marca o início do ciclo Pós-Glacial no Permiano Superior. Corresponde a transgressão marinha e é representada por siltitos e arenitos muito finos de cor marrom-avermelhada ou cores mais claras. Aflora numa faixa contínua em arco, entre Taguarituba e Laranjal Paulista. O Grupo Passa Dois, em terras paulistas, é representado pelas Formações Irati e Corumbataí. - Formação Irati – subdivide-se em dois membros: o membro inferior ou Taquaral, constituído por siltitos e folhelhos com espessura da ordem de 10 metros e o membro superior ou Assistência, representado por folhelhos pretos, calcários dolomíticos e siltitos com espessura de cerca de 30 metros. A formação Irati aflora numa faixa sobre os sedimentos da Formado Tatuí, com uma extensão de até 25 quilômetros e, cerca das cidades de Cesário Lange, Quadra e Tatuí, tem espessura média de 35 quilômetros. - Formação Corumbataí - é caracterizada por arenitos muito finos, siltitos, lamitos e folhelhos com níveis de calcário oolíticos. O Grupo São Bento inicia o Mesozóico e envolve a seqüência pré-vulcânica caracterizada por um pacote de arenitos fluviais e eólicos, correspondendo às ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 12 formações Pirambóia e Botucatu, e urna seqüência vulcânica representada pelos derrames basálticos da Formação Serra Geral e diabásios intrusivos. - Formação Pirambóia – subdivide-se em dois membros; o inferior, entre Ipeúna e Bofete apresenta fácies mais argilosa, com predominância de estratificação plano-paralela e cruzada acanalada de pequeno porte. O membro superior caracteriza-se pela disposição dos bancos de arenitos, pouco a muito argilosos, com estratificação plano-paralela, lamitos, argilitos arenosos, numa clara repetição cíclica. Os arenitos apresentam granulação homogênea, na qual predomina a areia fina. Os sedimentos dessa formação assentam-se em discordância erosiva sobre os da formação Corumbatai e são capeados pelos arenitos eólicos da formação Botucatu ou os derrames basálticos da Formação Serra Geral, a oeste da região. Esses sedimentos são de ambiente continental em planícies aluviais de rios meandrantes. Aflora no Estado de São Paulo numa faixa de até 50 quilômetros entre a divisa do Estado do Paraná até o Estado de Minas Gerais, estreitando-se para cinco quilômetros na área do Morro do Bufete - Torre de Pedra. - Formação Botucatu – representada por um pacote de arenitos de granulação fina e muito fina, com estratificação cruzada, de grande a médio portes, muito friáveis ou silicificados; apresentam na parte basal corpos de arenitos conglomeráticos e conglomerado. No topo da Formação existe uma interdigitação dos sedimentos com os derrames basálticos. Com base na idade conhecida da formação Serra Geral, correspondente ao Jurássico Superior e Cretáceo Inferior, admite-se urna idade entre o Jurássico Médio e o Cretáceo Inferior para os arenitos Botucatu. Na área, os arenitos eólicos afloram numa faixa estreita e continua em forma de escarpa na Serra de Botucatu, sotoposto aos derrames basálticos. Nota-se, também, a presença de pequenos afloramentos isolados na região de Bofete e Angatuba, correspondendo a vestígios de arenitos silicificados preservados da erosão por urna camada basáltica. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 13 - Formação Serra Geral (rochas extrusivas) – caracteriza-se por espessos derrames de lava basáltica, toleítica, de textura afanítica,amigdaloidal no topo dos derrames e com desenvolvimento de juntas verticais e horizontais. Os derrames basálticos são diretamente discordantes sobre os arenitos da Formação Botucatu, exceto na parte do rio Paranapanema onde jazem em discordância sobre os arenitos da Formação Pirambóia. Na área, a formação encontra-se recoberta esporadicamente em discordância erosiva pelos arenitos da Formação Marília ou pelos sedimentos Cenozóicos. O Grupo Bauru, indicando o início da seqüência pós-vulcânica, compõe-se pelas Formações Caiuá, Santo Anastácio, Adamantina e Marília. Na área em estudo ocorrem somente os sedimentos da Formação Marília, no extremo oeste da região. A Formação Marília. é composta por arenitos grosseiros, conglomeráticos, com grãos ondulosos, seleção pobre, maciços ou imaturos, raramente com estratificação cruzada de médio porte, com seixos concentrados nos estratos cruzados. Na região, a Formação assenta-se em discordância erosiva sobre os derrames basálticos da Formação Serra Geral e encontra-se capeada pelos sedimentos Cenozóicos. Correspondendo ao membro superior do Grupo Bauru, foi-lhe atribuída urna idade Cretáceo Superior entre o Santoniano e o Maestrichtiano. As suas caraterísticas sugerem uma sedimentação em ambiente fluvial por correntes de alta energia com deposição rápida sob um clima árido. Na área, a Formação aflora numa zona restrita entre as cidades de Pratânia, Botucatu e Pardinho. Os Sedimentos Cenozóicos são geralmente constituídos por dois estágios: o inferior, aluvial, arenoso com um conglomerado na base e espessura de 20 a 40 metros, com estratificação paralela ou cruzada, estrutura de corte e preenchimento e lentes de argila; o superior, coluvial, menos espesso, mais extenso e sem estrutura. Atribui-se uma idade Paleoceno e Oligoceno a esses sedimentos. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 14 As Rochas Intrusivas são representadas na região por sills e diques de diabásio de pequena extensão, bem como por corpos de rochas intrusivas alcalinas. Dentro do Grupo Tubarão, existem alguns diques de pequeno porte originados por falhas na região de Tietê, Cerquilho, Porto Feliz e Coronel Macedo. Na região de Capela do Alto - Boituva, aflora um corpo de intrusiva magmática circular de 9 Km2, conhecido como intrusiva alcalina de Ipanema (Tetraplan, 2004). As rochas basálticas no local do empreendimento hidráulico São João apresentam-se como seqüências de solos de terra roxa e coluviões argilosos com blocos em meia-encosta (superfície); afloram como litologias de boa capacidade de suporte em corredeiras (eixos da barragem) e sugerem, pelos afloramentos vizinhos, litologias maciças com fraturas verticalizadas em subsuperfície (Florescer, 2002). . A região do empreendimento situa-se na Província Geomorfológica da Depressão Periférica Paulista, na zona do Médio Tietê. Em termos fisiográficos, o relevo tem reflexos de degradação em colinas amplas e em morrotes, estes mais afastados da calha do Rio Sorocaba no trecho inventariado. O relevo associado às colinas amplas mostra os interflúvios também amplos, topos de elevações extensos e aplainados, e vales abertos. Esta fisiografia predomina na faixa das litologias sedimentares; nela, as declividades são baixas (até 15%) e as amplitudes locais inferiores a 1200 metros. O reservatório da barragem São João localiza-se nesse tipo de relevo. O relevo de morrotes que se verifica na margem direita do Rio Sorocaba é formado por elevações alongadas paralelas, com topos arredondados, vertentes com perfis retilíneos e convexos. As declividades são de médias a altas (acima de 15%) e as amplitudes locais inferiores a 100 metros – segmento de relevo observado no Bairro São Francisco e na Usina Santa Maria. Quanto ao tipo de solo, ocorrem Latossolos desenvolvidos em rochas areníticas e basálticas, com participação argilosa (Florescer, 2002). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 15 2.3. Uso do solo A zona na qual se insere o empreendimento caracteriza-se por culturas agrícolas; em Cerquilho sobressai-se a cultura canavieira, que alimenta usinas sucroalcooleiras instalada no município. . A jusante da barragem, na margem direita do Rio Sorocaba, há fragmento de vegetação nativa; ao longo da margem esquerda,ocorre capim colonião entremeado, esparsamente, por espécimes arbóreos e arbustivos (Florescer, 2002). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 16 3. ÁREAS DE INFLUÊNCIA INDIRETA E DIRETA Da perspectiva da ocupação humana, pré-colonial e histórica, a área de inserção da região de Cerquilho relaciona-se ao Rio Sorocaba e, portanto ao Vale do Médio Rio Tietê, importante via fluvial que norteou estabelecimentos e deslocamentos humanos nos períodos pré-colonial e histórico. 3.1. Arqueologia Por volta de 6.000 a.P., o médio Tietê foi ocupado por grupos humanos com baixa densidade demográfica; cultural e socialmente relacionados, viviam de caça, pesca, coleta. Organizavam-se num sistema de tipo forrageiro, caracterizado por alta mobilidade residencial e estratégias oportunísticas de obtenção de recursos. Seu instrumental compreendia artefatos feitos de pedra lascada, osso e madeira. Esses grupos não deveriam exceder 50 indivíduos, já que populações maiores teriam mobilidade limitada e tenderiam a esgotar rapidamente os recursos locais. As alianças matrimoniais eram asseguradas pela convivência, em áreas próximas, de vários grupos forrageiros, lingüística e culturalmente aparentados. A distribuição relativamente uniforme dos recursos naturais da região favoreceu um padrão de estabelecimento disperso, o qual levou a uma ocupação topográfica diversificada do ambiente, compreendendo fundos de vales, terraços, vertentes e cavidades naturais escavadas em pontos diaclasados das frentes escarpadas das cuestas e morros residuais da região. As diferenças topográficas registradas nos assentamentos devem-se, provavelmente, a fatores sazonais, tendo sido as partes altas ocupadas em épocas de chuvas, ao abrigo das inundações. Os sítios arqueológicos do Vale do Tietê, predominantemente a céu aberto, encontram-se geralmente aflorados à superfície e, portanto, muito vulneráveis a qualquer tipo de alteração no uso do solo que lhes serve de matriz. (Caldarelli, 2001/2002) ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 17 É grande o número de sítios arqueológicos líticos na região. Nas décadas de 1960 e 1970, pesquisas de Tom O. Miller Jr. localizaram cerca de 80 sítios dessa natureza apenas nas cercanias do rio Corumbataí. (Caldarelli e Caldarelli, 1989) Mais recentemente, pesquisas realizadas na área de prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), localizaram cinco sítios arqueológicos implantados em locais de topo, alta e meia encosta de colinas, sempre nas proximidades de cursos de água, confirmam ocupação por populações caçadoras-coletoras forrageiras, com intensa atividade de lascamento de pedra. (Caldarelli, 2001/2002) O instrumental remanescente dessas populações caçadoras-coletoras , como se observa na Figura 3, consiste de artefatos de pedra lascada, tais como raspadores, furadores, raspadores diversificados de pequenas dimensões, lesmas, buris e pontas de projétil bifaciais. O sílex é uma matéria-prima preferencial. As pontas de projétil bifaciais encontradas durante as pesquisas na Rodovia dos Bandeirantes mostram confecção esmerada, diferentemente do padrão apresentado pelo conjunto dos outros artefatos; elas permitem duas inferências: uma divisão sexual do trabalho – uma vez que caça e pesca com arco e flecha são tradicionalmente ocupações masculinas; um trabalho especializado que deveria consumir várias horas do artesão, contrariamente aos demais artefatos – que poderiam ser produzidos em menos tempo. (Caldarelli e Caldarelli, 1989; Caldarelli, 2001/2002). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 18 Pontas de flecha Raspadores e plainas Raspadores e facas Raspadores, pontas e furadores Figura 3 - Tipos de artefatos de pedra lascada, produzidos por populações caçadoras-coletoras que ocuparam a Bacia do Rio Tietê. (Caldarelli, 1985). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 19 Artefatos de pedra polida, principalmente machados, feitos de diabásio, ocorrem nos sítios mais recentes, em número reduzido, provavelmente por efeito do contato com as populações horticultoras, que penetraram na área já na Era Cristã, por volta de 1.500 a.P., ocupando, preferencialmente, a bacia do rio Mogi- Guaçu.(Caldarelli e Caldarelli, 1989) Ainda no médio Vale do Tietê, nos municípios de Analândia, Corumbataí e Ipeúna, Guy Collet localizou cinco abrigos sob rocha com sinalações rupestres gravadas nas paredes e, no solo, artefatos líticos lascados, de sílex e arenito silicificado, em bom estado de conservação. (Caldarelli, 2001/2002) Os grupos horticultores apresentavam uma demografia mais densa e seus assentamentos eram maiores e mais estáveis. Embora também utilizassem instrumentos de pedra – com destaque para as lâminas de machado, total ou parcialmente polidas, e para os tembetás, ou adornos labiais - osso e madeira, o atributo mais significativo de sua cultura material era a cerâmica, empregada no armazenamento, preparo e distribuição de alimentos. Suas habitações localizavam-se preferencialmente em vertentes de colinas suaves, associados a cursos de água secundários. A cerâmica, traço diagnóstico da cultura material dessas populações inseridas na Tradição Tupiguarani, apresenta inúmeros tipos, do simples às variedades corrugada, ungulada, escovada, engobada e pintada (traços retilíneos e curvilíneos pretos e/ou vermelhos sobre fundo branco), com predominância da última. Morfologicamente, encontram-se tigelas em forma de calota de esfera, vasos esferóides com borda extrovertida e vasilhas esferóides ou periformes, carenadas, de porte médio, bem como urnas funerárias e cachimbos (Caldarelli e Caldarelli, 1992/1993; Caldarelli, 2001/2002). Sítios Tupiguarani correspondentes a antigas aldeias situam-se, em geral, na alta ou média encosta de elevações situadas próximo um rio navegável, enquanto as aldeias, propriamente ditas situam-se nas imediações de um curso de água secundário. Os sítios costumam apresentar uma camada arqueológica com espessura entre 15 e 40 cm, com vestígios em geral aflorando à superfície devido à erosão por fatores antrópicos. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 20 A disposição e o número das habitações nas aldeias são irregulares, mas sempre existiu um pátio central a elas. A morfologia das cabanas e sua localização, sua quantidade,são questões perceptíveis na pesquisa arqueológica: as manchas escurecidas que ficam no terreno, resultantes de decomposição orgânica, ou concentrações de fragmentos cerâmicos, fornecem indicações sobre elas. Outra característica dos assentamentos Tupiguarani são as estruturas funerárias, em geral correspondentes a enterramentos primários ou secundários em urnas cerâmicas, situadas nas proximidades das habitações ou dentro delas. Mais raramente encontraram-se sepultamentos em covas na terra, com o corpo em geral acocorado, a cabeça protegida por vasilhas cerâmicas. Vestígios materiais da presença de grupos horticultores de tradição cultural Tupiguarani também ocorreram na área urbana de Rio Claro, registrados pelo Dr. Fernando Altenfelder Silva e na margem esquerda do rio Piracicaba. (Caldarelli e Caldarelli, 1989). Pesquisas realizadas pela USP no médio e baixo rio Tietê, em atendimento aos projetos hidrelétricos da CESP, localizaram mais de 20 sítios da tradição Tupiguarani na região; aliados a achados fortuitos e a pesquisas realizadas em outros municípios da região, essas descobertas atestam a grande dispersão dessa tradição no Estado de São Paulo. (Caldarelli, 2001/2002) Os contatos entre as populações horticultoras e as populações caçadoras- coletoras já existentes na região devem ter sido belicosos, pois na bacia do médio Tietê são poucos os vestígioscerâmicos, o que sugere uma divisão espacial marcada entre horticultores e caçadores-coletores. (Caldarelli e Caldarelli, 1989) Em resumo, o registro arqueológico para a região do Vale do Rio Tietê revela duas ocupações distintas. Uma, de caçadores-coletores, produtores de artefatos líticos lascados, cujos vestígios encontram-se tanto a céu aberto quanto em abrigos sob rocha, teria se iniciado por volta de 6.000 anos atrás. Outra, de populações horticultoras, produtoras de cerâmica, com vestígios encontrados a céu aberto, e que teria se iniciado entre 1.000 e 800 anos antes do presente (Scientia, 2001). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 21 Existem registros de dezenas de sítios arqueológicos pré-históricos na região de inserção do empreendimento, nos municípios de Guareí, Alambari, Araçoiaba da Serra, Capela do Alto, Cesário Lange, Itapetininga, Mairinque, Sorocaba (Caldarelli & Neves, 1982; Caldarelli, 1983; Neves, 1984; Caldarelli, 1985a; 1985b; Coltrinari & Afonso, 1987; Maximino, 1986; Bernardo, 1997; Caldarelli, 2002; Caldarelli & Bernardo, 2002; CNSA/IPHAN). Dois tipos de sítios arqueológicos históricos também foram encontrados: aqueles onde se registraram vasilhas cerâmicas produzidas pelos colonizadores da região, em alguns casos com objetos de louça associados, e aqueles onde se registraram pederneiras de sílex e fragmentos de cerâmica histórica, produzidos desde o final do período colonial até as primeiras décadas da República. O único sítio multicomponencial registrado, no município de Cesário Lange, refere-se a um sítio pré-cerâmico (com artefatos líticos lascados), ao qual se superpôs um sítio histórico (Scientia, 2001). Pesquisas realizadas entre 2002 e 2004, pela Scientia Consultoria Científica, ampliaram os conhecimentos acerca da arqueologia da região. Localizaram-se mais quatro sítios arqueológicos na região em foco; dois deles, no município de Capela do Alto, apresentaram fragmentos de cerâmica e de faiança fina, vestígios de lítico lascado, louça, vidro e metal (Scientia, 2002). Levantamentos extensivos, bem como coleta de informações junto às comunidades e às instituições museológicas, realizados em 2004 na região sob estudo, revelaram dados arqueológicos importantes para a atual área ocupada pelos municípios de Porto Feliz, Boituva, Tietê, Cerquilho e Laranjal Paulista, alguns deles apresentados a seguir (Scientia, 2004). O “Museu das Monções”, no município de Porto Feliz, possui uma pequena coleção de materiais arqueológicos composta por machados polidos, mãos de ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 22 pilão e vasilhames cerâmicos localizados por pessoas da comunidade, alguns destes próximo ao rio Tietê. Há informações, ainda não confirmadas, sobre o achado de urnas funerárias, bem como de um sítio arqueológico, este durante a construção da Rodovia Marechal Rondon. Em Boituva, a “Casa da Cultura” possui materiais arqueológicos como machados polidos e mãos de pilão, coletados no município.Existem informes acerca da existência de uma gruta – atualmente inundada por construção de barragem - no bairro Val Paraíso, próximo à rodovia Castelo Branco, na qual teriam sido encontrados materiais arqueológicos e possíveis pinturas rupestres O Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico “Cornélio Pires”, do município de Tietê, é responsável pela guarda e curadoria de uma pequena coleção de materiais arqueológicos doados pela comunidade. A coleção é composta por machados polidos, mãos de pilão e duas pontas de projétil.. Estes materiais não possuem informações exatas de localização, mas acredita-se que sejam provenientes do município. As Fotos 2, 3 e 4 apresentam exemplares dos artefatos citados. Foto 2 – Pontas de projétil bifaciais do acervo do Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico “Cornélio Pires” ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 23 Foto 3 – Mão de pilão encontrada em 1975 no município de Tietê. Foto 4 - Lâmina de machado com depressão circular, provavelmente utilizada como quebra-coquinho No município de Cerquilho, que não possui instituição cultural responsável pela guarda de material arqueológico, existe uma grande coleção particular de artefatos arqueológicos encontrados próximos ao Rio Tietê, nos municípios de Cerquilho e Tietê. Essa coleção compõe-se por lâminas de machado polido e mãos de pilão de diversos tamanhos, assim como uma grande quantidade de pontas de projétil bifaciais, confeccionadas de sílex, de tamanho e morfologia variados: pedunculadas e foliáceas, bordos retilíneos, convexos e serrilhados, como mostram as Fotos 5, 6, 7, 8 e 9 (Scientia, 2004). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 24 Foto 5 – Pontas de projétil bifaciais, morfologia pendunculada Foto 6– Pontas de projétil bifaciais, bordo serrilhado. Foto 7 – Coleção de pontas de projétil bifaciais. Foto 8 – Mãos de pilão. Foto 9 – Lâminas de machado Artefatos encontrados nos municípios de Cerquilho e Tietê. Fonte: Scientia, 2004 ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 25 3.2. Etno-história Quanto à presença indígena no médio e no baixo Vale do Tietê, para os séculos XVI e XVII as fontes assinalam imprecisamente a existência de grupos de Carijós e de Paiaguás, denominações dadas pelos bandeirantes paulistas a falantes do Guarani. Por outro lado, é certa a presença, ali, de grupos mais móveis e menos amistosos que aqueles, cuja origem é difícil de conhecer, pois aparecem mencionados como “tapuias”, o que apenas significa que sua língua não pertencia ao tronco Tupiguarani. A expansão cafeeira, a partir do século XIX, com a conseqüente instalação da rede ferroviária regional, encontrou ali grupos Kaingang, de língua Jê, logo dizimados e reduzidos à impotência (Caldarelli & Caldarelli, 1992/1993). Esses indígenas, provavelmente, chegaram à região em tempos históricos, em migrações devidas à penetração branca no território paulista – portanto, em situações de conflito com os brancos invasores e com outros grupos indígenas lá refugiados. Essas questões, evidentemente, ocasionaram drásticas alterações na demografia e na cultura desses grupos. À arqueologia interessam, especialmente, as alterações que se refletem na cultura material – fenômeno que ocorreu na região sob estudo, em virtude da situação de contato. A situação de instabilidade em que se encontravam os indígenas fica evidenciada em estruturas habitacionais precárias, objetos em número muito reduzido e feitos com rapidez, em sua maior parte com material perecível – a facilidade de produção estaria ligada à extrema mobilidade característica da situação de conflito. Esses fatos explicam porque é difícil a recuperação arqueológica dos assentamentos indígenas mais recentes (Caldarelli e Caldarelli, 1992/1993). O contexto etnohistórico registrado para a região da bacia do Rio Sorocaba, contemporâneo ao início do domínio português, indica para o século XVI tanto a ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 26 presença de grupos indígenas ligados à tradição cultural Tupiguarani, quanto a chegada de colonizadores. No final do século XVI, os portugueses Afonso Sardinha, pai e filho, chegaram à Serra de Araçoiaba em busca de ouro: encontraram ferro e iniciou-se uma rudimentar fundição. Essa fábrica incipiente daria lugar, no final do século XVIII, à Fábrica Real de Ferro de Ipanema, que teve importante papel estratégico no período subseqüente. A ocupação colonial da região do médio Rio Tietê e da bacia do Rio Sorocaba, em particular, apresentou múltiplas facetas. De início, caminho de entradas e de bandeiras, que seguiam os caminhos indígenas rumo às fronteiras com os domínios espanhóis em busca de ouro e de índios para escravizar. O encontro de jazidas auríferas em Goiás e Mato Grosso, entre final do Seiscentos e iníciodo Setecentos, intensificou o movimento populacional e a navegação pelo Rio Tietê. Pontos de pouso; trilhas para incursões à mata em busca de madeira para construir canoas, ou para obter caça e outros produtos de subsistência, passaram a ser comuns. Desses arraiais temporários muitas vezes originaram-se povoados e vilas. Organizaram-se as expedições comerciais fluviais – as Monções – que partiam do porto de N.S. Mãe dos Homens de Araritaguaba, hoje Porto Feliz, entre março e setembro, com destino a Cuiabá; a volta dava-se entre outubro e novembro (Holanda, 1976). O modo de navegar era o indígena: canoas, cada uma com mais de 15 metros de comprimento por cerca de 1,30 metro de largura, esculpida num só tronco, casco de fundo achatado, sem quilha nem leme (Holanda, 1976). ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 27 Definida a mineração como principal atividade econômica da Colônia, a região paulista de Sorocaba passou a atuar como elo de ligação entre o Sul e as regiões mineradoras. Muitos dentre os bandeirantes paulistas, que desde os anos Seiscentos freqüentavam os campos e pampas do Sul aprisionando índios para escravizá- los, transformaram-se em preadores dos rebanhos de reses e de mulas selvagens que lá viviam – principalmente quando descobriram o valor desses animais para o abastecimento de Minas Gerais. Até cerca de 1730, os paulistas iam para o Sul pelo litoral. A partir de então, passou-se ao uso de outro caminho, pela faixa de campos que se estende de Curitiba para o Sul (Petrone, 1960). Paulistas passaram a efetuar o comércio de reses e de burros: buscavam os animais, selvagens, nos campos do Sul ou nos criatórios de Curitiba e conduziam os rebanhos às regiões mineradoras, principalmente. É importante lembrar que as tropas de muares efetuaram todo o transporte entre as regiões mineradoras das Gerais e de Goiás com os centros abastecedores e com os portos exportadores; igualmente, não se pode esquecer que, até o advento das ferrovias, toda a produção agrícola paulista para exportação – açúcar, aguardente, café e os produtos secundários – chegou aos portos exportadores por meio das tropas. Eram estas que transportavam, nas viagens de retorno, os gêneros, os instrumentos, as ferramentas, o vestuário, as encomendas chegadas da Europa, enfim, tudo aquilo que os habitantes do interior utilizavam em seu quotidiano. Na bacia do Rio Sorocaba, o estabelecimento de imensas fazendas e de povoações iniciara-se já em meados do século XVII. O povoado de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, por exemplo, foi elevado à condição de vila em 1661. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 28 Depois, já na passagem dos séculos XVII para o XVIII, os campos sorocabanos constituíam local da última invernada para as tropilhas de cavalos provenientes de Curitiba; em 1750, o registro dessas tropas foi transferido de Itu para Sorocaba. As invernadas passaram a receber também as tropas de muares chucros que os paulistas buscavam no Sul e levavam para a região Sudeste. Na vila de Sorocaba estabeleceu-se um dos principais centros comerciais paulistas, com as famosas feiras de muares, que perduraram até 1897. Esses animais comporiam as conhecidas tropas de comércio. Cada feira durava dois meses e, além do comércio de animais, para o qual compareciam ricos comerciantes, gerava intenso e rico artesanato – seleiros, guasqueiros, ourives, sapateiros, chapeleiros, ferreiros, doceiras, rendeiras, costureiras (Brum, 1999). Entre fins do século XVIII e inícios do XIX, a região sob estudo integrou a área paulista grande produtora de açúcar e aguardente para exportação. A fertilidade das terras marginais aos Rios Sorocaba e Tietê atraiu fazendeiros e posseiros. Grandes e pequenas fazendas, canaviais, engenhos e alambiques, movidos a trabalho escravo, modificaram a paisagem regional. O escoamento dos produtos fazia-se por tropas de muares que, do interior paulista, demandavam a cidade de São Paulo e daí, pelo Caminho do Mar, o porto de Santos. O atual município de Tietê – de cujo território desmembrar-se-ia Cerquilho, posteriormente - originou- se da vila da Santíssima Trindade de Pirapora, povoação que remonta a 1811. Na década de 1870, as ferrovias rapidamente foram substituindo as tropas de muares. A imensa produção cafeeira para exportação e os riscos que os grãos de café corriam quando submetidos aos rigores de demoradas viagens, exigiram um meio de transporte mais potente e rápido. A Estrada de Ferro Sorocabana, em 1872, atingiu o sul da província paulista e o vale do Rio Paraná. Esta ferrovia guardou certa independência em relação à malha ferroviária implantada em outros pontos da Província paulista, e que ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 29 buscavam acesso à Capital e ao porto de Santos para o escoamento do café: zona tradicional de pastagens, invernadas e cultura canavieira e culturas de subsistência, a cafeicultura não constituiu atividade principal. A Sorocabana faz surgirem novas vilas em seu percurso. O município de Cerquilho insere sua história nesse contexto. O povoado começou a formar-se por volta de 1870, com a fixação de moradores ao redor de um cercado ou cerquilho – usado para abrigar animais comercializados na feira de muares de Sorocaba - no bairro conhecido por “Cerquilho Velho”, em meio às fazendas da então vila de Tietê. Em 1883 os trilhos da Sorocabana, vindos de Boituva e buscando Tietê, chegaram a Cerquilho. Um ramal seguiu para Tietê e o tronco férreo tomou o rumo de Botucatu. À beira da ferrovia construíram-se as primeiras habitações do atual centro urbano cerquilhense, núcleo oficialmente fundado em 1888. Pouco tempo depois começaram a chegar os imigrantes italianos, portugueses, espanhóis, sírio-libaneses. Vila em 1914 e município em 1948, Cerquilho, além da agricultura e pecuária, desenvolveu uma indústria incipiente. .As fotos a seguir mostram a estação ferroviária inaugurada em 1883; fazia parte da linha-tronco da Estrada de Ferro Sorocabana. Na década de 1940, um vagão carregado com explosivos explodiu na frente da estação, destruindo-a e a várias casas próximas; o prédio foi reconstruído. Em 1999, a Ferroban desativou a linha férrea para passageiros, mantendo apenas o transporte de cargas. O antigo armazém da estação, em 2001, passou a centro de atividades para idosos da cidade (Giesbrecht, 2004) . ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 30 Foto 10 - Em 1998, passageiros desembarcados do trem da Fepasa, na plataforma;a estação já se encontrava fechada. (Foto Ralph M. Giesbrecht) Foto 11 - A estação, ao fundo, em 1998. (Foto Ralph M. Giesbrecht)t Foto 12 - Armazém da estação, em 1998.( Foto Ralph M. Giesbrecht)t Foto 13 - A estação em 2001.(Foto Adriano Martins) Foto 14 - A estação em 2003. (Foto Rodrigo F. Forte) Foto 15 - A estação em 2003. (Foto Rodrigo F. Forte) http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho1.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho1.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho2.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho2.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho-arm.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho-arm.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho_am.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho_am.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho031.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho031.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho032.jpg http://sp4br70.digiweb.psi.br/c/fotos/cerquilho032.jpg ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 31 4. ÁREA DIRETAMENTE AFETADA 4.1. Procedimentos de avaliação A avaliação da área diretamente afetada foi realizada através vistoria de campo, com o objetivo de verificar o potencial arqueológico do local, visto que há fontes escritas referindo-se a sítios arqueológicosno município e redondezas. Em campo, realizou-se caminhamento em toda a área do empreendimento e adjacências (carreiros de canavial) e aferiram-se as coordenadas UTM de vários pontos. A área do empreendimento está localizada ao lado esquerdo do rio Sorocaba, em topo de colina, possuindo um leve declive em direção ao rio. Em toda a área há afloramentos de basalto e arenito e em uma área próxima foram encontrados veios de sílex e calcedônia (UTM 23K 0210131/7434157). Nos locais nos quais o basalto e o arenito não afloram, o solo é vermelho e argiloso (terra roxa). Foto 16 - Afloramento de basalto e arenito na área do empreendimento UTM 23K 0213493 / 7435532 Foto 17 - Veio de sílex e calcedônia em uma área próxima à barragem. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 32 Foto 18 - Vista geral da área A vegetação atual na margem esquerda é rala e espaçada, sendo relativamente fácil identificar vestígios arqueológicos aflorados em superfície. Mas, na margem direita há uma pequena área de preservação com mata densa; onde não foi possível realizar a vistoria arqueológica. Foto 19 – aspecto da vegetação presente nas margens ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 33 4.2. Resultados Na vistoria arqueológica realizada na área do empreendimento foram localizados vestígios arqueológicos aflorados em superfície. Em entrevista realizada com o caseiro da barragem, Sr. Luiz Raimundo da Silva, 54 anos, informou que há 12 anos trabalha na área e nunca observou vestígios arqueológicos na propriedade. Durante o caminhamento, observou-se que houve remoção de solo em uma pequena porção de aproximadamente 20 m2 dentro da área do empreendimento. Encontraram-se três ocorrências de vestígios arqueológicos líticos na área: Ponto 1: nas coordenadas UTM 23K 0213648/ 7435658, foi encontrada uma lasca inteira de sílex in situ no carreador de um canavial, próximo à cerca, ao lado da área das futuras obras. Foto 20 – lasca de sílex ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 34 Ponto 2: nas coordenadas UTM 23K0213696/7435902, visto a boa visibilidade do solo, foram encontradas um lasca inteira e um fragmento de lasca in situ, ambos em calcedônia. Foto 21 – lasca e fragmento de lasca de calcedônia Ponto 3: nas coordenadas UTM 23K 0213662/7436074, foi encontrado um núcleo de arenito, também em in situ . ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 35 Foto 22 – núcleo de arenito silicificado Foto 23 – pontos onde foram localizadas as peças líticas lascadas ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 36 A parte edificada da barragem, como sua própria estrutura de barramento e a casa de maquinas, foi construída por volta de 1920/30 e pode ser considerada patrimônio do município. O maquinário da casa de máquinas é de 1988, bem mais recente que a data de construção da barragem. Foto 24 - Vista da Barragem Foto 25 -Barragem e casa de máquinas ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 37 5. AVALIAÇÃO DE IMPACTOS E MEDIDAS RECOMENDADAS O levantamento de dados secundários, realizado para a AII e AID, comprova que o município de Cerquilho apresenta grande potencial arqueológico. Na ADA, especificamente, esse potencial foi comprovado pela identificação de ocorrências de artefatos lascados de sílex. Além disso, o local escolhido para o empreendimento, até hoje, possui uma boa área de captação de recursos primários: pesca, fonte de matéria prima de boa qualidade e solo de boa qualidade para plantio, o que reforça seu potencial para o assentamento das populações indígenas que habitaram a área no período pré- colonial, tanto caçadoras-coletoras quanto agricultoras. Considera-se, portanto, alta a probabilidade de ocorrência de sítio arqueológico na área do empreendimento, que pode vir a ser destruído, total ou parcialmente, pelas obras de implantação da PCH, ou submerso durante o enchimento do reservatório. Pelos motivos acima, para evitar danos a bens arqueológicos eventualmente contidos na área de intervenção do empreendimento, esta deverá ser objeto de um Programa de Prospecções Arqueológicas Intensivas, conforme recomendado pela Portaria IPHAN 230/2002 e pela Resolução SMA 34/2003. Atenção também deverá ser dada às estruturas constituintes da barragem que, construídas entre 1920 e 1930, fazem parte integrante da história do município, integrando, portanto, seu patrimônio histórico. ARCADIS Tetraplan S.A. SCIENTIA 38 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARCADIS TETRAPLAN – Relatório Ambiental Preliminar PCH São João. São Paulo, Arcadis Tetraplan S.A., 2004. BERNARDO, W. E. Informe preliminar das pesquisas do acervo cerâmico arqueológico do Museu Histórico Sorocabano - 1995/96. La Paz, Projeto Gêneses Sorocabana (mimeo), 1997. BRUM, N.B. de – Caminhos do Sul. Porto Alegre, Metrópole, 1999. CALDARELLI, S.B. – Lições da Pedra: aspectos da ocupação pré-histórica no vale médio do Rio Tietê, Estadfo de São Paulo. São Paulo, Tese de Doutoramento, FFLCH-USP, 1983. CALDARELLI, S.B. – Os Caçadores do Tietê. Ciência Hoje, 4 (19), 1985: 40-43. CALDARELLI, S. B. (Org.) - Pesquisas arqueológicas na Bacia do Rio Guareí, SP. Relatório apresentado à FAPESP, São Paulo, 1985b. 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