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Resenha - Exclusão Discursiva e Sujeição Civil em Tempos de Pandemia no Brasil - Luis Roberto Cardoso de Oliveira

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA 
ANTROPOLOGIA URBANA – 20201 [ACE] 
 
EVELYN LOPES PEREIRA DA SILVA 
 
 
RESENHA: OLIVEIRA, Luís Roberto Cardoso de. Exclusão Discursiva e Sujeição Civil em Tempos 
de Pandemia no Brasil. Disponível em <http://www.ineac.uff.br/index.php/noticias/item/543-
exclusao-discursiva-e-sujeicao-civil-em-tempos-de-pandemia-no-brasil> 
 
 
Luís Roberto Cardoso de Oliveira possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade 
de Brasília (UnB) e fez dois mestrados, o primeiro em Antropologia Social pela Universidade Federal 
do Rio de Janeiro e o segundo em Master of Arts na Universidade de Harvard, onde também obteve 
o título de doutor em Antropologia. Atualmente é professor titular da Universidade de Brasília e 
bolsista de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e 
Tecnológico (CNPq). 
O texto de Luis Roberto Cardoso de Oliveira publicado no jornal O Globo remete a discussão 
sobre o momento de pandemia e os seus impactos na sociedade brasileira. Para isso o autor resgata 
as discussões de desigualdade feita por Roberto DaMatta (1997) e Roberto Kant de Lima (2010), 
além da sujeição criminal de Michel Misse (1999). A abordagem dessas informações permitira a 
reflexão de novos termos, como a sujeição civil e a exclusão discursiva. 
O Estado brasileiro é reconhecido pela sua desigualdade, as quais são reforçadas por meio da 
diferenciação de cor, classe e gênero. As classes menos favorecidas possuem dificuldade de fazer 
com que o estado ouça/atenda as suas demandas, reforçando os estereótipos da exclusão de direitos. 
Diante disso, Luis Roberto Cardoso de Oliveira conceitua como “exclusão discursiva” a dificuldade 
de classes menos favorecidas, composta principalmente por homens, negros, jovens e pobres, obterem 
acesso a direitos através da escuta de suas demandas. 
Como raramente o estado ouve as demandas das classes baixas, devido a distribuição desigual 
de direitos e tratamento, aqueles que não são ouvidos acabam por internalizar que não são dignos de 
serem ouvidos. De modo que a hipossuficiência ao mesmo tempo faz com que o indivíduo precise 
constantemente do apoio do estado para ter acesso a direitos, situação que se agrava quando ele não 
é consegue definir o que pode ser melhor para ele. Assim, o autor definiu essa condição de 
 
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internalização de incapacidade como sujeição civil, remetendo ao termo sujeição criminal trabalhado 
por Michel Misse (1999). 
Ambos os termos de sujeição civil e exclusão discursiva estão intrinsecamente ligados a 
desigualdade perpetuada pelo estado brasileiro, demonstrada cotidianamente nas relações cotidianas 
e do direito, como informa Oliveira. Recentemente, dois casos tornaram-se conhecidos através da 
mídia, o primeiro é sobre o desembargador que se recusa a usar máscara em local público1 e o segundo 
sobre um casal que estava em um bar que não seguia as regras de higiene e distanciamento no 
momento em que fiscais da vigilância chegaram2, logo o casal acionou um discurso de superioridade 
para exigir um tratamento diferenciado, assim como o desembargador utilizou-se do seu cargo para 
tentar acessar o privilégio de não seguir as regras de saúde impostas. 
DaMatta (1997) e Lima fizeram considerações importantes a respeito da desigualdade no 
Brasil, de modo que explica os dois casos citados anteriormente. DaMatta (1997) diz que o brasileiro 
aciona o discurso “Você sabe com quem está falando?” para assumir um lugar de destaque, o 
colocando como um indivíduo especial deve ser tratado como direitos diferenciados do restante da 
população. Ao mesmo tempo, Kant (2010) colabora com essa questão com a exemplificação de que 
a sociedade brasileira pode ser demonstrada pela figura de uma pirâmide, caracterizando uma 
sociedade hierárquica que há seletividade daqueles que podem alcançar o topo da pirâmide. 
A desigualdade do cotidiano se estende ao âmbito jurídico, visto que uma sociedade desigual 
claramente resulta em sistema de justiça desigual. Segundo Lima, Geraldo e Mota (2020) existem 
dois tipos de igualdade jurídica, aquela expressa formalmente na Constituição garantindo que todos 
os cidadãos são iguais perante a lei e a ideia de que os direitos são distribuídos desigualmente 
seguindo o parâmetro de status social. 
A crise sanitária causada pelo COVID-19 resultou na acentuação das desigualdades e a 
demonstração de que indivíduos de baixa renda não são considerados pelo estado. O discurso do 
estado de obedecer ao isolamento social não pode ser obedecido pelos moradores de comunidades, 
os quais habitam casas com poucos cômodos que abrigam uma grande quantidade de pessoas, além 
do fato das casas serem muito próximas. Ademais, o trabalho exercido pela classe baixa não permite 
 
1 Sem máscara, desembargador leva multa em Santos e chama guarda de analfabeto. Disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=Z-xHUmD9PoY 
2 Fiscais sofrem ataques ao reprimir aglomerações em bares do Rio; veja flagrantes. Disponível em: 
https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/07/05/fiscais-sofrem-ataques-ao-reprimir-aglomeracoes-em-bares-do-rio-
veja-flagrantes.ghtml 
 
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a realização do home office, fazendo com que tenham que pegar transporte público lotado para se 
deslocar até o trabalho, aumentando as chances de contaminação. O resultado foi a divisão do cidadão 
que pode fazer isolamento social do que não pode, o que não deveria ocorrer devido a determinação 
de igualdade de direitos entre todos os cidadãos. 
No Brasil, o contexto histórico de escravidão, sua abolição tardia somada a outros fatores faz 
com que o país seja historicamente desigual. Com a promulgação da Constituição os direitos são 
colocados como disponíveis a todos, pois os indivíduos são iguais na lei. Entretanto, o discurso formal 
não foi estendido ao cotidiano das relações sociais e do sistema de justiça, perpetuando condições de 
desigualdade de acesso a direitos. No contexto atual de pandemia a desigualdade foi posta à tona, seja 
pelos milhões de brasileiros que necessitam de auxílio emergencial para sobreviver ou pelas situações 
cotidianas que exibem a falta de recursos e a impossibilidade de se cumprir o isolamento social. 
 
Referências 
DAMATTA, Roberto. 1997. “Você sabe com quem está falando?: um ensaio sobre a distinção entre 
indivíduo e pessoa no Brasil”. In: . Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema 
brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco. pp. 181-248. 
 
INCT-INEAC. Liberalismo à brasileira: entre a pirâmide e o paralelepípedo - Roberto Kant de Lima. 
Disponível em: <http://www.ineac.uff.br/index.php/midias/videos/video/liberalismo-a-brasileira-
entre-a-piramide-e-o-paralelepipedo-roberto-kant-de-lima> Acesso em 6 ago 2020. 
MISSE, Michel. 1999. Malandros, marginais e vagabundos: a acumulação social da violência no 
Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: Iuperj. 
 
KANT DE LIMA, Roberto; BARROS GERALDO, Pedro Heitor; REIS MOTA, Fabio. Liberdades 
e igualdades em tempos de coronavírus. Disponível em 
http://www.ineac.uff.br/index.php/noticias/item/531-liberdades-e-igualdades-em-tempos-de-
coronavirus. Acesso em 6 ago 2020 
KANT DE LIMA, Roberto. Sensibilidades jurídicas, saber e poder: bases culturais de alguns 
aspectos do direito brasileiro em uma perspectiva comparada. Anuário Antropológico/2009, 2, p. 
25-51, 2010.

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