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Resenha - A casa e a Rua - Roberto Damatta

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA 
ANTROPOLOGIA URBANA – 20201 [ACE] 
 
EVELYN LOPES PEREIRA DA SILVA 
 
 
RESENHA: DAMATTA, ROBERTO. A casa e a rua. In: Carnavais, Malandros e Heróis: para 
uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, pp 89-95, 1997. 
 
 
Roberto Augusto DaMatta possui graduação e licenciatura em História pela Universidade 
Federal Fluminense (UFF), aperfeiçoamento em Antropologia Social na Universidade de Harvard e 
especialização em Antropologia Social no Museu Nacional. No final da década de 60 ao início da 
década de 70 fez mestrado e doutorado em Antropologia Social na Universidade de Harvard. 
Atualmente é bolsista de produtividade e pesquisa no Conselho Nacional de Desenvolvimento 
Científicio e Tecnológico (CNPq) e professor titular na Pontifícia Universidade Católica do Rio de 
Janeiro (PUC-Rio) 
O texto de DaMatta remete a diversas reflexões a cerca da espacialidade e relações específicas 
da casa e da rua, como é denominado o título do texto. Para iniciar o que será debatido, DaMatta 
resgata a frase contida no livro O País do Carnaval de Jorge Amado (1931), onde o personagem 
principal diz “Só me senti brasileiro duas vezes. Uma, no carnaval, quando sambei na rua. Outra, 
quando surrei Julie depois que ela me traiu”. A partir dessa referência o autor trata sobre os 
comportamentos e atitudes que são esperadas no espaço público e na rua. 
Segundo o autor, a frase do personagem de Jorge Amado (1931) nos exemplifica que a rua 
(espaço público) é o local onde há liberdade, onde os indivíduos são desconhecidos e estão sujeitos a 
um certo descontrole. A casa (ambiente privado), ambiente que foi palco da surra que o personagem 
aplicou em sua amante, é caracterizado por um local de controle, onde há uma ordem instituída por 
seus moradores que são regidas por hierarquias. A casa é o ambiente em que comumente se recebe 
afeto, enquanto a rua é o universo do engano, da decepção e da malandragem, como destaca DaMatta 
(1997). 
De certo modo o comportamento do personagem em surrar a amante em casa é tratado como 
divergente do pensamento tradicional. O lugar da amante não é em casa, mas sim na rua, espaço 
 
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público caracterizado pela liberdade. Entretanto, bater, surrar, deve ser feito no espaço privado do lar, 
segundo a concepção machista da sociedade em que o homem é hierarquicamente superior nas 
relações ambientadas em sua residência. Ao mesmo tempo, o comportamento do personagem em 
sambar na rua rompe com a demarcação de classe, ao passo que é esperado que um homem de classe 
alta comemore o carnaval em clubes ou residências. 
O ponto em comum do espaço da casa e da rua é a questão das hierarquias, quando estamos 
no ambiente privado somos submetidos as hierarquias específicas daquela casa. Na rua também há 
hierarquias, mas são invisíveis, ao passo que quando estamos em locais desconhecidos precisamos 
ficar atentos as dinâmicas hierárquicas específicas para que não estejamos sujeitos a situações 
inesperadas. 
Em alguns momentos do ano as hierarquias da casa (primeiro os homens, depois as mulheres 
e por último as crianças) são alteradas, a exemplo do Dia das Crianças e Natal, nos quais as crianças 
sobem ao palco e detêm a atenção de todos. Porém são datas comemorativas que demarcam um curto 
período temporal, de maneira que não é suficiente para alterar as dinâmicas hierárquicas da casa. 
Apesar do livro ter sido publicado na década de 90, os fatos mostram ser uma pesquisa 
atemporal que pode ser utilizada para a análise da sociedade. As concepções do que deve ser feito na 
rua e na casa pouco se alteraram, um exemplo disso é que mesmo após incessantes campanhas de 
conscientização sobre a prática de denúncia de violência doméstica, vizinhos ainda hesitam em 
denunciar tal ato. Demonstrando que a privacidade do lar e as hierarquias ali existentes ainda são 
respeitadas, reforçando o fato de que em “briga de marido e mulher não se mete a colher”1. 
A demarcação de gênero, raça e classe também pode ser vista pela estrutura da rua. A 
segregação social fica evidente na divisão entre bairros de classe média alta e comunidades, o que 
pode ser visto visualmente pela organização do espaço, mas também de modo invisível, onde os 
direitos são aplicados de forma diferenciada. O acesso a direitos é dividido pela organização espacial 
da cidade, em que há diferenciação de tratamento entre bairros de classe média alta e comunidades 
pobres. 
O texto a casa e a rua permite a análise cultural da sociedade brasileira, visto que as relações 
cotidianas e os comportamentos dos indivíduos nos dois locais demonstram a organização social em 
 
1 Ditado popular comumente dito quando há relatos de briga de casal. 
 
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que uma cultura é baseada. Assim, as reflexões de DaMatta nos levam a repensar as diferenças 
implícitas nos dois espaços, pensamentos que devido a rotina do cotidiano muitas vezes são ignorados 
ou esquecidos. 
Referências 
AMADO, Jorge. O país do carnaval. São Paulo: Companhia Das Letras, 2011.

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