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Didática do Contar Histórias - Temas 1 a 8 (num só arquivo pesquisável)

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corre-se o risco de atrofiá-lo, havendo 
apenas a preocupação na aquisição de tecnologias cada vez mais potentes. 
Atrofiando o corpo, o homem atrofia as suas relações sociais, e este atrofiamento das 
relações sociais não pode acontecer sem causar fortes impactos na cultura. 
Voltando às histórias, a mídia terciária está entre o contador de história e do ouvinte 
(a criança). É neste ponto que as coisas podem ter uma conotação diferente: se o 
contador lê uma história escrita em um livro e ao contá-la não se envolve, o emissor 
passa a ser o autor do livro e o receptor é a criança. Assim, quem comunica é o autor! 
Agora, quando o contador escolhe uma história, após ter refletido naquilo que deseja 
comunicar, ele passa a ter um papel de protagonista no processo. Por exemplo: o 
contador escolhe uma história falando bem da cultura japonesa porque está diante 
de um caso de um aluno que está sendo discriminado por ser oriental. A proposta 
educacional foi definida pelo contador, a história é somente o veículo que apoia o 
conceito de pluralidade cultural que ele deseja trabalhar. 
E ainda, quando, durante a narração da história, o contador reforça a nobreza de 
caráter desse personagem, ele está colocando a sua pessoalidade, aquilo que ele pensa, 
está sendo o emissor, e a história é a mídia. Às vezes esta “nobreza” de determinado 
personagem pode passar despercebida por outros leitores, e até mesmo não ter sido o 
foco principal de comunicação que o autor enfocou, mas aquele que quer comunicar 
encontrou neste ponto o apoio que necessita para passar uma mensagem que ele já 
tinha em mente no seu papel de educador. 
Bruno Bettelheim (2007) é categórico quanto à polêmica se a história deve ser lida ou 
interpretada com suas próprias palavras, 
Para atingir integralmente suas propensões consoladoras, seus significados 
simbólicos e, acima de tudo, seus significados interpessoais, o conto de fadas deveria 
ser contado em vez de ser lido. Se ele é lido, deve ser lido com um envolvimento 
emocional na estória e na criança, com empatia pelo que a estória pode significar para 
ela. 
Contar é preferível a ler porque permite uma maior flexibilidade. (BETTELHEIN, 
2007, p. 185) 
Isso porque em seu livro Psicanálise dos contos de fadas, Bettelheim (2007) exalta a 
importância das histórias de fadas para o desenvolvimento emocional da criança, 
pois elas falam de maneira simbólica a linguagem da criança, dão explicações simples 
para fatos que ela não conseguiria entender. 
 
 
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5 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
De uma maneira geral, os monstros, as bruxas e os personagens temíveis não são 
mais do que projeções imaginárias dos fantasmas que as crianças trazem consigo: 
medo de ser abandonada por seus pais, medo de ser devorada, medo da rivalidade 
fraterna (BETTELHEIM, 2007). 
Esse autor defende a apropriação do contador de cada história que irá contar, ele 
acredita que o adulto necessita entender perfeitamente a mensagem e os níveis de 
significado da história não somente para transmiti-la aos seus ouvintes, mas 
também para preparar a apresentação de forma que a criança possa aproveitar da 
melhor maneira o seu conteúdo, para aplacar os seus temores, anseios, e obter 
conforto emocional. 
Nunca se deve “explicar” os significados dos contos para as crianças. Todavia, a 
compreensão do narrador quanto à mensagem do conto de fadas é importante para a 
mente pré-consciente da criança. A compreensão do narrador sobre os vários níveis 
do significado da estória facilita à criança extrair pistas dessas estórias para melhor 
entender a si própria. Cabe à sensibilidade do adulto selecionar as estórias mais 
apropriadas ao estado de desenvolvimento da criança, e às dificuldades psicológicas 
específicas com que ele se defronta no momento. (BETTELHEIN, 2007, p. 190) 
Em suma, usando-se os conceitos de comunicação anteriormente descritos, temos 
que quando se lê uma história o emissor é o autor, quando se conta uma história o 
emissor é o contador, ele é o protagonista. E qual é a melhor forma? 
Sem desmerecer a leitura de uma história, a contação é muito mais rica, ela permite 
interpretação, ela traz toda a pessoalidade do contador à comunicação. Isso pode ser 
mais bem entendido na música, dois intérpretes da mesma canção de um 
determinado compositor podem causar emoções diferentes na plateia, de acordo com 
o seu estilo, sua modulação de voz e expressões faciais e corporais. 
Outro fator a ser considerado é que o contador poderá enfatizar ou simplificar 
aspectos da história, de acordo com a faixa etária de seus ouvintes, e talvez dar um 
toque de humor, como também eliminar passagens de pouco interesse, desde que não 
prejudique a compreensão da história. Uma história pode ser estritamente realista 
para uma criança de cinco anos e não ser para uma de doze. E o contrário também é 
verdade: a saga de uma pessoa que luta por determinados direitos, por uma causa 
ecológica, por exemplo, pode ser incompreensível para o pequeno ouvinte. 
De toda forma, a fonte de onde se recolhe a história precisará ser trabalhada para que 
esta se torne agradável e entendível para o grupo de crianças ou jovens a que se 
destina. Deve-se enriquecê-la com alguns detalhes e introduzir na narração 
explicações que permitam um melhor entendimento. Por exemplo, uma descrição do 
personagem, que justifique o seu envolvimento com a causa, pode ser interessante. 
 
 
 
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6 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
Os Códigos que Compõem a Comunicação 
Umberto Eco, no livro Lector in Fábula (2004), também aborda os aspectos 
comunicacionais da história e se restringe aos códigos utilizados nessa transmissão. 
O que são os códigos? 
São o conjunto de signos que serão utilizados para transmitir a mensagem. Eles são 
principalmente palavras e ilustrações, mas também a diagramação do livro, a capa, 
as cores de fundo e as fontes utilizadas. Esse conjunto de signos possibilita a 
interpretação do conteúdo. 
Assim, Eco (2004) enfatiza que o autor deve levar em consideração a competência do 
leitor para definir os códigos de comunicação que deseja utilizar para a transmissão 
da mensagem escolhida. Vale lembrar que não se exclui a possibilidade de haver 
autores infantis mais preocupados com a contemplação estética do que com a 
mensagem transmitida, o que não torna os seus livros inúteis, pelo contrário, 
cumprem sua função artística e linguística, ressalvando apenas à condenação 
aqueles casos em que a mensagem é negativa ou perniciosa. 
Dos conceitos de Eco (2004) podem se depreender algumas variáveis: a primeira é se 
o autor escreveu para crianças lerem o seu livro; neste caso, ele se preocupou em 
considerar signos que possam ser captados pela criança sozinha, e o adulto até pode 
aparecer no processo, mas como um auxiliar, como um facilitador da interpretação 
que é feita pela criança. 
E, nesse caso, ficamos com uma terceira indagação: quem irá ler o livro, a criança ou 
o adulto que irá ler para ela? 
Se um livro tem um conjunto de códigos compostos pelas palavras, pelas ilustrações, 
pelo formato e, em alguns, até pelo cheiro, a criança não poderá se apropriar do 
conjunto quando o adulto ler para ela. Muitas vezes vemos situações nas quais o 
adulto-leitor lê a história e interrompe para mostrar as figuras às crianças que se 
aboletam umas em cima das outras para verem melhor, o que torna o processo um 
verdadeiro desastre. E mesmo que não fosse, a criança deixaria de se apropriar dos 
outros signos utilizados pelo livro. 
Enfim, Ler ou Contar? 
A decisão de contar, ler ou deixar a criança ler sozinha deve se balizar nos seguintes 
critérios: 
A Criança Lê Sozinha 
Pode-se deixar a criança ler sozinha quando o livro tem linguagem clara, adequada à 
sua faixa etária, é farto em figuras