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Didática do Contar Histórias - Temas 1 a 8 (num só arquivo pesquisável)

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do que histórica (que teria vivido há seis 
séculos a.C.) e, posteriormente, a Fedro (século I D.C.), a ideia de usar as fábulas para 
transmitir situações de relacionamento dos seres humanos, encerrando lições e 
ditames de comportamento de uma forma velada, protegida pelo fato de os 
protagonistas serem animais. Isso fica mais claro ao se saber que ambos eram 
escravos alforriados; assim, é fácil imaginar que eles usariam desta liberdade para 
transmitir mensagens aos demais escravos, usando os animais como proteção. Foi 
graças a La Fontaine (1621-1695) que as fábulas chegaram até os dias de hoje, e este 
não as usou com outro objetivo. Plebeu frequentador da corte e vivendo na França em 
 
 
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21 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
uma época de grande injustiça social, as fábulas eram um meio de falar verdades de 
forma alertadora e segura. 
A característica das fábulas se difere muito daquelas dos contos de fadas: nas 
primeiras, os personagens apresentam nuances de personalidade, encerrando 
muitas vezes estereótipos facilmente reconhecíveis e associáveis às personalidades 
humanas. É o caso da raposa e do lobo, ambos têm características agressivas e comem 
as presas de menor porte, geralmente, os carneirinhos. O lobo tem uma aparência que 
o declara imediatamente como perigoso, enquanto que a raposa, com aparência 
serena, não delata essa condição. Os pobres carneirinhos devem temer mais as 
raposas, pois quando se trata de lobos, elas podem detectar a ameaça e se protegerem, 
o que não acontece com um ataque de raposa. As analogias com pessoas do dia a dia 
são muito comuns e fáceis de serem feitas. 
 
Figura 3.5 – Jean de La Fontaine 
As fábulas acontecem em um ambiente isento de pressões externas, porque o objetivo 
é evidenciar as relações entre os personagens. Outro fator muito marcante é que as 
fábulas encerram relações sociais, geralmente apontando para decisões astutas e 
valorosas. 
Assim ficam claras as profundas diferenças entre os contos de fadas e as fábulas, o 
que sugere uma classificação, que não é fácil e tampouco é unânime na literatura. 
Em 1910, o finlandês Aarne desenvolveu um sistema de classificação dos contos de 
fadas que identifica os textos segundo unidades temáticas, baseado nos contos 
finlandeses, dinamarqueses e alemães; em 1928, Thompson ampliou e completou o 
sistema de classificação e, quase 40 anos depois, em 1968, Thompson encarregou-se 
da terceira edição, ampliando muito a catalogação, que hoje é conhecida como 
“Aarne/Thompson”. 
 
 
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22 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
Matos (2015), no ensaio “Vladimir Propp e a morfologia narrativa” faz menção ao 
estudo: 
Este, que foi o primeiro catálogo sistemático dos contos, é usado até hoje como índice 
de classificação pelos estudiosos (o conhecido “Aarne-Thompson classification 
system”) e caracteriza o seu vasto repertório de contos (2.340 na edição de 1929, 
ampliados para 2.500 na edição de 1961) a partir de motivos ou temas, o que permite 
agrupá-los em sete grandes categorias: 
 contos de animais (1–299), 
 contos de magia (300-749), 
 contos religiosos (750-849), 
 contos românticos (850-999), 
 contos de ogros estúpidos (1.000-1.199), 
 brincadeiras e anedotas (1.200-1999), 
 contos acumulativos (2.000-2.400), 
 contos inclassificáveis (2.401-2.500). 
Gillig (1999) sugere outra divisão em: contos maravilhosos, narrativas, míticos e 
lendas, em que a maioria dos personagens possui uma natureza humana e sub-
humana. Para este autor, a narrativa mítica relata feitos de personagens com 
poderes quase divinos, incomuns aos mortais. A lenda relata feitos de personagens 
que realmente existiram, com características de tal notoriedade, que se perpetuaram 
no tempo; os poderes sobrenaturais seriam fruto do imaginário de seus narradores 
devido à idolatria por tais feitos grandiosos. 
O conto se destaca dos outros dois gêneros pelo seguinte: 
O mais provável é que “os mesmos arquétipos”, ou seja, as mesmas figuras e situações 
exemplares – apareçam indiferentemente nos mitos, nas sagas e nos contos. Mas 
tanto no primeiro quanto no segundo caso, o herói acaba tragicamente, ao passo que 
no conto o desfecho quase sempre vê o herói ter êxito em sua aventura (GILLIG, 1999, 
p. 26). 
E o que é uma fábula? 
pergunta ainda o autor de O conto na psicopedagogia. ”Um relato também 
imaginário, colocando em cena animais que falam e que servem de ilustração a 
preceitos morais” (GILLIG, 1999, p. 26). 
 
 
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Vladimir Propp é um conhecido estudioso dos contos de fadas e, no livro Morfologia 
do Conto Maravilhoso, cita o trabalho de Aarne, e muitas vezes o critica, e classifica 
as histórias em três divisões fundamentais: 
“1 - Contos de animais; 2 - Contos maravilhosos propriamente ditos e 3 - Anedotas” 
(PROPP, 2006, p. 13). 
Esta é uma divisão bastante razoável que, levando-se em consideração tudo o que foi 
exposto, é ela que adotamos para essa disciplina, considerando como “Contos de 
Fadas” todas as histórias de cunho fantástico, maniqueístas, que envolvem magia e 
encantamento e que sempre terminam com um final feliz. 
Como fábulas, entendem-se as histórias de animais que falam e que envolvem 
conceitos socioculturais. Uma vez que estes dois tipos são os mais usados com 
crianças, apreciados e que trazem um grande potencial educacional, que é o nosso 
principal escopo. 
As histórias e a cultura 
As histórias, conforme demonstrado inicialmente, refletem uma cultura, isto porque 
são criadas pelas influências, necessidades do povo de uma determinada cultura. 
Porém, se com o passar de centenas e centenas de anos e contadas para os mais 
diferentes povos elas continuam com as mesmas características e valores, é difícil 
dizer por que elas não se alteram sob o impacto da cultura de cada época e região. 
Isto ocorre porque os contos de fadas tratam de valores profundos que são comuns a 
todas as pessoas, em qualquer situação e em qualquer época. Propp (2002) dá como 
exemplo o príncipe que sempre sai em busca de sua noiva, longe, mencionando que 
será um reflexo da imposição da busca por um companheiro, necessidade comum a 
todo o ser humano. 
Não fosse assim, como seria possível explicar o surgimento de histórias tão 
semelhantes em diversas partes do mundo incomunicáveis no amanhecer da 
civilização? Marie von Franz relata que “existem indícios de que alguns temas 
principais de contos se reportam a 25.000 anos a.C., mantendo-se praticamente 
inalterados (2003, p. 12). 
A explicação que Marie von Franz tem para a identidade de enredos surgidos em 
pontos distantes de tempo e espaço é que “contos de fadas são as expressões mais 
simples de processos psíquicos do inconsciente coletivo. Eles representam os 
arquétipos na sua forma mais simples, plena e concisa” (2003, p. 9). E manifesta-se 
de forma muito semelhante a Propp: 
Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado, obtêm-se 
as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material 
cultural. Mas nos contos de fada existe um material culturalmente muito menos 
 
 
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específico e, consequentemente, eles oferecem uma imagem mais clara das 
estruturas psíquicas (2003, p. 9). 
Assim, se os contos de fadas estão ligados às estruturas da psique, estas estão ligadas 
à natureza do ser e, portanto, pouca influência sofrem da cultura. 
O consagrado psicólogo Bruno Bettelheim consolida este pensamento: 
Essa é exatamente a mensagem que os contos de fadas transmitem à criança de forma 
variada: que uma luta contra dificuldades