A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
69 pág.
Didática do Contar Histórias - Temas 1 a 8 (num só arquivo pesquisável)

Pré-visualização | Página 8 de 22

graves na vida é inevitável, é parte 
intrínseca da existência humana – mas que se a pessoa não se intimida e se defronta 
resolutamente com as provocações inesperadas e muitas vezes injustas, dominará 
todos os obstáculos e ao fim emergirá vitoriosa (BETTELHEIM, 2007, p. 15). 
Para finalizar a questão, Franz afirma: “A linguagem dos contos de fada parece ser a 
linguagem internacional de toda espécie humana - de idades, raças e cultura” (2003, 
p. 35). 
Outro ponto importante a ser considerado ao se falar na influência da cultura nos 
contos de fadas é inspirado em Gillig (1999), ao chamar de contos modernos aqueles 
escritos por autores que sucederam aos irmãos Grimm, Perrault e Andersen. A 
resposta parece ser o fato de que os Grimms e Perrault, ao transcreverem as histórias, 
e mesmo Andersen, ao buscar inspiração, estavam coletando dados de fontes 
populares frutos de uma composição coletiva, o que faz supor que o elo dessa 
pluralidade de autores são os sentimentos, emoções e temores inerentes à natureza 
dos seres humanos. Os autores chamados modernos precisaram beber da sua própria 
imaginação para criar enredos inusitados, fruto de suas vivências atuais, portanto 
muito mais submissos às influências culturais. Este raciocínio autoriza dizer que 
quanto mais recente é a criação das histórias, mais ela sofre a influência da cultura e 
mais complexidade há em seu enredo. 
Diferentemente dos contos de fadas, as fábulas sofrem diretamente influência da 
cultura. Tomando as fábulas, conforme defne Gillig (1999), como ilustradoras de 
aspectos morais da sociedade, elas se diferem dos contos de fadas por sofrerem forte 
influência da cultura. 
Um exemplo claro da influência da cultura nas fábulas está na cigarra e a formiga; 
esta trabalha no verão, enquanto a cigarra só canta. No inverno, a formiga tem a sua 
casa segura e cheia de alimentos, enquanto que a cigarra está desabrigada e com 
fome. Ao pedir auxílio à formiga, a cigarra recebe uma negativa e acaba morrendo de 
inanição e frio. 
Contada por La Fontaine, na França do século XVII, a orientação que deveria ser dada 
às cigarras é: trabalhem! Não se deixem seduzir pelos prazeres trazidos pela luz e pelo 
calor, pois se não se cuidarem, quando precisarem não terão auxílio de ninguém. 
 
 
GOSTOU DO MATERIAL? Então não se esqueça de curtir! 
 
25 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
Duzentos anos depois, em 1930, no Brasil, Monteiro Lobato, através da Dona Benta, 
conta a mesma fábula às crianças. Emília, eterna contestadora, reclama e chama a 
formiga de má. Em uma época que clama por igualdade social, a solidariedade aflora 
e a fábula “A cigarra e a formiga” é modificada por Dona Benta, tendo ambas, a cigarra 
e a formiga, o mesmo comportamento no verão. No inverno, a cigarra, ao bater na 
porta da casa da formiga, é acolhida com prazer, e a fábula termina com a cigarra 
cantando para a formiga em forma de agradecimento. 
Millôr Fernandes completa o raciocínio desejado para esta exposição ao narrar a sua 
fábula, de maneira idêntica para o comportamento das duas personagens no verão, 
porém, surpreendendo, quando dá à cigarra um convite para estrelar na Broadway 
no inverno brasileiro. A história se torna aqui uma ironia à indústria cultural. 
 
Figura 3.6 – A cigarra e a formiga 
Assim, as fábulas têm uma maior complexidade do seu enredo, mais próximo da vida 
real. Esta é uma das razões que explica o porquê de as histórias de fadas serem mais 
bem compreendidas pelas crianças pequenas e as fábulas pelas crianças maiores, que 
melhor articulam o raciocínio lógico. 
FINALIZANDO 
Por todas essas razões, as histórias são uma mídia privilegiada para se comunicar 
com crianças das mais diversas maneiras. Através das histórias, pode-se viajar para o 
presente, para o futuro e, também, para o passado. Pode-se ficar bem pequeno e 
visitar os seres microscópicos, como também, se tornar gigante e ver o mundo de uma 
 
 
GOSTOU DO MATERIAL? Então não se esqueça de curtir! 
 
26 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
maneira mais ampla. Pode-se viajar sobre as nuvens e sob as águas, visitando o 
magnífico reino aquático. E os mais diversos assuntos podem ser abordados. Com 
elas se pode falar de esperança, de coragem, de felicidade, de desafios; com elas se 
pode sonhar com um mundo mais que encantado, com um mundo melhor. 
 
Arquétipos: Segundo Jung, são um conjunto de impressões pertencentes ao 
inconsciente coletivo. Ou seja, pertencente a todo o ser humano. Eles representam 
modelos de comportamento. Os arquétipos estão, portanto, nos bastidores de todos 
os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, intuições, sensações e atitudes. 
Os símbolos arquetípicos são encontrados nos mitos originais, nas mais variadas 
religiões, em lendas que já fazem parte da bagagem cultural coletiva, os quais 
marcam definitivamente a consciência e particularmente a esfera do inconsciente 
humano. Alguns destes arquétipos: a figura materna, a imagem do pai, a criança, o 
herói, o divino, entre outros. 
Complexidade: É quando uma situação envolve muitos fatores que tornam o seu 
entendimento complicado. Ela pode exigir o entendimento de várias áreas do 
conhecimento para poder ser entendida por completo. 
Cultura: É um termo que tem diversos sentidos em vários níveis de profundidade e é 
aplicada a diversos ramos do conhecimento. Para as ciências sociais, reflete o 
movimento dos homens na produção do saber, da arte, dos costumes e do folclore. 
Em sociologia, é tudo que é aprendido e partilhado num determinado grupo de 
indivíduos, o que lhes dá identidade. 
Escravos alforriados: Diz-se daquele que era propriedade de um senhor e vivia ao seu 
mando, sendo posteriormente libertado formalmente. 
Estereótipo: São tipos definidos por meio da classificação das pessoas de acordo com 
seu comportamento, sua aparência, seu jeito de falar. Uma vez formado um 
estereótipo, ele se aplica a qualquer pessoa que apresentar um dos elementos que 
compõem o tipo. Por exemplo, alguém que tem uma tatuagem pertence ao 
estereótipo de pessoa descolada, que não obedece às leis e que tem uma vida 
alternativa. Isso não corresponde à verdade, porque as pessoas são muito diferentes 
entre si, portanto o uso de estereótipos na vida real não é desejável. 
 
 
GOSTOU DO MATERIAL? Então não se esqueça de curtir! 
 
27 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
Psique: relacionada com a psicologia, e começou a ser usada com a conotação de 
mente. Refere-se ao conjunto dos processos psíquicos, ou emoções humanas 
registradas de forma consciente (que são percebidos) e inconscientes (que não são 
percebidos). 
 
Tema 4 
Estudando uma História 
O valor educacional de uma história está na mensagem que ela passa, ela constitui o 
cerne da comunicação. As histórias dão contexto àquilo que se gostaria ou que se 
necessita dizer e nem sempre se sabe como. Por outro lado, elas despertam sensações, 
aguçam habilidades, desenvolvem o senso crítico, a imaginação, a criatividade 
mesmo sem o narrador perceber. Assim, se o narrador se der conta deste potencial 
poderá direcionar a comunicação, potencializar a mensagem, dando ênfase aos 
pontos que julga mais importantes ou que são mais interessantes para o momento, 
podendo fazer suas próprias complementações. 
O estudo detalhado da história irá possibilitar que se dê atenção a cada um de seus 
tópicos, ressaltando algum detalhe que poderia ter passado despercebido. Esse 
detalhamento também irá ajudar no timing da narração e na escolha dos recursos 
auxiliares. 
De forma bastante objetiva, Tahan (1961) evidencia a importância do estudo da 
história: 
O narrador que hesita, interpolando reticências inúteis entre os períodos, pode 
sacrificar, por completo, o êxito da narrativa. As hesitações decorrem de certas 
dúvidas, de pequenas falhas e as dúvidas não aparecem para aquele que conhece