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Didática do Contar Histórias - Temas 1 a 8 (num só arquivo pesquisável)

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“absoluta segurança o enredo”. 
Aquele que tiver a insensatez de tentar a narrativa de uma história, sem dominar com 
precisão o enredo, praticará uma leviandade (TAHAN, 1961, p. 30). 
A Escolha da História 
O primeiro passo para um educador que usa as histórias como meio (ou para um 
contador que, além de encantar, quer se comunicar) é a escolha da história. É comum 
cada contador ter o seu próprio repertório, no qual se encontram as histórias que 
“dizem aquilo que ele gostaria de dizer”, que contêm mensagens nas quais ele acredita 
e que julga importantes. Normalmente o contador leva para este acervo as histórias 
que o encantam, que têm elementos capazes de seduzi-lo, de incitar a sua imaginação. 
Esta é a única maneira possível de seguir os ensinamentos de Tahan (1961) para 
“emocionar-se com a própria narrativa”. 
 
 
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28 Anhanguera - Pedagogia – Didática de Contar Histórias 
Atribuindo-se poder às histórias e entendendo este poder como capacidade 
privilegiada de se comunicar com crianças, pode-se concluir que as histórias certas 
são um “tesouro”, e este tesouro não irá “cair dos céus” como uma dádiva. Para ter um 
tesouro, é preciso garimpar. 
E nesse garimpo, as “joias” não são iguais: cada uma tem um valor específico a 
determinada pessoa. As pessoas são diferentes, têm valores próprios que lhes são 
mais significativos, têm a sua própria visão de futuro, de transformação, cada qual 
com o seu script de vida entende de forma diferente a “marca” que sua passagem quer 
deixar no mundo. 
Betty Coelho é clara em relação à escolha da história que se irá contar. Para ela, além 
da óbvia necessidade de se adequar a história ao gosto de quem irá ouvi-la, é preciso 
que a escolha recaia sobre uma determinada história: 
Às vezes leva-se algum tempo pesquisando em livros e revistas até se encontrar a 
história adequada à faixa etária adequada e que atenda aos interesses dos ouvintes e 
ao objetivo que a ocasião requer. É preciso também considerar o estilo do narrador. 
A história é o mesmo que um quadro artístico ou uma bonita peça musical: não 
poderemos descrevê-los ou executá-los bem se não o apreciamos. Se as histórias não 
nos despertarem a sensibilidade, a emoção, não iremos contá-las com sucesso. 
Primeiro é preciso gostar dela, compreendê-la, para transmitir tudo ao ouvinte. 
Quando me interpelam nos cursos de treinamento dizendo: Não gosto de contar 
histórias tristes, que devo fazer? A resposta óbvia é: “Não as conte. Escolha o que gosta 
de contar” (COELHO, 1986, p. 14). 
E isto é muito mais significativo no adulto que entende sua missão como a de ser 
transmissor de cultura aos seus descendentes. Nesta lide, cada um escolhe, já 
escolheu ou escolherá qual é o papel que deseja desempenhar na vida de seus 
pequenos ouvintes, e este papel inclui escolher as mensagens, as suas próprias 
mensagens, e verificar se elas estão nas histórias, nas histórias escolhidas que fazem 
parte do seu acervo. 
Idade Adequada 
É difícil determinar em termos precisos qual é a idade adequada para uma dada 
história. Nosso livro base, na página 25, traz algumas dicas, e alguns livros infantis 
trazem indicação da faixa etária adequada, mas o principal é a sua percepção: observe 
a reação da sua plateia e vá “afinando” a faixa etária que mais se diverte e aproveita 
as mensagens educacionais da história. 
É importante ressaltar que não é somente a história que determina a idade de seu 
público, mas também a forma como ela é contada. Sendo que pode haver adaptações 
 
 
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simplificações ou aprofundamento de acordo com a maturidade e outras 
características específicas das crianças. 
Componentes de uma História 
Faz parte do estudo de uma história o conhecimento aprofundado dos seus 
componentes principais, dentre eles, os mais importantes são os personagens, 
aqueles a quem se atribui as vivências que irão compor toda a trama. 
Posteriormente, é importante compreender o local onde a história ocorreu, uma vez 
que ele irá influenciar os fatos, e também a sua descrição, que irá ajudar os ouvintes 
na compreensão do enredo. O estudo do local será preponderante para que o contador 
preveja quantos cenários irá utilizar, o que é absolutamente necessário quando 
estiver usando recursos auxiliares, mas não é descartado quando se está apenas 
narrando a história, pois o contador, tendo em vista o número de “cenários” que são 
necessários para causar melhor compreensão da história, usa-os para estruturar a 
sua narrativa. 
Algumas histórias estão ligadas a uma determinada época e sofrem influências 
culturais, identificadas por determinados aspectos presentes na história que, muitas 
vezes, explicam e justificam certos fatos, e que indicarão o que deve ser esclarecido 
aos seus ouvintes, promovendo uma melhor compreensão e uma maior contribuição 
cultural ao processo de comunicação focado na contação de histórias. Malba Tahan 
(1961) ensina, para este aspecto em particular, que se deve “verificar se a história 
exige, para ser contada, alguma explicação prévia” e dá um pitoresco e delicioso 
exemplo: 
Pode acontecer que no enredo da história apareça alguma alusão a um nome (moeda, 
planta, acidente geográfico, estrela, animal exótico, etc.) que os ouvintes 
desconheçam. Em certos casos é interessante elucidar previamente o auditório: “Vou 
contar, para vocês, uma estranha aventura ocorrida em Itaberaí. Itaberaí é uma 
próspera e pitoresca cidade de Goiás. A palavra Itaberaí significa ‘rio das pedras que 
brilham’. Essa cidade...” (Seguem-se as indicações curiosas sobre a cidade que vai 
servir de cenário para a narrativa) (TAHAN, 1961, p. 53). 
Personagens 
São os elementos mais importantes da história. É preciso entender quem são e qual a 
importância de cada um deles. Toda história é composta de personagens principais, 
secundários e supérfluos. Os personagens principais são aqueles que têm 
importância vital na história, sem eles ela não aconteceria. Toda história tem como 
personagens principais um herói e um vilão. Muitas vezes o personagem do herói é 
duplo, apresentando o masculino e o feminino. 
 
 
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Assim, deve-se entender quem são eles para poder dar-lhes uma ênfase maior. Este 
destaque será dado na narração, em que se deve dar maiores detalhes da sua 
personalidade, da sua aparência física, da sua vestimenta. Se a história for narrada 
com recursos auxiliares, como fantoches ou marionetes, esses personagens deverão 
ser os mais elaborados e não poderão jamais faltar. 
É importante que o narrador saiba mais dos personagens do que ele irá descrever, ele 
deve imaginar como é o seu porte físico, seu tom de voz e sua personalidade, isso fará 
com que seja mais fácil dar colorido em cada passagem que o personagem está 
envolvido, como também imaginar como seria a reação do encontro do herói com sua 
amada ou com o terrível vilão. 
O autor de Ouvidos dourados, o famoso contador de histórias Jonas Ribeiro, tem uma 
opinião sobre o assunto: 
Pode até parecer estranho ficar pensando na cor do vestido da princesa, viajando no 
dorso do cavalo Rondó e ficar experimentando a garra do leão, o bigode do cão, a pena 
de águia e a patinha da formiga. E daí? Não importa quão estranho isso possa parecer, 
importa sim que esse brincar com a história faz parte do ofício do contador de 
histórias. (RIBEIRO, 2001, p. 80) 
Os personagens secundários também são importantes, costuma-se dizer que são o 
amigo do herói e o inimigo do herói, ou o amigo do vilão. Sua importância está no fato 
de que eles dão sentido às falas dos personagens principais e é através do diálogo com 
seu amigo que se conhece as intenções do herói ou os planos