A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
10 pág.
Farmacologia - Antidiarreicos

Pré-visualização | Página 1 de 4

1 
Beatriz Machado de Almeida 
Farmacologia – Antidiarreicos – Aula 2 
Reposição de eletrólitos e antidiarreicos 
A palavra diarreia é proveniente da palavra “dia” (sem 
parar) e “rheein” (fluir ou escorrer). A massa das fezes 
e sua consistência é diretamente proporcional a 
quantidade água que o indivíduo deixou de absorver. A 
maioria dos casos de diarreia resulta em distúrbios do 
transporte intestinal de água e eletrólitos. Ou seja, 
qualquer patógeno que cause distúrbios na absorção 
de água ou eletrólitos pode causar diarreia. Outra 
definição é “evacuação muito rápida de fezes muito 
líquidas” Em geral, 200g é o limite de água nas fezes 
para um indivíduo saudável. 
Epidemiologia 
• Segunda causa de morte em crianças abaixo de 5 
anos; 
• Prevenível e tratável; 
• 1,7 bilhões de casos de doenças diarreicas em 
crianças por ano; 
• 525.000 mortes anuais < 5 anos; 
• Diarreia é a causa líder de má nutrição em crianças 
abaixo de 5 anos; 
As doenças diarreicas então entre as 10 principais 
causas de mortes no mundo. 
As doenças diarreicas no Sul são a 5ª maior causa de 
morte e no hemisfério norte não aparece nem entre as 
10. Logo, conclui-se que é uma doença que acomete mais 
os países mais pobres. Porque nesses locais tem 
saneamento básico comprometido e as crianças acabam 
sofrendo mais. Observando todo esse panorama, vendo 
que mata bastante crianças, é necessário entender a 
relação de água com o TGI. 
Relação água/trato gastrointestinal 
 
LÍQUIDO NO TG I 
Aqui tem um exemplo do tanto de água que circula no 
TGI e o quanto que é excretado nas fezes. Lembra que 
aproximadamente 200g por dia é o comum? Nessa 
figura fala um pouco menor, 150g. Então, uma pessoa que 
ingerir aproximadamente 2L de água, 1,5L de saliva, 
1L de suco gástrico, 2L de suco intestinal, 1L de suco 
pancreático e 200ml de secreção de muco do colón, 
tem como somatório de tudo o valor de líquido que passa 
no TGI por dia. Dá quase 10L, porém apenas 150ml é 
eliminado. Nós temos uma capacidade imensa de 
reabsorção. Em relação à reabsorção, o intestino 
delgado absorve cerca de 7,5L por dia e o colón 1,4L, 
ou seja, é um volume muito grande que passa pelo TGI, 
mas em indivíduos hígidos há uma capacidade enorme de 
reabsorção de líquido ao longo do TGI. Qualquer 
distúrbio gastrointestinal que dificulte a reabsorção 
de água em uma dessas regiões seja no delgado ou 
colón, leva o indivíduo a excretar mais água e assim, ele 
pode se encaixar no diagnóstico de diarreia. 
Diarreia 
A dejeção intestinal normal não deve provocar dor nem 
desconforto e, quando ela provoca esse tipo de 
sensação, algo não está adequado, assim o indivíduo 
tem constipação ou tem diarreia. A diarreia pode ser: 
aguda (resolução em aproximadamente 2 /3 semanas) 
ou crônica (acima de 4 semanas). As diarreias têm uma 
variação muito grande, podendo ser desde leves e 
autolimitadas até casos graves que podem levar à morte. 
E pode levar a morte quando o indivíduo tem 
complicações por conta da desidratação, perdendo 
rápido água e eletrólitos, levando à desidratação, leva 
o choque hipovolêmico e leva a graves distúrbios 
eletrolíticos que são responsáveis pelas complicações. 
Diarreia aguda 
Características 
A diarreia aguda é quando o indivíduo tem eliminação 
diária de 250g de fezes por 2 a 3 vezes por dia. Pode 
ou não estar associado com náusea, vômitos, mal 
estar, cólica e febre. Outra coisa importante é que nas 
Antidiarreicos 
 
2 
Beatriz Machado de Almeida 
Farmacologia – Antidiarreicos – Aula 2 
infecções agudas, o quadro da diarreia pode aparecer 
entre 8 a 48 horas após a ingestão do contaminante. 
Pode ser dividida em dois tipos: 
• Alta: Afecções que acometem o jejuno e íleo. 
Normalmente as fezes são mais aquosas e 
volumosas, com náuseas, vômitos e com pouca ou 
nenhuma febre e prostração; 
• Baixa: Afeta mais o cólon. O indivíduo apresenta 
mais cólicas e as fezes normalmente podem ter 
muco, pus e sangue, além de ter mais febre e ser 
sensível à palpação). 
As manifestações clínicas são diferentes tanto o 
aspecto. 
Diarreia crônica 
Características 
Quando a diarreia não se resolve em torno da 3º 
semana entrando na 4º semana, o indivíduo apresenta 
um quadro de diarreia crônica. O diagnóstico é 
basicamente a queixa do paciente, história clínica, as 
características da diarreia e o exame físico. 
Normalmente a diarreia crônica está associada a outra 
doença (Ex. Crohn, colite ou alguma outra patologia de 
base) ou a intolerância a alguma substância. O 
diagnóstico estará ancorado com o diagnóstico 
principal. Então, os mecanismos fisiopatológicos 
(alterações osmóticas, secretoras, disabsortivas, 
inflamatórias, motoras, exsudativas e associadas a 
doenças metabólicas) estão associados a essas 
alterações. Logo, toda e qualquer doença que leva 
alteração no TGI a nível de osmolaridade, secreção, 
hormônio ou de má absorção, como por exemplo, doença 
de Crohn, lesão nos nervos que inervam o TGI ou 
doenças que levam alterações metabólicas. 
Diarreia 
Etiologias 
No geral, quando se trata das principais causas, não 
separando entre aguda e crônica: infecções intestinais 
bacterianas, toxinas liberadas por essas infecções, 
viróticas, parasitárias, doenças de base (normalmente 
associadas a diarreias crônicas), efeito indesejado de 
medicamento (Ex. laxativos, antibióticos, aines). Obs. 
os efeitos gastrointestinais dos aines são estomacais, 
não chegam a ser intestinais. 
Medicamentos quimioterápicos X antibióticos: 
• Quimioterápicos: eles não são seletivos a células 
tumorais. Normalmente, células que tem um número 
maior de reprodução (ex. epitélios 
gastrointestinais), acabam sofrendo bastante. No 
intestino, elas diminuem a capacidade de absorver 
eletrólitos e água, fazendo com que o bolo fecal se 
torne mais aquoso. 
• Antibióticos: alteram a microflora intestinal e 
diminuem o muco produzido, diminuindo a proteção 
do epitélio gástrico e intestinal e, 
consequentemente, a capacidade de absorção de 
água e eletrólitos. 
Sintomas de desidratação: oligúria, sede, boca seca, 
hipotensão postural, perfusão capilar diminuída. 
Lembrando que em adultos, a redução do turgor e da 
elasticidade da pele e enoftalmia (quando o globo ocular 
apresenta pequeno afundamento) não é tão 
característica. É mais caracterizada em idosos e 
crianças. 
Cólera 
A cólera é muito importante, pois leva a um quadro 
diarreico severo, gravíssimo, onde o indivíduo 
praticamente evacua em forma de jato. O mecanismo, 
e uma das principais causas de morte do indivíduo 
infectado, embora seja desidratação, é a seguinte: 
 
Imagem: representação do Vibrio cholarae. Ele libera 
uma toxina que é internalizada aos enterócitos, que no 
reticulo endoplasmático (processador de proteínas), 
sofre uma modificação estrutural. Então, uma vez 
engolfado, a toxina é modificada e liberada no interior 
da célula. No interior da célula, ela interage com uma 
enzima chamada adenil ciclase, que é responsável por 
 
3 
Beatriz Machado de Almeida 
Farmacologia – Antidiarreicos – Aula 2 
converter ATP em AMPc. O AMPc, uma vez liberado 
para dentro do enterócito, estimula uma fosfoquinase 
chamada de PKA. Uma das atividades intracelulares 
dessa fosfoquinase é diminuir a ação da bomba de 
sódio que tem um cotransporte com um próton. Então 
se diminui a atividade dessa bomba, com ativação da 
PKA, diminui a reabsorção de sódio. A água tende a 
seguir o mesmo caminho do sódio, ou seja, o sentido do 
íon sódio é o mesmo sentido da água. Em condições 
normais, a reabsorção de sódio equivale a reabsorção 
de água. Quanto mais sódio se consegue reabsorver, 
mais água também é reabsorvida. 
Se a toxina da cólera impede/bloqueia o transporte de 
sódio da camada apical para o interior do enterócito, 
ela também bloqueia a passagem da água, por questões 
de gradiente de concentração. Ou seja, uma