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Anemia falciforme

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A anemia falciforme (AF) é uma doença 
hereditária (que passa dos pais para o filho), no 
qual o eritrócito (hemácia), que tem o formato 
bicôncavo, passa a ter um formato de foice 
(chamados de drepanócitos). 
É a doença hematológica mais comum no mundo. 
Essas células, de maneira resumida, têm sua 
membrana alterada e, por isso, se rompem com 
mais facilidade, em razão de uma homozigose 
que acomete a cadeia beta da hemoglobina, 
gerando uma Hb anormal, chamada de 
hemoglobina S (HbS). 
 
 
A alteração molecular que ocorre é através da 
substituição, no cromossomo 11, de um único 
aminoácido no códon 6 do gene da cadeia beta-
globina: o glutamato pela valina, resultando na 
troca de bases: a Adenina (A) é substituída pela 
Timina (T) e gera a valina (GAG-GTG). 
 
Essa alteração genética aumenta a 
hidrofobicidade da célula, no qual a HbS 
desoxigenada (já que tem menor capacidade de 
segurar o oxigênio) fica insolúvel e forma fibras 
polimerizadas que geram uma alteração na 
morfologia da hemácia (que fica em foice). 
 
 
 
 
 
 
 
 
Com a reoxigenação, o polímero se desfaz, e a 
célula volta ao normal. Porém, a polimerização e 
a despolimerização ocorrendo a todo momento 
provocam lesões progressivas na membrana, que 
inicialmente são reversíveis. Contudo, após 
vários processos de falcização, as hemácias 
tornam-se definitivamente lesadas, 
transformando-se nas chamadas hemácias 
irreversivelmente falcizadas. 
Observação: a falcização é a mudança da forma 
normal da hemácia (HbA) para a forma de foice. 
A polimerização da HbS dentro dos 
eritrócitos é a base de toda a fisiopatologia 
da AF. 
O formato em foice faz com que a hemácia tenha 
dificuldade em passar pelos pequenos capilares. 
Além disso, quando associadas ao elevado 
número de leucócitos e moléculas de adesão, são 
responsáveis pela lentificação do fluxo, oclusão 
vascular e lesão dos tecidos (principais 
características da doença). 
A falcização também é responsável pela 
hemólise crônica, já que o sistema macrofágico 
(responsável pela destruição) faz a retirada 
dessas células que apresentam alterações. 
A taxa de falcização é influenciada pela 
concentração intracelular de HbS e pela 
presença de outras hemoglobinas dentro 
da célula. 
A desidratação celular ocorre pela alteração dos 
canais iônicos, tornando a célula mais 
vulnerável à falcização, assim como às baixas 
concentrações de oxigênio e à acidose. 
Observação: a presença de outras hemoglobinas 
no interior da hemácia pode aumentar ou reduzir 
o processo de falcização (como no caso da Hb fetal 
– HbF – que tem maior afinidade pelo oxigênio e 
diminui a polimerização). 
Na maior parte dos casos, os pais são portadores 
assintomáticos de um único gene afetado 
(heterozigoto), produzindo HbA e HbS (AS) – 
conhecidos como traço falciforme, e vão 
transmitir cada um o gene alterado para a 
criança, que o recebe em dose dupla (homozigoto 
SS). 
Anemia falciforme 
BIANCA LOUVAIN 
 
 
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O gene da HbS pode ser combinado com outras 
anormalidades hereditárias das hemoglobinas, 
como hemoglobina C (HbC), hemoglobina D 
(HbD), beta-talassemia, gerando combinações 
também sintomáticas, chamadas, 
respectivamente, hemoglobinopatia SC, 
hemoglobinopatia SD e S/beta-talassemia. 
Todas essas formas sintomáticas do gene da 
HbS, em homozigose ou em combinação, são 
conhecidas como doenças falciformes. 
As síndromes falciformes vão variar de acordo 
com o paciente, que pode ser assintomático 
durante toda sua vida bem como precisar sempre 
de internação hospitalar a todo momento. 
De modo geral, quanto maior a quantidade 
de HbS, mais grave é a doença. Ou seja, 
pacientes homozigotos para HbS tendem a ter 
quadro clínico mais grave que os pacientes com 
hemoglobinopatia SC, SD etc. 
A doença tem início durante o 1º ano de vida, 
quando os níveis de Hb fetal caem e as hemácias 
perdem a proteção dela. Tem temos o início de 
um quadro de anemia hemolítica crônica, com 
icterícia e esplenomegalia (nos primeiros anos de 
vida, mas a esplenomegalia pode ser crônica). 
Nos 2 primeiros anos, um quadro clínico 
considerado característico é a chamada 
“síndrome mão-pé” ou dactilite, em que ocorrem 
edema, calor e rubor dos dedos das mãos e pés 
por infarto ósseo, com dor intensa. 
 
A manifestação clínica mais característica é a 
chamada crise álgica ou vaso-oclusiva, em que as 
micro-obstruções vasculares, principalmente no 
interior dos vasos sanguíneos ósseos, levam a 
quadros isquêmicos difusos, com intensa dor e, 
eventualmente, febre baixa. 
As úlceras perimaleolares ocorrem pelas micro-
obstruções vasculares e podem cronificar, pois o 
déficit de perfusão local é mantido. 
As complicações renais mais comuns são 
secundárias a microinfartos renais, com 
hematúria dolorosa por infarto papilar, 
proteinúria e hipertensão (que podem ser 
tratados por uso de inibidores de enzima 
conversora de angiotensina), necrose papilar, 
isquemia parenquimatosa que culmina em 
glomeruloesclerose segmentar e focal, 
insuficiência renal crônica, diabetes insipidus 
nefrogênico e alto risco para carcinoma medular 
renal. 
• Dor torácica aguda 
• Colecistite 
• Síndrome mão-pé 
• Crises álgicas 
• Priapismo 
• Síndrome do quadrante superior direito 
• Sequestro esplênico 
• Artrite 
• Artropatia 
• Necrose asséptica avascular 
• Úlceras nos membros 
• Colapso do corpo vertebral 
Os sinais de anemia hemolítica crônica são 
evidentes, apresentando níveis de Hb em torno 
de 7 (podendo ser mais baixo, principalmente 
nas crises hemolíticas e na associação ao gene 
talassêmico) e reticulócitos entre 3 e 15%. 
• As alterações morfológicas do sangue 
periférico são características, com a presença 
de hemácias “em foice”, reticulocitose, 
eritroblastos circulantes e, quando ocorrer 
autoesplenectomia, presença de corpúsculos 
de Howell-Jolly. 
• As hemácias são normocíticas e 
normocrômicas, exceto quando há alfa ou 
beta-talassemia associada, em que são 
encontradas microcitose e hipocromia. 
• A leucometria de base geralmente está 
elevada, entre 12 e 15.000/mm3, e pode 
acontecer trombocitose (nos asplênicos). Nos 
pacientes com doença falciforme (HbSC, 
beta-S-talassemia), a leucometria é normal, 
e pode haver trombocitopenia (por 
 
 
 
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hiperesplenismo, quando há grande 
esplenomegalia). 
• As bilirrubinas estão elevadas, com evidente 
predomínio da indireta, e pode haver 
elevações crônicas e não severas das enzimas 
hepatocelulares. Elevação da fosfatase 
alcalina, da gama-glutamiltranspeptidase e 
da bilirrubina direta podem ser evidências de 
colestase por cálculos de bilirrubinato. 
A confirmação diagnóstica é feita pela 
eletroforese de Hb, em que se encontram níveis 
de HbS entre 85 e 98% nos indivíduos SS. 
• A associação de outras hemoglobinopatias 
pode reduzir os níveis de HbS, porém a HbA 
estará ausente (exceto na S-alfa-talassemia, 
em que a HbA pode chegar a 70 ou 75%, 
porém sem oferecer proteção alguma contra 
a falcização). 
• Os níveis de HbF são pouco a 
moderadamente elevados, e os casos com 
HbF mais alta costumam ter quadros clínicos 
mais brandos. 
• Exames como o teste de solubilidade da Hb e 
o teste de falcização são excelentes provas 
para triagem, porém estão positivos nos 
indivíduos heterozigotos (traço falciforme), 
que são assintomáticos, não sendo 
importantes para o diagnóstico. 
Para o seguimento clínico dos pacientes com 
anemia falciforme, devem ser realizados exames 
periódicos em que se avalie não só a Hb, mas o 
índice de hemólise (BTF, DHL), a resposta 
medular (reticulócitos) e, anualmente, se 
verifiquem os efeitos sobre órgãos e sistemas 
(avaliação cardiológica, oftalmológica, 
neurológica etc.). 
Não existe tratamento específico para a anemia 
falciforme, apenas de suporte, ou seja, o paciente 
deve fazer acompanhamento periódico