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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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sociais,
também teria contribuído para os estudos das novas teorias da administração, na
verdade as novas teorias demonstrariam o quanto impróprios são os fundamentos
teóricos da burocracia. Articulando a concepção burocrática da organização com a idéia
de postos hierárquicos despersonalizados, típicos em uma “administração em linha”
(Lourenço Filho, 1976, p. 50), o autor afirma que parte razoável do valor funcional da
organização se perde quando a burocracia a domina, levando a uma desrazão do próprio
trabalho desenvolvido pela organização. Por fim, o autor ainda cita os modelos de
Robert King Merton, P. Zelznick, e A. W. Gouldner, a partir da contribuições de March
e Simon, como referências das novas teorias da organização e administração. A
conclusão do autor quanto a esse binômio teorias clássicas/teorias novas é:
Em termos esquemáticos, pode-se dizer que as teorias clássicas centralizavam sua
atenção no processo administrativo formal; nas teorias novas, essa atenção se estende ao
comportamento administrativo. Mas as novas técnicas não invalidam nem substituem as
teorias clássicas, no que apresentam de fundamental. Apenas as enriquecem com novos
elementos que podem levar a metodologia da Organização e Administração a maior
desenvolvimento (Lourenço Filho, 1976, p. 52).
A relação entre essas teorias todas e a escola é o próximo passo do autor,
objetivando articular teoria e prática, ou melhor, articular a explicação dos fenômenos
administrativos com os aspectos da justificação lógica dos procedimentos
administrativos. Uma obra de referência para o autor é a de Jessé Sears5, baseada em
Faiol e que discute “os conceitos de relações humanas e ecologia das organizações,
analisando as questões de responsabilidade social e do poder discricionário, e o valor
compulsório das leis e de certos costumes” (Lourenço Filho, 1976, p. 55).
Demonstrando algumas influências da Escola das Relações Humanas sobre si, Lourenço
Filho se demonstra animado com as idéias da obra citada e vê o diferencial deste estudo
em considerar os impactos que as relações interpessoais têm em uma organização como
a escola, merecendo, portanto, especial consideração, pois haveria neste caso articulação
entre os fundamentos dessas relações e os objetivos do próprio processo educacional,
razão de ser da organização. Ou seja, os elementos que estão relacionados ao objeto da
escola são essencialmente as pessoas (professores e alunos) e isto significa que os
objetivos da organização devem considerar essa qualidade como determinante nos
processos administrativos na escola. E, ainda, destaca que essa característica da escola
produz uma inversão no pensamento administrativo, pelo qual a escola existiria dentro
de uma organização formal, pois antes disto uma organização de fato existe sempre
dentro da escola, de qualquer tipo, com quaisquer parâmetros, mas sempre existe.
É a partir do terceiro capítulo da obra que Lourenço Filho observa a ação mais
cotidiana das pessoas e funções dirigentes na escola. E, no sentido de justificar sua
existência e denominação, o autor apresenta a separação mais tradicional entre o pensar
e o fazer, ou entre as atividades operativas e as não-operativas, em seus termos,
entendendo esta última como aquela voltada ao planejamento, direção, controle, gestão
dos processos escolares em geral. Isto é, na escola há um conjunto de atividades não-
operativas para as quais há a demanda de alocação de pessoal voltado, portanto, à
condução dos trabalhos escolares (Lourenço Filho, 1976, p. 64). Trabalhos escolares
esses que, para o autor, são classificados de “serviços” (Lourenço Filho, 1976, p. 65),
em contraposição à produção de trabalhos voltados à produção de bens materiais. E,
reforçando aquela idéia clássica, o autor entende como atual (a seu tempo) a distinção
entre ação administrativa e ação operativa, pois na escola há tarefas vinculadas ao
trabalho de sala de aula que são essencialmente operativas e todos os outros trabalhos
poderiam ser qualificados como de “feição administrativa”. A despeito de o autor
reforçar que esta distinção é apenas esquemática, pois há partes operativas no trabalho
administrativo e parte dirigente no trabalho operativo, e de também chamar a atenção do
leitor para a necessidade de os dirigentes escolares nunca perderem de vista a razão
pedagógica da escola, a marca deste pensamento é forte na separação entre o pensar e o
fazer, entre o dirigir e o executar, bem de acordo com as matrizes teóricas citadas pelo
próprio autor, as quais, mesmo que parcialmente, reproduzem no ambiente escolar o
raciocínio administrativo da empresa produtiva, da indústria e de organizações do
serviço público em geral, deixando de compreender os eixos autênticos e autônomos
sobre os quais se edificam a instituição escolar.
Para Lourenço Filho, as pessoas sobre as quais se concentram as atividades
administrativas são os alunos, os professores, os diretores e os dirigentes do sistema de
ensino. E, seguindo aquela ordem ascendente, os dirigentes do sistema de ensino estão
hierarquicamente acima dos diretores, que estão acima dos professores, que estão acima
dos alunos. É curioso que o autor não se preocupe com os familiares dos alunos e com
os demais trabalhadores não-docentes da escola, possivelmente porque para ele aqueles
sujeitos concentram as atividades essenciais do fazer escolar. De qualquer forma, o
 
5 Jessé Sears. A natureza do processo administrativo: com especial referência a Administração de
Escolas Públicas. Publicada em 1950 nos EUA.
conjunto de situações concretas que envolvem essas pessoas sobre as quais a
organização e gestão escolar se debruçam cotidianamente implica sempre na idéia de ter
opções, isto é, administração significa ter opção, pois nas situações nas quais não haja
vários caminhos possíveis, não se requer tomar decisões, não é necessário procurar
definir e agir com mais eficiência, não havendo assim ação administrativa (Lourenço
Filho, 1976, p. 69). E, em um contexto de opções, as atividades fundamentais do
dirigente escolar estão, segundo o autor, em:
a) Coligir informações sobre a situação problemática, tal como realmente se apresente;
b) Decidir no sentido de modificar esse estado de coisas, a fim de que os objetivos
assentados possam ser obtidos com a eficiência desejada.
As tarefas fundamentais do organizador e administrador resumem-se (...) em duas
apenas (...): informar-se e decidir. (Lourenço Filho, 1976, p. 70).
Mas, informar-se e decidir para quais objetivos? Essa é para o autor a questão
central de todo o processo de organização e gestão escolar. Agrega-se a esta pergunta,
as outras questões de referência básica: onde, quando, com quem e com que, pois
“qualificam a própria situação do administrador, sua esfera de responsabilidade e
nível de autoridade. Esses pontos constituem elementos metodológicos, (...), para o
conveniente relacionamento dela com os da ação operativa” (Lourenço Filho, 1976, p.
71). Após essas questões básicas, os procedimentos administrativos passarão a
confrontar as respostas a essas questões com os processos de acompanhamento da
execução e controle das situações concretas cotidianas da escola. De todo jeito, essas
questões (e suas respostas) se encontram àquelas duas tarefas fundamentais da
organização e administração, as quais se combinam, nas diferentes fases do trabalho
dirigente, nas formas de “planejar e programar, dirigir e coordenar, verificar e
apreciar o trabalho feito” (Lourenço Filho, 1976, p. 71).
As tarefas e questões básicas do trabalho administrativo se resumem em
esquema que o autor assim apresenta: a) reconhecimento de um problema; b) análise da
dimensão deste problema em um plano/planejamento; c) coordenação das ações deste
plano, com vistas à solução do problema; d) verificação dos

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