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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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Um dos primeiros trabalhos produzidos no Brasil sobre a administração escolar é
de autoria de Antônio Carneiro Leão, de 1939. A edição que esta pesquisa apresenta é a
terceira, de 1953, mais compacta que as anteriores. Sem dúvida, trata-se de obra muito
importante sobre a administração escolar no país não apenas por ter sido o primeiro
esforço de sistematização na área, mas porque foi, por muito tempo, um dos mais
citados referenciais para o estudo da administração escolar e da educação comparada,
campos que por muito tempo atuaram próximos um do outro. E esta proximidade é a
marca do trabalho de Leão, na medida em que procura articular os conceitos e exemplos
da administração escolar nos diferentes países e sistemas de ensino, mundo afora. Trata-
se, portanto, de um trabalho de administração escolar comparada1.
A tônica do texto é a apresentação de uma organização de um sistema de ensino,
na qual as funções, deveres e relações hierárquicas são bastante explícitas. Assim o
texto passa pelas figuras do diretor de educação, superintendente de escolas, etc., até
chegar no diretor de escola, o qual deve ser sempre um professor na visão de Leão,
com o conhecimento da política educacional de seu povo e dos deveres de
administrador. (...) [O diretor] defende a política de educação estabelecida, interpreta-a,
realiza-a em sua esfera com inteligência e lealdade. (...) Sua ação não se limita, porém,
à administração, ela é também de orientação ou de cooperação como o orientador. Em
qualquer dos casos é preciosa e indispensável. (...) É então o coordenador de todas as
peças da máquina que dirige, o líder de seus companheiros de trabalho, o galvanizador
de uma comunhão de esforços e de ações em prol da obra educacional da comunidade
(Leão, 1953, pp. 107-109).
Esta concepção de diretor como defensor da política educacional corresponde à
idéia, hegemônica à época, de que o dirigente escolar é antes de tudo, antes mesmo de
suas funções de educador, um representante oficial do Estado, através do seu papel de
chefe de uma repartição oficial, que é a escola pública e, como tal, teria o dever de se
comprometer com os rumos políticos da administração governamental, a qual, muito
possivelmente, fora responsável pela sua indicação para assumir tal cargo. Isso tem
conseqüências em vários aspectos relacionados à concepção acerca das tarefas do
 
1 O livro é organizado em cinco capítulos, o primeiro trata da organização e administração, o segundo
voltado a apresentar uma introdução à técnica da administração escolar, o terceiro fala da inspeção e
orientação, o quarto trata da flexibilidade dos cursos e o quinto e último capítulo se dedica a falar sobre a
articulação de cursos. Os conteúdos do segundo capítulo são os que mais interessam a este esforço de
dirigente escolar e da administração escolar e, especialmente, na definição dos objetivos
da própria escola. Todavia, isso não é característica apenas deste autor. Mais adiante,
pode ser observado que os autores da época trabalhavam com idéias próximas a essa,
compreendendo que a hierarquia do serviço público precede a constituição de ações
educacionais e organizativas mais democráticas.
No período da educação brasileira no qual Leão escreve seu livro havia grande
necessidade de profissionalização e cientificidade e este era o reclame presente no
discurso dos principais intelectuais, isto é, a escola tradicional que imperava no início
do século XX precisava, ao ver desses autores, ser superada e a melhor forma para fazê-
lo articulava a ampliação do atendimento educacional para a população com a
profissionalização dos quadros docentes, sob a tutela do estado. Ora, para uma desejada
escola para todos, havia a demanda da intervenção direta do poder público na sua
condução, com vistas àqueles fins, daí que a identificação do diretor escolar com o
papel de representação imediata da administração pública ser condizente com tal
necessidade.
O texto de Leão é muito dedicado à praticidade didática, sendo voltado a
apresentar ao leitor alternativas no ensino da área da administração escolar. Quando
apresenta, por exemplo, um curso para aperfeiçoamento de diretores escolares,
identifica de pronto a necessidade de se compreender o diretor como o administrador
escolar, ou mais, sugere que a gestão escolar se resume na figura do diretor e, mesmo
que ele fosse auxiliado por outras pessoas, parece que o autor confunde direção e
administração escolar, ou seja, o processo de identificação de problemas, de
planejamento, de tomada de decisões, de acompanhamento e controle e avaliação das
ações escolares é todo ele centrado na figura do diretor: “A primeira necessidade de um
diretor é saber prever, planejar e organizar. Depois de planejar vêm os problemas da
organização, avaliação de funções, terminação de plano, execução de plano” (Leão,
1953, p. 135). Neste sentido, processo e responsável parecem se tornar uma só coisa. E
isto é reforçado com a ênfase dada ao sujeito que responde pela direção escolar: “o
diretor é a alma da escola. Diz-me quem é o diretor que te direi o que vale a escola”
(Leão, 1953, p. 134). Este diretor teria as funções de “administrador do edifício da
escola; responsável pela escolha e fornecimento de material, pela higiene escolar e
infantil, pelas relações sociais com a escola, pela observação e interpretação do
 
apresentar o pensamento das principais escolas da administração/gestão escolar e sobre eles se detém na
seqüência.
ambiente escolar” (Leão, 1953, p. 135), dentre outros aspectos. Mas, os aspectos de
natureza mais pedagógica parecem ter uma importância reduzida na concepção do autor.
Contudo, ele identifica a função dirigente como um desenvolvimento histórico da
função de ensinar e, além disto, parece ser o primeiro autor brasileiro a colocar um
problema que parece quase intrínseco à função do dirigente que diz respeito à aparente
contradição entre as funções mais administrativas, stricto sensu, e as funções mais
pedagógicas. Esta preocupação aparece quando o autor sugere uma pequena lista dos
objetivos da administração escolar:
1º.) Estabelecer uma finalidade precisa ao professor.
2º.) Traçar condições seguras e justas para admissão, promoção e graduação dos
programas.
3º.) Tornar possível a construção de objetivos definidos.
4º.) Assegurar melhor classificação de alunos.
5º.) Assegurar melhor coordenação entre os professores.
6º.) Estabelecer um uso mais econômico de tempo do professor e do aluno.
7º.) Buscar condições para realizar uma educação mais econômica e mais eficiente
(Leão, 1953, p. 138).
Chama a atenção a preocupação, que irá surgir novamente mais adiante em
textos de Anísio Teixeira, constante no trabalho de Leão, quanto à imperatividade de o
dirigente escolar se colocar a serviço do professor, do aluno, portanto, do processo
educativo. O que reforça aquela aparente contradição, pois o autor reconhece que a
razão de ser da instituição escolar e dos seus administradores está no processo educativo
que se desenrola entre os professores e os alunos, mas, ainda assim, o legado
administrativo que tem o diretor escolar é muito forte na visão do autor. Ou seja, é
curioso que as preocupações de Leão com os processos administrativos sejam
prioritárias, uma vez que ele reconhece a razão pedagógica da origem e constituição da
função. Uma hipótese que pode auxiliar a explicar tal postura é a de que, para o autor, a
origem da função do diretor escolar é pedagógica, como de resto é todo o objetivo do
seu trabalho, todavia, para buscar tais objetivos, o diretor opera no campo
administrativo e de representação política do poder instituído. Vale dizer, para Leão, o
papel pedagógico do diretor está justamente

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