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A Escola não é uma Empresa - Christian Laval

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Sobre A escola não é uma empresa
Afrânio Catani
A escola não é uma empresa, de Christian Laval, parte da constatação de
que a contradição da escola neoliberal se deve ao fato de que nenhuma
sociedade é capaz de funcionar se o vínculo social se resume às “águas
geladas do cálculo egoísta”.
Publicado originalmente na França em 2003, o livro, que reaparece
com prefácio inédito para a nova edição brasileira, ainda é bem atual. O
autor vale-se de um conjunto de documentos oficiais sobre educação de
entidades como a Comissão da Comunidade Europeia, a Organização de
Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Banco Mundial
e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de vasta
bibliografia sobre a política educacional francesa e de outros países. A
partir disso, Laval monta um “arcabouço de inteligibilidade”, mostrando
como os promotores do neoliberalismo escolar operam por meio de uma
estratégia incremental que promove mudanças no sistema de ensino com
medidas isoladas em zonas específicas que só ganham sentido se
relacionadas umas às outras. A educação vai deixando de ser um bem
comum, público, e adquire cada vez mais o caráter de mercadoria, de bem
privado comercializável, sofrendo os condicionamentos da lógica
empresarial em termos de gestão e de resultados.
Nessa nova lógica, devem ser usadas as ferramentas da “gestão
participativa”, em que o eufemismo dá o tom: o poder se tornou
“pilotagem”; comando é “mobilização”; autoridade é “suporte”;
supervisionar é “ajudar”; impor é “convencer”; dirigir não é mais comandar,
mas “motivar”, “exercer liderança”, “animar” e, sobretudo, “educar”. O
gestor é “um piloto que deve obter a adesão a um projeto”. A Inglaterra de
Tony Blair, por exemplo, implantou uma reforma que trata os pais dos
alunos como consumidores, adota “sanções eficazes contra os maus
professores, inclusive demissão”, e vê os diretores como “o principal fator
de êxito da escola”.
A escola não é uma empresa é antídoto eficaz contra a visão gerencialista
que entende tal instituição como instância capaz de fornecer formação
reduzida a objetivos apenas profissionais. O livro de Laval encantará os
leitores que entendem a escola como dotada de função antropológica e
histórica, condenando, assim, as concepções que a reduzem à mera razão
instrumental.
Sobre A escola não é uma empresa
“Christian Laval é reconhecido como um teórico exigente e um aguerrido
militante contra a globalização liberal da educação e as tentativas de
mercantilização do ensino, […] submetido a crescentes pressões pela concorrência,
pela competitividade e pela rentabilidade.”
– Folha de S. Paulo
Com a difusão do pensamento neoliberal, a educação tem sido
assediada pela ideologia da gestão e da eficiência econômica. Sob o lema da
“inovação” e da “modernização”, busca-se adequar a escola aos moldes
empresariais e tratar pais e estudantes como consumidores. A avaliação é
reduzida a critérios quantitativos, e a função de transmitir a cultura e
formar valores comuns dá lugar ao ensino de competências e habilidades
ao futuro profissional.
A contundente análise das mudanças na educação na França
apresentada em A escola não é uma empresa ilumina também o avanço do
neoliberalismo escolar no Brasil, visto, por exemplo, nas provas
padronizadas, nas políticas de bonificação por desempenho docente e nos
subsídios ao setor privado. Ataques como a reforma do ensino médio e os
cortes no orçamento mostram que é preciso, mais que nunca, resistir à
transformação da educação em mercadoria.
Sobre o autor
Christian Laval é professor de sociologia da Universidade Paris-Ouest
Nanterre-La Défense. É autor de L’Homme économique: Essai sur les racines du
néoliberalisme (Gallimard, 2007) e L’Ambition sociologique (Gallimard, 2012),
e coautor, com Pierre Dardot, de Marx, prénom: Karl (Gallimard, 2012), A
nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Boitempo, 2016) e
Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI (Boitempo, 2017).
SUMÁRIO
Prefácio à segunda edição brasileira
Introdução
I A PRODUÇÃO DE “CAPITAL HUMANO” A SERVIÇO DA EMPRESA
1 Novo capitalismo e educação
2 O conhecimento como fator de produção
3 O novo idioma da escola
4 A ideologia da profissionalização
II A ESCOLA SOB O DOGMA DO MERCADO
5 A grande onda neoliberal
6 O grande mercado da educação
7 A colonização mercadológica da educação
8 A mercadização da escola e seus efeitos segregadores
III PODER E GESTÃO NA ESCOLA NEOLIBERAL
9 A “modernização” da escola
10 Descentralização, poderes e desigualdades
11 A nova “gestão educacional”
12 As contradições da escola neoliberal
Conclusão
Ministros da Educação Nacional (Quinta República Francesa, 1959-2004)
Referências bibliográficas
NOTA DA TRADUÇÃO
Nesta obra, adotamos a nomenclatura do sistema escolar brasileiro para
simplificar as correspondências entre os níveis de ensino na França e no
Brasil. Assim, préscolaire, élémentaire, collège e lycée foram traduzidos,
respectivamente, por educação infantil, ensino fundamental 1, ensino
fundamental 2 e ensino médio. École primaire foi traduzido por educação
infantil e ensino fundamental 1, e école secondaire, por ensino fundamental 2
e médio.
PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO BRASILEIRA
Este livro tem história. Foi publicado pela primeira vez na França, em
2003. E foi recebido com grande satisfação por muitos leitores, porque
finalmente lhes proporcionava um quadro global de análise para
compreender transformações parciais, localizadas, em geral insidiosas e
discretas, que eram vistas com muita dor por professores, alunos e pais,
mas não possuíam uma caracterização sociológica e política clara. No início
dos anos 2000, era importante mostrar a coerência, o caráter sistêmico e o
significado histórico dessas transformações. Era preciso dizer que o que
estava acontecendo tinha um nome, seguia um conceito: o neoliberalismo
escolar. Apesar das ressalvas no início, especialmente da parte dos principais
sindicatos de professores, esta análise foi encampada por uma parte ampla
do mundo docente e contribuiu para que certas mudanças por que outros
países estavam passando fossem objeto de uma poderosa contestação.
É uma grande e, talvez, rara felicidade para um autor constatar que um
livro pode contribuir para a conscientização e ter um efeito político de
longo prazo. A introdução do financiamento por publicidade ou patrocínio
de atividades escolares permaneceu restrita, e ainda hoje na França há uma
forte resistência ao aumento das taxas de matrícula nas universidades. Isso
não significa que essa última transformação não acabará acontecendo: os
sucessivos governos continuam a favorecer as universidades particulares, a
atribuir estatutos derrogatórios a algumas universidades públicas e, ainda,
como foi decidido no fim de 2018, a aumentar consideravelmente as taxas
de matrícula para os estudantes estrangeiros.
A resistência já era visível no momento em que este livro estava sendo
escrito. Vinha de uma estratégia “incremental”, pensada como tal pelos
promotores do neoliberalismo escolar: consiste em mudar o funcionamento
do sistema educacional por meio de medidas isoladas, que atingem zonas
específicas do sistema, de modo que só adquirem sentido quando são
relacionadas umas com as outras. Se A escola não é uma empresa pôde servir
de alerta e contribuir com certo peso na luta em defesa da escola pública e
democrática na França, foi porque ousou fazer um diagnóstico de conjunto
a partir de medidas e mudanças que até aquele momento não haviam sido
interligadas umas às outras.
Um quadro global e um saber engajado
O trabalho do sociólogo não consiste apenas em fazer análises empíricas
pontuais em campos muito específicos, ou microcampos, segundo certa
tendência hiperempiricista e às vezes abertamente antiteórica que
infelizmente se tem observado nessa disciplina, mas construir a partir de
pesquisas empíricas um arcabouço de inteligibilidade que permita a