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Anállise caso Herzog

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Análise jurídica – Caso Herzog x Normas Internacionais
1. Síntese dos fatos
Naturalizado brasileiro, Vladimir Herzog foi uma das mais comentadas vítimas da Ditadura Militar Brasileira (1964 – 1985), existindo, inclusive, repercussão e responsabilização internacional do Estado Brasileiro.
Foi jornalista, professor e cineasta, chegando a ser contratado pela BBC para atuar em Londres – Inglaterra. No cenário brasileiro, destacou-se ao assumir o cargo de secretário da Cultura de São Paulo, dirigindo o “Tv Cultura”, fato que provou oposição do partido Arena, sendo inclusive realizado um procedimento administrativo na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Tal cenário fez com que o jornalista fosse convocado, em 24 de outubro de 1975, pelo II Exército para prestar depoimento sobre supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Após comparecer espontaneamente, no dia seguinte, ao prédio do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-CODI, foi vítima de tortura e nunca mais foi visto. Ainda, em tentativa de esconder a realidade dos fatos, foi divulgada uma foto que insinuava seu suicídio nos porões do DOI-CODI, que é famosa até hoje. 
A morte do jornalista gerou grande repercussão, expondo a crueldade do regime militar. Houve manifestações populares, em especial de estudantes, bem como um culto ecumênico especial, chegando a mobilizar inclusive o empresariado paulista. Foi o início do processo que culminaria na redemocratização brasileira.
Foi, ainda, a primeira vez, durante a ditadura, em que se contestou a versão oficial do Exército de suicídio, em um período marcado pela censura e pela repressão, com o envio de um manifesto “em nome da verdade” à Justiça Militar, em janeiro de 1976, reclamando a elucidação dos fatos. Como consequência, em 1978 (ainda durante a ditadura), a Justiça Brasileira condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu seu assassinato, mas sua certidão de óbito somente foi retificada 15 anos depois.
Ainda, em 2009, foi instaurado um procedimento internacional na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) à requerimento do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), que culminou em sua apresentação à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Tal procedimento resultou em responsabilização do Estado Brasileiro, reconhecendo a violação do direito de informação dos familiares bem como apontando a não responsabilização dos responsáveis, em desatenção à Convenção Americana de Direitos Humanos.
2. A influência e aplicação das Normas de Direito Internacional no Sistema Jurídico Brasileiro.
Inicialmente, há de se destacar que as Normas de Direito Internacional, constituídas principalmente por tratados internacionais (como a Convenção de São José da Costa Rica, ou Convenção Americana de Direitos Humanos), objetivam o alcance de um bem jurídico, estabelecendo direitos e deveres dos signatários (aqueles que a ratificam de forma expressa).
Com relação a influência destas normas no Direito Interno Brasileiro, há de se apontar a visão internacional e a visão nacional, perceptível em suas respectivas jurisprudências. A primeira entende que a Norma Internacional prevalecerá sobre a de Direito Interno, posto que aplicável no sistema internacional, enquanto a segunda subdivide-se nas teorias da Transformação e da Adoção.
A Teoria da Transformação entende que a os tratados internacionais dependeriam de sua “transformação” em norma interna, por meio da edição de diploma legal específico. Ainda, estes passariam a integrar o direito interno, sujeitando-se às mesmas regras da lei infraconstitucional quando à vigência e revogação.
Já a Teoria da Adoção entende que a sua incorporação ao Direito Interno seria automática, sem a necessidade de novo processo legislativo e mantendo a qualidade de tratado internacional. Nota-se que suas regras de vigência seriam somente aquelas específicas de tratados, sem sujeição às normas internas.
A doutrina majoritária defende esta segunda teoria, baseando-se, essencialmente, no art. 5°, §2° da CF, que defini a vigência dos tratados como tal e não como lei interna, com exceção daqueles aprovados em votação dupla em cada casa do Congresso Nacional, por 3/5 dos votos, que terão equivalência à Emenda Constitucional (§3° do mesmo artigo).
Cumpre também salientar que tal posicionamento vai de encontro aos princípios de "igualdade entre os Estados", "defesa da paz", "solução pacífica dos conflitos" e "cooperação entre os povos para o progresso da humanidade", contemplado no art. 4° da CF.
Resumidamente, as normas internacionais, em especial as estabelecidas na Convenção Americana de Direitos Humanos e outras sobre a mesma matéria, possuem prevalência sobre as normas internas brasileiras, desde que não contrariem a Constituição Federal.
3. A análise jurídica
Inicialmente, cumpre apontar que a Convenção Americana de Direitos Humanos foi ratificada em 1969, quando ingressou o Sistema Jurídico Brasileiro, instituindo ao Estado o dever de respeitar os direitos e liberdades de toda e qualquer pessoa.
Tal pacto foi especialmente emblemático por reconhecer garantias fundamentais, como o direito à vida, à integridade pessoal, à liberdade e a proteção da honra e da dignidade, bem como impor aos signatários garantias judiciais essenciais como o Acesso à Justiça. 
Ele tem base na Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual compreende o ideal do ser humano livre, isento do temor e da miséria e sob condições que lhe permitam gozar dos seus direitos econômicos, sociais e culturais, bem como dos seus direitos civis e políticos.
Importante, em atenção ao anteriormente exposto, salientar o dever do Estado Brasileiro de respeitar os direitos e garantias contemplados, inclusive com a elaboração dos adequados diplomas legais sob pena de sanção pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (então constituída). Ainda, entende-se que também assumiu o dever de investigar de ofício qualquer caso de tortura relatado, conforme será mais bem explanado.
A Convenção influenciou notoriamente o Direito Interno ao impor deveres ao Estado (de resguardo das garantias retratadas), sendo eles, a adequação normativa e a necessidade de investigação e diligência, entre outros. Ainda, instituiu inclusive um órgão competente de averiguação da conduta dos estados, como força sancionadora da norma internacional, pela qual o Estado foi, posteriormente, sancionado.
Pois bem, considerando a posição legal das tratados internacionais, ocupando posição semelhante à Constituição Federal, seu conteúdo gera obrigações formais e materiais aos Estados Signatários. De forma específica, ao assinar o Pacto de San José da Costa Rica, o Brasil comprometeu-se a “respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que está sujeita à sua jurisdição, sem qualquer discriminação”, sob pena de sanção internacional.
Nota-se que, essencialmente, o Estado Brasileiro submeteu-se à legislação internacional, que também possuí força coercitiva, comprometendo-se a adequar sua legislação (caracterizada como uma obrigação formal), bem como a assegurar os direitos na esfera subjetiva, qual seja, nas relações públicas e privadas, usando do poder de polícia para tanto (nota-se uma obrigação material neste aspecto.
Deve-se afastar-se um pouco do contexto discutido para demonstrar a necessidade de adequação interna aos Tratados Internacionais, especialmente quando versarem sobre Direitos Humanos. O mesmo Pacto de San José motivou, internamente, o estudo da prisão civil, motivada por dívida, sob a óbice dos direitos ali reconhecimentos, provocando a alteração legislativa. 
Retomando a análise, outro aspecto interessante, ainda mais quando analisado sob o estado de exceção então vigente, é que apesar de o Estado Brasileiro ter sido assinado ainda em 1969, este somente foi ratificado na ordem interna em 1992, após a redemocratização.
Importante