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Desconsideração da Personalidade Jurídica

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RESENHA CRÍTICA 
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 
 
A sociedade limitada se estabelece quando duas ou mais pessoas se unem com o intuito de 
criar uma sociedade empresária dividida por cotas e amparada por um contrato social, o qual deverá 
ser registrado na Junta Comercial do estado para sua regularização. 
Nessa modalidade de sociedade, a responsabilidade dos sócios limita-se as quotas-parte 
de cada um. Todavia, de acordo com o artigo 1.024 do Código Civil brasileiro, a 
responsabilidade do sócio da empresa pelas dívidas da sociedade é subsidiária, ou seja, os bens 
particulares dos sócios que compõem a sociedade somente poderão ser executados depois da 
execução dos bens sociais. Ou seja, em primeiro lugar serão buscados os bens da empresa e, 
somente depois, serão perseguidos os bens pessoais de cada sócio. 
Segundo Fábio Ulhoa Coelho: 
 “Se o patrimônio social não for suficiente para integral pagamento dos 
credores da sociedade, o saldo passivo poderá ser reclamado dos sócios, em 
algumas sociedades, de forma ilimitada, ou seja, os credores poderão saciar 
seus créditos até a total satisfação, enquanto suportarem os patrimônios 
particulares de cada sócio. Em outras sociedades, os credores somente 
poderão alcançar dos patrimônios particulares um determinado limite, além 
do qual o respectivo saldo será perda que deverão suportar. Em um terceiro 
grupo de sociedades, alguns dos sócios têm responsabilidade ilimitada e 
outros não.”1 
No caso da sociedade limitada, o Código Civil de 2002 normatizou conduta que já vinha 
sendo adotada pela jurisprudência, de desconsiderar a personalidade jurídica, a fim de imputar aos 
sócios ou administradores a responsabilidade pelo ato ilícito praticado pela empresa. Ou seja, os 
bens particulares dos sócios que concorreram para a prática do ato respondem pela reparação dos 
danos provocados pela sociedade. Os sócios da sociedade limitada, portanto, responderão com 
seu patrimônio, se os bens da sociedade não forem suficientes para repararem o dano cometido. 
Pois bem, quando se verifica ocorrência de fraude ou abuso na utilização da pessoa 
jurídica, a responsabilidade subsidiaria se transforma em solidária e os bens particulares de 
 
1 COELHO, Fabio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 117. 
 
 
cada sócio irão responder pelas obrigações da pessoa jurídica, sendo, assim, desconsiderada a 
personalidade jurídica, nos termos do artigo 50 do Código Civil. 
Nos termos da doutrina de Fábio Ulhoa Coelho: 
 “A desconsideração é instrumento de coibição do mau uso da pessoa jurídica; 
pressupõe, portanto, o mau uso. O credor da Sociedade que pretende a sua 
desconsideração deverá fazer prova da fraude perpetrada, caso contrário 
suportará o dano da insolvência da devedora. Se a autonomia patrimonial não 
foi utilizada indevidamente, não há fundamento para a desconsideração.”2 
O fato do incidente de desconsideração da personalidade jurídica ter sido disciplinado 
pelo Código de Processo Civil entre as intervenções de terceiro cabíveis no procedimento civil 
comum não exclui sua aplicação aos procedimentos especiais à execução forçada. Tampouco 
afasta de seu alcance dos processos da Justiça do Trabalho, tendo em vista a inexistência de 
procedimento para a matéria na legislação especial trabalhista, havendo de ser aplicada 
subsidiariamente o processo civil vigente e, também, tal procedimento mantém a garantia 
fundamental do contraditório e da ampla defesa estipulados na Constituição Federal em seu 
artigo 5º, incisos LIV e LV. 
Vejamos o entendimento dos Tribunais: 
“AgInt no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1580544 - RJ 
(2019/0269127-5) DECISÃO Trata-se de agravo interno interposto por 
MARCOS BARBIEUX LOPES contra a decisão de fls. 216-217 (e-STJ), da 
Presidência desta Corte, que não conheceu do agravo em recurso especial, 
com base no art. 21-E, inciso V, do Regimento Interno do Superior Tribunal 
de Justiça, haja vista a ausência de impugnação a todos os fundamentos da 
decisão agravada. (...) Trata-se de agravo contra decisão que não admitiu 
recurso especial interposto por Marcos Barbieux Lopes, com base no art. 
105, III, a e c, da Constituição Federal, desafiando acórdão do Tribunal de 
Justiça do Estado do Rio de Janeiro assim ementado (e-STJ, fls. 58-59): 
AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO DE TÍTULO 
EXTRAJUDICIAL. DECISÃO QUE DEFERIU O PEDIDO DE 
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA DA 
EMPRESA RÉ. (...)TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA 
PERSONALIDADE JURÍDICA POSITIVADA NO ARTIGO 50 DO 
 
2 COELHO, Fabio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 127. 
 
 
CÓDIGO CIVIL. (...) DECISÃO QUE DEFERIU O PEDIDO DE 
DESCONSIDERAÇÃO DAPERSONALIDADE JURÍDICA DA 
EMPRESA. MEDIDA EXCEPCIONAL. DESVIO DE FINALIDADE 
OU CONFUSÃO PATRIMONIAL, COMO NO CASO EM EXAME. 
FORMAÇÃO DE GRUPO ECONÔMICO. MANUTENÇÃO DA 
DECISÃO AGRAVADA, POIS PRESENTES OS ELEMENTOS 
MÍNIMOS DE CONFUSÃO PATRIMONIAL ENTRE SÓCIO E AS 
EMPRESAS JURÍDICAS EM PREJUÍZO AO EXEQUENTE, ALÉM 
DE GESTÃO COMUM DAS EMPRESAS. DESPROVIMENTO DO 
RECURSO. (...) APLICAÇÃO NO NCPC. PRECEDENTES. 
RECONHECIMENTO DO ABUSO NA UTILIZAÇÃO DA 
PERSONALIDADE JURÍDICADA EMPRESA QUE DEVE SER 
CONCEDIDA PARA AQUELE CASO ESPECÍFICO, QUANDO HÁ 
DESVIO DE FINALIDADE OU PELA CONFUSÃO PATRIMONIAL, 
COMO NO CASO DOS AUTOS. PROVAS DOS AUTOS QUE 
EVIDENCIAM CONFUSÃO PATRIMONIAL. FORMAÇÃO DE 
GRUPO ECONÔMICO. MANUTENÇÃO DA DECISÃO AGRAVADA, 
POIS PRESENTES OS ELEMENTOS MÍNIMOS DE CONFUSÃO 
PATRIMONIAL ENTRE SÓCIO E AS EMPRESAS JURÍDICAS EM 
PREJUÍZO AO EXEQUENTE, ALÉM DE GESTÃO COMUM DAS 
EMPRESAS. DESPROVIMENTO DO RECURSO. EXECUTADA, 
CARACTERIZADO PELA CONFUSÃO PATRIMONIAL, O QUE 
AFASTA A NECESSIDADE DE APRECIAÇÃO DA EXISTÊNCIA OU 
NÃO DE BENS PASSÍVEIS DE PENHORA. BENS INDICADOS QUE 
NÃO ATENDEM A ORDEM DE PREFERÊNCIA DO ARTIGO 835 DO 
CPC. BENS DE DIFÍCIL ALIENAÇÃO. DESCABIMENTO DOS 
EMBARGOS DECLARATÓRIOS COM FUNDAMENTO NO VOTO 
DIVERGENTE. MATÉRIA DECIDIDA DE FORMA CLARA E 
EXAUSTIVA. ACÓRDÃO QUE NÃO CONTÉM QUALQUER VÍCIO 
ENSEJADOR DO PRESENTE RECURSO. INEXISTÊNCIA DE 
QUALQUER DAS HIPÓTESES PREVISTAS NO ARTIGO 1.022 DO 
NCPC. PREQUESTIONAMENTO. JULGADO QUE ABRANGEU 
TODAS AS TESES E NORMAS JURÍDICAS. EMBARGANTES QUE 
OBJETIVAM A MODIFICAÇÃO E O REEXAME DO JULGADO. 
REJEIÇÃO DOS ACLARATÓRIOS. Em suas razões de recurso especial (e-
STJ, fls. 104-110), o agravante alegou violação ao art. 50 do Código Civil 
de 2002 , bem como a existência de dissídio jurisprudencial. Sustentou, em 
 
 
síntese, que a desconsideração da personalidade jurídica necessita da 
comprovação de fraude praticada de forma dolosa pelo sócio. (...) Sobre 
o tema de fundo, esta Corte adotou orientação no sentido de que, nas 
relações jurídicas de natureza civil-empresarial, o legislador pátrio 
adotou a teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica, 
segundo a qual é exigida a demonstração da ocorrência de algum dos 
elementos objetivos caracterizadores de abuso da personalidade 
jurídica, tais como o desvio de finalidade (caracterizado pelo ato 
intencional dos sócios em fraudar terceiros com o uso abusivo da 
personalidade jurídica) ou a confusão patrimonial (configurada pela 
inexistência, no campo dos fatos, de separação patrimonial entre o 
patrimônio da pessoa jurídica e os bens particulares dos sócios ou, 
ainda, dos haveres de diversas pessoas jurídicas). A respeito do tema, 
destaca-se o seguinte precedente da Segunda Seção deste Tribunal Superior: 
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. ARTIGO 50, DO CC. 
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA. 
REQUISITOS. ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES OU 
DISSOLUÇÃO IRREGULARES DA SOCIEDADE. INSUFICIÊNCIA. 
DESVIO DE FINALIDADE OU CONFUSÃO PATRIMONIAL. DOLO. 
NECESSIDADE. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. ACOLHIMENTO. 
1. A criação teórica da pessoa jurídica foi avanço que permitiu o 
desenvolvimento da atividade econômica, ensejando

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