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DO INQUÉRITO POLICIAL E DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL PROMOVIDA PELO

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DO INQUÉRITO POLICIAL E DA INVESTIGAÇÃO CRIMINAL PROMOVIDA PELO 
MINISTÉRIO PÚBLICO 
 
 
ROGÉRIO TADEU ROMANO 
Procurador Regional da República 
 
 
I – CONCEITO DE INQUÉRITO POLICIAL. CONSIDERAÇÕES INICIAIS 
 
O inquérito policial é um procedimento preparatório da ação penal, de caráter 
administrativo, conduzido pela Polícia Judiciária e voltado a colheita preliminar de provas para 
apurar a prática de uma infração penal e sua autoria. 
Não se trata, pois, de processo, instrumento, que é voltado a prestação judicial 
do Estado diante de uma ação ajuizada. Trata-se de um procedimento. Como tal, por não ser 
processo, não se faz presente o princípio da publicidade, que é próprio dos processos, assim 
como outros princípios balizares como o da ampla defesa e do contraditório, que são garantias 
norteadoras de um Estado Democrático de Direito. 
Seu objetivo é a formação da convicção do representante do Ministério Público, 
titular da ação penal pública, ou a vítima, nas ações penais privadas, e ainda a colheita de 
provas urgentes necessárias ao esclarecimento dos fatos investigados. 
Sendo assim o inquérito é o conjunto de diligências realizadas pela polícia 
judiciária, para apuração de uma infração penal e sua autoria, para que o titular da ação penal, 
seja pública ou privada, possa fazer um juízo de valor sobre ele, pedindo a aplicação da lei. 
É, portanto, o inquérito policial uma peça investigatória que é preparatória da 
ação penal. 
O inquérito é procedimento preparatório formador da opinião do titular da ação 
penal. Pode ele aceitar ou não as conclusões trazidas por ele. 
É o inquérito um procedimento facultativo e dispensável para o exercício da 
ação penal. 
Avulta o seu caráter inquisitivo. 
Por sinal, NORONHA
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 traz à colação o fato de que o inquérito tem graves 
desvantagens, reduzindo a justiça quase à função de repetidor de seus atos. Porém, reconhecem-
 
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 NORONHA, E. Magalhães. Curso de Direito Processual Penal, São Paulo, Saraiva, 1978, pág. 23. 
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se vantagens, como impedir a formação precipitada de convicção pelo juiz, quando o fato ainda 
pode estar envolto em paixões, ódios, que perturbariam a um sereno entendimento. 
Como procedimento não tem o inquérito, peça escrita, um rito pré-estabelecido, 
devendo nele serem realizadas diligências, como oitiva da vítima, da pessoa apontada como 
autor do fato, de testemunhas, perícias, acareações, dentro da discricionariedade que é dada ao 
presidente do procedimento de caráter administrativo, o delegado de polícia. 
Sendo colheita de provas, em hipótese alguma, se pode negar acesso ao 
advogado, que tem direito assegurado a seu conhecimento, verdadeira garantia do indiciado até 
contra possíveis arbitrariedades que venham a ser cometidas no seu curso. 
Discute-se a questão do seu caráter sigiloso, consoante se lê dos termos do 
artigo 20 do Código de Processo Penal. 
Entende-se que o inquérito policial, por ser peça de natureza administrativa, 
inquisitiva e preliminar à ação penal, deve ser sigiloso. 
Ao advogado não se pode negar, como já salientado, acesso aos autos. 
Aliás, o Estatuto da Advocacia, Lei 8.906/94, em seu artigo 7º, inciso XV, 
estatui que é direito do advogado examinar em qualquer repartição policial, mesmo sem 
procuração, autos de flagrante e de inquérito policial, findos ou em andamento, ainda que 
conclusos a autoridade, podendo copiar peças e tomar apontamentos. Ali não se faz qualquer 
distinção entre inquéritos sigilosos e não sigilosos. 
O advogado do indiciado, como já salientou o Supremo Tribunal Federal, no 
julgamento do HC 82.354 – PR, 10 de agosto de 2004, Relator Ministro Sepúlveda Pertence, em 
inquérito policial, é titular do direito de acesso aos autos respectivos, verdadeira prerrogativa, 
que lhe é dada por lei, não lhe sendo, em hipótese alguma, repito, oponível o sigilo. 
Aliás, se até à imprensa livre, numa democracia, salvo os casos de sigilo 
decretados pelo Judiciário, não se pode negar acesso aos resultados da investigação, então qual a 
razão de negá-lo, por absurdo, a seu defensor? 
A Súmula Vinculante n. 14 do Supremo Tribunal Federal disciplina que é 
direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova, já 
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia 
judiciária. 
Deve ser facultada à defesa a consulta dos autos do inquérito policial e a 
obtenção de cópias pertinentes, ressalvando que não há obrigação de comunicação prévia à 
defesa sobre as diligências que ainda estejam sendo efetuadas, como se lê do julgamento pelo 
Supremo Tribunal Federal, no HC 87.827 – RJ, Relator Ministro Sepúlveda Pertence, julgado 
em 25 de abril de 2006, Informativo 424. 
Mister se faz a participação do advogado em todos os atos do inquérito, desde 
que tenha procuração para tanto. 
O advogado pode participar da produção da prova, em seu desenvolvimento, em 
seu acompanhamento. 
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Porém a ausência do advogado não contagia o inquérito policial de nulidade, 
pois não estamos em sede de processo, mas na fase pré-processual. 
Nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados, a autoridade policial 
não poderá mencionar quaisquer anotações com relação a instauração do inquérito contra os 
requerentes(artigo 20, parágrafo único do Código de Processo Penal), salvo no caso de existir 
condenação anterior. 
 
II – HISTÓRICO 
 
A denominação inquérito policia surgiu, no Brasil, cm a Lei n. 2033, de 20 de 
setembro de 1871, regulamentada pelo Decreto n. 4.824, de 22 de novembro de 1871, onde se 
diz, no artigo 42, que ¨o inquérito policial consiste em todas as diligências necessárias para o 
descobrimento de fatos criminosos, de suas circunstâncias e de seus autores e cúmplices, 
devendo ser reduzido a instrumento escrito.¨ 
Já, no Código de Processo Penal do Império, de 1832, falava-se em um 
procedimento informativo à ação penal. Sua finalidade era a investigação do crime e a 
descoberta do seu autor, com o azo de fornecer ao autor da ação penal elementos sobre o caso. 
Em 1935, VICENTE RAO apresentou projeto, em que era previsto um juizado 
de instrução, declarando na exposição de motivos: 
¨Retira-se à polícia, por essa forma, a função, que não é sua, de interrogar o 
acusado, tomar o depoimento de testemunhas, enfim, colher provas sem valor 
legal; conservando-lhe, porém, a função investigadora, que lhe é inerente, posta 
em harmonia e legalizada pela co-participação do juiz, sem o que o resultado 
das diligências não pode e nem deve ter valor probatório.¨ 
Na exposição de motivos do Código de Processo Penal em vigor, o Ministro 
Francisco Campos dizia que o inquérito é ¨processo preliminar ou preparatório da ação penal 
que visa evitar apressados e errôneos juízos, formados quando ainda persiste a trepidação moral 
causada pelo crime ou antes seja possível uma exata visão do conjunto de fatos, nas suas 
circunstâncias objetivas e subjetivas.¨ 
 
III – A INSTAURAÇÃO DO INQUÉRITO POLICIAL. DA QUESTÃO DA AUTORIDADE 
COATORA. 
 
A teor do artigo 5º do Código de Processo Penal o inquérito policial pode ser 
iniciado: 
 
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a) de ofício( o delegado de polícia, tomando conhecimento da prática de 
infração penal, determina, através de portaria, a instauração de inquérito); 
b) notitia criminis(é a ciência da autoridade policial da ocorrência de um fato 
criminoso, podendo ser ou direta, quando o delegado, por qualquer meio, 
descobre o que aconteceu ou ainda indireta, quando a vítima provoca a sua 
atuação, comunicando a sua ocorrência);