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a ideia de sonho. No segundo 
capítulo, vê-se Eulálio descrevendo sensações que acabam por criar a imagem de um ser que se mistura 
com a casa. “A casa vive”, frase que introduz o capítulo, confirma-se o clima de sonho, pois o narrador 
acaba por misturar as suas sensações com as da casa: ele e a casa parecem ser um só. É perceptível 
também a identificação de Félix com Eulálio, pois a descrição que se faz do primeiro o assemelha a uma 
lagartixa pelo tom da pele e pela aversão ao sol: “pele seca e áspera, corde-rosa”. Eulálio apresenta-se 
como um duplo de Félix, como se fosse sua imagem no espelho. Reflete e mistura-se, realçando a 
atmosfera de sonho criada no livro. A certa altura da narrativa, os dois personagens têm o mesmo sonho. 
No capítulo 4 “(sonho n°4)”, novamente os dois se sonham. E assim, outros capítulos intitulados de 
“sonhos”, aparecem. Neles se constrói uma discussão sobre a ilusão do livro, a mentira, o sonho. 
Aparecem questionamentos sobre a verdade e a ilusão, sobre a literatura, sobre o que seria real na 
narrativa. Tudo gira em torno do sonho e da verdade. O que é verdade e o que é mentira? Há um 
questionamento sobre isso nas entrelinhas do livro. 
 O livro constrói-se como uma grande metáfora da incerteza do real. A narrativa é um sonho, sonhado 
pelos personagens e pelo leitor que, enredado por esse discurso, ajuda a configurar o universo onírico. 
Outra questão abordada no livro é o da construção identitária do povo angolano, sendo também o foco da 
narrativa. Além de libertar-se do colonizador, Angola entrou em uma violenta guerra civil que durou vários 
anos. Sendo assim, após décadas de lutas sangrentas, que finalmente tiveram fim, os angolanos se viram 
diante de uma realidade totalmente nova, em que era necessário reconstruir o país, definir os novos 
rumos da Pátria. 
 Nesse sentido, a primeira questão a respeito da construção identitária na narrativa é o fato de termos 
como personagem central do romance um albino que se afirma como negro autóctone. Nesse primeiro 
momento, Agualusa mostra que a questão da negritude vai muito além da quantidade de melanina na 
pele. Temos, além disso, um homem que, inconformado com o seu passado real, quer um passado novo 
que o faça esquecer as memórias que tanto o perturbam. O desejo de reinvenção das memórias desse 
homem que deseja um novo passado se alude à realidade angolana no pós - independência. Dessa forma, 
depois de anos de uma guerra que massacrou a nação e traumatizou todo o país, Angola tenta a todo 
custo esquecer os horrores da guerra. O livro mostra ainda, a relação entre identidade e memória. A 
identidade é construída a partir das muitas memórias que compartilhamos com outros, mostrando que 
nossa identidade está sempre em construção, que memória é identidade, que memória é relativa e que 
memória pode ser arquivada no inconsciente de maneira que não entendemos e que ela pode nos trair. Ela 
é para ser questionada. Ela existe para ser embelezada. 
 
 
 Esse operar o passado e criar outra realidade, - que se concilia com as origens de Angola e a nova Angola 
que se quer construir -, está presente também no livro quando um ministro de Estado procura Félix para 
criar-lhe um passado. Na entrega desse passado, Félix diz que ele seria descendente de Salvador Correia, 
parente de Estácio de Sá, fundador da cidade do Rio de Janeiro. Ao ouvir isso, fica bravo pois haviam 
substituído o nome de um importante colégio para Mutu Ya Kevela, em referência a um general que lutara 
contra os portugueses no início do século XX. O antigo nome era exatamente uma homenagem a Salvador 
Correia. 
Por esse motivo, o ministro reclama, afinal um 49 “parente” seu havia sido rebaixado do panteão dos 
heróis nacionais. As novas memórias identitárias de José Buchmann também são uma alusão à nova 
identidade angolana depois da colonização. E assim como Buchmann que assume essa nova identidade e 
começa a se afirmar como tal, o povo angolano tenta reconstruir sua identidade pós-independência. Por 
fim, há uma frase no livro que dá um direcionamento geral à compreensão mais ampla do narrado: “Todas 
as histórias estão ligadas. No fim, tudo se liga”. Agualusa, demonstra isso, que histórias aparentemente 
desconexas (Pedro Gouveia, Ângela Lúcia, ministro, Barata, Félix Ventura, Eulálio etc.) se inter-relacionam 
e produzem sentido, captado exatamente pelo discurso literário, que condensa e destaca os pontos da 
vida de cada um que poderia se transformar em um romance, em um texto literário. 
QUESTÕES 
1) (PUC-MG) Sobre os personagens de O vendedor de passados é correto afirmar: 
a) José Buchman é a identidade criada por Félix Ventura para o estrangeiro que a ele recorre na tentativa 
de obter um outro passado e que vai, ao longo da trama, encarná-la cada vez com maiorrealismo. 
b) Félix Ventura figura, na trama ficcional do romance, como filho do célebre escritor português Eça de 
Queirós, autor de A relíquia, e é isso que justifica seu talento nato para a criação de genealogias falsas. 
c) a personagem de Eulálio constrói-se como um duplo especular de Félix Ventura, porém com traços 
invertidos, atuando como seu antagonista na trama. 
d) Ângela Lúcia, além de ser a amante de Eulálio, é quem comete o assassinato de José Buchman, após 
descobrir que ele era seu verdadeiro pai. 
2) (PUC-MG) Sobre o romance “O vendedor de passados”, de José Eduardo Agualusa, é 
INCORRETO afirmar que: 
a) intercala cenas de sonho e realidade. 
b) faz referência a elementos culturais do Brasil. 
c) assume, em determinado ponto, a configuração de outro gênero textual. 
d) apresenta os fatos sob uma mesma e única perspectiva. 
3) (PUC-MG) Em “O vendedor de passados”, entremeada à narração dos fatos, faz-se também uma 
reflexão sobre a literatura e a linguagem. Todas as passagens são exemplos dessa reflexão, 
EXCETO: 
a) “- Ainda tremo de cada vez que ouço alguém dizer edredom, um galicismo hediondo, em vez de frouxel, 
que a mim me parece, e estou certo que você concordará, palavra muito bela e muito nobre. Mas já me 
conformei com sutiã. Estrofião tem uma outra dignidade histórica.” 
 
 
b) “Um nome pode parecer uma condenação. Alguns arrastam o nomeado, como as águas lamacentas de 
um rio após as grandes chuvadas, e, por mais que este resista, impõem-lhe um destino. Outros, pelo 
contrário, escondem, iludem. A maioria, evidentemente, não tem poder algum.” 
c) “Existem pessoas que revelam, desde muito cedo, um enorme talento para a desventura. A infelicidade 
atinge-os como uma pedrada, dia sim, dia não, e eles recebem-na com um suspiro conformado. Outras há, 
pelo contrário, com uma estranha propensão para a felicidade.” 
d) “A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que 
existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe.” 
4) (PUC-MG) “... o que me interessa é um pouco exercitar o absurdo”, afirma José Eduardo Agualusa 
sobre sua produção literária. Em “O vendedor de passados”, esse “exercício do absurdo” só NÃO 
propicia: 
 a) uma denúncia quanto à história e ao cenário político de Angola. 
 b) uma crítica às concepções religiosas que negam a possibilidade de reencarnação. 
 c) uma discussão acerca dos limites entre o real e o imaginário. 
 d) uma problematização da narrativa histórica enquanto detentora da verdade dos fatos. 
GABARITO 
1) A 2) D 3) C 4) B 
 
QUARTO DE DESPEJO 
CAROLINA MARIA DE JESUS 
Sobre a autora: Carolina Maria de Jesus, nasceu por volta de 1914, em Sacramento – MG. Foi 
alfabetizada até o segundo ano do primário e adquiriu o hábito de leitura, exercido como meio de imaginar 
mundos diferentes, melhores do que a realidade que vivia. Com a morte da mãe, mudou-se para São Paulo 
com 23 anos. Já em São Paulo, foi empregada doméstica, e, mais tarde, passou a catar papel e outros tipos 
de lixo reaproveitáveis para sobreviver. Seus filhos, José