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revolução: mudança de estrutura. O positivismo-funcionalista a 
concebeu em seu marco teórico, como constante correção de rumo e retorno às 
normas e consensos de determinada sociedade. Ambos, no entanto, têm base na 
crença dos iluministas de que a evolução social garantiria paz, prosperidade e 
universalização da racionalidade no mundo. As duas grandes guerras mundiais e 
os horrores do nazismo e do estalinismo, entre outros fenômenos marcantes no 
século XX, solaparam os pensamentos evolucionistas, dos quais as idéias de 
progresso e de desenvolvimento são caudatárias. 
Depois da derrubada do muro de Berlim, sem as polarizações políticas entre 
comunismo e capitalismo, o conceito de mudança sai de seu nicho predileto ao 
interior das grandes narrativas teóricas, para ser pensado por outros paradigmas, 
entre eles, o das teorias da complexidade. Sabe-se, por experiência histórica, que 
as sociedades não caminham linearmente para um fim teleológico e que 
progresso e retrocesso convivem simultaneamente em um movimento 
concomitante de ordem, desordem e auto-organização. A idéia de mudança, 
portanto, ficou mais próxima e pode ser apropriada tanto para falar de 
macroprocessos como de ambientes microssociais em que, em escalas 
diferenciadas, atores, fatores e condições promoverem transformações em 
diferentes níveis da realidade. 
 
1.1.O conceito de mudança social 
 
Quando busca compreender a dinâmica dos processos de intervenção, 
freqüentemente um analista social se fundamenta em duas correntes que 
repercutem, também, na formulação de teorias sociais. 
A primeira considera que todas as perturbações notórias na sociedade, ou em 
instituições como uma escola, um hospital e uma universidade se explicam 
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primordialmente pela intervenção de causas exteriores passíveis de serem 
controladas. Esta visão se assenta na ilusão de que seria possível existir uma 
sociedade equilibrada e fechada, onde não houvesse conflitos nem contradições. 
O equilíbrio social constituiria o indicador de uma sociedade saudável e a 
influência externa, quase sempre, deveria ser considerada negativa. Por dedução, 
quem se guia por essa mentalidade crê que é possível controlar os problemas, 
isolar as contradições e, assim, voltar sempre no ponto de equilíbrio. Tais 
pressuposições se apóiam na corrente sociológica positivista-funcionalista, tão 
presente ainda na academia e nas teorias aplicadas. 
Ao pensamento funcionalista se opõe outra concepção. Os formuladores e 
seguidores deste pensamento consideram que a sociedade e as instituições vivem 
em permanentes conflitos internos e é a própria existência destes problemas que 
provoca mudanças. A capacidade de transformação, portanto, estaria dentro da 
sociedade em geral e das instituições em particular, uma vez que as contradições 
ocorrem em todos os tipos de interações humanas. Seria importante, em 
conseqüência, intervir nelas, explorando suas potencialidades internas de 
provocar mudanças. O marxismo é a corrente teórica inspiradora de tal posição 
que explora a dialética dos conflitos como fonte perene de transformações. 
Apesar de essas duas correntes de pensamento serem as mais hegemônicas, 
atualmente há vários avanços conceituais trazidos pela contribuição de estudos 
científicos de ocorrência de mudanças. Por exemplo, há muitas análises em que 
se mostra o impacto das forças políticas na história, assim como outras em que se 
evidencia o papel de movimentos sociais como o feminismo e o ambientalismo em 
transformações fundamentais que ocorreram no século XX e continuam 
influenciando o início do novo milênio. 
Outros estudos se dedicam a evidenciar o papel específico das intervenções 
sociais no âmbito das organizações das sociedades estabelecidas. Trata-se de 
abordagens que abrangem análises de impacto, tanto de decisões macrossociais 
de investimento em políticas públicas, enquanto estratégias de governo, como 
microssociais de desempenho institucional. É nesse último caso que este trabalho 
se insere. 
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Segundo autores que estudam transformações em organizações sociais, como 
Crozier & Friedberg (1977), se é verdade que toda mudança supõe ruptura e crise, 
a crise por si só não é o acontecimento-chave que a provoca, como em um passe 
de mágica. Os autores dizem isso, fazendo uma crítica, a partir da observação 
sobre a prática, das premissas teóricas marxistas. Enumeram exemplos de crises 
que deslancharam mecanismos de regressão, ao menos temporários, dentro das 
instituições e citam uma minoria de situações em que os conflitos, as contradições 
e as crises, em si, foram fatores determinantes na criação de mecanismos de 
inovação. 
Igualmente, autores como Morin (1984) consideram que não é possível o retorno à 
situação de equilíbrio inicial de um acontecimento qualquer, pois o dinamismo 
social sempre modifica as situações avaliadas pelos formuladores e gestores 
como sendo as ideais. Morin (1984) ressalta que todo organismo oscila entre 
organização, a mudança e reorganização. Este movimento vital abriga incertezas, 
acasos e ambivalências. Mas toda transformação traz ruptura, ensina o autor. 
Assim, à medida que múltiplos problemas vão ocorrendo com intensidades 
diferenciadas, impulso transformador se deve a uma dinâmica permanente de 
desorganização e de reorganização da realidade. 
Quanto mais uma organização se torna apta às mudanças complexas, mais 
aumenta sua capacidade vital de interagir com o sistema ambiental, social e o 
contexto histórico, pois o movimento permanente executado para responder aos 
desafios das circunstâncias constrói soluções para os problemas que provocam 
conflitos e contradições. Esse processo dinâmico de adaptação, porém, ocorre por 
perdas e ganhos, ordem e desordem, organização e desorganização, numa 
espécie de jogo em que o acaso e a incerteza têm lugar de destaque na 
consecução de uma etapa mais complexa de auto-organização. 
A dinâmica global das transformações sociais acontece, simultaneamente, por via 
de forças externas e internas, umas atingindo e influenciando as outras. A 
dinâmica interna de uma instituição, como a escola, a família ou qualquer outra 
organização, acha-se permanentemente modificada pela reação do sistema ao 
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qual se filia e pelos processos e influxos do exterior. Seu dinamismo vem, ao 
mesmo tempo, das tradições e das constantes adaptações ao meio. 
Ao analisar um processo social de intervenção interna, como é o caso do estudo 
atual, há que se considerar todas as forças de mudança, sem referência direta a 
um ator ou a uma ação, mas sob o ângulo da energia social que liberam ou podem 
liberar no futuro. Qualquer mudança social e institucional é um fenômeno 
simultaneamente histórico, coletivo e estrutural e relacional. No entanto, as 
transformações que venham a ocorrer passam pelas subjetividades por 
interferirem na vida cultural, afetando as mentalidades e criando novas 
possibilidades de organização de todos estes mesmos aspectos (estrutural, 
relacional e subjetivo). 
Entende-se, então, que as mudanças sociais diferem da dinâmica do ciclo vital de 
uma pessoa ou de um grupo que tem a iniciativa de provocá-la, por maiores que 
sejam seu protagonismo individual ou de equipe e sua ferrenha dedicação a uma 
causa. Isto porque, de um lado, o ciclo de vida de um sujeito combina as 
determinações das circunstâncias externas com a historicidade, o protagonismo 
individual e a estabilidade de suas posições e papéis específicos. De outro, são 
múltiplos os processos que promovem efeitos diretos e indiretos, influxos internos 
e externos sobre as ações humanas e as instituições e muitos deles não podem 
ser medidos. 
Essa constatação vem de teorias sociológicas como a de Sheldon & Moore 
(1968), assim como de vários autores que trabalham com avaliação, citados 
anteriormente. Moore (1967) e Rocher (1970) caracterizam vários tipos de 
mudanças: 
 as que são produzidas