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rapidamente e muitas vezes em cadeias 
seqüenciais; 
 as que procedem de uma vontade deliberada ou resultam indiretamente de 
inovações igualmente voluntárias, como é o caso da aplicação do Programa 
Cuidar; 
 as que se desenvolvem por influxo de tecnologias materiais e estratégias 
sociais, o que é também o caso do Programa; 
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 as que são cumulativas e afetam, por meio de efeitos de redemoinho, 
muitos indivíduos e aspectos funcionais da sociedade. 
 
Freqüentemente um tipo de mudança se relaciona com outro, em sintonia e em 
sinergia, porém, nunca nos mesmos compasso e ritmo. Quando Moore (1967), 
Sheldon & Moore (1968), Dahrendorf (1972) e Nisbet (1969), entre outros 
cientistas que estudam mudanças sociais, abordam o assunto, seus campos de 
referência são as transformações que ocorrem, ao mesmo tempo, nas 
organizações sociais e nas mentalidades a partir de inovações tecnológicas e 
câmbios demográficos, políticos, institucionais e econômicos. Embora articulem 
esse conjunto de fatores, os cientistas aproximam-se pouco do campo das 
políticas sociais. Outros, como Crozier & Friedberg (1977), estão mais voltados 
para as mudanças que ocorrem a partir de intervenções específicas e internas nas 
organizações e instituições, mesmo quando são exigidas por influxos externos. 
Os autores que acreditam ser possível introduzir mudanças a partir dos processos 
de intervenção social fundamentam-se nos princípios da sociologia compreensiva 
(Weber, 1969) que tem, como núcleo central de sua argumentação, a ação social 
dos indivíduos em interação protagonizando a história, construindo e destruindo 
instituições. Weber ressalta também a eficácia dos fatores culturais, das idéias e 
dos valores morais e religiosos nos movimentos de transformação, mostrando, no 
seu livro seminal, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1969), que é 
preciso compreender in loco, de forma específica, como tais processos ocorrem. 
É nesse sentido que muitos pesquisadores e avaliadores vêm investindo na 
construção de indicadores capazes de medir quantitativamente e compreender 
qualitativamente o sentido, a orientação e as tendências das transformações 
sociais promovidas por políticas sociais. Esta crença não é dogmática. Ela parte 
dos muitos estudos em que se prova a hipótese da efetividade das intervenções 
sociais e em que se busca discernir quais são as que potencializam mudanças 
mais profícuas e perenes. Para citar de passagem alguns testes dessa hipótese, 
basta um olhar sobre o comportamento dos índices de desenvolvimento humano 
(IDH) no Brasil contemporâneo. 
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Avaliados a partir dos anos 70 até o presente, os estudos mostram uma melhoria 
progressiva dos indicadores. Para essa melhoria, o crescimento econômico foi 
fundamental e decisivo apenas na década de 70. A partir daí, com a estagnação 
do Produto Interno Bruto (PIB), as políticas de saúde e de educação foram as 
principais responsáveis pela tendência de evolução positiva dos indicadores, 
situação que perdura até o momento presente. Nesta avaliação, portanto, existe 
uma hipótese de eficácia na educação para valores materializada em propostas 
como a do Programa Cuidar, que visa a ampliar espaços de cidadania e de 
protagonismo social. 
 
As seguintes premissas são pressupostos desta reflexão: 
 Qualquer mudança social provoca diferença em relação ao estado anterior da 
ação e dos atores. 
 Qualquer mudança social ocorre por meio de uma dinâmica que inclui diálogo, 
cooperação e consensos estabelecidos entre atores e, concomitantemente, 
antagonismos, contradições e conflitos entre eles. 
 Em qualquer mudança social existe diferença de grau entre tensão e conflito 
aberto. Essa diferença se manifesta na linguagem e na ação coletiva. 
 Para responder à pergunta: “o que muda?”, diz Rivière (1982), é preciso 
discernir entre os níveis que se quer observar: 
o Nas burocracias administrativas, há mudanças provocadas por trocas de 
poder institucional; 
o Nas empresas, muitas transformações são provocadas por grupos de 
interesses; 
o Nas diferentes instituições, pela experimentação de novas técnicas e 
propostas relativas a sua práxis e às relações com o meio. 
o Nas pessoas, as mudanças acontecem quando tocam, interiormente, 
sua subjetividade, mobilizando habilidades, relacionamentos, posturas e 
valores. 
o Em geral, as mudanças institucionais se dão em ritmo de inovação e 
adaptação, diz Rivière (1982). Mas é possível garantir seu ritmo, 
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projetando tendências em um certo intervalo de tempo, por meio de 
aplicação de programas determinados. 
Assim, a partir de séries recorrentes sobre fatores e combinações de causas e 
efeitos os agentes sociais podem, processualmente, projetar um sistema de ações 
singulares com metas determinadas. Quanto à modificação de um sistema em si, 
é muito difícil estabelecer regularidades e tendências. Isto porque as interferências 
de múltiplas variáveis tornam, amiúde, bastante complexas quando não errôneas, 
as previsões sobre a dinâmica global. 
Essa dificuldade se deve a diversos fatores, dentre os quais o fato de que alguns 
elementos resistem com mais força a mudanças e a evolução do que se modifica 
segue ritmos diferentes, mesmo no interior de um mesmo campo de ação. 
Um verdadeiro desafio para os empreendedores de projetos sociais e para os 
avaliadores é identificar os tipos de intervenção que provocam maior impacto e 
geram movimentos de transformação mais consistentes e duradouros. É 
necessário buscar com insistência os indicadores que valorizem uma maior 
mobilidade psíquica, sensibilizem mais intensamente o público-alvo para 
experiências novas e mexam com a inércia conservadora das instituições e das 
pessoas. 
É preciso ressaltar também que toda proposta de intervenção tem seus limites: o 
da recusa clara, o da resistência camuflada ou o da re-interpretação. Para sua 
efetividade, os programas e projetos devem pressupor estratégias de ação que 
incluam o “modo de ser” cotidiano da instituição, dos seus agentes sociais, de 
suas potencialidades e vontade de mudança e de seus mecanismos mais comuns 
e sutis de conservadorismo. 
É preciso, ainda, ter em conta que as dinâmicas transformadoras não apresentam 
suas lógicas de forma tão clara. Por isto não é fácil descrevê-las. Como já se 
mencionou no decorrer desta reflexão, há muitos efeitos diretos e indiretos que 
ocorrem por conta da intervenção, paralelas a elas ou apesar delas. Todas as 
propostas passam, no mínimo, por três filtros: quem as concebe e redige; quem as 
veicula e implementa; e quem as acolhe. Cada um desses filtros formados por 
atores sociais promove uma re-interpretação, a seu modo e de acordo com seus 
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interesses, do que foi concebido no momento inicial. Assim, um projeto, lançado 
por alguém, nunca será o “projeto escrito no papel”, e sim o projeto corporificado 
na práxis. 
 
1.2.Conceito de mudança no âmbito da intervenção educacional e social 
 
Poderias dizer-me, por favor, que caminho hei de tomar 
para sair daqui? 
Isso depende do sítio onde queres chegar, disse o 
gato. 
Não interessa muito para onde vou, retorquiu Alice. 
Nesse caso, pouco importa o caminho que tomes, 
interpôs o Gato. 
Desde que chegue a algum lado, acrescentou Alice à 
guisa de explicação. (Lewis Carroll) [modelito 
epígrafe] 
 
Qualquer avaliação do sistema escolar ou de intervenções em seu universo 
precisa ser contextualizada no ambiente mais amplo das transformações do 
mundo contemporâneo. Como lembra Boaventura Santos, em Pela Mão de Alice 
(2000), a reflexão sobre paradigmas epistemológicos só pode ser feita a partir da 
reflexão sobre paradigmas societais. É impossível desconhecer que existe, em 
curso, uma mudança social profunda, movimento que alguns nomeiam como pós-
modernidade (Harvey, 1998; Kumar, 1992). Este termo é usado na falta de um 
vocábulo mais preciso e tem merecido muitas críticas de seus fundamentos,