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Livro - Fundamentos e Metodologia do Ensino da Lingua Portuguesa

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Língua Portuguesa
que orientam os pilotos em corridas de automóveis, gestos, mími-
cas, desenhos, símbolos etc.
Figura 1.1 − Sinal vermelho, exemplo de uma linguagem não-verbal
Fonte: Shutterstock.com/Vacclav.
1.2 Língua
Língua não se confunde, pois, com linguagem. A língua faz parte da lin-
guagem. Segundo Saussure (1949, p. 25), “ela [a língua] é ao mesmo tempo 
um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções 
necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa facul-
dade nos indivíduos”.
De modo geral, cada país tem sua língua. É o que se chama língua comum 
ou nacional. Assim, na França, fala-se francês e, no Japão, japonês. Há, porém, 
países com mais de uma língua nacional – a Suíça, por exemplo, tem três lín-
guas nacionais. Por outro lado, uma língua pode ser comum a mais de um país 
– é o caso do Português, língua nacional de Portugal e do Brasil.
De acordo com Terra (2002, p. 13),
o caráter social da língua é facilmente percebido quando levamos em 
conta que ela existe antes mesmo de nós nascermos: cada um de nós 
já encontra a língua formada e em funcionamento, pronta para ser 
usada. E mesmo quando deixarmos de existir, a língua subsistirá inde-
pendente de nós.
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Dessa forma, observa-se que a língua é exterior aos indivíduos e, por 
isso, não pode ser criada ou modificada por apenas um deles. Ela só existe em 
decorrência de uma espécie de “contrato coletivo” que se estabeleceu entre as 
pessoas e ao qual todos aderiram. Segundo Barthes (1999, p. 10),
como instituição social, ela [a língua] não é absolutamente um ato, 
escapa a qualquer premeditação; é a parte social da linguagem; o indi-
víduo não pode, sozinho, nem criá-la nem modificá-la. Trata-se essen-
cialmente de um contrato coletivo ao qual temos de submeter-nos 
em bloco se quisermos comunicar; além disso, este produto social é 
autônomo, à maneira de um jogo com suas regras, pois só se pode 
manejá-lo depois de uma aprendizagem.
Nesse sentido, a língua é uma instituição social de caráter abstrato. É 
instituição porque é uma estrutura decorrente da necessidade de comunica-
ção, com um conjunto de convenções necessárias para permitir o exercício da 
faculdade da linguagem aos indivíduos; é social porque, sendo exterior aos 
falantes, pertence à comunidade linguística como um todo; é abstrata porque 
só se realiza por meio da fala.
1.3 Fala
Como visto, a língua é um bem público, ou seja, pertence a toda comu-
nidade de falantes, que pode utilizá-la como meio de comunicação. Por outro 
lado, a utilização que cada indivíduo faz da língua, a fala, possui um cará-
ter privado, pertencendo exclusivamente a cada indivíduo que a utiliza. É o 
aspecto individual da linguagem humana.
De acordo com Dubois (1993, p. 261),
a fala é uma função não instintiva, mas adquirida, uma função de 
cultura. Se o indivíduo fala, comunica sua experiência, suas ideias, 
suas emoções, ele deve esta faculdade ao fato de ter nascido no seio 
de uma sociedade. Eliminemos a sociedade, e o homem terá todas as 
possibilidades de andar; ele jamais aprenderá a falar. [...] A fala é um 
ato individual de vontade e inteligência.
Assim, Dubois confere que a fala é um ato de vontade e inteligência no 
qual se distinguem as combinações pelas quais o falante realiza o código da 
língua, com o objetivo de exprimir seu pensamento pessoal e o mecanismo 
psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações.
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 Saiba mais
Psicofísico: correlação entre os fenômenos mentais e corporais.
Linguística: estudo científico da linguagem. Em geral, define-se a lin-
guística como a ciência da linguagem ou como estudo científico da 
linguagem (SAUSSURE, 1949).
1.4 Variações linguísticas
Os inúmeros atos de fala que se verificam numa comunidade são, 
indubitavelmente, variados. Pode-se afirmar que nenhuma língua se apre-
senta como entidade homogênea; ela é representada por um conjunto de 
variedades, que são, segundo Marote e Ferro, na obra Didática da Língua 
Portuguesa (1994):
a) variedades espaciais ou dialetos geográficos. Exemplo: o dialeto 
gaúcho, carioca, paranaense etc.
b) variedades de classe social ou dialetos sociais. Exemplo: a língua 
especial dos médicos, dos diferentes tipos de gíria etc.
c) variedades de grupos de idades ou dialetos etários. Exemplo: a lin-
guagem infantil, a dos jovens etc.
d) variedades de sexo ou dialetos masculino e feminino. Exemplo: a 
linguagem específica das mulheres etc.
e) as variações de gerações ou variedades diacrônicas. Exemplo: o por-
tuguês arcaico etc.
De acordo com Brito (1989, p. 106), na escola é preciso salientar as 
variedades linguísticas, pois a sociolinguística argumenta que “nenhuma 
variedade linguística é melhor ou pior que outra”. O que existe por trás dessa 
ideia é um equívoco acerca das noções de certo e errado, já que a escola de 
hoje não recebe apenas alunos provenientes das camadas mais beneficiadas da 
população. A democratização da escola, ainda que falsa, trouxe em seu inte-
rior outra clientela e com ela diferenças dialetais bastante acentuadas. Assim, 
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os professores não ministram aulas só para aqueles que pertencem a um deter-
minado grupo social. Representantes de outros grupos estão sentados nos 
bancos escolares e eles falam diferente.
A língua culta ou padrão não deve ser considerada a única forma de 
expressão do nosso idioma, principalmente pelo motivo de nossa nação ter 
sido construída a partir da mistura entre diversos povos, com variadas lín-
guas, como também pela imensa extensão territorial. A distância geográfica 
e a ausência ou dificuldade de comunicação entre os habitantes de regiões 
distintas fazem com que, ao fim de um período, as falas das regiões estejam 
bem diferentes. Há casos em que a diferenciação regional chega a ser tanta 
que leva à mútua incompreensão. Um exemplo disso são os variados nomes 
dados a certas coisas, de acordo com o estado do país em que se está. A abó-
bora, nos estados do Sul do país, chama-se jerimum no Norte e Nordeste; do 
mesmo modo, a mandioca, em São Paulo, recebe o nome de aipim no Rio de 
Janeiro, e de macaxeira nos estados do Norte e Nordeste. O mapa linguístico 
de um país dá o aspecto de uma colcha de retalhos, como afirma Bizzocchi 
(2006, p. 56).
 Saiba mais
Língua padrão: essa variedade é praticada pela classe social de pres-
tígio, segue as regras da gramática normativa e é tida como parâmetro 
para as outras variedades. Foi eleita como o padrão em decorrência 
da necessidade de uniformização de uma linguagem na qual serão 
registrados os documentos e os fatos da sociedade.
É evidente, segundo Cagliari, na obra Alfabetização e linguística (1991), 
que a variação é, de fato, uma questão mais complexa. Ela não provém apenas 
da evolução histórica das línguas e de suas raízes locais, não é geograficamente 
delimitada, nem só aparece na sociedade estratificada à maneira das classes e 
grupos étnicos. Ela é encontrada também no comportamento linguístico de 
um indivíduo, em diferentes circunstâncias de sua vida, independentemente 
da classe social ou região a que pertença.
Para ratificar tal afirmação, Faraco e Tezza (2003, p. 25) expõem que 
“cada um de nós, na verdade, fala muitas línguas”. A conversa com os amigos 
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de todo dia não tem a mesma gramática da conversa com os desconhecidos; o 
bate-papo de uma festa não tem a mesma estrutura do bate-papo em sala de 
aula, o vocabulário no campo de futebol é diferente do vocabulário pedindo 
um emprego, e assim por diante. Segundo os referidos autores, “cada indi-
víduo

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