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Justiça no Brasil da Velha República aos governos militares

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Nosso objetivo é estudar com cuidado a história da justiça, da lei e do direito nesses dois
momentos, buscando entender suas relações tanto com as disputas políticas quanto com a
competição pelo controle do Estado nacional e das riquezas do país.
Segundo o historiador Boris Fausto (1997), a Revolução de 1930 deu origem ao “Estado de
compromisso”, um indicativo de que a coalização que formou a aliança liberal e garantiu o
sucesso da rebelião comandada por Getúlio Vargas era muito ampla. Isso exigia da liderança
do movimento grande habilidade em coordenar e combinar interesses.
Nas palavras do autor...
A possibilidade de concretização do Estado de compromisso é dada, porém, pela inexistência
de oposições radicais no interior das classes dominantes e, em seu âmbito, não se incluem
todas as forças sociais.
O acordo se dá entre as várias frações da burguesia: as classes médias — ou pelo menos
parte delas — assumem maior peso, favorecidos pelo crescimento do aparelho do Estado,
mantendo, entretanto, uma posição subordinada.
À base da margem do compromisso básico fica a classe operária, pois o estabelecimento de
novas relações com a classe não significa qualquer concessão política apreciável.
FAUSTO, 1997, p. 136-137.
Todos os atos jurídicos colocados em prática nos primeiros anos do governo de Getúlio Vargas
culminaram na Constituição de 1934, que formalizou a situação política à qual ele ascendera
quatro anos antes. No entanto, como demonstra Ângela de Castro Gomes (1997), essa
conciliação de interesses não se deu sem conflitos.
Havia relações conflituosas, sobretudo, entre as oligarquias dissidentes que questionavam a
hegemonia de São Paulo na geopolítica nacional e os oficiais do Exército de baixa patente.
Cabe ressaltar que esses oficiais, conhecidos como “tenentes”, demandavam modificações
estruturais na organização da sociedade brasileira, como, por exemplo, o incentivo à
industrialização, à urbanização e à centralização administrativa.
Você já ouviu falar de um movimento denominado Tenentismo?
TENENTISMO
Leremos um trecho extraído da obra de Ângela Castro Gomes (1997, p. 26) para entendermos,
de forma mais clara, o propósito desse “movimento”:
“De uma forma muito esquemática, o que estava em jogo era uma diretriz de organização
institucional do Estado do Brasil. Os tenentes, por exemplo, procuraram emprestar ao Estado
uma orientação claramente centralizadora, de reforço dos poderes intervencionistas da União,
inclusive na área econômica e social.
A execução dessa proposta deveria estar pautada em padrões técnicos de administração,
sendo sua eficácia garantida por um regime político forte. Isto é, pela permanência da ditadura
como meio de sanear costumes e redefinir os ideais da nação.
Dessa forma, os setores revolucionários do Tenentismo, ao mesmo tempo que despolitizaram o
campo político — transformando-a em atividade administrativa, particularmente nas esferas
estaduais e municipais —, defendiam um modelo de Estado nitidamente antiliberal, na medida
que a crítica à oligarquia se confundia com a crítica ao liberalismo utópico e desvirtuador da
República Velha.
Já os setores oligárquicos divergentes insistiam na manutenção das prerrogativas da
autonomia estadual e na limitação dos poderes da União, enfim, na defesa do federalismo
como ponto-chave da organização política do País. Lutavam, por conseguinte, pela defesa dos
princípios políticos liberais que respaldaram e possibilitaram a hegemonia desse grupo ao
tempo da Primeira República”.
A CONSTITUIÇÃO DE VARGAS
Vamos acompanhar a evolução da justiça no Brasil?
São Paulo, estado que mais perdeu com a Revolução de 1930, se levantou em armas contra o
governo de Getúlio Vargas. A “Revolução Constitucionalista” foi uma guerra civil que, em 1932,
exigia uma nova Constituição para o país.
Entre os principais atos jurídicos do governo provisório de Getúlio Vargas, podemos destacar
os seguintes:
 
Fonte: Shutterstock.com
A criação dos ministérios do Trabalho e da Educação em 1930, o que traduziu os
interesses daquele governo em romper com a tendência federalista/oligárquica da Primeira
República e concentrar poderes no que se referia aos trabalhadores e ao ensino.
 
Fonte: shutterstock.com
A promulgação do Código Eleitoral em 1932, cujo objetivo era modernizar as eleições,
otimizar a representação e aumentar o tamanho da população eleitoralmente ativa. Vejamos
algumas das principais novidades trazidas por ele:
o Criação da Justiça Eleitoral;
o Adoção do voto secreto;
o Imposição da obrigatoriedade do voto;
Concessão do direito de voto e do direito de se candidatar às mulheres maiores de 21
anos.
Como já sabemos, as eleições eram o principal objeto de críticas à Primeira República. O voto
aberto, os currais eleitorais e a ausência de justiça eleitoral autônoma as colocavam sob
constante suspeição, fazendo delas uma máquina de dominação oligárquica – e não uma
prática de representação política efetiva.
Não seria exagerado dizer, portanto, que a “questão eleitoral” era um dos poucos pontos
consensuais entre as diversas forças que formaram a Aliança Liberal, coalizão que levou
Getúlio Vargas ao poder em 1930. O próprio Vargas, discursando em 15 novembro de 1933,
deixava claro como a reforma eleitoral era um compromisso incontornável:
O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO, RESPONSÁVEL
PELO SANEAMENTO DOS COSTUMES POLÍTICOS
CONTRA OS QUAIS A NAÇÃO SE REBELOU, NÃO
PODERIA COGITAR DE REORGANIZÁ-LA
CONSTITUCIONALMENTE ANTES DE APARELHÁ-LA
PARA MANIFESTAR, DE MODO SEGURO E
INEQUÍVOCO, A SUA VONTADE SOBERANA. A
REFORMA ELEITORAL QUE ERA, PARA MIM,
COMPROMISSO DE CANDIDATO [...] TORNOU-SE
IMPOSIÇÃO INADIÁVEL AO ASSUMIR A CHEFIA DO
GOVERNO PROVISÓRIO.
VARGAS, 1933.
Até então, podemos perceber que, mesmo com toda essa reformulação político-administrativa,
era urgente a promulgação de uma nova Constituição, especialmente depois da rebelião
paulista de 1932.
A nova Constituição, outorgada em julho de 1934, trazia a centralização político-administrativa
como argumento principal, destoando contundentemente da lógica federalista, que, como já
estudamos, atravessava o texto constitucional de 1891.
O que estava em jogo, na verdade, era outra visão do Brasil, segundo a qual a sociedade civil
seria amorfa e desorganizada, enquanto os governos locais (estaduais e municipais) estariam
completamente dominados por interesses oligárquicos sem nenhum compromisso com o
interesse nacional.
Por conta disso, a solução para o desenvolvimento do país seria um governo central forte,
personalizado pelo presidente da República e pretensamente portador do “verdadeiro interesse
nacional”.
Ao analisar o texto constitucional de 1934, Ângela de Castro Gomes (1997) argumenta que ele
trouxe a figura do Estado “forte” e “fechado”, cuja participação política se daria pelo sindicato.
Em contraponto, a autora afirma que já havia defensores de um Estado “moderno”, entendendo
que a democracia, para ser exercida, necessita de participação ampla.
Outra característica importante da Constituição de 1934 foi a definição da cidadania em função
da atividade laboral.
 RESUMINDO
O modelo de cidadão ideal que começava a ser construído pelo texto constitucional – também
presente nas constituições seguintes pela política de propaganda do governo – era o
trabalhador urbano, formalizado e vinculado ao sindicato de sua categoria.
 
Autor: Domínio público. Fonte: Fiocruz.
 Passeatas sindicais do período.
Os diversos sindicatos, por sua vez, estavam vinculados diretamente ao Estado por meio do
Ministério do Trabalho. A carteira de trabalho cada vez mais se tornava símbolo da
honestidade, prova de que cidadão não era dado à vadiagem.
Sindicalizado, esse cidadão trabalhador constituía a célula fundamental da representação
política dada justamente por intermédio dos sindicatos. Era o princípio da “representação
classista” típica de uma “república sindicalista”.
O governo constitucional de Getúlio Vargas nasceu sob

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