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Justiça no Brasil da Velha República aos governos militares

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uma situação de grande polarização
ideológica, sendo uma manifestação nacional da situação política internacional da época.
De um lado, à direita do espectro ideológico, estava a Ação Integralista Brasileira (AIB),
liderada pelo jornalista Plínio Salgado, claramente inspirada nos governos fascistas que
ascenderam na Europa na década de 1930; do outro, à esquerda, a Aliança Nacional
Libertadora (ANL), capitaneada pelo comunista Luís Carlos Prestes (1808-1990), que mantinha
diálogos estreitos com o Partido Comunista soviético.
Sobre essa polarização ideológica, Ângela de Castro Gomes (1997) argumenta que os dois
movimentos foram cruciais para as transformações políticas sofridas após 1934. Transcorria
um grande caos político.
Primeiramente, houve repressão policial a operários e, em seguida, ampliada a jornalistas,
intelectuais e até parlamentares. Como se não bastassem esses acontecimentos, em abril de
1935, completa Gomes (1997, p. 35), “a Lei de Segurança Nacional fortalecera os poderes do
presidente da República tão cuidadosamente controlados pela Carta de 1934”.
 
Autor: Desconhecido. Fonte: Wikimedia Commons / Licença (CC BY 3.0...)
 Propaganda do Estado Novo (Brasil) mostra Getúlio Vargas ao lado de crianças, 1938.
O que percebemos hoje com clareza é que o governo chefiado por Getúlio Vargas soube
manipular com muita astúcia esse cenário de polarização ideológica. Ele utilizou os dois grupos
como espantalhos para justificar uma escalada autoritária que culminaria no golpe civil-militar
que instituiu, em 1937, a ditadura do Estado Novo.
No mesmo ano de 1935, graças à eclosão da chamada “intentona comunista”, o governo
acionou prerrogativas da Lei de Segurança Nacional (LSN) para fechar a ALN, prendendo seus
principais líderes.
Esse episódio incluiu o casal Luís Carlos Prestes e Olga Benário Prestes. Ambos foram
acusados de liderar uma conspiração golpista cujo objetivo seria implantar uma ditadura
comunista no Brasil, algo que jamais foi comprovado.
Ainda em 1935, o Congresso Nacional, depois do fechamento da ANL, aprovou a decretação
do estado de sítio, que seria prorrogado sucessivamente até meados de 1937. Foi somente
nesse ano — após inúmeras prisões de deputados e senadores, crises internas em alguns
importantes governos estaduais e com a campanha presidencial próxima — que o Congresso
finalmente negou um novo pedido de renovação do estado de sítio proposto por Vargas.
 
Autor: Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons / Licença (CC BY 3.0...)
 Prestes no Tribunal de Segurança, 1937.
A essa altura, o establishment político já se articulava visando às eleições que aconteceriam
em 1938. As chapas já estavam até formadas.
A disputa se daria entre Armando de Sales Oliveira (1887-1945), representando os interesses
das oligarquias de São Paulo, e José Américo de Almeida (1887-1980), que representava as
oligarquias dissidentes que articularam a Revolução de 1930.
Com o apoio de lideranças militares e, notadamente, do general Góis Monteiro (1887-1956),
Getúlio Vargas liderou um autogolpe continuísta. Esse golpe suspendia a Constituição de 1934
e implantava uma ditadura civil-militar que duraria oito anos, de 1937 a 1945.
No plano da justiça, houve a transição drástica de uma estrutura jurídica de coloração liberal
democrática para uma de claro perfil autoritário. Mobilizemos novamente as reflexões de
Ângela de Castro Gomes (1997): segundo a autora, esse golpe selou qualquer discussão
acerca dos questionamentos políticos da época.
Percebamos que, para Gomes (1997), todo o trabalho constitucional realizado pela luta das
oligarquias do Centro-Sul foi deixado de lado. O Estado Novo foi um verdadeiro retrocesso das
lutas anteriores, chegando a ser mais autoritário que o movimento tenentista.
Ao longo dos primeiros anos do Estado Novo, pode-se perceber o esforço do regime em se
legitimar por meio de dispositivos jurídicos responsáveis por instaurar uma nova legalidade. A
Constituição de 1937 ficou conhecida como “Polaka” pelo fato de ser inspirada pela
Constituição polonesa, que era de matriz fascista.
Mas se engana quem acha que o Estado se aliou ao integralismo de Plínio Salgado. Em 1937,
em uma operação semelhante àquela que havia perseguido a ALN, o governo ditatorial
também reprimiu a AIB sob a acusação de conspiração.
As principais características da “Polaka” foram:
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1
Regulamentação de uma estrutura corporativa em que empregadores e empregados estão
submetidos ao controle ou à proteção do Estado;
2
Estabelecimento da censura prévia a imprensa, cinema e rádio por meio do Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP);
3
Pena de morte para os crimes contra a ordem pública e organização do Estado;
4
Proibição da greve e do lock-out (paralisação do trabalho por iniciativa do empregador);
5
Organização de uma justiça do trabalho para mediar os conflitos entre patrões e empregados.
REFORMAS DO ESTADO NOVO
Somam-se à Constituição de 1937 outros atos que passariam a formar a estrutura jurídica do
Estado Novo.
Entre eles, podemos destacar alguns bem importantes:
LEI Nº 1402, DE 1939
Estabeleceu normas para o funcionamento das organizações sindicais, definindo que cada
categoria profissional somente poderia ter um sindicato oficial, o qual, por sua vez, seria o
responsável por intermediar as negociações entre os sindicalizados e o Estado.
CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS TRABALHISTAS (CLT), EM
1940
Estabeleceu a regulação oficial dos direitos dos trabalhadores urbanos. Destacaremos a seguir
alguns desses direitos:
Proibição da diferenciação salarial por motivos de sexo, idade, nacionalidade e Estado
civil;
Instituição do salário-mínimo;
Redução da jornada de trabalho para oito horas diária;
Proibição do trabalho para menores de 14 anos;
Criação do repouso semanal remunerado, das férias remuneradas e da indenização em
caso de demissão por justa causa;
Regulamentação da assistência média e dentária ao trabalhador e à gestante.
CRIAÇÃO DO DEPARTAMENTO ADMINISTRATIVO DOS
SERVIÇOS PÚBLICOS (DIP)
O DIP tinha o objetivo de pôr fim ao caráter político de recrutamento do funcionalismo público e
basear as contratações no sistema e mérito por meio de concursos ou provas de habilitação
competitivos para qualquer candidato a funcionário público.
CRIAÇÃO DA COMPANHIA SIDERÚRGICA NACIONAL
(CSN), DA COMPANHIA VALE DO RIO DOCE E DA
HIDRELÉTRICA PAULO AFONSO
A intenção era fortalecer a infraestrutura produtiva da economia brasileira e iniciar um processo
de mudança naquilo que, na época, era conhecido como “vocação agrícola da economia
nacional”.
 ATENÇÃO
Não basta apenas enumerar as ações jurídicas: precisamos entender qual tipo de projeto
político inspirava essas leis.
Segundo a historiadora Eli Diniz (1997, p. 80), seu primeiro aspecto seria o fortalecimento do
Executivo como uma condição para restaurar a autoridade nacional e garantir o poder de
Estado contra a ação desagregadora do privatismo e do localismo, tendências típicas da
política brasileira antes de 1930.
Todos esses dispositivos jurídicos, portanto, verbalizavam a seguinte interpretação sobre o
Brasil: um Estado centralizado e forte era fundamental para o desenvolvimento do país. Essa
teoria política foi desenvolvia pelo jurista fluminense Oliveira Vianna (1883-1951), que
comandou a burocracia do Estado Novo.
Oliveira Vianna era um profundo estudioso do funcionamento do Estado brasileiro. Em 1918,
publicou seu primeiro livro, o ensaio Populações meridionais do Brasil, considerado até hoje
um texto canônico na tradição do pensamento social brasileiro. Ao ajudar a desenhar a
estrutura burocrática do Estado Novo, ele tinha em mente certa concepção de “Estado
corporativo”, muito em voga na cultura jurídica ocidental na década de 1930.
 SAIBA MAIS
O modelo de Estado corporativo de Oliveira Vianna, cujo papel de representação política e de
relação entre Estado e sociedade é realizado primordialmente pelo assento de representantes
de classe

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