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Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco

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Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas
Disciplina: Narrativa Portuguesa
Discente: Brenda Natália Miranda da Silva
PAVANELO, Luciene Marie. “O riso sério camiliano: a crítica social em Coração, Cabeça
e Estômago e O Que Fazem Mulheres”. Investigações, v. 26, 2013.
Camilo Castelo Branco foi vinculado ao sentimentalismo por causa de seu grande sucesso
Amor de Perdição, ou como era conhecido, o trágico “Romeu e Julieta português”. Apesar
disso, o autor sempre esteve atento às reflexões sobre a realidade social de seu tempo.
Sua obra Coração, Cabeça e Estômago não teve o mesmo sucesso que Amor de
Perdição, porém é objeto de estudo de como o autor engendra a sua crítica à sociedade
portuguesa oitocentista.
Coração, Cabeça e Estômago é escrito como uma autobiografia de Silvestre da Silva
com um narrador autodiegético que depois muda para um narrador heterodiegético após a
morte do personagem.
O romance começa com um contraste cômico entre a imagem de mulher romântica,
virgem e pura, idealizada por Silvestre, e a realidade social, composta por personagens
adúlteras e que só pensam em dinheiro. A partir dos episódios que o narrador conta, podemos
perceber que o tom cômico traz uma crítica social sobre um tipo de homem representante da
nobreza decadente, que enxerga as mulheres apenas como objetos de prazer e portadoras de
dotes.
À medida com que a história vai sendo contada, Silvestre se depara com mais
mulheres em situações de abandono, miséria e desrespeito. Episódios como o de Marcolina,
demonstram a mulher como uma mercadoria de uma sociedade totalmente materialista e
hipócrita, que condena as mulheres prostitutas que não têm dinheiro, e eleva aquelas que
fazem um casamento por interesse financeiro.
Na segunda parte do romance, o que é posto como crítica central é o materialismo
corruptor de Portugal, que nos mostra a roubalheira da alta burguesia, o livre comércio de
escravos, a opinião pública que respeita apenas quem tem dinheiro, não importando a origem
desse dinheiro e a corrupção no jornalismo.
Em relação a situação em que se encontrava o jornal e o meio artístico, como Camilo
era um escritor comercial, ele tinha que agradar os seus leitores, por isso ele precisava se
preocupar com o que escrevia e isso compromete sua liberdade de expressão. No entanto, o
autor não deixava de registrar sua opinião sobre o mundo.
O personagem Silvestre demonstra outra crítica social que diz respeito “aos velhacos
que triunfam”, pois foi a partir de trapaças que ele conseguiu enriquecer.
Durante toda a história de Coração, Cabeça e Estômago, há uma busca fracassada pelo
sentido da vida.
Na outra obra de Camilo, "O que fazem mulheres”, há também uma crítica social
através de um tom cômico. Nesse romance é retratado a infelicidade causada por casamentos
de interesse e também a rede de relações que transforma as mulheres em mercadorias, tal
como é representado em Coração, Cabeça e Estômago.
No romance a sociedade é retratada como sendo materialista, em que há uma busca
pelo dinheiro a qualquer custo e a hipocrisia, que faz com que as pessoas não sejam capazes
de enxergar seus próprios pecados, uma vez que a sociedade dá margem para qualquer tipo de
crime, pois o dinheiro é o fator principal de tudo.
Os personagens da história acabam infelizes e vítimas do destino traçado pela
sociedade corrupta que os cercam, pois o que importa é apenas o dinheiro.