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Eça de Queiroz

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Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas
Disciplina: Narrativa Portuguesa
Discente: Brenda Natália Miranda da Silva
SANTIAGO, Silviano. "Eça, autor de Madame Bovary". In: ______. Uma
Literatura nos Trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 47-65.
A proximidade que existe entre Madame Bovary e O primo Basílio se encontram
na contemporaneidade do francês e do português, aliada à precedência da francesa e à
dependência da portuguesa, poderia nos conduzir ao que tem sido alvo da crítica
tradicional: a busca e o estudo de fontes.
Nos textos de Pierre Menard o modelo e o decalque são idênticos, tornando sua
versão do Don Quijote diferente das suas produções anteriores onde sempre
acrescentava semelhanças. Porém, o problema que os estruturalistas franceses
enfrentavam era a recusa da liberdade da criação, que tem sido o elemento que
estabelece a identidade e a diferença, o plágio e a originalidade. Portanto, ao negar a
concepção tradicional de invenção, a originalidade do projeto de Pierre Menard nega a
liberdade do criador e instaura como forma de conduta a prisão ao modelo.
O problema da passagem de uma estrutura existente em dada cultura para outra, no caso
a francesa, a portuguesa e a brasileira, faz com que surja uma desarticulação e
rearticulação, além da negação e afirmação, resultando numa contradição violenta.
Ambos os romancistas de Madame Bovary e O primo Basílio estabelecem como
ponto de referência ideal para as suas heroínas a cidade de Paris, um lugar onde
convergem as esperanças das personagens Emma e Luisa.
Tanto em Portugal, quanto no Brasil, no século XIX, a riqueza e o interesse da
literatura não vêm da originalidade do modelo ou do abstrato e dramático do romance
ou do poema, mas da transgressão que se cria a partir de um novo uso do modelo que
era feito a partir de um empréstimo da cultura dominante.
O processo narrativo que analisa a presença no interior do romance de outra obra
de ficção que reproduz o romance, ou o romancista que dramatiza dentro do romance,
isto é, ao nível dos personagens, o seu ideal, faz com que colocamos as obras de Eça de
Queirós e o primo Basílio ao lado de uma série de outras obras.
A transgressão de Madame Bovary concretiza-se em O primo Basílio, não
somente na mudança do título, porque Eça de Queirós faz com que seus personagens
tomem conhecimento de seu destino antes que se entreguem as aventuras que os
esperam; faz com que tomem consciência de suas ações por um processo de reflexo e de
desdobramento; faz com que suas personagens experimentam um processo de simbiose,
em que um corpo se entrega à máscara de outro, máscara que nada mais é do que a
cópia fiel de seu rosto.
No eixo do imaginário e do inconsciente também podemos estabelecer uma
relação entre as duas obras, pois o que extrapola a problemática do devaneio, do
bovarysmo, encontrado no romance de Flaubert, também acontece em Madame Bovary
e também em O primo Basílio.