A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
5 pág.
DIREITO TRADICIONAL MOÇAMBICANO

Pré-visualização | Página 1 de 2

DIREITO TRADICIONAL NA PERSPETIVA DOS RECURSOS HUMANOS CONTEMPORÂNEOS
1.DIREITO TRADICIONAL: é a forma mais primitiva de produção normativa, construção jurídica baseada em costumes a partir das tradições dos povos em determinado local e que passaram a ser aceites como norma. 
De modo geral, o direito consuetudinário é definido como um conjunto de normas sociais tradicionais, criadas espontaneamente pelo povo, não escritas e não codificadas. O verbete “consuetudinário” significa algo que é fundado nos costumes, por isso chamamos essa espécie de direito também de direito costumeiro (Curi, 2012); o autor advoga que os costumes representam fontes importantes do direito, visto que as normas derivam, em boa parte, dos modos de viver de uma sociedade. No entanto o direito positivo vigente dá aos costumes um valor secundário, colocando o direito costumeiro como algo inferior ou atrasado, como se fosse um estágio anterior à constituição do direito positivo normativo emanado pelo Estado.
Para (Rodrigues, 2018) O costume é um comportamento ou prática que se repete no tempo, um hábito duradouro, praticado espontaneamente, com convicção de obrigatoriedade. Estes hábitos que pautam a conduta dos indivíduos na sociedade são transmitidos por gerações e aplicado por autoridades competentes (régulos, anciãos, chefes tradicionais, etc.)
Segundo Miguel Reale, “o costume é o nome dado a qualquer regra social resultante de uma pratica reiterada de uma forma generalizada e prolongada, o que resulta numa convicção de obrigatoriedade, de acordo com cada sociedade e cultura especifica.”
Segundo Diego Freitas do Amaral o costume é definido como “a prática habitualmente seguida, desde os tempos imemoriais, por todo o povo, por parte dele, ou por determinadas instituições, ao adotar certos comportamentos sociais na convicção de que são impostos ou permitidos pelo Direito
Segundo Weber citado por (Rodrigues, 2018), o costume, na sua aceção primária, significará uma regra não externamente garantida, a que o agente de facto se atém livremente, quer apenas de modo inconsiderado, quer por comodidade, ou quaisquer outros motivos, e cuja observância possível pode, em virtude de tais motivos, esperar de outros indivíduos que pertencem ao mesmo círculo; O autor ainda acresce que a estabilidade do simples costume baseia-se essencialmente no facto de que quem por ele não orienta a sua ação age de modo desajustado, e deve, por essa razão, aceitar de antemão pequenas e grandes incomodidades e inconvenientes enquanto a ação da maioria pertencente ao seu meio ambiente contar com a subsistência do costume e a ele se ajustar; contudo o costume bem como o direito são dotados de coercibilidade, a coercibilidade é que assegura o comprimento das normas pelos indivíduos na sociedade.
O direito consuetudinário destinge-se do direito positivo, pois este o ultimo se fundamenta pela existência de uma autoridade política constituída, o Estado, do qual emana todo o seu poder, sendo que o consuetudinário vigora e opera independentemente da existência dessa autoridade.
(Klose, 2018) Advoga que para uma prescrição comportamental obter validade em termos de direito consuetudinário, necessita sempre lançar um olhar ao passado. De outra forma não é possível averiguar a existência de um “costume”. Para que possa chegar a haver um “exercício efetivo mais prolongado”, porém, é preciso que, primeiro, as pessoas sujeitas ao direito ou as que o aplicam produzam uma prescrição comportamental: “Sabe, um direito consuetudinário também precisa começar a uma certa altura”. Portanto, é preciso que haja uma pessoa ou um grupo de pessoas que exiba, primeiro, um determinado comportamento ou um aplicador do direito que formule uma prescrição comportamental antes de todos os outros.
A constância, generalidade e o senso de obrigatoriedade são as notas essências do costume jurídico, porquanto lhe dão juridicidade. Para (Buchili, 2006) não há como falar de juridicidade do costume sem tangenciar o campo das históricas doutrinarias que procuram compreende-las: doutrina romano-canônica, doutrina moderna e a doutrina da escola histórica.
· Doutrina romano-canônica: em excertos do corpus júris civilis, quis igualar o costume à lei, encerrando que o costume, assim como a lei, encontram o seu fundamento de validade na vontade popular.
· Doutrina moderna: esta não reconhece a juridicidade na norma consuetudinária e/ ou tradicional, senão quando chancelados pelo judiciário.
· Doutrina da escola histórica: tratou o costume com uma maior sabedoria, na medida que lhe creditou autonomia, situou seu fundamento de juridicidade na convicção jurídica popular de Bobbio, no sentido inato de justiça do povo, sentimento que permite distinguir os costumes jurídicos dos simples hábitos.
O costume, quando é explicado pela lei atinge uma formulação conceitual que permite falar do direito consuetudinário (Buchili, 2006)
2.DIREITO TRADICIONAL MOÇAMBICANO
Africa viveu durante seculos sob o domínio de um direito essencialmente consuetudinário. A submissão ao costume era espontânea, cada individuo sentia-se obrigado a viver como haviam vivido os seus antepassados, o temor das forcas sobrenaturais era por si suficiente na maioria das vezes para colocar respeito e a observância pelos modos tradicionais de vida.
 De acordo com Monteiro citado por (Buchili), entende-se por direito consuetudinário Africano o conjunto de normas e preceitos que emanam da vontade dos antepassados e cuja função não consiste somente em solucionar conflitos de interesses individuais, mas essencialmente em promover o equilíbrio e controle social. O autor ainda acresce que a expressão “consuetudinário” não pode ser tomado no sentido vulgar, pois nela não radica apenas o costume; ao conceito, esta ligado o elemento religioso que é fundamental, pois é, sobretudo, o receio do castigo sobrenatural que garante a coercitividade e legitimidade das regras costumeiras. O costume esta ligado ao espirito dos africanos, numa ordem mítica do universo. Quem transgredir o costume arrisca-se a desencadear não se sabe que reações, desfavoráveis dos génios da terra, nem mundo onde tudo esta ligado, o natural e o sobrenatural, o comportamento do homem e os fenómenos da natureza.
Em Moçambique tem sido verificável a prevalência do costume, principalmente nas zonas rurais, mesmo após a influencia externa das acções missionarias de propagação do cristianismo e islamismo, bem como da colonização portuguesa. “Os direitos costumeiros reconhecidos ou não pelo direito escrito, convivem com outros Direitos de raiz europeia, islâmica ou canônica.” (Buchili, 2006)
Moçambique tem uma variedade de normas costumeiras, conforme cada uma das multiplicas comunidades étnicas, relevantes na resolução de conflitos e na atuação social das comunidades. O autor acresce que dentre a multiplicidade de instancias que tem como função a resolução de litígios em Moçambique, destacam-se as autoridades tradicionais, assim como os tribunais comunitários.
De acordo com (Buchili, 2006, p. 44) as autoridades tradicionais são caracterizadas pelas variáveis moderno/tradicional e a variável monocultural/multicultural. Esta forma de autoridade assume-se como sendo portadora de uma justiça tradicional claramente distinta do Direito e justiça moderna, os únicos reconhecidos como tal pelo Estado. Pelo facto de serem tradicionais, o Direito e a justiça tradicional incorporam uma diversidade de universos culturais e simbólicos (visto que o que é definido como tradicional varia de comunidade para comunidade, de etnia para etnia e, simultaneamente, de tempo histórico para tempo histórico), mas todos eles se distinguem do universo cultural e simbólico eurocêntrico que caracteriza a justiça e o Direito oficial.
Bibliografia
Amaral, D. F. (2004). Manual de introdução ao Direito (Vol. I). Coimbra, Portugal: Livraria Almedina.
Buchili, B. d. (2006). O pluralismo juridico e a realidade sociocultural de Moçambique. Porto Alegre, Brazil: Editoria Universitaria.

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.