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isto porque há ou inexistência ou deficiência de rede de água, esgoto, asfalto, escolas, hospitais
ou mesmo iluminação e transportes. As favelas e os cortiços, por exemplo, com áreas ínfimas, onde se acotovelam
famílias numerosas numa promiscuidade que lembra-nos as descrições de Engels sobre a situação de moradia
dos operários na Londres do século XIX.
Assiste-se o aprofundamento da segregação espacial na maior metrópole da América do sul, onde em
1990 uma parcela significativa dos habitantes morava em cortiços ou favelas (o percentual passa de 11% em
1970 para 36% em 1980 e atingindo 3.000.000 de habitantes nos anos 90), sem ignorar aqueles que perambulam
pelas ruas centrais da cidade e (que somam mais de 100.000, sendo que 32.000 só no centro da cidade) que só
tem como alternativa de moradia os vãos livres de pontes, viadutos e marquises de prédios. Nesse sentido o
mundial que impõe o homogêneo nos coloca diante de contradições específicas de realidades históricas e locais
específicos. O processo de produção da sociedade se, de um lado cria um espaço homogêneo, de outro, produz sua
fragmentação que se concretiza de modo diferenciado.
Essa situação, decorrência da contradição entre a produção socializada do espaço e sua apropriação
privada, é a forma mais acabada daquilo que Lefebvre chamou da vitória do valor de troca sobre o valor de uso e
que a meu ver esclarece a natureza do processo de fragmentação do espaço. Essa vitória expressa-se também
através das formas de dominação que se estabelecem em todos os níveis da vida do homem englobando o
conjunto das relações sociais que se processam no nível do cotidiano onde a supremacia do valor de troca se
impõe sobre o valor de uso através das “reduções correspondentes do ser humano à passividade e a vida social e
política ao espetáculo e a mise en scène do consumo, dito de outro modo o triunfo espetacular da mercadoria.”5
O processo de esfacelamento do indivíduo e da fragmentação da família decorrente da rapidez do
processo de transformação da cidade — que pode ser percebido na paisagem dos bairros — aparece de
forma inequívoca na cena final do filme AVALON: “Há alguns anos fui ver a casa em Avalon. Não estava mais
lá. Não é só a casa, mas toda a vizinhança. Fui ver o salão aonde eu e meus irmãos costumávamos tocar, também
não existia mais. Não só ele mas o mercado onde fazíamos nossas compras também. Tudo desapareceu. Fui ver
o lugar onde Eva morava. Não existe mais. Nem a rua existe mais, nem mesmo a rua. Então fui ver o clube
noturno do qual fui dono e, graças a Deus estava lá. Por um minuto achei que eu nunca tivesse existido.”6
Esse trecho aponta a existência prática da abstração que ocorre num momento histórico real e concreto.
A separação entre homem natureza, animalidade e humanidade, marca a existência social da abstração que se
concretiza na separação entre uso e valor de uso; valor de uso — valor de troca. Nesse processo assiste-se a
prevalência da troca sobre o uso, com isso o uso distancia-se do valor de uso e da troca cujo conflito atinge seu
ápice quando o espaço torna-se objeto que se compra e vende e reproduz-se enquanto tal. Produz-se neste
processo o estranhamento do cidadão diante da cidade que se transforma com incrível rapidez, eliminando as
referências do lugar que diz respeito, diretamente à sua vida e onde se reconhece enquanto habitante de um
lugar determinado.
5 De L’Etat. cit., p.29.
6 Filme escrito e dirigido por Barry Levinson, 1992.
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7 Sérgio Paulo Rouanet. É a cidade que habita os homens ou såo eles que moram nelas? Simpósio Sete Perguntas a Walter Benjamin.
Instituto Goethe. 1990.
8 Walter Benjamin. “A Paris do segundo Império de Baudelaire”, in Flávio Kothe (org). W. Benjamin. São Paulo: Ática, 1985,
p. 83.
9 José Saramago. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, p.78.
10 Idem, Ibidem, p.168.
Deste modo, a crescente urbanização do planeta propicia a volatilização das relações sociais, através da
ampliação do domínio do mundo da mercadoria que invade a vida das pessoas onde tudo é comprado e
vendido, posto que o ato de troca é um ato do cotidiano que traz como conseqüência uma relação entre sujeitos
baseada na cadeia de equivalência de não equivalentes. Os cidadãos perdem sua identidade concreta diante da
identidade abstrata do trabalho e surge a idéia de que para viver a modernidade é necessária uma constituição
de Homero.
A concepção de herói moderno, descrito por Rouanet, a propósito do tema em Benjamin 7, refere-se ao
fato de que no mundo moderno todas as energias psíquicas devem concentrar-se na consciência imediata, para
interceptar os choques da vida cotidiana, o que envolve um empobrecimento de outras instâncias como a
memória e, com isso o herói moderno perde todo o contato com a tradição, transformando-se numa vítima
da amnésia.
O que deve ser mantido, perde-se para sempre, o moderno impõe o efêmero. Mas se pensar-mos que
a memória é uma atividade, (aquela da apropriação da natureza pela espécie humana) o que Rouanet chamou
de amnésia pode ser entendido como “ausência de memória”, não como perda total, como produto do poder
da abstração, pois o cidadão esta preso ao universo da necessidade, num cotidiano repetitivo, submetido à
banalização do sentido do humano. Não é à toa que a modernidade põe fim a flânerie, pois as transformações
no processo de reprodução coloca-nos diante de uma nova noção de tempo, imposto pela ciência e pela
técnica. O ritmo acelera-se, explode para criar infinita e ininterruptamente novas formas. As metrópoles se
transformam em imagens aguçando o sentido da visão em detrimento daquele da audição.”O que aqui fala é a
mercadoria(..) um dos efeitos sociais mais notórios das drogas consiste no encantamento que os viciados, sob
o efeito da droga, descobrem no cotidiano. O mesmo efeito a mercadoria extrai, por sua vez, da multidão que
a embriaga e inebria.”8
Chamamos aqui “ausência de memória” o processo que diz respeito ao sentido da não — identificação
em relação ao lugar (mas que guarda latente o seu oposto) como conseqüência do processo de reprodução
espacial que tende a eliminar/destruir o que existe e que causa o estranhamento do ser humano, produzindo
dentro do homem um deserto que nas palavras de Saramago significa “tudo o quanto esteja ausente dos
homens ainda que não devemos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de
multidões.”9
Todavia a memória tem outro sentido ela é também a possibilidade do resgate do lugar, revelando-o e
dando uma outra dimensão para o tempo. Ainda nas palavras de Saramago “foi ontem, e é o mesmo que
dizer-mos foi há mil anos, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície
oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar.”10
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OS LUGARES DA METRÓPOLE:
A QUESTÃO DOS GUETOS URBANOS
“... mas a cidade não conta seu passado, ela o contém como as linhas da mão,
escrito nos ângulos das ruas, nas grandes janelas, nos corrimões das escadas, nas
antenas dos pára-raios, nos mastros bandeiras, cada segmentos riscado por
arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras...”
Ítalo Calvino
Vivemos, hoje, sob a égide de um novo tempo, marcado pelo tempo abstrato imposto pela sociedade
produtivista que determina a vida de relações e as possibilidades dos encontros. Espaço e tempo são cada vez
mais, no contexto das transformações do processo produtivo, dominados pela troca. O desenvolvimento do
capitalismo, no estágio atual, tende a reduzir as diferenças e homogeneizar a sociedade reduzindo-a a um mesmo
modelo. Aqui o espaço e tempo entram numa ordem: o tempo associado ao ritmo do processo de trabalho, preso
a um calendário rígido e o espaço dominado por fluxos de mercadorias, capitais, informações. Ao se reproduzirem
destroem as referências urbanas e, como conseqüência, a memória social.
Do ponto de vista espacial, que se refere especificamente