A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
104 pág.
História e Cultura Brasileira

Pré-visualização | Página 5 de 20

era interação 
racial, tendo em vista que suas características 
históricas comprovam tal propensão. Para esses 
autores, não havia uma raça portuguesa. O que 
havia era uma população que se originou por 
meio de uma interação racial. Embora o termo 
raça seja discutível nos dias de hoje, entender 
essas obras no contexto em que foram escritas 
passa, primeiramente, por entender esse con-
ceito. Nesse sentido, o que fica evidente é que os 
portugueses possuíam uma disposição natural 
à interação racial.
Outra questão importante é que ninguém 
deu mais valor à miscigenação racial como 
fundamento para se compreender a nossa co-
lonização como Gilberto Freyre. Dessa forma, 
para melhor entender suas expressões, é pre-
ciso estar ligado na vivacidade de sua obra, 
ou seja, nos sentimentos que ele consegue 
nos passar com sua leitura. Ao contrário dos 
historiadores que abordaram a colonização 
sob o viés econômico, os quais já foram refe-
renciados anteriormente, Freyre tempera sua 
obra buscando passar da forma mais objetiva 
possível o verdadeiro sabor das relações raciais 
ocorridas no Brasil. Ou como ele mesmo ex-
pressa, um sabor especial, picante, diferente 
(acre requeime), mostrando como o sangue 
negro, mouro, índio corre pelas veias de forma 
direta ou indireta mesmo nas populações de 
pele branca.
A título de conclusão, é importante men-
cionar que o português, embora seja o prin-
cipal colonizador do Brasil, não foi o único 
europeu a tentar a sorte em solo brasileiro. 
Por aqui, aventuraram-se franceses no século 
XVI e holandeses no século XVII (estes com 
maior êxito). Além disso, no século XIX e 
H i s t ó r i a e C u l t u r a B r a s i l e i r a
início do século XX, vieram pra cá italianos, 
espanhóis, japoneses, árabes, judeus, ucra-
nianos, dentre outros, que contribuíram de 
forma significativa para diversificar ainda 
mais nossa cultura. 
Outro fator importante, prezado(a) alu-
no(a), que devemos levar em consideração é 
com relação ao clima. Quando se fala em pro-
dução agrícola, os fatores climatológicos são in-
dispensáveis. Mesmo que, atualmente, a ciência 
tenha suprido algumas deficiências naturais, 
em linhas gerais, quando o assunto é culinário, 
cada região obedece, em regra, aquilo que a 
ela foi imposto pela geografia. Isso também se 
aplica ao fator colonizador, como afirma Freyre 
(2006, p. 76):
O português no Brasil teve de mudar 
quase radicalmente o seu sistema de ali-
mentação, cuja base se deslocou, com 
sensível déficit, do trigo para a man-
dioca; e o seu sistema de lavoura, que 
as condições físicas e químicas de solo, 
tanto quanto as de temperatura ou de 
clima, não permitiram fosse o mesmo 
doce trabalho das terras portuguesas. 
A esse respeito o colonizador inglês 
dos Estados Unidos levou sobre o por-
tuguês do Brasil decidida vantagem, ali 
encontrando condições de vida física e 
fontes de nutrição semelhantes às da 
mãe-pátria. 
25G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R
Gostaria que você refletisse sobre a compara-
ção feita por Freyre (2006) na citação acima. 
Quando ele comparou a adaptação dos portu-
gueses com a adaptação dos colonos que vieram 
à América do Norte, nesse caso específico, os 
Ingleses que formaram os Estados Unidos, os 
lusitanos encontraram ambiente muito menos 
propício a aclimatação do que os anglo-saxões. 
Os ingleses saíram de uma região de clima frio 
e foram para uma região que, pelo menos, em 
boa parte do seu território, era tida sob o clima 
temperado.
Embora os colonos ingleses tenham sofrido 
com inúmeros problemas, em termo de adap-
tação, tiveram uma grande vantagem sobre o 
português. Um dos principais exemplos que 
podemos citar foi o trigo – que era uma das 
bases da alimentação dos portugueses – que, em 
função do clima tropical, não pode ser cultivado 
de imediato pelos portugueses, que tiveram de 
se adaptar ao consumo de farinha de mandioca, 
conforme veremos mais adiante.
É certo que não podemos generalizar que 
portugueses sempre estiveram em desvantagem 
com relação aos ingleses da América do Norte, 
mas o fato é que, por eles terem saído de um 
clima temperado e vindo enfrentar o calor e 
o sol forte dos trópicos, acabou por provocar 
mudanças significativas na base alimentar dos 
lusitanos. Imagine você, tendo de se deslocar 
para outro país em que a cultura alimentar é 
totalmente diferente da sua? 
Foi em razão desta mudança de ambien-
te que surgiram os famosos bolinhos de 
legumes, tempurá, e que hoje são co-
nhecidos como pertencentes à culinária 
e à cultura japonesa. No século XVI, no 
auge da Reforma Protestante, jesuítas 
portugueses partiram rumo ao Japão em 
busca de convertê-los à fé católica. Dessa 
forma, como entre os dogmas do catolicis-
mo estão algumas restrições alimentares 
em determinadas épocas do ano, esses 
missionários acabaram levando em sua 
bagagem mudas para cultivar legumes 
e, assim, durante o tempo da quaresma 
(tempurae quaresmae), eles poderiam se 
alimentar fazendo com que continuassem 
a abstenção de carne vermelha nesses dias 
que antecedem a páscoa. Comer fritura, 
para os japoneses, era algo desconhecido, 
tendo em vista que o óleo era quase que 
totalmente usado para iluminação. Assim, 
nasceu um dos principais petiscos que é 
tão apreciado tanto por brasileiros quanto 
pelos japoneses.
Acesse	o	link	abaixo	para	ver	a	matéria	
completa:
<http://redeglobo.globo.com/tvgazetaes/
raizes/noticia/2013/12/prato-tipicamen-
te-japones-foi-criado-por-jesuitas-portu-
gueses.html>
H i s t ó r i a e C u l t u r a B r a s i l e i r a
A
credito que você já deve ter 
conhecido alguém que viveu 
experiência semelhante. Mas 
seria possível imaginar como isso 
ocorreu há cinco séculos? As transformações 
não param por aí. Assim prossegue Freyre 
(2006, p. 76-77) em sua explicação:
No Brasil verificaram-se necessariamen-
te no povoador europeu desequilíbrios 
de morfologia tanto quanto de eficiência 
pela falta em que se encontrou de súbito 
dos mesmos recursos químicos de ali-
mentação do seu país de origem. A falta 
desses recursos como a diferença nas 
condições meteorológicas e geológicas 
em que teve de processar-se o trabalho 
agrícola realizado pelo negro mas dirigi-
do pelo europeu dá à obra de coloniza-
ção dos portugueses um caráter de obra 
criadora, original, a que não pode aspirar 
nem a dos ingleses na América do Norte 
nem a dos espanhóis na Argentina.
Conforme foi observado na citação acima, 
o autor considera a obra dos portugueses 
em terras americanas algo da magnitude de 
um grande inventor, de um grande artista. 
Conforme foi alertado anteriormente nesta 
unidade, o empreendimento dirigido pelos por-
tugueses fora algo sobrenatural, considerando 
as características desse povo. Por isso, é impor-
tante que destaquemos esses fatores essenciais 
que tornaram a obra colonizadora portuguesa 
algo muito superior ao que vimos ocorrer no res-
tante da América. Em suma, levando em conta 
os elementos destacados por Freyre (2006), a 
colonização portuguesa teve um grande êxito.
As transformações morfológicas que o autor 
destacou se referem à deficiência de determi-
nadas vitaminas oriundas de alguns alimentos 
e que os portugueses foram obrigados a abdi-
carem ou se adaptarem a outros. Isso obrigou 
que os organismos desses homens tivessem que 
trabalhar mais para compensar de alguma forma 
essa deficiência. Além disso, fatores geográficos 
e climáticos em que eles tiveram de desempe-
nhar as atividades agrícolas os tornou criadores 
de um processo colonizador original, sem existir 
nada semelhante ao longo da história.
FADO TROPICAL 
(CHICO BUARQUE)
Com avencas na caatinga,
Alecrins no canavial,
Licores na moringa:
Um vinho tropical.
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo...
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda	vai	tornar-se	um	imenso	Portugal!

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.