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História e Cultura Brasileira

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bem como à contribuição dos três 
elementos principais (europeu, índio, africano) na formação 
de nossa sociedade.
H i s t ó r i a e C u l t u r a B r a s i l e i r a
O Capitão, quando eles vieram, estava senta-
do em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por 
estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, 
mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e 
Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires 
Corrêa, e nós outros que aqui na nau com 
ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. 
Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas 
nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar 
ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles 
fitou o colar do Capitão, e começou a fazer 
acenos com a mão em direção à terra, e depois 
para o colar, como se quisesse dizer-nos que 
havia ouro na terra. E também olhou para um 
castiçal de prata e assim mesmo acenava para 
a terra e novamente para o castiçal, como se 
lá também houvesse prata! 
Mostraram-lhes um papagaio pardo que o 
Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e 
acenaram para a terra, como se os houvesse ali. 
Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram 
caso dele. 
Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram 
medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois 
lhe pegaram, mas como espantados. 
Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, 
confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não qui-
seram comer daquilo quase nada; e se provavam 
alguma coisa, logo a lançavam fora. 
Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal 
lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, 
nem quiseram mais. 
Trouxeram-lhes água em uma albarrada, 
provaram cada um o seu bochecho, mas não 
beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-
na fora.
Trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, em que 
relata a reação dos indígenas frente a alguns itens 
que se tornariam usuais na comida brasileira.
Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltai-
re/500br/carta_caminha.htm>.	Acesso	em:	21	out.	2014.
Comida e Civilização: A Importância do Ato de Comer 
na Formação da Identidade Cultural Brasileira
KLEBER EDUARDO MEN
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
• A refeição enquanto formadora da rotina dos brasileiros
• Uma interpretação sociológica da alimentação
• Economia, sociedade e cultura
• Entender a relação entre a alimentação e o comportamento social 
brasileiro.
• Estudar as bases sociológicas da cozinha brasileira.
• Compreender como a gastronomia está intimamente ligada à 
formação de nossa identidade cultural.
• Observar como economia, sociedade e cultura são fatores essen-
ciais para compreender as relações humanas.
Plano de Estudo
Objetivos de Aprendizagem
IntroduçãoIntrodução
O objetivo principal desta nossa unidade será apresentar ao aluno da EaD UNICESUMAR os 
elementos sócio-antropológicos que permeiam a cultura alimentar do Brasil. Ou seja, vamos 
enfatizar os fatores sociais e a forma como eles estiveram ligados à própria essência biológica 
dos seres humanos, pois, como todos sabemos, o ato de comer é uma necessidade fisiológica, 
não apenas social.
Como na primeira unidade, fizemos um estudo sobre os elementos étnicos responsáveis 
pela formação da sociedade brasileira, vamos fazer uma abordagem mais centrada nas relações 
humanas, tanto no que diz respeito à história, como à sociologia e à antropologia, bem como 
sobre a relação de todos esses elementos com o comportamento do brasileiro com relação a 
alimentação. Nesse sentido, vamos buscar destacar a importância da alimentação enquanto 
um elemento do comportamento social; como essa influência é vista sob a ótica da sociologia; 
e, além de tudo, compreender como a dinâmica da vida esteve ligada à formação de conceitos 
que influenciaram na estrutura física de nossa cozinha.
Nesse sentido, precisamos entender que é necessário refletir em todas as nossas práticas 
culturais e buscar o sentido e o significado de cada uma delas na composição de nossas vidas, 
principalmente no que diz respeito à alimentação.
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H i s t ó r i a e C u l t u r a B r a s i l e i r a
43G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R
Existem temas que são praticamente impossíveis de se tratar sem 
recorrer aos velhos clássicos. Quando um livro tem uma função 
informativa, no sentido de discutir alguns usos e costumes, e não 
o de sugerir uma visão inovadora, corre o risco de errar menos 
aquele que se propõe a fazer um estudo que aborde autores que 
possuem respeito e que são conhecidos por obras primas no tema 
que se propõem analisar. Nesse caso, para compreender como a 
refeição foi e ainda é importante na formação da rotina de nossas 
vidas, torna-se obrigatória uma análise da obra do escritor potiguar 
Luís da Câmara Cascudo.
A Refeição Enquanto Formadora 
da Rotina dos Brasileiros 
H i s t ó r i a e C u l t u r a B r a s i l e i r a
O 
horário alimentar dos seres humanos 
está ligado ao nosso instinto de caça-
dor. Desde antes do advento do ser 
humano enquanto membro de uma 
sociedade, esse homem já adaptava sua vida às 
condições naturais. Dessa forma, antes de ser 
uma relação social, o horário alimentar surgiu 
das necessidades fisiológicas.
As refeições nasceram condicionadas ao 
horário natural. Antes de deixar a casa, 
começando pela caverna paleolítica, o 
homem de Neanderthal comia. Na força 
do meio-dia, os animais descansam. 
Especialmente, nos climas quentes. Ao 
anoitecer, o regresso à cabana impõe o 
cibo noturno. Os caçadores comem du-
rante a caçada, mas não podem mudar o 
horário lógico. Ao meio-dia, os animais 
desaparecem. O caçador da noite, espera 
ou procura, deve ir alimentado. Ao redor 
desses três momentos, decorre a ementa 
da nutrição humana no seu plano normal 
(CÂMARA CASCUDO, 2011, p. 659).
Como foi possível perceber, antes do almoço, 
estar atrelado à sirene das fábricas, ao ritmo 
do relógio ponto, ele está ligado às condi-
ções biológicas, naturais dos seres humanos. 
Comemos ao meio-dia, não porque convenções 
trabalhistas decidiram, mas porque esse era 
um horário improdutivo em eras longínquas, 
em que de nada adiantava o caçador-coletor 
correr atrás de sua presa, pois ele não obteria 
sucesso algum em encontrá-la, gastando ener-
gia desnecessária.
Entretanto, precisamos compreender 
que, atualmente, com o advento da revolução 
industrial que nos proporcionou uma verda-
deira revolução no processo de conservação 
dos alimentos, ainda estamos, de alguma 
forma, atados ao nosso passado Neanderthal. 
Mas cada região, cada continente, organiza 
sua vida conforme o horário das refeições, 
adaptando a sua realidade e batizando-as 
segundo sua conveniência, como foi o caso 
do Brasil.
Escritor e folclorista, Luís da Câmara 
Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do 
Norte, em 30 de dezembro 1898, e faleceu 
na mesma cidade, em 30 de julho de 1986. 
É um dos mais importantes pesquisadores 
das raízes étnicas do Brasil. Dentre suas 
principais	obras,	destacam-se	“Dicionário	
do	Folclore	Brasileiro”	(1954);	“História	da	
Alimentação	no	Brasil”	(1967);	“História	
dos	nossos	gestos”	(1976).	Ele	foi,	como	
muitos	disseram,	aquele	que	melhor	ex-
plicou a alma do brasileiro.
Saiba mais em: <http://basilio.fundaj.gov.br/
pesquisaescolar/index.php?option=com_con-
tent&view=article&id=304&Itemid=191>.	
Acesso em: 26 out. 2014.
45G A S T R O N O M I A • U N I C E S U M A R
Os nomes é que podem ter outras 
significações, mas nunca finalidades 
diversas. Almoço é a primeira comida 
na Europa, ad morsus, a dente, comen-
do às dentadas, rapidamente. Para nós 
é o café matinal, sempre acompanha-
do, café de duas mãos, como dizem os 
caipiras de São Paulo. O que dizemos 
almoço diz o europeu jantar e para 
nós a ceia é idêntica na Europa, ter-
minando o dia (CÂMARA CASCUDO, 
2011, p. 659).
É importante destacar que cada cultura dá nomes 
diferentes as suas práticas. O que se percebe na 
citação acima é que a expressão “almoço” pode 
ter sua origem explicada em diversas situações,

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