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PROPOSTA DE TRABALHO PARA MESA-REDONDA
Violência e fanatismo: a dissolução do sujeito no grupo
Ligia Gama e Silva Furtado de Mendonça1
Rita Maria Manso de Barros2
Resumo: Por mais que este assunto esteja em foco atualmente devido à guerras
religiosas, terrorismos etc, e seja sistematicamente atrelado ao uso psicanalítico do
termo destrutividade, gostaríamos de demonstrar através deste trabalho que o fanatismo
engloba algo além destas questões. Encontra-se na obra de Amos Oz “Comment guérir
um fanatique” (2006) alguns caminhos que podem nos ser útil na argumentação. Este
autor é um israelense que cresceu em meio a conflitos entre palestinos e israelenses e,
por isso, é uma pessoa apta para falar de um tema como este, como ele mesmo diz na
introdução de seu livro. Segundo este autor, o fanatismo é uma constante da natureza
humana, portanto dizer que ele é identificado somente em manifestantes, terroristas etc.
não seria correto. Foi, então, a partir de sua reflexão sobre a religião que Freud produz
uma de suas obras mais importante, de onde se extrai substratos fundamentais para se
compreender o fanatismo: a formação de grupos, a partir da obra, “Psicologia de Grupo
e Análise do Ego” (1921). 
Palavras-chave: Fanatismo, sujeito, violência, psicanálise, religião, grupos.
Violência e fanatismo são temas que podem ser interligados atualmente devido à
guerras religiosas, terrorismos, etc, e está sistematicamente atrelado ao uso psicanalítico
do termo destrutividade. No entanto, gostaríamos de demonstrar através deste trabalho
que o fanatismo engloba algo além destas questões.
Na falta de uma melhor definição para o que viria ser um fanático e, claro, o
fanatismo, encontra-se na obra de Amos Oz “Comment guérir um fanatique” (2006)
alguns caminhos que podem ser bem usados durante este trabalho.
Segundo Amos Oz, o fanatismo é uma constante da natureza humana, portanto
dizer que ele é identificado somente em manifestantes, terroristas, etc não seria correto.
1 Graduanda do Curso de Psicologia da UERJ. Participante do Convênio do Laboratório de
Psicopatologia Clínica e Psicanálise da Universidade de Toulouse II, Le Mirail.
2 Psicanalista. Pesquisadora. Professora Adjunta do Programa de Pós-graduação em Pesquisa e Clínica
Psicanalítica da UERJ.
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O fanatismo pode aparecer também sob uma forma tranqüila e civilizada. O autor ainda
expressa que o fanatismo não deu inicio através das doutrinas religiosas ou das noções
de Estado e governo: ele seria mais antigo que tudo isso. 
Na sua descrição de como identificar um fanático, o autor afirma que forçar o
outro à mudança caracteriza a essência do fanático, e sua vertente moralizadora
começaria em casa, com a reação clássica de querer mudar um parente para seu próprio
bem. Depois, ele expõe o fanático como um altruísta. De uma forma sarcástica, ele
demonstra que o fanático se preocupa freqüentemente mais com os outros do que com
ele mesmo: ele quer salvar a alma dos outros, livrá-los do pecado, abrir seus olhos,
modificar seus hábitos alimentares, etc. Ele tem mais interesse nos outros que nele
mesmo, “pelo simples fato que ele não tem muita personalidade ou nenhuma
personalidade”.
Após, Amos Oz apresenta soluções para “curar” um fanático. Uma delas é fazê-
los recorrer à imaginação. É necessário tentar sempre imaginar o outro quando há uma
disputa, uma indignação e quando estamos certos do nosso direito. A outra forma de
curar um fanático é através do senso de humor; ter humor significa ‘zombar’ de si
mesmo, ter noção do relativo, se ver através do olhar dos outros, não se levar tão a sério,
estejamos certos ou errados. Sua terceira solução é ter a capacidade de se tornar uma
“quase ilha”, em relação à famosa frase “nenhum homem é uma ilha”. Sobre isso, ele
comenta que ninguém entre nós é uma quase-ilha, uma parte ligada ao continente, e
outra virada para o oceano. Uma parte é ligada à família, aos amigos, a uma cultura,
uma tradição, um país, uma nação, um sexo, uma língua, etc., enquanto que a outra quer
ficar sozinha, de frente para o mar. Segundo ele, nós deveríamos ter o direito de sermos
quase-ilhas. Todo sistema político e social que tende a nos transformar numa ilha
darwiniana, e assim transformar também o resto da humanidade em um inimigo ou
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rival, é uma monstruosidade. No entanto, ao mesmo tempo, todo sistema político,
econômico, social e ideológico que procura nos transformar em uma simples molécula
do continente não é menos monstruoso. Concluindo sua idéia, o senso de humor, o
poder de imaginar o outro e de reconhecer a quase-ilha podem ser, em parte, o meio de
lutar contra o gene do fanatismo que todos nós portamos. 
Através desta breve exposição, pode-se constatar que o fanatismo não se associa
apenas à doutrina religiosa. E todos esses exemplos de atos fanáticos poderiam ser
atribuídos a um sentimento religioso, lembrando que “religião” provém do latim re-
ligare, que significa “ligar com”, “ligar novamente”, restabelecer a ligação perdida com
nossas raízes. E a partir daí que se facilita a compreensão acerca do “sentimento
oceânico”, enunciado por Freud em “O Mal- Estar na Civilização” (1930), como um
sentimento de amparo a que somos impelidos pelo desejo de unidade e identificação
com o universo em que vivemos. Para Freud, o sentimento oceânico não é fonte das
necessidades religiosas, mas foi vinculado a elas posteriormente, logo, este sentimento
não estaria calcado em uma impressão que transcende o homem e que o liga
misticamente ao universo, e que, assim, o ajuda a aceitar e lidar com as intempéries da
vida. Este sentimento acalentaria nossa necessidade de nos re-ligarmos a uma fase
primitiva do sentimento do eu, quando éramos seres humanos ilimitados em suas
relações com o mundo.
Foi, então, a partir de uma reflexão sobre uma questão religiosa que Freud
produz sua principal obra acerca da civilização, e nela se extrai substratos importantes
que permitirão a compreensão sobre uma das questões fundamentais que remontam ao
fanatismo: a formação de grupos, que vem a ser melhor apresentada e explicitada em
uma outra obra, “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 
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No “Mal-Estar...” é demonstrado o conflito a que o ser humano é submetido
entre as exigências das suas pulsões e as restrições impostas pela civilização. Freud
identifica que os esforços do ser humano perante a vida são para obter felicidade,
portanto, sua força motriz seria o princípio do prazer. Sendo assim, surge uma
tendência a isolar do eu qualquer fonte de desprazer, e é através desta luta do homem
com o seu mundo exterior que se inicia um processo de diferenciação do eu com este
mundo externo, sendo introduzido o principio de realidade no ser humano, que virá a
estruturar todo o seu desenvolvimento posterior. O princípio de realidade tem como
objetivo, no seu duelo com o princípio do prazer, capacitar o ser humano a construir
defesas que o protejam dos desprazeres provenientes do mundo externo. Tendo em vista
estas forças que agem no ser humano influenciando seu contato com o mundo externo,
Freud analisa acerca das relações sociais, caracterizando-as como um dos aspectos da
civilização e capazes de restringir a liberdade individual, conseqüentemente gerando um
interminável conflito entre o ser humano e a civilização.
Só seria possível o desenvolvimento civilizatório se as pulsões não estivessem
“livres”, no sentido que os homens seriam regidos por princípios e leis, o que os
assegurariam de certa segurança, em troca de uma parcela de liberdade. Ao remontar o
mito de Totem e Tabu (1912), Freud deduz a universalidade de dois desejos recalcados:
o incesto e o desejo de matar o Pai, cuja expressão se apresenta no “Complexo de
Édipo”, e que nos leva a crer que estes, juntamente com o canibalismo,

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