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A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil

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23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 1/17
BBC Brasil
Amanda Rossi e Juliana Gragnani
A luta esquecida dos
negros 
pelo fim da escravidão no
Brasil
(../../)
(/)
(http://search.bbc.co.uk/search)
(https://session.bbc.com/session?
ptrt=https%3A%2F%2Fwww.bbc.com%2Fportuguese%2Fresources%2Fidt-
sh%2Flutapelaabolicao&userOrigin=portuguese&context=portuguese)
https://www.bbc.com/portuguese/
https://www.bbc.com/
http://search.bbc.co.uk/search
https://session.bbc.com/session?ptrt=https%3A%2F%2Fwww.bbc.com%2Fportuguese%2Fresources%2Fidt-sh%2Flutapelaabolicao&userOrigin=portuguese&context=portuguese
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 2/17
Há 130 anos, o domingo de 13 de maio de 1888 amanheceu ensolarado no Rio
de Janeiro, a capital do Império do Brasil. Era um dia de festa. A escravidão
chegava ao fim por meio de uma lei votada no Senado e assinada pela princesa
Isabel.
A Gazeta de Notícias /
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil
Edição de 14 de maio de
1888
O Brasil era o último país da América a acabar
com a escravidão. Ao longo de mais de três
séculos, foi o maior destino de tráfico de africanos
no mundo, quase cinco milhões de pessoas.
Grande parte dos descendentes daqueles que
chegaram também fora escravizada.
“Todos saímos à rua. Todos respiravam felicidade,
tudo era delírio. Verdadeiramente, foi o único dia
de delírio público que me lembra ter visto”,
recordou cinco anos depois o escritor Machado de
Assis, que participou das comemorações do fim
da escravidão, no Rio.
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil
Edição de 14 de maio de
1888 / O Cachoeirano
Outro escritor afro-descendente, Lima Barreto,
completava 7 anos naquele 13 de maio e celebrou
o aniversário no meio da multidão. Décadas
depois, se lembraria: “Jamais na minha vida vi
tanta alegria. Era geral, era total. E os dias que se
seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-
me uma visão da vida inteiramente (de) festa e
harmonia”.
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 3/17
Abaixo, foto da missa realizada em 17 de maio de 1888, no campo de São
Cristóvão, no Rio de Janeiro, para celebrar o fim da escravidão no Brasil.
Na imagem é possível ver a princesa Isabel. À sua esquerda, um pouco
abaixo, estaria Machado de Assis.
Crédito: Antonio Luiz Ferreira/Acervo Instituto Moreira Salles
 
 
"Houve sol, e grande sol, naquele domingo de
1888, em que o Senado votou a lei, que a regente
sancionou, e todos saímos à rua. Todos
respiravam felicidade, tudo era delírio"
Machado de Assis
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 4/17
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 5/17
Na festa, Isabel foi exaltada pelo povo. Mas a abolição não foi uma ação
benevolente da princesa e do Senado. Tampouco derivava apenas da exaustão
do modelo econômico baseado no trabalho escravo, que precisava ser
substituído pelo trabalho livre.
Em 1831, o Brasil proibiu o
tráfico negreiro. Já
prevendo que isso
ocorreria, os traficantes de
escravos transportaram um
número recorde de pessoas
em 1829. Logo depois da
lei, o tráfico caiu, mas
voltou a subir e só foi
proibido definitivamente em
1850.
O fim da escravidão no Brasil foi impulsionado por
diversos fatores, entre eles, uma importante
participação popular. Cada vez mais escravos,
negros livres e brancos se juntaram aos ideais
abolicionistas. Sobretudo, na década de 1880.
As principais táticas eram a reunião em diferentes
associações abolicionistas, a realização de
eventos artísticos para angariar apoio, o ingresso
de processos na Justiça e até o apoio a revoltas e
fugas de escravos.
Na segunda metade da década de 1880, o
abolicionismo pôs o Brasil em polvorosa. Ceará,
Amazonas e algumas cidades isoladas já tinham
se declarado livres da escravidão. Fugas e
revoltas de escravos eram cada vez mais
frequentes. Depois de fugir, eles tentavam chegar
até quilombos e territórios já libertos. A polícia era
convocada para reprimir, mas também passou a
se rebelar. O chefe do Exército chegou a escrever
para a princesa exaltando a liberdade e dizendo
que não iria mais caçar escravos fugidos.
No Parlamento, os debates pela abolição
pegavam fogo. Na Justiça, havia um número cada
vez maior de ações para reivindicar a liberdade. Nas cidades, espetáculos
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 6/17
Fotografia da Princesa
Isabel, ano desconhecido 
Joaquim Insley Pacheco /
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil
artísticos eram seguidos de libertações massivas
de escravos - no final, flores costumavam ser
atiradas ao palco e o público saía aos gritos de
“Viva a liberdade, viva a abolição”.
"Depois da abolição, aconteceram várias celebrações em torno da princesa
Isabel. Parte dos abolicionistas, inclusive, associou a abolição à Coroa. Mas (a
princesa) teve uma importância bem lateral", fala a socióloga Angela Alonso,
professora da Universidade de São Paulo e autora do livro "Flores, Votos e
Balas", sobre o movimento abolicionista. "Há vários líderes negros que foram
muito importantes".
Ricardo Tadeu Caires Silva, professor da Universidade Estadual do Paraná,
explica que durante muito tempo o estudo da história tratou a abolição como
uma dádiva da princesa Isabel, “ignorando a agência dos principais
interessados na abolição: os escravos". Somente mais tarde, os escravos
passaram a ser considerados protagonistas do processo.
Origem e quantidade de escravos levados da
África (1551 - 1875)
Quantidade de escravos que desembarcaram no
Brasil (1551 - 1875)
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 7/17
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil
Lei n°3.353, a Lei Áurea,
de 13 de maio de 1888
"Aqueles que vencem a batalha é que fazem a
narrativa. Nós historiadores temos que reconstituir
o processo da batalha, para recuperar as vozes
daqueles que não foram ouvidas", complementa
Maria Helena Machado, também da USP,
especialista em escravidão.
A lei assinada pela princesa - e apelidada de Lei
Áurea - vinha tarde. Todos os países da América
já tinham abolido a escravidão. O primeiro, foi o
Haiti, 95 anos antes, em 1793. A maioria demorou
para seguir o pioneiro, e fez suas abolições entre
os anos 1830 e 1860. Os Estados Unidos, em
1865. Cuba, a penúltima a abolir a escravidão, o
fez dois anos antes do Brasil.
Em nenhum outro país, contudo, a escravidão
teve a dimensão brasileira. Enquanto 389 mil
africanos desembarcaram nos Estados Unidos, no
Brasil foram 4,9 milhões - 45% de toda a
população que deixou a África como escrava. No caminho, cerca de 670 mil
morreram. O gigantismo da escravidão no Brasil dificultou o seu fim - ela estava
impregnada na vida nacional.
A lei também vinha curta e seca. Artigo 1: "É declarada extinta desde a data
desta Lei a escravidão no Brazil. Artigo 2: Revogam-se as disposições em
contrário". Nada mais. Nenhuma indenização ou compensação para os recém-
libertos, estimados em 1,5 milhão de pessoas naquela época, nenhuma política
de emprego ou de acesso à terra. Isso dificultou a integração dos ex-escravos.
“(A alegria trazida pela lei da abolição) havia de ser geral pelo país, porque já
tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão. Mas
como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias
dos preceitos, das regras e das leis!”, ponderou Lima Barreto, ao se recordar da
festa da abolição.
 
"Tinha entrado naconsciência de todos a
injustiça originária da escravidão. Mas como
ainda estamos longe de ser livres! Como ainda
nos enleamos nas teias dos preceitos, das
regras e das leis!"
Lima Barreto
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 8/17
Em 1886, a célebre cantora lírica russa Nadina Bulicioff veio ao Brasil para fazer
uma série de espetáculos, a convite do imperador Pedro II. Estava em cartaz
com a peça Aida - nome da personagem principal, filha do rei da Etiópia,
escravizada no Egito.
 
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil
Patrocínio e Nadina
entregam alforrias para
escravas durante
concerto
A temporada teve grande sucesso.
Especialmente, a última apresentação. Em certa
altura da história, Aida foge do cativeiro, ainda
com algemas. Nesse momento, o abolicionista
José do Patrocínio interrompeu a cena e subiu ao
palco com seis mulheres escravizadas.
Anúncio de uma matinê
abolicionista no jornal
Gazeta da Tarde, em 1883
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil / Publicado
no livro "Flores, votos e
balas"
Então, a russa rompeu as algemas do figurino e,
por um momento, trocou a ficção pela realidade:
entregou cartas de liberdade verdadeiras para as
seis escravas, que se tornaram livres naquele
momento, como Aida. “Sete Aidas. Choraram elas
e o público, em delírio. Houve palmas e vivas,
lançaram-se flores, soltaram-se pombos”, relata
Angela Alonso no livro “Flores, Votos e Balas”.
André Rebouças, Luís Gama, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco 
 / Museu Afro Brasil e Acervo Fundação Biblioteca Nacional - Brasil
(se estiver vendo esta página no celular, gire a
tela para ver todos)
O movimento abolicionista
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 9/17
Era um evento abolicionista, já pré-combinado. Na passagem pelo Brasil,
Nadina ficou horrorizada com a escravidão. Recebeu uma joia de presente de
admiradores e resolveu doá-la para comprar cartas de liberdade. O jornalista e
escritor José do Patrocínio, negro e livre, ajudou a colocar a ideia em prática.
BBC Brasil
Pilha de ações de
escravos no Tribunal de
Justiça de São Paulo
Patrocínio já estava acostumado a organizar
eventos artísticos em prol da libertação dos
escravos. Essa era uma das principais táticas do
movimento abolicionista, do qual o jornalista fazia
parte. As apresentações de música e teatro
angariavam recursos para comprar cartas de
liberdade, estimulavam as pessoas a libertarem
seus próprios escravos e, principalmente,
ajudavam a persuadir a opinião pública.
Foram realizados mais de 800 eventos artísticos
abolicionistas, segundo catalogação de Angela
Alonso. “A arte era uma das formas mais viáveis
de política abolicionista. Nesses eventos há um
apelo à humanidade e à compaixão”, diz.
Desde o final da década de 1860, o movimento
abolicionista estava nas ruas. Nos anos 1880,
atingiu seu auge. A base da sua organização eram as associações
abolicionistas, que se multiplicavam pelo país - Alonso registrou 296, em todos
os Estados. Entre elas, havia sociedades formadas apenas por mulheres. Para
a socióloga, o abolicionismo foi o primeiro movimento social brasileiro.
Além das artes, outra tática usada pelos abolicionistas foi a judicial. Luís Gama,
um ex-escravo que se tornou advogado dos escravos, ajudou a libertar cerca de
500 pessoas graças a processos nos tribunais, e fez seguidores.
Gama nasceu livre na Bahia. Mas, ainda criança, acabou vendido como escravo
e foi levado para São Paulo. Aos 17 anos, aprendeu a ler e escrever. Em
seguida, reivindicou sua liberdade ao seu proprietário - e conseguiu. Afinal,
nascera livre, e livre era.
Alguns anos depois, Gama se tornou rábula (advogado auto-didata, sem
diploma) e fez da profissão uma forma de luta contra a escravidão. Um dos seus
argumentos mais vitoriosos para obter a libertação era provar que os africanos
 | Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez /
Acervo Instituto Moreira Salles
Escravos em terreiro de uma fazenda de café. Vale do Paraíba, c. 1882
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 10/17
haviam sido trazidos para o Brasil quando o tráfico negreiro já era ilegal.
A primeira proibição do tráfico data de 1831,
originada de uma queda-de-braço do Brasil com a
Inglaterra, que tentava forçar o fim do comércio de
escravos. Mas a lei foi pouco efetiva. Nos dois
primeiros anos, o comércio de africanos caiu.
Depois, voltou a subir e continuou como se nada
tivesse acontecido. Foi somente em 1850 que veio
a proibição definitiva do tráfico.
Luís Gama - e outros advogados abolicionistas -
argumentava que os 739 mil africanos que
entraram no Brasil depois de 1831 tinham sido
sequestrados, já que o tráfico estava proibido. Por
isso, deveriam ser libertados imediatamente.
Outra forma frequente de disputa judicial eram as “ações de liberdade”, pelas
quais o escravo solicitava a compra de sua própria alforria. Esse tipo de
processo foi um fruto inesperado da lei do Ventre Livre, de 1871.
Além de prever a libertação dos filhos de mães escravas nascidos a partir de
então, a lei do Ventre Livre permitiu que escravos juntassem dinheiro e
comprassem a alforria.
Já a libertação das crianças enfrentou mais problemas. Há relatos de que
registros de nascimento foram adulterados para simular que as crianças tinham
nascido antes da lei e, portanto, seriam escravas. Em outros casos, os
proprietários das mães continuavam explorando o trabalho infantil.
Além dos palcos e tribunais, os abolicionistas travaram um duro embate com os
escravistas no Senado. No jogo de forças do Império, a visão que prevalecia era
de uma abolição gradual para evitar o colapso da economia, muito dependente
do trabalho escravo.
 
"As vozes dos abolicionistas têm posto em
relevo um fato altamente criminoso e assaz
defendido pelas nossas indignas autoridades. A
maior parte dos escravos africanos (...) foram
importados depois da lei proibitiva do tráfico
promulgada em 1831"
Luís Gama
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 11/17
Marc Ferrez / Acervo
Instituto Moreira Salles
Negra com seu filho,
c.1884 - Salvador, Bahia
Foi assim que foi aprovado, primeiro, o fim do
tráfico; 19 anos depois, o fim definitivo do tráfico;
após mais 21 anos, a liberdade das crianças;
passados outros 14 anos, a dos idosos,
protelando o fim definitivo da escravidão.
A demora parlamentar foi tanta que estimulou o
florescimento da desobediência civil.
No dia 5 de outubro de 1887, seis escravos decidiram tomar as rédeas de seu
destino. Armaram-se com espingardas e facas e, juntos, fugiram da fazenda de
seu senhor, no sertão da província da Bahia. O objetivo de Agostinho, Cornélio,
José, Teófilo, José Arruda e Libório era ir para uma cidade distante e se passar
por não-escravos - na época, o número de negros e pardos livres já era maior
que o de escravos.
Nos anos que antecederam a abolição, fugas, revoltas e quilombos fervilhavam
no Brasil. Em alguns casos, eram incentivados por militantes – muitos deles, ex-
escravos –, que iam para fazendas conscientizar escravos e estimular fugas.
Um deles foi Pio, ex-escravo que tinha se tornado estivador em Santos. Nas
vésperas da abolição, Pio organizou uma fuga em massa na região de Itu,
interior de São Paulo, rumo a um quilombo no litoral. O grupo, porém, foi
massacrado por forças policiais na Serra do Mar.
“Os próprios escravos contribuíram de forma decisiva para acelerar o processo
do fim da escravidão”, diz o historiador Ricardo Tadeu Caires Silva, professor da
Universidade Estadual do Paraná, que encontrou o caso dos seis escravos na
seção judiciária do Arquivo Público do Estado da Bahia. “A abolição foi feita
 | Georges Leuzinger / Acervo Instituto Moreira SallesFazendade Quititi, circa 1865, Jacarepaguá, Rio de Janeiro
O aumento das revoltas
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 12/17
Frederico Guilherme Briggs
/ Acervo Fundação
Biblioteca Nacional - Brasil
Negro fujão, data entre
1832-36
Frederico Guilherme Briggs
/ Acervo Fundação
Biblioteca Nacional - Brasil
Negros que vão levar
açoite, data entre 1832-36
muito mais por uma pressão das ruas, das
senzalas, do que por uma decisão política com
base na bondade.”
Algumas vezes as fugas tinham como destino Ceará e Amazonas. Em 1884,
quatro anos antes da Lei Áurea, ambos Estados já tinham abolido a escravidão,
graças à pressão dos abolicionistas para criar territórios livres pelo país. O
objetivo era justamente ter áreas de refúgio para escravos fugitivos, além de
pressionar a monarquia.
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 13/17
Acervo Fundação Biblioteca
Nacional - Brasil / Publicado
no livro "Flores, Votos e
Balas"
Presidente da província
do Ceará declara abolição
da escravidão no Estado,
em 1884
O projeto de criar territórios livres começou no
Ceará, que tinha um governo favorável à abolição.
Para colocar o plano em prática, José do
Patrocínio viajou até o Estado, reunindo em torno
de si uma caravana abolicionista, conta Angela
Alonso. O grupo bateu de porta em porta para
tentar convencer os donos de escravos a libertá-
los.
Houve até fugas internacionais, em regiões do
Brasil próximas à fronteira de países que já
estavam livres da escravidão, observa o
historiador José Maia Bezerra Neto, da
Universidade Federal do Pará. “Existem estudos
que apontam fugas de escravos para a Bolívia,
Guiana Francesa, Uruguai. Em minhas pesquisas,
encontrei até senhor suspeitando de um escravo
que tencionava fugir para a Espanha!”.
“Os escravos começam a organizar muitas revoltas e tomaram a dianteira de
sair das fazendas, colocando em xeque a segurança pública. Eram
influenciados pela efervescência do discurso abolicionista. Na sociedade,
também havia um clima de não tolerar mais castigos físicos”, afirma a
historiadora Maria Helena Machado, da Universidade de São Paulo, especialista
em abolição.
Biblioteca Nacional
Instrumentos de tortura
de escravos
Machado estudou os registros criminais de duas
regiões paulistas, de 1830 até a abolição, e
percebeu um aumento da violência contra
senhores e feitores a partir de 1870. "Eram crimes
planejados, insurreições. Muitas vezes, em reação
à violência física contra os escravos.” Se por um
lado a escravidão havia se mantido pela violência,
por outro, alguns escravos passaram a combatê-la
também com violência.
Há até casos de escravos que mataram seu
senhor. Um deles aconteceu em uma colônia de
imigrantes europeus no Espírito Santo. Ali, na
década de 1880, um grupo de escravos descobriu
que seu proprietário havia morrido e outro
indivíduo comprara a fazenda. Eles então
armaram tocaia e mataram o novo senhor com
golpes de cacetes na cabeça. Justificaram o crime
dizendo que temiam maus tratos.
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 14/17
Biblioteca Nacional
Tronco de ferro
Por outro lado, segundo Machado, os fazendeiros
também se organizaram para ameaçar
abolicionistas. O caso mais notável ocorreu três
meses antes da Lei Áurea: o linchamento do
delegado abolicionista Joaquim Firmino Cunho, de
Penha do Rio do Peixe, interior de São Paulo.
Durante à noite, uma turba de escravistas entrou
em sua casa e o espancou até a morte.
Participaram do crime dois ex-confederados dos
Estados Unidos (os escravistas do Sul que
lutaram contra o Norte na guerra civil americana).
A abolição não ocorreu como parte dos abolicionistas queria. O engenheiro
negro André Rebouças, que fazia a ponte entre o abolicionismo das ruas e o
dos gabinetes políticos e é considerado um dos principais articuladores do fim
da escravidão, pregava que a abolição fosse acompanhada de uma reforma
agrária, que destinasse terras para os ex-escravos.
Outro grande político abolicionista, Joaquim Nabuco, que nasceu em uma
família escravocrata, aderiu às ideias de Rebouças. Ambos temiam que surgisse
no Brasil uma nova forma de injustiça social após a abolição.
Senhora na liteira com dois escravos | Bahia, c.1860 | Acervo Instituto Moreira Salles
E depois da abolição?
 
"A alma nacional mostrou-se preparada em
todas as camadas sociais para praticar e receber
a liberdade. Em nenhuma outra história do
mundo se encontram páginas como as que se
têm escrito ultimamente em nossa terra"
José do Patrocínio
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 15/17
The New York Public
Library
Retrato de carregadores,
Bahia, 1900
A forma que a abolição ocorreu, sem apoio para
os ex-escravos começarem uma vida nova, tem
consequências negativas até hoje, segundo o
presidente da Fundação Palmares, Erivaldo
Oliveira. Para ele, é uma das causas da profunda
desigualdade racial brasileira.
Mulher no mercado, 1880-
1890
New York Public Library
É por isso que o movimento negro não comemora
a data , mas sim o 20 de novembro, que marca a
morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo
dos Palmares, representando a resistência negra.
Isso não significa, no entanto, que o 13 de maio não deva ser lembrado, diz
Oliveira: “A abolição foi fruto de uma pressão social. A gente precisa recontar
essa história, dos heróis e heroínas que lutaram pelo fim da escravidão”. Sem
esquecer que, 130 anos depois da abolição, a desigualdade persiste.
 
 
 
“É preciso dar terra ao negro.
A Escravidão é um crime.
O Latifúndio é uma atrocidade (...)
Não há comunismo na minha nacionalização do
solo.
É pura e simplesmente democracia rural”
André Rebouças
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
https://www.bbc.com/portuguese/resources/idt-sh/lutapelaabolicao 16/17
The New York Public
Library
Mulher no mercado, 1880
- 1890
“Durante esses 130 anos somos maioria no país -
54% da população é afro-brasileira. Mas não
somos 54% no Congresso Nacional, nos
ministérios, nos tribunais, nas universidades, nas
grandes empresas privadas. Isso precisa mudar”,
completa Oliveira.
E se os abolicionistas vissem o Brasil hoje, 130
anos depois? “Acho que eles entrariam em
campanha, fariam um movimento de novo.
Inclusive com as mesmas bandeiras que eles
tinham (de promoção de oportunidades para os
negros), que não foram implementadas”, opina
Alonso.
Reportagem
Gráficos
Fotografia
Imagem de fundo
Data de
publicação
Créditos
Amanda Rossi
Juliana Gragnani
Cecilia Tombesi
A foto de abertura desta página é de Marc Ferrez. “Escravos na colheita do café, Rio de
Janeiro, RJ, c. 1882”, do Acervo do Instituto Moreira Salles. A instituição, que cedeu
imagens para esta página, possui importantes fotografias do século 19 no Brasil. Seu
acervo está reunido na Reserva Técnica Fotográfica do IMS.
Getty Images
11/05/2018
Feito com Shorthand
Todas as imagens sujeitas a direitos autorais
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"O nosso caráter, temperamento, a nossa moral
acham-se terrivelmente afetados pelas
influências com que a escravidão passou 300
anos a permear a sociedade brasileira (...)
enquanto essa obra não estiver concluída, o
abolicionismo terá sempre razão de ser"
Joaquim Nabuco
23/04/2020 A luta esquecida dos negros pelo fim da escravidão - BBC Brasil
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