A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
5 pág.
Ética na avaliação psicológica no contexto comercialização de testes

Pré-visualização | Página 1 de 2

ASPECTOS ÉTICOS DA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA NO CONTEXTO DA COMERCIALIZAÇÃO DE TESTES PARA LEIGOS 
Os testes psicológicos são ferramentas utilizadas exclusivamente por psicólogos para averiguar, mensurar, predizer e registrar amostras do comportamento de indivíduos, em vista de descrever processos psicológicos. Sabe-se que há muitas implicações éticas decorrentes dessa utilização, de modo que hoje está em discussão a disponibilização desse material para aqueles que não são psicólogos.
No nosso país, Brasil, o uso dos testes apresenta caráter privativo aos psicólogos, conforme dispõe o registro no Art. 13 da Lei nº4.119/62. Nesse sentido, há um amparo jurídico, além das ações realizadas pelo Conselho Federal de Psicologia, que realiza um movimento de restrição dos materiais apenas a categoria, a fim de defender princípios éticos e técnicos decorrentes da prática da avaliação psicológica. 
Na atual conjuntura, vivenciamos um processo em que essas práticas com seu teor privativo são bastante questionadas. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional as medidas referentes a restrição e comercialização dos testes psicológicos, dos dispositivos da Resolução 02/2003. Imediatamente após a publicação desse anúncio, o CRP se manifestou a respeito, declarando que ingressaria no processo com os instrumentos judiciais cabíveis. Ainda se encontra em processamento esse fato na justiça. 
Cabe aqui, algumas reflexões a respeito de como se chegou a esse momento, e as implicações éticas decorrentes dessa movimentação legislativa. É de suma importância entender que ao se valer da técnica psicológica, necessariamente toma-se partido da ética, já que a categoria profissional do psicólogo é amplamente atribuída de imparcialidade, neutralidade e zelo aos Direitos Humanos Universais. Nesse sentido, ser um profissional que zele o Código Profissional da Psicologia, implica impreterivelmente o respeito aos direitos da humanidade. 
Dito isso, quando se trata dos aspectos teóricos-técnicos, não se pode desconsiderar as práticas éticas que zelam pela dignidade e respeito ao indivíduo. Por isso, atrás de uma avaliação psicológica feita, não está apenas a aplicação de um teste, mas um amplo aparato de estudos, experimentos e observações que além de serem validados de forma paramétrica e estatística, são minimamente cuidadosos em não infringir o respeito a vida daquele que é avaliado e daquele que avalia. 
Ainda assim, há que se dizer que não bastasse a teoria e a técnica amparando o sujeito que avalia para a eliminação de vieses e outros fatores que podem influenciar na avaliação psicológica, verifica-se o quão distanciado do teste o avaliando deve estar, para poder realizar essa ação com o menor enviesamento possível. 
Nesse sentido, o avaliando não ter acesso anterior ao material utilizado para a testagem, o avaliador não fornecer informações para além do que o material escrito no manual propõe, entre tantos outros detalhes, são também de importância para a realização de uma avaliação psicológica em que não só a ética é mantida, como também os dados obtidos não são invalidados por eventuais vieses. 
Esse é um ideal e um valor da cartilha do ser e fazer psicológico. Está no Código, e, portanto, faz parte da ética. Porém como em todo e qualquer aspecto referente a leis e regras, nem sempre se valer do aspecto moral e do agir humano serão as medidas mais eficazes para a contenção de problemas.
 É verdade que há punição há quem descumpre as resoluções estabelecidas pelo CRP, todavia nem sempre ocorre uma fiscalização eficaz, na medida em que mesmo antes de eclodir o debate e as medidas tomada pelo STF, alguns profissionais da área divulgavam inadvertidamente manuais, folhas de respostas e protocolos específicos dos testes ao público leigo. Basta uma busca rápida na internet que será suficiente compreender o quanto se está defasada a nossa contenção na circulação desses materiais, que se supõe, são de uso privativo dos psicólogos.
Entende-se nesse sentido, que o problema em discussão no momento já é, portanto, uma realidade anterior às novas medidas adotadas pelo STF. Isto é, ainda que houvesse medidas retaliativas aos profissionais que divulgavam o material de uso privativo, nem sempre essa fiscalização foi eficiente, uma vez que qualquer pessoa que queira ter acesso a esses materiais, consegue facilmente, sobretudo na rede global da internet. 
Dessa forma, compreendo a queixa da categoria e do CRP e acato de forma veemente seu posicionamento, pois estou de acordo com os princípios éticos e técnicos inerentes a avaliação psicológica. Todavia, enquanto estudante de psicologia, vejo que somos um pouco prejudicados no estudo das cadeiras acadêmicas de avaliação, na medida em que nos é restringido também de forma contundente os estudos aprofundados dos testes. 
Entendo que enquanto graduandos, somos colocados como profissionais que irão sair da faculdade com uma formação generalista, e que por isso, não nos é requerido um aprofundamento das disciplinas dos testes. 
Mas é verdade que se hoje temos tão poucos profissionais que conseguem fazer uma avaliação psicológica pontual e efetiva é porque nosso ensino é defasado e ineficiente, a ponto de nos limitarmos ao tecnicismo da avaliação psicológica. Isso se reafirma nos dados de infrações ética do CRP, segundo o qual o psicólogo brasileiro sofre as maiores penalidades e processos jurídicos por realizar testagens malfeitas, taxativas e distantes da realidade subjetiva do indivíduo que é avaliado. 
Por outro lado, conforme já relatado anteriormente, há que se temer pelo futuro da avaliação psicológica. Com a fácil propagação do material através de sua comercialização, certamente cada vez mais teremos avaliações enviesadas, onde as respostas compreendidas como “certas” pelo público leigo, pode lhes fornecer uma adequação a um determinado cargo em uma empresa, podem anular a possibilidade de lhes verificar um possível transtorno e consequentemente, todo o processo de avaliar alguém será comprometido, invalidando uma ferramenta tão preciosa na profissão do psicólogo como os testes. 
Esse temor é também justificado, na medida em que futuros condutores de veículos, futuros portadores de armas podem se valer desses testes para a conquista de uma habilitação automotiva ou do “aval” ´para poder utilizar instrumentos e veículos, que segundo as estatísticas, matam vidas de forma cada vez mais crescente. Por vezes, esses mesmos dados configuram esses homicídios como acidentais, mas sabe-se que nem sempre se trata de apenas uma fatalidade. Por isso há que se pensar também no quanto a avaliação psicológica pode implicar no ferimento da ética e dos direitos básicos de viver do ser humano.
Certamente é uma discussão extensa e que levanta inúmeras outras questões. Mas fato é, concordemos ou não, a comercialização livre dos testes psicológicos não pode ser uma realidade para o público leigo. A profissão do psicólogo, ainda bastante obscura para parcela da população, não pode ser ainda afrontada com a liberação dos testes, instrumentos que nos permitem avaliações incisivas nas instituições e na clínica. Deve-se lutar, ainda, por um rigor maior na fiscalização dos materiais disponíveis na Internet. Auditorias maiores deveriam ser realizadas para reter esses materiais nas mãos certas, uma vez que o caso não envolve apenas psicólogos displicentes, como também editoras com direitos autorais e a própria reputação do CRP.
De fato, é um trabalho imenso a se fazer. E enquanto estudante, ainda que discorde do acesso restrito que nós temos, entendo que por agora não devemos questionar o uso desses testes em nossas mãos, mas sim na mão daqueles que sem referencial teórico e mesmo técnico, pode fazer um uso extremamente inadvertido de nossas ferramentas. Lutemos, por agora, para a garantia e continuidade dessa restrição à nossa categoria. 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TESTES PSICOLÓGICOS: STF PUBLICA DECISÕES. Disponível em: https://site.cfp.org.br/testes-psicologicos-stf-publica-decisao/