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DEFINIÇÃO -A dispepsia foi originalmente definida como qualquer sintoma referente a trato gastrointestinal superior. É definida atualmente como uma dor epigástrica predominante com duração de pelo menos um mês. Isso pode ser associado a qualquer outro sintoma do trato gastrointestinal superior - como plenitude pós-prandial, náuseas, vômitos ou azia - desde que a dor epigástrica seja a queixa principal do paciente. EPIDEMIOLOGIA -A dispepsia acomete, hoje, por volta de 25-30% da população mundial, sendo relatada como queixa principal em cerca de 7% das consultas com clínicos gerais – analisando as consultas com gastroenterologistas, algumas referências chegam apontar a dispepsia como motivo para cerca de 50% dos atendimentos prestados. -Pacientes com dispepsia têm qualidade de vida reduzida e angústia emocional por causa de seus sintomas, com pesados encargos econômicos através de despesas médicas diretas e perda de produtividade. -Diferentes estudos identificaram diferentes fatores de risco para dispepsia, incluindo sexo feminino, idade crescente, diminuição do grau de urbanização infecção por H. pylori, uso de anti-inflamatórios não-esteroidais (AINEs), baixo nível educacional e ser casado. Curiosamente, fumar é apenas levemente associado à dispepsia e álcool e café não estão associados. CLASSIFICAÇÃO Às principais etiologias costumam ser divididas em dois grandes grupos: • Dispepsia Orgânica • Dispepsia Funcional DISPEPSIA ORGÂNICA - A dispepsia orgânica pode ser causada por uma série de doenças - inclusive algumas que nem são do trato digestório. -Sendo que as principais etiologias orgânicas podem ser divididas em quatro grupos de etiologias: • Pépticas • Não-pépticas • Biliopancreáticas • Sistêmicas DISPEPSIA DISPEPSIA FUNCIONAL -A dispepsia funcional (DF) é uma condição médica que afeta significativamente as atividades habituais de um paciente e é caracterizada por um ou mais dos seguintes sintomas: plenitude pós-prandial, saciedade precoce, dor epigástrica e azia; que são inexplicáveis após uma avaliação clínica de rotina. Tendo os critérios preenchidos nos últimos três meses, além de início dos sintomas pelo menos 6 meses antes do diagnóstico. -O termo amplo dispepsia funcional compreende pacientes das seguintes categorias diagnósticas: a síndrome do desconforto pós-prandial (PDS), que é caracterizada por sintomas dispépticos induzidos por refeição; síndrome da dor epigástrica (EPS), que se refere dor epigástrica ou pirose que não ocorre exclusivamente pós--prandial, pode ocorrer durante o jejum e pode apresentar melhora com a ingestão de refeições. FISIOPATOLOGIA -A fisiopatologia da dispepsia funcional é complexa, multifatorial e não completamente elucidada. No entanto, pode ser observado que alguns fatores estão relacionados, são eles: a disfunção gastroduodenal motora e sensitiva, bem como uma integridade da mucosa prejudicada, imunodepressão e a desregulação do eixo intestino- cérebro. Esvaziamento gástrico -O esvaziamento gástrico está atrasado está presente em uma fração considerável dos pacientes (as estimativas variam de cerca de 25% a 35%),enquanto o esvaziamento gástrico rápido é incomum, provavelmente ocorrendo em menos de 5% dos casos. -O esvaziamento gástrico severamente atrasado em pacientes diagnosticados com gastroparesia está associado com mais vômitos e perda de apetite, mas pode ser assintomático. Acomodação gástrica prejudicada -O acomodamento gástrico é controlado por um reflexo vago-vagal desencadeado pela ingestão de refeições e é mediado pela ativação de nervos parassimpáticos na parede gástrica. Ocorre então uma distribuição anormal dos alimentos no estômago, com acumulação antral de quimo e diminuição do conteúdo proximal do reservatório. Hipersensibilidade gástrica e duodenal à distensão, ácidos e outros estímulos intraluminais -Hipersensibilidade a estimulação mecânica do estômago e do duodeno é frequente em pacientes com dispepsia funcional, mas mecanismos subjacentes da suposta relação entre hipersensibilidade gástrica em jejum e sintomas dispépticos permanecem instáveis. -Os pacientes com DF podem apresentar hipersensibilidade a substâncias químicas, como ácido intraluminal e lipídios. Além disso, os inibidores da bomba de prótons podem reduzir eosinófilos duodenais e bloqueadores H2 podem funcionar por meio de efeitos anti-histamínicos. Infecção por Helicobacter pylori -A infecção por H. pylori é considerada uma possível causa de sintomas de DF, se mesmo com uma erradicação bem- -sucedida, os sintomas dispépticos são mantidos. -Tanto a secreção ácida quanto o estado hormonal pode ser afetado até certo ponto com o H. pylori. As terapias com antibióticos podem afetar os sintomas dispépticos por mecanismos diferentes da própria erradicação do H. pylori, incluindo a prevenção de úlceras pépticas não reconhecidas ou modificação da microbiota intestinal. Inflamação duodenal de baixo grau, permeabilidade mucosa e antígenos alimentares -A barreira mucosa serve como a primeira linha de defesa contra patógenos e substâncias nocivas no lúmen. Infecções, estresse, exposição ao ácido duodenal, tabagismo e alergia alimentar, estão todos implicados na patogênese da inflamação da mucosa duodenal e mudanças na sua permeabilidade. Exposições ambientais -Infecções agudas podem desencadear sintomas gastrointestinais superiores em 10% 20% dos indivíduos infectados. Características dos agentes infecciosos e predisposição genética indivíduos infectados provavelmente modulam a probabilidade de desenvolvimento de síndromes digestivas pós-infecciosas. Fatores psicossociais -A associação entre dispepsia e distúrbios psiquiátricos, especialmente ansiedade, depressão são comumente reconhecidos. Além disso, abuso físico e emocional em idade adulta e dificuldade em lidar com eventos da vida, também podem estar relacionados. -Provavelmente existe uma relação bidirecional entre o intestino e a psique porque os pacientes com distúrbios gastrointestinais são mais propensos a desenvolver problemas psicológicos e vice-versa. Estudos de neuroimagem sugerem que a percepção dos sintomas pode ser influenciada pela cognição e emoção. Avaliação e Manejo Clínico -A avaliação clínica do paciente deve começar pela ordem lógica de todo atendimento: pela identificação. Pesquisar o nome, a idade e ocupação do paciente nos ajuda a encaixar o indivíduo em padrões característicos de cada doença. -Na sequência, devemos começar a explorar a queixa em si, investigando se há pirose (queimação em região retroesternal) e/ou regurgitação. Pois esses dois sintomas são muito característicos de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) e como o diagnóstico dessa condição é clínico, quando percebermos esses sintomas, nosso pensamento será direcionado para sustentar ou afastar essa doença. -Por outro lado, se o paciente não apresentar esses sintomas, vamos investigar todos aqueles outros que podem aparecer em um quadro de dispepsia como, por exemplo: azia (dor em queimação na região epigástrica), náuseas e vômitos, disfagia, odinofagia, entre outros. Sendo importante avaliar também os antecedentes pessoais e familiares. -O exame físico, de maneira geral, está normal no quadro de dispepsia, então ele acaba não ajudando tanto no raciocínio diagnóstico. Contudo, isso não significa dizer que ele pode ser ignorado, pois alguns achados podem direcionar o raciocínio para diagnósticos diferenciais. Investigação Laboratorial -Podem ser solicitados exames laboratoriais com o objetivo de investigar a presença de sinais de alarme como ferropenia, distúrbios metabólicos, diabetes, hipercalcemia.-Além de possibilitar pesquisar doença celíaca associada. Entre os exames laboratoriais que podem ser solicitados, temos: • Hemograma • Bioquímica • Função Renal • Perfil Hepático • Amilase e Lipase. Ultrassonografia de Abdome A ultrassonografia (USG) de abdome pode ser solicitada para investigação em pacientes que apresentem icterícia – possibilita investigação de possíveis acometimentos em vias biliares – ou em quadros com dor abdominal atípica. Endoscopia Digestiva Alta -Paciente com idade > 40 anos De acordo com o IV consenso brasileiro, todo paciente acima de 40 anos já tem indicação para realizar o exame de endoscopia digestiva alta (EDA), então essa será a nossa conduta. Com esse exame, o objetivo é definir se o paciente tem ou não alguma doença orgânica. Se tiver, vamos tratá-la. Se não tiver, aí nós devemos realizar testes para avaliar se ele tem H. pylori. -Sendo identificada a presença da bactéria deve-se tratá-la. Caso contrário, a gente começa a sustentar melhor a suspeita de dispepsia funcional e aí a nossa conduta deverá ser: • Prescrever medicamentos que atuem reduzindo a acidez do estômago, como os inibidores de bomba de prótons (IBPs). -Paciente com idade < 40 anos Caso o nosso paciente tenha menos de 40 anos de idade, aí temos que começar a investigação procurando por sinais de alarme: -A presença de algum desses sinais nos indica que o quadro do paciente é um pouco mais complicado e por isso ele também deve seguir direto para a realização de uma EDA. -Caso contrário, por não ser um quadro complicado, a gente pode enquadrar como dispepsia não investigada. -Com isso em mente inicia-se tendo duas: • Tratamento empírico com IBPs por 4 a 6 semanas; • Testar e tratar H. pylori. Investigação para H. pylori -A investigação para a presença de h. pylori deve ser realizada, além de em quadros de dispepsia, em pacientes com lesões pré-neoplásicas, linfoma MALT, câncer gástrico (com abordagem prévia ou até planejamento cirúrgico), histórico familiar de câncer gástrico em parente de primeiro grau, púrpura trombocitopênica imune, ferropenia inexplicada e deficiência de vitamina B12. Podem ser escolhidos métodos não invasivos ou invasivos. Os métodos não invasivos devem ser solicitados em pacientes que não tem indicação para EDA. São alguns deles: -Teste Respiratório da Ureia (TRU): o paciente ingere uma solução de ureia marcada com isótopos de carbono (C13 e C14). Sob ação da urease do H. pylori, a ureia é convertida em amônia e bicarbonato, o qual é convertido em CO2 (com o C marcado), sendo este último prontamente absorvido para a circulação e eliminado na exalação. O paciente então expira em um recipiente onde a presença de carbono marcado pode ser detectada por cintilação ou espectrografia. Sorologia: o ELISA para detectar a presença de IgG anti-H. pylori tem baixa sensibilidade e especificidade comparado aos demais métodos não invasivos, não sendo mais indicado de rotina para o diagnóstico de infecção ativa. -Pesquisa do antígeno fecal: antígenos do Helicobacter pylori podem ser detectados nas fezes e, quando presentes, indicam doença ativa. -Teste rápido da uréase do fragmento da biopsia: é o método de escolha na avaliação inicial dos pacientes que foram submetidos à endoscopia digestiva alta. Amostras de biópsia da mucosa são colocadas em um meio contendo ureia e um marcador de pH; Histopatologia -Geralmente duas a três biópsias da região antral coradas pela prata (Warthin-Starry), método de Gimenez, carbolfucsina ou imuno-histoquímica são suficientes para o diagnóstico de infecção por H. pylori. Cultura -a cultura é menos utilizada para o diagnóstico, pois o isolamento da bactéria é difícil e custoso. A principal vantagem deste método consiste na determinação da sensibilidade do H. pylori aos antibióticos empregados, principalmente nos casos de falha terapêutica. Tratamento Farmacológico -O tratamento farmacológico pode ser realizado basicamente por meio de duas grandes classes de medicamentos: antissecretores e antibióticos. Antissecretores -A grande função dos fármacos desse grupo é reduzir a acidez gástrica. Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs) -Os IBPs, representados pelas drogas terminadas em -prazol (Omeprazol, Pantoprazol, Lansoprazol, entre outros), são os medicamentos de primeira escolha quando se deseja reduzir a acidez estomacal. Isso acontece porque eles atuam se ligando à bomba H+/K+ ATPase (bomba de prótons) da célula parietal e, daí, impedem o seu funcionamento. Os IBPs vão interromper a última etapa para produção de HCl, que é a liberação de íons H+ no lúmen da glândula. -São efeitos adversos do uso de IBPs: • Demência: Por conta do efeito inibitório que esse fármaco exerce sobre as células parietais, a secreção de fator intrínseco também pode ficar prejudicada e aí isso reduz a absorção de vitamina B12. Mas a gente só se preocupa com isso se a terapia for mantida por um tempo maior ou igual a dois anos. • Absorção incompleta do carbonato de cálcio: a absorção fica prejudicada pelo pH elevado e aí pode ser necessário repor cálcio. • Redução da eficácia do Clopidogrel: Isso acontece, pois os IBPs inibem uma proteína chamada CIP2C19, que está associada ao mecanismo de ação do clopidogrel. Bloqueadores de H2 -Representados pelos fármacos terminados emtidina (Cimetidina, Nizatidina, Ranitidina, Famotidina), essa classe se caracteriza por bloquear competitivamente e seletivamente os receptores H2, de modo que eles não recebem o estímulo da histamina, que atua na promoção da secreção de ácido clorídrico. São efeitos adversos do uso de Bloqueadores de H2: • Cefaleia e Tonturas; • Diarreia; • Dores musculares; • Confusão e Alucinação Antiácidos -Os antiácidos são bases fracas que reagem com o ácido clorídrico do estômago e o neutralizam, de modo a promover um alívio rápido dos sintomas, mas que também se mantém por pouco tempo: se ele for administrado em jejum, seu efeito dura entre 10 a 20 minutos, agora se for utilizado mais ou menos 1 hora após a refeição, pode se manter atuante por 2 a 3 horas. -Os principais exemplos de antiácidos são: Hidróxido de Alumínio, Hidróxido de Magnésio e Bicarbonato de Sódio. Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Constipação, causada principalmente quando a droga de escolha é o Hidróxido de Alumínio. • Diarreia, causada principalmente quando a droga de escolha é o Hidróxido de Magnésio; • Comprometimento renal; Antibióticos Amoxicilina -A amoxicilina é uma penicilina e, portanto, ela age sobre bactérias, interferindo na última etapa do processo de síntese da sua parede. Assim, com sua membrana mais instável, esses microrganismos acabam ficando mais vulneráveis e acabam morrendo. -Associado a isso, é importante a gente ter em mente que, apesar de ser mais eficaz sobre bacilos gram-negativos, a amoxicilina age também sobre os gram-positivos e por isso é referida como sendo uma droga de espectro estendido. Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Hipersensibilidade • Diarreia • Nefrite • Toxicidade neurológica e hematológica Claritromicina -A claritromicina é um antibiótico macrolídeo que atua se ligando ao ribossomo bacteriano e, com isso, inibindo algumas etapas da síntese proteica. -De maneira geral, ele é considerado uma droga bacteriostática, mas que em doses elevadas tem efeito bactericida. Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Desconforto epigástrico • Icterícia colestática • Ototoxicidade Metronidazol e Tinidazol -Esses dois medicamentos são muito utilizados em infecções por amebas, mas também exercem um certo efeito em bactérias. Seu mecanismo de ação envolveo armazenamento de elétrons, de modo a formar compostos citotóxicos que se ligam às proteínas e ao DNA, levando à morte celular. -Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Náusea • Desconforto epigástrico • Cólica abdominal • Propensão à infecção fúngica na boca Tetraciclina -As tetraciclinas não medicamentos que penetram no citoplasma bacteriano e inibem a síntese proteica por impedir a conexão entre o RNAt e o RNAm, o que acaba levando à morte. E elas também agem sobre microrganismos tanto gram- positivos quanto gram-negativos. Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Desconforto gastrointestinal • Deposição de cálcio • Hepatotoxicidade • Fototoxicidade • Problemas vestibulares Levofloxacino -O levofloxacino é uma fluoroquinolona que atua entrando no citoplasma bacteriano e inibindo a replicação do DNA ao interferir na ação de duas enzimas: topoisomerase II e IV. Os principais efeitos adversos do seu uso são: • Náusea e diarreia • Cefaleia • Vertigem e Tontura • Fototoxicidade Esquema de tratamento da H. pylori - Nesse grupo de pacientes, a gente vai precisar entrar com antibiótico para matar os microrganismos, mas também algum fármaco para reduzir a secreção gástrica, aliviando os sintomas. - Diante disso, o IV Consenso Brasileiro com relação à infecção por H. pylori determina que o tratamento de primeira linha para esses pacientes deve ser composto por três fármacos: Caso o paciente seja alérgico à Amoxicilina, podemos substituí-la por Levofloxacina. Mas, além disso, algumas alternativas para esse esquema terapêutico são as seguintes: Uma vez tendo administrado essa terapia inicial e o paciente volte, a gente segue para o retratamento e aí a nossa decisão terapêutica vai ser diferente. Poderemos optar por dois esquema REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COELHO, Luiz Gonzaga; et al. IVth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. 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