Prévia do material em texto
AN02FREV001/REV 4.0 61 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação AN02FREV001/REV 4.0 62 CURSO DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO MÓDULO III Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. AN02FREV001/REV 4.0 63 MÓDULO III 5 INTRODUÇÃO No organismo humano, os dois primeiros anos de vida representam um período de crescimento rápido e de mudança, assinalados pelo desenvolvimento de duas características-chave que diferenciam os seres humanos de muitos outros animais. Em primeiro lugar, durante esta época as crianças aumentam sua mobilidade. Nessas condições, aumenta a amplitude do ambiente em que vivem, exploram e desenvolvem. Esse aumento de mobilidade é iluminado pelo caminhar, a criança começa a usar a linguagem, tanto como uma ferramenta de comunicação com as pessoas que as cercam como ferramenta para facilitar o pensar (PAPALIA & OLDS, 2006). A seguir veremos o desenvolvimento físico e motor da criança entre um mês e dois anos de idade, as mudanças perceptuais e cognitivas que nela ocorrem, a aquisição dos rudimentos da linguagem e, a emergência de comportamento social e da personalidade. AN02FREV001/REV 4.0 64 5.1 DESENVOLVIMENTO FÍSICO, MOTOR, PERCEPTIVO, COGNITIVO, SOCIAL E DA PERSONALIDADE DA CRIANÇA DE 0 A 2 ANOS 5.1.1 Desenvolvimento físico FIGURA 18 - CORPO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/corpo-beb%C3%AA.html. Acesso em: 2 jul. 2009. Segundo BEE (1997), as mudanças físicas ocorridas nos primeiros meses de vida do bebê seguem dois padrões bem amplos: o desenvolvimento dá-se a partir da cabeça, chamado cefalocaudal, e do tronco para fora, próximo-distal. Vemos a ação desses dois princípios em comportamentos perceptíveis, tais como a capacidade que tem o bebê para manter ereta sua cabeça antes que consiga sentar- se, e sua capacidade de sentar-se antes que consiga engatinhar. Já no sistema nervoso, as principais estruturas do cérebro e as mais desenvolvidas no nascimento, são o mesencéfalo e a medula, que regulam tarefas básicas como atenção e a habituação, o dormir, o andar, a eliminação e o movimento da cabeça e do pescoço (BEE, 1997). A parte menos desenvolvida do cérebro é o córtex, a matéria cinzenta espiralada, em torno do mesencéfalo, envolvida na percepção, movimentos do corpo e toda a linguagem e os pensamentos complexos. O córtex possui todos os seus neurônios e algum desenvolvimento de dendritos no nascimento. O que ocorre entre o nascimento e os dois anos de vida é a criação de uma grande quantidade de sinapses que representa um grande crescimento da árvore dendrítica, além de axônios e suas fibras terminais. Devido a essa rápida multiplicação de fibras, o peso total do cérebro triplica neste período (BEE, 1997). AN02FREV001/REV 4.0 65 No desenvolvimento de neurônios e sinapses, os dendritos não são contínuos e regulares. Neurofisiologistas descobriram a existência de uma primeira erupção na formação de sinapses, seguida de uma “eliminação” de sinapses por volta dos dois anos. As conexões redundantes são eliminadas e o “diagrama elétrico” é arrumado (BEE, 1997). FIGURA 19 - CABEÇA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/c%C3%A9rebro-beb%C3%AA.html. Acesso em: 2 jul. 2009. No início do desenvolvimento, por exemplo, observa-se que cada célula musculoesquelética parece desenvolver conexões sinápticas com vários neurônios motores na medula espinhal. Mas, após o processo de eliminação, cada fibra muscular é conectada a somente um neurônio. Normalmente, o organismo é programado para criar certas espécies de conexões neuroniais e o faz em abundância, criando caminhos redundantes. Conforme esse argumento, a eliminação que ocorre por volta dos dois anos constitui uma reação à experiência específica, de modo que os caminhos mais utilizados ou os mais eficientes são, seletivamente, mantidos. De acordo com Bertentahal & Campos (1987), “A experiência não cria marcas em uma tábula rasa; a experiência apaga algumas delas”. Na adolescência também ocorre outra eliminação de sinapses, sugerindo haver uma posterior reorganização de caminhos naquele momento. Os nervos que estão a serviço das células musculares nos braços e mãos são mielinizados1 mais cedo do que os que atendem o tronco inferior e as pernas. A mielinização está amplamente concluída por volta dos dois anos, embora alguma coisa ainda se processe no cérebro, durante a adolescência (BEE, 1997). 1 Mielinização – Processo fundamental no desenvolvimento de bainhas em torno de cada axônio, o que os isola uns dos outros e melhora a condutividade do nervo. A bainha é formada por uma substância chamada mielina e o processo se chama Mielinização. AN02FREV001/REV 4.0 66 Já as mudanças no sistema nervoso são acompanhadas por mudanças em outras estruturas do corpo, o que inclui ossos e músculos, embora aqui as mudanças ocorram de maneira bastante gradual, da infância por meio da adolescência, ao invés de se dar sob a forma de um arranque súbito notável que observamos no sistema nervoso (BEE, 1997). A mão, o pulso, o tornozelo e o pé, todos possuem menos ossos, no nascimento, do que na maturidade plena. Por exemplo, no pulso de um adulto há nove ossos separados. No caso de uma criança com um ano de vida, há apenas três. Os seis restantes desenvolvem-se durante a infância, sendo que o crescimento completo se dá na adolescência (BEE, 1997). Em uma parte do corpo, no entanto, os ossos mais se fundem do que se diferenciam. O crânio de um recém-nascido é formado por vários ossos, separados por espaços, chamados fontanelas. As fontanelas permitem que a cabeça se comprima sem qualquer dano, durante o processo de nascimento, também permitindo ao cérebro espaço para crescer. Na maioria das crianças, as fontanelas são preenchidas por ossos por volta dos 12 aos 18 meses, criando um único osso craniano conectado (BEE, 1997). FIGURA 20 - FLEXIBILIDADE FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/c%C3%A9rebro-beb%C3%AA.html. Acesso em: 2 jul. 2009. Todos os ossos de um bebê são também mais macios, com mais elevado conteúdo de água, do que os ossos dos adultos. O processo de enrijecimento dos ossos, a ossificação, ocorre regularmente, do nascimento à puberdade, tendo-se os ossos de diferentes partes do corpo enrijecendo-se em uma sequência que segue os AN02FREV001/REV 4.0 67 típicos padrões próximo-distais e cefalocaudal. Como exemplo, os ossos das mãos e pulso enrijecem antes dos pés (BEE, 1997). Os ossos macios são necessários, pois o feto precisa possuir flexibilidade suficiente para caber no espaço uterino. Mas essa mesma flexibilidade contribui para um relativo desamparo do recém-nascido. Bebês recém-nascidos são notavelmente moles; nem mesmo conseguem manter ereta a cabeça, sentar-se sem auxílio ou andar. À medida que os ossos enrijecem, o bebê consegue manipular com mais segurança seu corpo, o que aumenta o alcance da exploração com a qual ele se diverte, tornando-o muito mais independentes (BEE, 1997). Já com os músculos, o recém-nascido possui, virtualmente, todas as fibras musculares que terá maistarde exatamente, como seus ossos, essas fibras musculares são, inicialmente, pequenas e aquosas, tornando-se mais longas, espessas e menos aquosas, a um ritmo bastante constante, até a adolescência. O bebê, então, adquire força muscular no pescoço bastante cedo, embora não possua força muscular suficiente nas pernas de modo a ter apoio para andar, o que somente se dá meses após (BEE, 1997). Todas essas mudanças internas obviamente afetam o tamanho e a forma do bebê. Os bebês crescem rapidamente, nos primeiros meses, acrescentando de 25 cm a 29 cm em seu comprimento e triplicando o peso de seu corpo, no primeiro ano de vida. Por volta dos dois anos, após aumentar esses centímetros em sua altura, os bebês estão com a metade da altura que terão na vida adulta. É surpreendente que os bebês possuam a cabeça, proporcionalmente, muito maior, o que é uma necessidade óbvia para que ele mantenha aquele cérebro que já possui quase que seu tamanho total (BEE, 1997). 5.1.2 Desenvolvimento Motor De acordo com MUSSEN, CONGER, KAGAN, HUSTON (1988), o bebê pode exibir uma variedade de reflexos motores complexos, alguns dos quais são necessários à sobrevivência. Os bebês seguirão com seus olhos uma luz que se move, sugam um mamilo que lhes é inserido na boca, viram-se na direção de um toque no canto da boca e agarram um objeto que lhes é colocado na palma da mão. AN02FREV001/REV 4.0 68 As capacidades da criança para sentar-se, ficar de pé e andar exemplificam a influência da maturação no desenvolvimento. Cada capacidade ocorre em sequência durante os primeiros dois a três anos de vida, como resultado da criança usar os membros em coordenação com a maturação de tecidos neurais específicos e o crescimento dos ossos e dos músculos (MUSSEN, CONGER, KAGAN, HUSTON, 1988). Bebês de quatro meses são capazes de sentar-se com apoio durante um minuto, e com cerca de nove meses a maioria pode sentar-se sem suporte durante 10 minutos ou mais. FIGURA 21 - ENGATINHANDO FONTE: Disponível em: <http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a_2.html. Acesso em: 2 jul. 2009. A idade média para arrastar-se (mover-se com o abdômen em contato com o chão) é nove meses; engatinhar, sobre as mãos e os joelhos, costuma ocorrer aos 10 meses, mais ou menos. Um bebê pode deixar de passar por um ou dois estágios no desenvolvimento, mas a maioria passa por meio de quase todos (MUSSEN, CONGER, KAGAN, HUSTON, 1988). A capacidade para andar se forma depois de uma série de realizações anteriores. Como em outros aspectos do desenvolvimento, as idades em que essas realizações ocorrem cobrem uma vasta faixa. A idade média para pôr-se de pé, apoiando-se em um móvel, é entre nove e dez meses. A criança média fica de pé, sem apoio, com cerca de onze meses e anda, quando alguém a segura pela mão com um ano, podendo andar só, embora desajeitadamente, com cerca de treze meses. Com dezoito meses a criança pode subir e descer escadas sem auxílio (e usualmente sem cair) e pode puxar um brinquedo no chão. Aos dois anos, a criança pode apanhar um objeto no chão sem cair e pode correr e andar para trás (MUSSEN, CONGER, KAGAN, HUSTON, 1988). AN02FREV001/REV 4.0 69 FIGURA 22 – BEBÊ ANDANDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a_2.html. Acesso em: 2 jul. 2009. MARCOS DO DESENVOLVIMENTO MOTOR NOS PRIMEIROS DOIS ANOS DE VIDA IDADE HABILIDADES LOCOMOTORAS HABILIDADES NÃO LOCOMOTORAS HABILIDADES MANIPULATIVAS 1 mês Reflexo de marcha Levanta um pouco a cabeça; acompanha com os olhos um objeto movimentado lentamente. Segura objeto se colocado na mão. 2-3 meses Eleva a cabeça até 90 graus se deitado de bruços. Começa a bater em objetos ao alcance. 4-6 meses Vira-se; senta com auxílio; movimenta- se sobre mãos e joelhos (“engatinha”). Mantém ereta a cabeça quando sentado. Alcança e segura objetos. 7-9 meses Senta sem ajuda; engatinha. Transfere objetos de uma mão à outra. 10-12 meses Tenta ficar em pé; anda segurando os Agacha-se e inclina- se. Alguns sinais de preferência de mão; AN02FREV001/REV 4.0 70 móveis (“circulação”); depois anda sem ajuda. segura uma colher colocada na palma da mão, mas não consegue levar o alimento à boca. 13-18 meses Caminha para trás e para os lados; corre (14-20 meses). Rola bola para um adulto. Empilha dois blocos; coloca objetos em pequenos recipientes e os descarrega. FONTES: BEE (1997) - MATHEW & COOK (1990), THOMAS (1990). De acordo com BEE (1997), as sequências maturacionais parecem, necessariamente, ser parte da explicação, em especial no caso de padrões centrais como as mudanças neuroniais e as mudanças nos músculos e ossos. Em todas essas áreas, enquanto a taxa de desenvolvimento varia de uma criança para outra, a sequência é, virtualmente, a mesma para todas as crianças, mesmo aquelas com deficiências físicas ou mentais marcantes. Crianças com retardo mental, por exemplo, costumam passar por todos os marcos motores mais lentamente do que crianças normais, embora sigam a mesma sequência. Sempre que encontramos essas sequências sadias, a maturação de alguma espécie parece uma explicação óbvia. Ao mesmo tempo, nossa herança genética é individual e específica da espécie. Além de sermos programados para várias sequências básicas de desenvolvimento físico, cada um de nós recebe instruções para tendências singulares de crescimento. Tamanho e formato do corpo parecem bastante influenciados por essa herança específica. Pais altos tendem a ter filhos altos, pais baixos tendem a ter filhos baixos e há semelhanças entre pais e filhos em coisas como largura dos quadris, comprimento dos braços e tronco curto ou comprido, entre outras (BEE, 1997). AN02FREV001/REV 4.0 71 É importante verificarmos também as influências ambientais sobre o desenvolvimento físico, em termos da própria prática de várias atividades físicas pela criança. Um bebê que passa bastante tempo em um brinquedo chamado de andador, que o sustenta enquanto ele se movimenta pelo local, irá aprender a andar de maneira independente de certa forma mais cedo do que um bebê que jamais utilizou esse brinquedo. Um bebê que já anda e que tem oportunidade de tentar subir escadas aprende a fazê-lo mais cedo ou com mais habilidade do que um bebê que anda e que raramente é exposto a escadas. FIGURA 23 – BEBÊ COMENDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-comendo.html. Acesso em: 2 jul. 2009. A alimentação também é um forte contribuinte para o desenvolvimento físico e motor. Uma grave deficiência nutricional durante o período da gravidez parece produzir uma taxa lenta de desenvolvimento físico e motor. As crianças cujas dietas melhoram tarde podem, em parte, recuperar sua taxa de altura ou crescimento, embora elas costumem ser mais baixas e mais lentas do que os companheiros (BEE, 1997). 5.1.3 Desenvolvimento Perceptivo Percepção é quando a estimulação sensorial pode ser integrada com dados já acumulados que produzem sensações adquirindo um significado para a criança. No caso do recém-nascido, recebem toda espécie de estimulação sensorial (visual, AN02FREV001/REV 4.0 72 auditiva, olfativa, gustativa, tátil e cinestésica) por meio de várias modalidades sensoriais. Eles dão respostas a esses estímulos, mas essas respostas têm utilidades limitadas e são mais ou menos automáticas. Recém-nascidos são incapazes de integrar essas impressões sensoriais que se encontram no córtex com informações já acumuladas a fim de que seu significado seja “ligado” a essas sensações (BEE, 1997). FIGURA 24 – BEBÊ FONTE:http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-sporting.html. Acesso em: 2 jul. 2009. Os processos perceptivos constituem uma parte de quase todas as tarefas que a criança deve realizar, de todas as habilidades motoras ou cognitivas que são desenvolvidas. Para identificar a mãe ou o pai ela precisa discriminar cheiros, vozes ou rostos. Para reconhecer rostos, ela precisa prestar atenção a características individuais ou padrões de características. Para aprender a falar, ela precisa perceber diferenças entre os sons, centrando-se finalmente no repertório de sons usados na língua falada ao seu redor (BEE, 1997). FIGURA 25 – RASTEJANDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-sporting.html. Acesso em: 2 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 73 É importante entendermos os tipos de impressões dos sentidos que são possíveis para a criança e compreender como ela interpreta essas impressões dos sentidos, a discriminá-las e reconhecer ou compreender padrões. Segundo BEE (1997), o desenvolvimento perceptivo é uma espécie de ponte entre o desenvolvimento físico e o desenvolvimento cognitivo. Os primeiros meses de vida são a época de mudanças mais rápidas nas habilidades perceptivas, e, portanto um momento de maior interesse para os psicólogos que estão tentando compreender os processos de desenvolvimento. Como vimos no capítulo anterior sobre as capacidades sensoriais dos recém-nascidos é fundamental relembrarmos que elas estão presentes no nascimento, de uma forma rudimentar e vão se desenvolvendo a partir do crescimento da criança. A visão para cores está presente no nascimento, mas a acuidade visual e a habilidade de perseguir com o olhar são relativamente deficientes no nascimento, desenvolvendo-se rapidamente durante os primeiros meses (BEE, 1997). As habilidades auditivas básicas estão mais completamente desenvolvidas no nascimento; a acuidade é boa para o alcance da voz humana e o recém-nascido pode localizar pelo menos a direção aproximada dos sons. As capacidades sensoriais de olfato, paladar, e os sentidos de tato e movimento também estão bem- desenvolvidos no nascimento. FIGURA 26 – BEBÊ OBSERVANDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-cantando.html. Acesso em: 2 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 74 A percepção de profundidade não está presente no nascimento; ela está presente, pelo menos de forma rudimentar, em torno dos três meses, inicialmente por meio do uso de deixas cinéticas, depois de informações binoculares, e finalmente das informações pictóricas por volta dos cinco a sete meses (BEE, 1997). A atenção visual parece seguir regras definidas, mesmo nas primeiras horas de vida. Os recém-nascidos buscam objetos e focam os limites ou os pontos de contraste claro/escuro, ou o movimento. Por volta dos dois meses de idade, o foco dos bebês muda para examinar o meio assim como os limites das coisas, e eles passam a prestar atenção a relacionamentos e padrões complexos. Os bebês podem discriminar o rosto da mãe dos outros rostos, e a voz da mãe das outras vozes, quase imediatamente. Desde o início, os bebês parecem perceber e discriminar contrastes sonoros presentes em todas as línguas possíveis; por volta de um ano, o bebê faz discriminações precisas somente entre os sons salientes na linguagem que é falada em seu ambiente. Desde muito cedo, certamente já em torno dos quatro meses, os bebês também percebem e discriminam diferentes padrões de som, como melodias ou inflexões de fala. Transferências modais cruzadas de tato/visão e som/visão foram demonstradas já com um mês de idade; confiavelmente, aos quatro meses. As constâncias perceptivas como constância de tamanho, constância de brilho e constância de forma estão presentes aos quatro meses, pelo menos de forma rudimentar, e talvez mais cedo. Os jovens bebês também têm um entendimento bastante complexo dos objetos, de suas propriedades e possíveis movimentos. O entendimento da permanência do objeto (a compreensão de que o objeto existe mesmo quando está fora de vista) começa aos dois ou três meses de idade, e está bem-desenvolvido pelos 10 meses. Os bebês diferem na aparente velocidade ou eficiência dos processos perceptuais, como a habituação a estímulos repetidos. Essas variações no índice de habituação estão correlacionadas a medidas posteriores de QI e à linguagem. Muitas capacidades perceptuais básicas, incluindo estratégias para examinar objetos, parecem ser inatas no sistema já no nascimento, ou se AN02FREV001/REV 4.0 75 desenvolvem nos primeiros anos, conforme o cérebro se desenvolve. Mas são necessárias experiências específicas para manter o sistema subjacente e para aprender discriminações e padrões fundamentais (BEE, 1997). FIGURA 27 – BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-pegando.html. Acesso em: 5 jul. 2009. 5.1.4 Desenvolvimento Cognitivo De acordo com PAPALAIA & OLDS (2006), se os bebês pudessem falar, eles protestariam que sua inteligência foi subestimada durante séculos. Esta subestimação persistiu quase até a atualidade por causa de dois movimentos importantes ao final do século XIX. Enquanto os psicólogos estavam começando a propor teorias do desenvolvimento humano, os médicos estavam estabelecendo uma rotina na qual os bebês nasciam em hospitais, eram expostos a drogas sedativas e isolados de suas mães – situação não muito propícia para melhor demonstrar as habilidades dos recém-chegados! Além disso, os primeiros testes para estudar a inteligência dos bebês eram baseados em testes para adultos ou animais, nenhum dos quais adequados, portanto. Hoje, nossa visão das habilidades cognitivas dos bebês mudou radicalmente. Durante as últimas décadas, houve mais pesquisas nesse tópico do que durante toda a história pregressa. Agora sabemos que o bebê humano normal e saudável é acentuadamente competente. Os bebês vêm ao mundo com as capacidades de aprender e lembrar, assim como de adquirir e usar a linguagem. Os recém-nascidos começam avaliando o que seus sentidos lhes informam. Eles usam suas habilidades cognitivas para distinguir entre experiências sensoriais (tais como os sons de diferentes vozes), construir sobre seu pequeno repertório inato de AN02FREV001/REV 4.0 76 comportamentos (principalmente mamar) e exercer controle crescente sobre seu comportamento e seu mundo (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 28 – BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-cantando.html. Acesso em: 5 jul. 2009. Exemplo: Lucas, com um ano de idade, adorava pipoca e também brincar. Um dia, seu pai colocou algumas pipocas em sua mão, fechou-a, e a posicionou sobre a bandeja da cadeira de Lucas. Com ambas as mãos, ele forçava os dedos a se abrir, via a pipoca e soltava quando tentava pegá-las. Quando tinha os dedos livres, o pai os fechava novamente sobre as pipocas. Depois de duas outras tentativas, Lucas descobriu que podia manter os dedos da mão abertos com uma mão enquanto pegava a pipoca com a outra. Um dia, quando tinha numa das mãos um brinquedo que não queria largar, Lucas encontrou outra solução. Ele abriu os dedos do pai com sua mão livre e os mantiveram abertos com a ajuda do queixo, de forma que pudesse usar a mesma mão para pegar as pipocas. Lucas demonstrou comportamento inteligente, comportamento que envolve aprendizagem complexa iniciada de modo independente. Geralmente concorda-se que o comportamento inteligente tem dois aspectos-chave. Primeiro, ele é orientado para a meta: consciente e deliberado e não acidental. Segundo, é adaptativo: dirigido à adaptação às circunstâncias e às condições de vida. FIGURA 29 – CRIANÇA E JOGO AN02FREV001/REV 4.0 77 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-inteligente.html.Acesso em: 5 jul. 2009. A inteligência é influenciada tanto pela capacidade herdada quanto pela experiência. A inteligência permite que as pessoas adquiram, lembrem e usem o conhecimento; compreendam conceitos e relacionamentos; e apliquem o conhecimento e a compreensão nos problemas cotidianos. Como e quando os bebês aprendem a resolver problemas? Como e quando se desenvolve a memória? O que explica as diferenças individuais nas habilidades cognitivas? Podemos medir a inteligência de um bebê? Podemos prever o quão inteligente será esse bebê posteriormente? A maioria dos pesquisadores do desenvolvimento cognitivo usa uma de quatro abordagens para o estudo de tais questões: Abordagem Comportamentalista ou behaviorista: Estuda a mecânica básica da aprendizagem. Ela preocupa-se em como o comportamento muda em resposta à experiência. Desde que tenha um reforço positivo. No início deve ser primário (balas, brinquedos), gradualmente poderá ser substituído pelo social, como elogios. Assim, o comportamento se mantém. Abordagem Piagetiana: Observa as mudanças na qualidade do funcionamento cognitivo, ou o que a pessoa é capaz de fazer. Ela se relaciona com a evolução das estruturas mentais e como as crianças se adaptam a seu ambiente, sustentando que a cognição se desenvolve em etapas. Abordagem Psicométrica: Tenta medir as diferenças individuais em termos de quantidade de inteligência, quanta inteligência uma pessoa tem. Quanto mais alto o escore de uma pessoa num teste de inteligência, mais inteligente presume-se que ela é. AN02FREV001/REV 4.0 78 Abordagem do processo de informações: Concentra-se nas diferenças individuais quanto ao modo no qual as pessoas usam sua inteligência. Ela procura descobrir os processos envolvidos na percepção e no manuseio da informação. Abordagem Behaviorista: Os bebês aprendem a sugar um mamilo? Provavelmente não. Mamar é um reflexo com o qual nascem. Mas, mamar logo se torna um comportamento aprendido quando leva à satisfação de ter enchido o estômago. FIGURA 30 – CRIANÇA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-inteligente.html. Acesso em: 5 jul. 2009. Os seres humanos nascem com a capacidade de aprender a partir da experiência. Os bebês aprendem com o que veem, ouvem, cheiram, degustam e tocam. A maturação é essencial para essa capacidade crescente de aprender. Certas capacidades neurológicas, sensórias e motoras devem estar presentes antes que a aprendizagem relacionada possa ocorrer. Os teóricos da aprendizagem reconhecem a maturação como fator limitador, porém não se concentram na mesma. Seu principal interesse são os mecanismos pelos quais as pessoas aprendem. Os behavioristas estudam dois processos simples de aprendizagem: condicionamento clássico e condicionamento operante. No condicionamento clássico, uma pessoa ou um animal aprende a responder automaticamente a um estímulo que originalmente não provocava a resposta. Ou seja, a pessoa aprende a antecipar acontecimentos. AN02FREV001/REV 4.0 79 Por meio de um estudo de BLASS, GANCHROW & STEINER (1984), bebês com apenas duas horas de vida foram condicionados de maneira clássica a virar a cabeça e mamar caso sua testa fosse acariciada: acariciavam-se suas testas ao mesmo tempo em que recebiam uma mamadeira de água adocicada. Bebês recém- nascidos aprenderam a mamar quando se ouviam uma sineta ou sinal; a mostrar o reflexo de Babkin (virar a cabeça e abrir a boca) quando seus braços eram movidos (ao invés do estímulo usual, pressão na palma da mão); a dilatar e contrair as pupilas de seus olhos; a piscar; e a mostrar alteração na frequência cardíaca. No condicionamento operante, o bebê aprende a dar uma determinada resposta para produzir um efeito particular. O condicionamento operante, no qual o aprendiz atua e influencia o ambiente, pode ser usado para aprender comportamentos voluntários (em contrastes com os comportamentos involuntários, como piscar). FIGURA 31 – CRIANÇA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-inteligente.html. Acesso em: 5 jul. 2009. O condicionamento clássico e operante podem juntos produzir um comportamento cada vez mais complexo. Em estudos com bebês de uma a 20 semanas de vida, os bebês recebiam leite se virassem a cabeça para a esquerda ao ouvirem o som de uma sineta. Os bebês que não aprendiam a virar a cabeça por meio desse condicionamento operante eram então condicionados de maneira clássica. Quando a sineta tocava, o canto esquerdo da boca do bebê era tocado, e ele então virava a cabeça e recebia o leite. (O toque era o estímulo não condicionado; virar a cabeça era a resposta não condicionada. A sineta era o AN02FREV001/REV 4.0 80 estímulo condicionado; virar a cabeça para a sineta tornou-se a resposta condicionada). Na idade de quatro a seis semanas, todos os bebês haviam aprendido a virar a cabeça ao ouvir a sineta. Então, os bebês aprenderam a diferenciar a sineta de uma campainha. Quando a sineta soava, eles eram alimentados pela esquerda; quando a campainha tocava, eram alimentados pela direita. Com aproximadamente três meses de idade, os bebês haviam aprendido a virar para o lado que trazia comida, sinalizado pela sineta ou pela campanha. Aos quatro meses, eles aprendiam até a inverter suas respostas à sineta e à campainha, ação de complexidade impressionante (PAPALIA & OLDS, 2006). Caso os bebês não tivessem a capacidade de lembrar pelo menos em curto prazo, eles não seriam capazes de aprender. Estudos utilizando condicionamento operante constataram que bebês de dois a seis meses são capazes de lembrar-se de realizar uma ação que lhes proporcionou prazer, contanto que a situação de teste seja virtualmente idêntica aquela na qual se deu o treinamento inicial (PAPALIA & OLDS, 2006). Abordagem Piagetiana: A abordagem cognitiva de Jean Piaget exerce hoje relevante papel em todas as áreas da psicologia e, principalmente, nos campos aplicados da educação e da psicoterapia. Abandonando a ideia de avaliar o nível de inteligência de um indivíduo por meio de suas respostas aos itens de determinados testes, Piaget adotou um método clínico por meio do qual procura acompanhar o processo do pensamento da criança para daí chegar ao conceito de inteligência como capacidade geral de adaptação do organismo (PAPALIA & OLDS, 2006). Os conceitos fundamentais da abordagem de Piaget são: esquema, ou estrutura, que é a unidade estrutural do desenvolvimento cognitivo; assimilação, processo pelo qual, novos objetos são incorporados aos esquemas; acomodação, que ocorre quando novas experiências modificam esquemas; equilibração, resolução de tensão entre assimilação e acomodação; operação, rotina mental caracterizada por sua reversibilidade e que representa o elemento principal do processo do desenvolvimento cognitivo. O desenvolvimento cognitivo se dá em quatro períodos (PAPALIA & OLDS, 2006): - O período sensório-motor (zero a dois anos), caracterizado pelas atividades reflexas; AN02FREV001/REV 4.0 81 - O período pré-operacional (dois a sete anos), em que a criança pode lidar simbolicamente com certos aspectos da realidade, mas seu pensamento ainda se caracteriza pela responsabilidade; Dividido em: Pensamento simbólico pré- conceitual: dois a quatro anos e Pensamento intuitivo: quatro a sete anos. - O período das operações intelectuais concretas (7 a 12 anos), em que a criança adquire o esquema de conservação; - Período das operações intelectuais abstratas (dos 12 anos em diante), caracterizado pelo pensamento proposicional e que representa o ideal da evolução cognitiva do ser humano. Agora veremos somente o estágio sensório-motor, para a criança de zero a dois anos, que é divididoem seis subestágios do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget, como é descrito no quadro a seguir: Os seis subestágios do estágio Sensório-Motor de Desenvolvimento Cognitivo de Jean Piaget SUBESTÁGIO DESCRIÇÃO Subestágio 1 (Nascimento até um mês) Os bebês exercitam seus reflexos inatos e ganham certo controle sobre os mesmos. Não coordenam informações dos sentidos. Não pegam um objeto que estão olhando. Não desenvolveram a permanência do objeto. Subestágio 2 (um a quatro meses) Os bebês repetem comportamentos agradáveis que primeiramente ocorrem por acaso (como sugar). As atividades focalizam-se no corpo do bebê mais do que nos efeitos do comportamento sobre o ambiente. Os bebês fazem as primeiras adaptações adquiridas, isto é, sugam objetos diferentes de maneiras diferentes. Eles começam a coordenar informações sensórias. Ainda não desenvolveram a permanência do objeto. Subestágio 3 (quatro a oito meses) Os bebês passam a interessar-se mais pelo ambiente e repetem ações que trazem resultados instigantes e prolongam experiências estimulantes. As ações são intencionais, mas inicialmente não orientadas a metas. Os bebês mostram permanência do objeto parcial. Procuram um objeto parcialmente escondido. Subestágio 4 (8 a 12 meses) O comportamento é mais deliberado e resoluto à medida que os bebês coordenam esquemas previamente aprendidos (como olhar e pegar um chocalho) e usam comportamentos anteriormente aprendidos para atingir suas metas (como engatinhar pela sala para obter um brinquedo desejado). Eles podem antecipar acontecimentos. A permanência do objeto está se desenvolvendo, embora os bebês procurem um objeto no primeiro lugar em que foi AN02FREV001/REV 4.0 82 escondido, ainda que tenham visto o mesmo ser movido. Subestágio cinco (12 a 18 meses) Os bebês mostram curiosidade à medida que variam propositadamente suas ações para obter resultados. Eles exploram ativamente seu mundo para determinar de que maneira um objeto, acontecimento ou situação são novos. Eles experimentam novas atividades e usam o método de tentativa e erro para a resolução de problemas. Em relação à permanência do objeto, os bebês acompanham uma série de deslocamentos deste, mas como não são capazes de imaginar um movimento que não veem, não procuram um objeto onde não tenham observado que foi escondido. Subestágio seis (18 a 24 meses) Uma vez que sabem representar os acontecimentos mentalmente, as crianças não se restringem mais à tentativa e ao erro para resolver problemas. O pensamento simbólico permite que elas comecem a pensar sobre os acontecimentos e antecipem suas consequências sem recorrer à ação. As crianças começam a demonstrar compreensão. A permanência do objeto está totalmente desenvolvida. FONTE: PAPALAIA & OLDS (2006) Mais adiante veremos as outras classificações dos estágios evolutivos para Jean Piaget. Abordagem Psicométrica: A curiosidade de Piaget pelos processos de pensamento das crianças foi inicialmente estimulada por seu trabalho com os primeiros testes de inteligência que estavam sendo desenvolvidos em Paris. No início do século XX, administradores de escolas daquela cidade pediram ao psicólogo Alfred Binet que criasse uma maneira de identificar as crianças que eram incapazes de manejar as atividades acadêmicas e que deveriam ser afastadas das aulas regulares e receber treinamento especial. O teste que Binet e seu colega Theodore Simon desenvolveram foi o precursor dos testes psicométricos, usados com crianças de todos os níveis de habilidade, que tentam avaliar a inteligência por meio de números. Um deles é a escala de Inteligência Stanford-Binet, uma versão americana dos testes Binet-Simon tradicionais (PAPALIA & OLDS, 2006). É importante frisar que estes testes foram realizados a partir da realidade europeia (Paris), então temos que adaptar alguns objetos e realidades próprias do nosso país. AN02FREV001/REV 4.0 83 FIGURA 32 – CRIANÇA E OS LIVROS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-inteligente.html. Acesso em: 10 jul. 2009. Em contraste com a preocupação de Piaget com a mudança qualitativa, a meta dos testes psicométricos é medir quantitativamente os fatores que constituem a inteligência, como compreensão e raciocínio. Os testes de QI (Quociente de Inteligência) consistem de perguntas ou tarefas que supostamente mostre o quanto dessas habilidades uma pessoa dispõe, comparando-se, para isso, seu desempenho com o desempenho de outras pessoas submetidas ao teste. O escore de uma criança é comparado com normas padronizadas – padrões obtidos a partir dos escores de uma amostra mais ampla e representativa de crianças da mesma idade que foram submetidas ao teste enquanto ele estava sendo desenvolvido (PAPALIA & OLDS, 2006). Os criadores de testes criam técnicas para tentar garantir que os mesmos tenham alta validade (isto é, que os testes meçam as habilidades que alegam medir) e confiabilidade (isto é, que os resultados dos testes sejam razoavelmente consistentes de uma vez para outra). Os testes podem ser significativos e úteis somente se forem válidos e confiáveis. Para crianças em idade escolar, os escores dos testes de inteligência podem prever o desempenho escolar de modo relativamente preciso e confiável. Testar a inteligência de bebês e crianças jovens é outra questão (PAPALIA & OLDS, 2006). Abordagem do processo de informações: Os pesquisadores do processamento de informações concentram-se na memória, na resolução de problemas e na aprendizagem. Eles veem as pessoas como manipuladores de percepções e símbolos. Sua meta é descobrir o que bebês, crianças e adultos fazem com a informação desde o momento em que a percebem até sua utilização. Assim como a abordagem psicométrica, a teoria do processamento de informações preocupa-se com as diferenças individuais no comportamento inteligente; mas ela se AN02FREV001/REV 4.0 84 concentra na descrição dos processos mentais envolvidos na aquisição de informações ou na resolução de problemas, ao invés de simplesmente pressupor diferenças no funcionamento mental a partir de respostas dadas ou problemas resolvidos. FIGURA 33 – CRIANÇA E O COMPUTADOR FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-inteligente.html. Acesso em: 10 jul. 2009. Em função da fraca correlação entre os escores em teste de desenvolvimento de bebês e em testes de QI posteriores, muitos psicólogos acreditavam que o funcionamento cognitivo do bebê tinha pouco em comum com aquele de crianças mais velhas e adultas, em outras palavras, que havia uma descontinuidade no desenvolvimento cognitivo. Hoje, as descobertas sobre a capacidade de bebês de interpretar suas percepções questionam essa visão. Quando avaliamos como os bebês processam as informações em vez de como realizam testes psicométricos, constatamos que o desenvolvimento mental é razoavelmente contínuo desde o nascimento até a infância (McCall & Carriger, 1993). 5.1.5 Desenvolvimento da linguagem De acordo com BEE (1996) e PAPALAIA & OLDS (2006), a linguagem pode ser definida como um sistema arbitrário de símbolos que nos permite falar, e compreender, uma infinita variedade de mensagens. Ela é governada por regras e é muito criativa. AN02FREV001/REV 4.0 85 A fala pré-linguística, a qual precede a primeira palavra, inclui choro, arrulhos, balbucio e imitação de sons da língua. Os neonatos são capazes de distinguir os sons da fala: aos seis meses, os bebês já aprenderam os sons básicos de sua língua. Antes de dizerem sua primeira palavra, os bebês usam gestos, que incluem apontar, gestos sociais convencionais, gestos representacionais e simbólicos. Aos nove ou 10 meses, os bebês começam a compreender a fala com significado. Durante o segundo ano de vida, a criançajá começa a falar a língua da cultura. A primeira palavra tipicamente aparece em algum ponto entre 10 e 14 meses, iniciando a fala linguística. As primeiras palavras isoladas podem ser holofrases, as quais expressam um pensamento completo numa única palavra (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 34 – CRIANÇA FALANDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-falando.html. Acesso em: 15 jul. 2009. Diferente da fala pré-linguística, a fala linguística não está diretamente ligada à idade cronológica. Uma “explosão de nomes” ocorre tipicamente em algum ponto entre 16 e 24 meses de idade. Historicamente, duas teorias antagônicas acerca de como as crianças adquirem a linguagem são a teoria da aprendizagem (a qual enfatiza o papel do reforço e a imitação) e o inatismo (o qual sustenta que as pessoas têm uma capacidade inata para adquirir a linguagem). Atualmente, a maioria dos psicólogos do desenvolvimento afirma que as crianças têm uma capacidade inata para AN02FREV001/REV 4.0 86 aprender a linguagem e que ela é ativada e estimulada pela maturação, pelo desenvolvimento cognitivo e por certas experiências ambientais (PAPALIA & OLDS, 2006). Influências específicas no desenvolvimento da linguagem incluem fatores genéticos, temperamento e interação social. A comunicação entre cuidadores e crianças é essencial para o desenvolvimento da linguagem. O valor de ouvir uma linguagem direta e simples (fala dirigida à criança, ou “língua de mãe”) não está claro, embora os bebês mostrem preferência pela mesma. Perguntas e elaboração são mais eficazes do que a fala diretiva, tanto na conversação quanto na leitura em voz alta. MARCOS NO DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM DO NASCIMENTO AOS TRÊS ANOS DE IDADE IDADE EM MESES DESENVOLVIMENTO Nascimento O bebê é capaz de perceber a fala, chorar e dar alguma resposta ao som. 1,5 a 3 Arrulha e ri. 3 Brinca com os sons da fala. 5 a 6 Produz sons de consoantes, tentando imitar o que ouve. 6 a 10 Balbucia sequências de consoantes e vogais. 9 Usa gestos para se comunicar e brinca com os mesmos. 9 a 10 Começa a compreender palavras (geralmente “não” e seu próprio nome); imita os sons. 9 a 10 Perde a habilidade de discriminar sons que não os de sua própria língua. 9 a 12 Usa alguns gestos sociais. 10 a 14 Diz a primeira palavra (geralmente um rótulo para alguma coisa); imita os sons. 10 a 18 Diz palavras isoladas. 13 Compreende a função simbólica da denominação. 13 Usa gestos mais elaborados. 14 Usa gestos simbólicos. 16 a 24 Aprende muitas palavras novas, expandindo seu vocabulário, partindo de cerca de 50 palavras para até 400; usa verbos e adjetivos. 18 a 24 Diz sua primeira frase (duas palavras). 20 Usa menos gestos; nomeia mais coisas. 20 a 22 Salto na compreensão. AN02FREV001/REV 4.0 87 24 Usa muitas frases de duas palavras; não balbucia mais; quer conversar. 30 Aprende novas palavras quase todos os dias; fala combinando três ou mais palavras; compreende muito bem; comete alguns erros gramaticais. 36 Fala cerca de 1000 palavras, 80% das quais inteligíveis; comete erros de sintaxe. FONTE: Capute, Shapiro & Palmer, 1987. 5.1.6 Desenvolvimento Social e da Personalidade Segundo MUSSEN, CONGER, KAGAN, HUSTON (1984), desde o começo da vida os bebês são seres sociais. Os relacionamentos sociais e emoções das crianças são aspectos centrais do início do desenvolvimento. Conquanto separemos os domínios do desenvolvimento cognitivo, social e emocional, a fim de estudar e escrever a seu respeito, o estudante deve compreender que eles são interdependentes. A ligação afetiva de um bebê a outra pessoa e a experiência emocional de ansiedade quanto à possível perda dessa ligação não podem ser completamente entendidas sem que sejam consideradas as capacidades cognitivas da criança. Com igual frequência, a cognição é influenciada pelos estados emocionais da criança e pelas interações com os outros. Durante a maior parte deste século os psicólogos enfatizaram os relacionamentos das crianças com as pessoas que cuidam delas e consideraram essas interações como as bases principais do desenvolvimento emocional e cognitivo (BOWLBY, 1969; FREUD, 1964; WATSON, 1928). FIGURA 35 – CRIANÇA SOCIAL FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/baby-amigos.html. Acesso em: 15 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 88 Até recentemente estes teóricos enfocavam quase inteiramente a mãe como a pessoa cujo amor, carinho e atenção eram da maior importância para os sentimentos de segurança e insegurança do bebê. Somente durante a última década é que os cientistas estudaram a influência dos pais, irmãos e outras pessoas que cuidam dos bebês, bem como a do temperamento do próprio bebê sobre o desenvolvimento. Além disso, a maioria dos teóricos enfatizou a importância do prazer e da dor no desenvolvimento do comportamento. Supunham que os seres humanos eram motivados pelo desejo de obter prazer e evitar a dor. Consequentemente conferiam a maior importância às ações daqueles que, cuidando das crianças, proporcionavam-lhes prazer. Julgava-se que os bebês desenvolviam sentimentos positivos e ligavam-se intimamente às pessoas que eram fontes frequentes de prazer ou pelo fato de estas pessoas os acarinharem e brincarem com eles, ou por reduzirem o desconforto da dor, do frio, da fome ou as reações psicológicas de desconforto (PAPALIA & OLDS, 2006). Segundo a teoria psicanalítica, considera os dois primeiros anos de vida como especialmente significantes no desenvolvimento da personalidade. Para Freud, o bebê passa pelas fases oral e anal de desenvolvimento, ao passo que Erikson vê esse período como aquele em que as crianças devem formar inicialmente um laço de confiança com os que lhes estão mais próximos e, depois, desenvolvem um senso de autonomia, um senso de que podem fazer as coisas por si próprias. De acordo com PAPALAIA & OLDS (2006), desde o início da vida, os bebês partilham de padrões comuns de desenvolvimento e mostram personalidades distintas, as quais refletem influências inatas e ambientais. A partir do nascimento, o desenvolvimento da personalidade está interligado com os relacionamentos sociais. 5.1.7 Emoções FIGURA 36 – SILHUETA AN02FREV001/REV 4.0 89 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em 15 de julho de 2009. Os seres humanos normais parecem ter as mesmas emoções básicas, como sentimentos agradáveis e desagradáveis, tristeza, alegria, medo e raiva, os quais motivam o comportamento. Contudo, as pessoas se diferenciam quanto à frequência com que sentem uma determinada emoção, que tipos de experiências a produzem, e como agem em consequência. As reações emocionais aos acontecimentos e as pessoas, as quais estão ligadas as percepções cognitivas, são um elemento fundamental da personalidade (PAPALIA & OLDS, 2006). Em um estudo alguns pesquisadores gravaram em videoteipe, bebês de cinco, sete e nove meses de idade brincando com suas mães, vendo uma caixa de onde saltava um boneco, recebendo injeções de um médico, e quando um estranho se aproximava poderia suscitar medo. Estudantes universitários e profissionais da saúde que viram as fitas interpretaram as expressões faciais dos bebês mostrando alegria, tristeza, interesse e medo, e, em menor grau, raiva, surpresa e aversão. Não sabemos se esses bebês de fato tiveram as emoções que lhes foram atribuídas, mas suas expressões faciais eram muito semelhantes às expressões dos adultos dessas emoções; assim, parece provável que eles estivessem experimentando sentimentos semelhantes (PAPALAIA & OLDS, 2006). Geralmente, logo após o nascimento, os bebês mostram sinais de desconforto, interesse e aversão. Nos meses seguintes,essas emoções básicas se diferenciam em alegria, zangado, surpresa, tristeza, reserva e medo. A emergência dessas emoções parece ser governada pela maturação biológica cerebral (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 37 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html AN02FREV001/REV 4.0 90 As expressões de desconforto por parte de bebês de dois meses podem lhes trazer a ajuda que necessitam; as expressões de zangados podem mobilizar bebês de nove meses a ajudarem a si mesmos. A programação emocional pode ser alterada por influências ambientais extremas; bebês que sofreram abuso mostram medo vários meses antes do que os outros bebês. FIGURA 38 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. Embora o desenvolvimento de certas emoções básicas pareça universal, pode haver variações culturais. Num estudo, 33 bebês japoneses e americanos foram gravados em videoteipe enquanto os experimentado seguravam seus braços de modo delicado, porém firme por até três minutos. Em ambas as culturas, os bebês mais velhos pareciam mais incomodados do que os mais jovens, porque já tinham consciência do perigo de poder cair. Aos cinco meses, os bebês japoneses mostravam uma reação menos intensa do que os americanos, mas aos 12 meses os bebês de ambas as culturas mostravam expressões negativas semelhantes (Camras; Oster, Campo, Miyake & Bradshaw, 1992). 6 TEORIA DO APEGO Segundo BEE (1997), a influência teórica sobre os estudos das relações entre os pais e o bebê é a importante teoria do apego, em especial ao trabalho de John Bowlby (1969), cujas raízes tiveram a influência do pensamento psicanalítico, AN02FREV001/REV 4.0 91 em especial, na ênfase sobre a importância das primeiras relações entre a mãe e a criança. Ele, no entanto, acrescentou importantes conceitos evolutivos e etológicos. O seu modo de ver os bebês é que eles nascem com uma tendência inata a criar fortes elos emocionais com seus provedores de cuidados. Tais relações possuem um valor de sobrevivência, porque trazem atenção de todas as espécies ao bebê. Elas são construídas e mantidas por um repertório encadeado de comportamentos instintivos que criam e sustentam a proximidade entre pais e filhos ou entre outros pares ligados. FIGURA 39 – BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. Um apego é uma subvariedade de vínculo emocional em que a sensação de segurança de uma pessoa está inseparavelmente ligada à relação. Quando você está apegada a alguém, você sente ou espera sentir uma sensação especial de segurança e conforto, na presença do outro, podendo usar o outro como uma “base segura” a partir da qual você explora o resto do mundo (BEE, 1997). FIGURA 40 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 92 Logo, a relação da criança com o genitor é um apego, embora a relação deste com aquela não o seja. O genitor, provavelmente, não tem uma maior sensação de segurança na presença do bebê ou o utiliza como uma base segura. A relação de um adulto com um amigo íntimo ou com um parceiro adulto, no entanto, costuma ser uma relação de apego (BEE, 1997). Pelo fato de os vínculos afetivos e as relações de apego ser estados internos, não podemos vê-los diretamente. Ao invés disso, deduzimos sua existência observando comportamentos de apego que são todos esses comportamentos que permitem a uma criança ou a um adulto obter e reter a aproximação à outra pessoa à qual ele está apegado. Isso poderia incluir um sorriso, um contato olho a olho, o chamar uma pessoa do outro lado da sala, o tocar, o unir-se ao outro, o chorar. É importante que se esclareça a não existência da correspondência uma-a-um entre a quantidade de diferentes comportamentos de apego que uma criança (ou adulto) evidencia em qualquer ocasião e a força do apego subjacente (BEE, 1997). Comportamentos de apego são, basicamente, elucidados quando o indivíduo necessita de cuidado, apoio ou conforto. Um bebê encontra-se em um estado de necessidade em boa parte do tempo. Uma criança mais velha, ou um adulto, irá, provavelmente, evidenciar comportamentos de apego apenas quando assustado, cansado ou em situação de estresse. É o padrão desses comportamentos, e não sua frequência, que nos revela algo acerca da força ou qualidade do apego ou vínculo afetivo (BEE, 1997). FIGURA 41 – BANHO NO BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 93 O processo de apego é uma via de mão dupla. Tanto o bebê quanto o genitor desenvolvem vínculos recíprocos, e é importante compreendermos ambos os processos. FIGURA 42 – FAMÍLIA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. No caso do adulto, o essencial para a formação de um vínculo com o bebê, parece ser a oportunidade de desenvolver uma verdadeira reciprocidade ou sincronia. É como uma dança, no início os parceiros reagem um ao outro de maneira suave e prazerosa. Isso leva tempo e requer muitos ensaios, ficando alguns pais (e bebês) mais hábeis do que outros. Em geral, quanto mais suave e previsível se torna o processo, maior satisfação ele parece propiciar aos pais e mais forte se torna o elo com o bebê. Esse segundo passo parece mais importante do que o contato inicial no nascimento, no estabelecimento de um vínculo parental forte com a criança. No entanto, esse segundo processo também pode fracassar (BEE, 1997). Como exemplo de fracasso, poderia ser a depressão, que não apenas rompe o comportamento de cuidado dos pais, mas também afeta a resposta da criança. Bebês que interagem com mães depressivas ou mesmo com mães a quem foi dito parecerem depressivas ou com expressão desconcertada sorriem menos, sendo mais desorganizados e angustiados. As mães deprimidas são mais lentas para reagir aos sinais de seus filhos, sendo mais negativas, até mesmo hostis, com seus bebês. Em geral, essas relações parecem carecer de sincronia. As deficiências no comportamento materno com o bebê parecem persistir mesmo quando a mãe não mais está depressiva, indicando que seu vínculo com o filho é menos sólido (BEE, 1997). Da parte do bebê, também encontramos a generalização do efeito da depressão materna. Foi realizada uma pesquisa de observação que bebês com três AN02FREV001/REV 4.0 94 meses de idade, de mães depressivas, evidenciaram comportamentos semelhantes de angústia e não sincronismo ao interagir com um adulto não depressivo (FIELD, 1988). FIGURA 43 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 15 jul. 2009. Nem todas as mães depressivas evidenciam tal padrão de comportamento. No caso de elas terem um bom casamento, bom apoio de amigos e dos familiares, e se o bebê possui boas habilidades de interação, as mães depressivas parecem capazes de desenvolver padrões positivos de interação com seus bebês (TETI, GELFAND, MESSINGER & ISABELLA, 1995). No caso de bebês que foram desejados tanto pelo pai, quanto pela mãe e ambos se apresentam saudáveis. O elo paterno, tal como o materno, parece depender mais do desenvolvimento da reciprocidade do que do contato imediatamente apóso nascimento. O desenvolvimento de tal reciprocidade está no fato de que os pais parecem ter o mesmo repertório de comportamentos de apego das mães. Nas primeiras semanas de vida do bebê, os pais tocam nele, falam com ele e o afagam da mesma forma que as mães (PARKE & TINSLEY, 1981). Depois das primeiras semanas de vida, encontram-se sinais de um tipo de especialização de comportamentos dos pais com seus bebês e crianças maiores. Os pais passam mais tempo brincando com o bebê, em atividades mais físicas. As mães passam mais tempo nos cuidados de rotina, além de conversar mais com o bebê e sorrir para ele. Isso não significa que os pais tenham um elo afetivo menos forte com seu filho, o significado está em que os comportamentos de apego que eles AN02FREV001/REV 4.0 95 evidenciam para com o bebê costumam ser um tanto diferentes dos evidenciados pelas mães (BEE, 1997). As diferenças de sexo nos comportamentos dos pais são reflexos de definições de papéis com bases culturais ou instintivas. Assim, como o elo dos pais para com o bebê, o apego deste surge gradativamente. Bowlby (1969) sugeriu três fases no desenvolvimento do apego do bebê: 1º Fase) Orientação e sinalização não focalizada: Bowlby acreditava que o bebê iniciava sua vida com um conjunto de padrões comportamentais inatos que o orientam na direção dos outros e sinalizam suas necessidades. São comportamentos emitidos, como chorar, fazer contato olho a olho, segurar, afagar, reagir aos esforços de cuidados entre outros. É nessa fase que se encontram suas raízes. O bebê está construindo expectativas, esquemas, a habilidade de discriminar a mãe e o pai das demais pessoas. As interações previsíveis e fáceis que reforçam o vínculo afetivo dos pais compõem a base para o surgimento do apego do bebê. 2ª Fase) Foco em uma ou mais figuras: Por volta de três meses de idade, o bebê começa a direcionar de maneira um tanto mais ampla seus comportamentos de apego. Ele pode sorrir mais para as pessoas que costumam cuidá-lo, podendo não sorrir de imediato a um estranho. No entanto, apesar da mudança, o bebê ainda não possui um apego totalmente desenvolvido. Ainda existe uma quantidade de pessoas favorecidas pelos comportamentos promotores de proximidade do bebê, sendo que pessoa alguma, se tornou a base segura. Nessa fase, os bebês não evidenciam uma ansiedade especial por separar-se dos pais, e não temem os estranhos, segundo Bowlby. 3ª Fase) Comportamento de base segura: Bowlby acreditava que o bebê formaria um apego genuíno por volta dos seis meses. Ao mesmo tempo, o modo dominante de comportamento de apego do bebê modifica-se. Os bebês de 6-7 meses começaram a conseguir movimentar-se de maneira mais livre, arrastando-se e engatinhando, eles são capazes de movimentar-se na direção dos cuidadores, bem como de instigá-los os cuidadores a vir até eles. Os bebês utilizam a “pessoa mais importante” como à base segura a partir da qual exploram o mundo em torno de si, um dos sinais-chave da existência de um apego. AN02FREV001/REV 4.0 96 MARCOS DO DESENVOLVIMENTO PSICOSSOCIAL NA PRIMEIRA INFÂNCIA - NASCIMENTO AOS 36 MESES IDADE APROXIMADA MESES CARACTERÍSTICAS 0-3 Os bebês são receptivos à estimulação. Começam a mostrar interesse e curiosidade, e sorriem prontamente para as pessoas. 3-6 Os bebês são capazes de antecipar o que vai acontecer e sentir desapontamento quando isso não acontece. Eles demonstram isso ao ficarem zangados ou cautelosos. Eles sorriem, resmungam e riem com frequência. Essa é uma época de despertar social e das primeiras trocas recíprocas entre bebê e que lhe cuida. 6-9 Os bebês fazem “jogos sociais” e tentam obter resposta das pessoas. Eles “conversam”, tocam e tentam fazer com que os outros bebês lhes respondam. Exprimem emoções mais diferenciadas, mostrando alegria, medo, raiva e surpresa. 9-12 Os bebês preocupam-se muito com o principal cuidador, podem ficar com medo de estranhos, e agir de modo reservado em novas situações. Com um ano de idade, eles comunicam suas emoções de maneira mais clara, mostrando estados de espírito, ambivalência e gradações de sentimentos. 12-18 Os bebês exploram seu ambiente, usando as pessoas às quais têm maior apego como base segura. À medida que dominam o ambiente, tornam-se mais confiantes e mais ansiosos por afirmação. 18-36 As crianças, às vezes, ficam ansiosas porque percebem o quanto estão se separando de seu cuidador. Elas elaboram consciência de suas limitações pela fantasia, pelo jogo e pela identificação com adultos. FONTE: PAPALAIA & OLDS (2006) e SROUFE (1979) De acordo com PAPALAIA & OLDS (2006), à medida que as crianças amadurecem fisicamente, cognitivamente e emocionalmente, são levadas a buscar sua independência das próprias pessoas às quais são apegadas. “Eu faço” é a palavra de ordem das crianças quando usam seus músculos e mente em desenvolvimento para fazer tudo sozinhas, não apenas caminhar, mas também se alimentar, se vestir, se proteger e expandir os limites de seu mundo. AN02FREV001/REV 4.0 97 FIGURA 44 – BEBÊ E AVÓ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/beb%C3%AA-fam%C3%ADlia_2.html. Acesso em: 18 jul. 2009. Os dois anos representam uma manifestação normal da necessidade de autonomia. As crianças precisam testar sua nova noção de que são indivíduos, de que tem certo controle sobre seu mundo e poderes novos e excitantes. Elas são levadas a experimentar suas próprias ideias, exercitar suas próprias preferências e tomar suas próprias decisões. Os pais e outros cuidadores que encaram as expressões de vontade própria das crianças como uma busca saudável e normal de independência e não como teimosias possam ajudá-las a adquirir autocontrole, contribuir para seu senso de competência, e evitar conflitos excessivos (PAPALIA & OLDS, 2006). Nesta idade as crianças desenvolvem autorregulação, ou controle de seu comportamento, para conformar-se com as expectativas externas. A autorregulação é a base da socialização, a internalização de padrões socialmente aprovados. A obediência comprometida às demandas do cuidador, primeiro passo no desenvolvimento da consciência, leva à internalização (PAPALIA & OLDS, 2006). 6.1 DESENVOLVIMENTO FÍSICO, MOTOR, COGNITIVO, DA LINGUAGEM, SOCIAL E DA PERSONALIDADE DA CRIANÇA PRÉ-ESCOLAR (2 A 6 ANOS) Com dois anos de idade, os bebês se transformaram de recém-nascidos imóveis, desamparados e não comunicativos em crianças pequenas que podem andar, correr, alimentar-se e de muitos outros modos manter suas próprias funções AN02FREV001/REV 4.0 98 corporais, satisfazer às suas próprias necessidades e usar os rudimentos da comunicação. Todavia, as crianças de dois anos têm um longo caminho para se tornarem adultas. Sua aparência muda, suas habilidades motoras e mentais florescem e suas personalidades tornam-se mais complexas (PAPALIA & OLDS, 2006). Todos os aspectos do desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social, continuam inter-relacionados. À medida que os músculos passam a ter controle mais consciente, as crianças podem atender mais a suas necessidades pessoais, como de higiene e vestir-se, ganhando, assim, maior senso de competência e independência. O ambiente do bairro e as influências da sociedade mais ampla podem ter impacto profundo, para melhor ou para pior, sobre a saúde física e o crescimento cognitivo (PAPALIA & OLDS, 2006). 6.1.1 Desenvolvimento Físico O desenvolvimento físico é mais lento dos dois aos seis anos, embora seja ainda permanente. As habilidades motoras continuam a aperfeiçoar-se, gradativamente. Os meninos são em média ligeiramente mais altos e pesados do que as meninas. Os sistemas muscular, nervoso, respiratório, circulatório e imunológico estão amadurecendo, e todos os dentes estãopresentes. As crianças comem menos do que antes e precisam de uma dieta balanceada. O desenvolvimento motor avança rapidamente e as crianças progridem nas habilidades motoras gerais e refinadas e na coordenação entre olhos e mãos. AN02FREV001/REV 4.0 99 FIGURA 45 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. A preferência pelo uso das mãos é evidente na idade dos dois e três anos. Canhotos e destros tendem a diferir em diversos outros aspectos. Nunca exigir mudança de canhoto para destro, seria muito prejudicial. É comum acontecer. Os padrões de sono mudam durante a segunda infância. Crianças jovens geralmente dormem durante a noite e tiram uma soneca durante o dia; elas dormem mais profundamente do que nas etapas posteriores da vida. É normal que crianças em torno de cinco anos desenvolvam rituais na hora de dormir que retardam a hora de ir para a cama. Contudo, lutas prolongadas na hora de dormir ou terror noturno e pesadelos persistentes podem indicar distúrbios emocionais que precisam de atenção (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 46 – MÃE E CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. Molhar a cama é natural, principalmente à noite, e geralmente isso é superado sem auxílio especial. AN02FREV001/REV 4.0 100 As principais doenças contagiosas são raras devido à imunização generalizada, e a taxa de mortalidade tem caído. As doenças menores ajudam a formar a imunidade a doenças e podem também ter benefícios cognitivos e emocionais (PAPALIA & OLDS, 2006). Fatores ambientais como exposição a doenças e estresse, pobreza e falta de moradia aumentam os riscos de doenças ou danos. 6.1.2 Desenvolvimento Motor Essas mudanças mais gradativas se combinam para capacitar a criança a realizar uma firme evolução no desenvolvimento motor. As mudanças não são tão dramáticas como no início do andar. Todavia são significativas, porque capacitam os bebês que começam a caminhar e os pré-escolares a adquirir habilidades que, de forma marcante, aumentam sua independência e capacidade de exploração (PAPALIA & OLDS, 2006). Habilidades Motoras gerais na Segunda Infância Crianças de 3 anos de idade. Crianças de 4 anos de idade. Crianças de 5 anos de idade. Não sabem virar ou parar repentina ou rapidamente. Tem melhor controle para parar, iniciar e virar. Começam, viram e param com eficiência ao brincar. Saltam uma distância de 38 a 61 cm. Podem saltar uma distância de 61 a 84 cm. São capazes de dar um salto de 71 a 91 cm enquanto correm. Sobem escadas sem ajuda, alternando os pés. Podem descer uma longa escadaria alternando os pés caso tenham apoio. Descem uma longa escadaria sem auxílio, alternando os pés. Sabem saltar, usando basicamente uma série irregular de pulos com algumas variações. Podem saltar sobre um dos pés de quatro a seis vezes. Saltam facilmente uma distância de 4,87m. FONTE: PAPALAIA & OLDS (2006) 6.1.3 Desenvolvimento Cognitivo No desenvolvimento cognitivo abordaremos a teoria de Piaget, como já foi dito anteriormente, o período pré-operacional (2 a 7 anos), em que a criança pode lidar simbolicamente com certos aspectos da realidade, mas seu pensamento ainda AN02FREV001/REV 4.0 101 se caracteriza pela responsabilidade; Dividido em: Pensamento simbólico pré- conceitual: 2 a 4 anos e Pensamento intuitivo: 4 a 7 anos (PAPALIA & OLDS, 2006). Por volta dos 18 a 24 meses, a criança começa a fazer uso de símbolos mentais. Permite a criança refletir mentalmente sobre pessoas, objetos e eventos. Contudo, a criança ainda não pode pensar com lógica. A pesquisa mostra que, de certa forma, Piaget subestimou a capacidade das crianças que descreveu como pré- operacionais. FIGURA 47 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. Segundo PAPALAIA & OLDS (2006), as crianças pré-operacionais podem compreender o conceito de identidade, estão começando a compreender os relacionamentos causais, estão desenvolvendo proficiência na classificação e compreendem princípios de contagem e quantidade. Elas não compreendem a conservação e tendem a confundir a realidade e a fantasia, raciocinar transdutivamente, e não compreendem a reversibilidade e as implicações das transformações. As crianças pré-operacionais parecem ser menos egocêntricas do que Piaget supunha e são capazes de empatia. Elas mostram sinais de terem uma teoria da mente, incluindo consciência de seus processos de pensamento, certa habilidade para distinguir eventos imaginários e reais, capacidade de enganar, e compreensão de que as pessoas podem manter crenças errôneas. AN02FREV001/REV 4.0 102 Limitações do Pensamento Pré-Operacional LIMITAÇÃO DESCRIÇÃO EXEMPLO Concentração: incapacidade de descentrar. A criança se concentra num aspecto de uma situação e negligência outros. Lucas chora quando seu pai dá uma bolacha quebrada em duas partes. Como cada metade é menor do que a bolacha inteira, ele acha que está recebendo menos. Incapacidade de distinguir aparência e realidade. A criança confunde o que é real com a aparência exterior. Lucas pensa que uma esponja disposta de forma a parecer uma pedra é realmente uma pedra. Irreversibilidade A criança não consegue compreender que uma operação ou ação pode funcionar em duas vias. Lucas não percebe que as duas metades da bolacha podem ser colocadas lado a lado para formar a bolacha inteira. Foco sobre estado em vez de transformações. A criança não consegue compreender o significado da transformação entre os estados. Na tarefa de conservação, Lucas não consegue compreender que transformar o líquido (vertendo-o de um copo para outro) não muda a quantidade. Raciocínio transdutivo. A criança não usa o raciocínio dedutivo ou indutivo; ao invés disso, ela pula de uma particularidade para outra e vê causas onde não existe nenhuma. “Tive maus pensamentos sobre meu irmão. Meu irmão ficou doente. Então, eu fiz ele ficar doente”. Ou “Eu me comportei mal, por isso mamãe e papai se divorciaram”. Egocentrismo A criança assume que todo mundo pensa como ela. Lucia pega seu jogo e diz a sua mãe: “Este é o teu divertimento”. Ela assume que sua mãe gosta de brincar com o jogo tanto quanto ela. Animismo A criança atribui vida a objetos inanimados. Lucia pensa que as nuvens estão vivas porque elas se movem. FONTE: PAPALAIA & OLDS (2006) Estudos do desenvolvimento da memória indicam que o reconhecimento é melhor do que a recordação, mas ambos aumentam durante a segunda infância. A recordação é influenciada pela motivação para domínio e estratégias de estudo (PAPALIA & OLDS, 2006). A incapacidade de recordar eventos da segunda infância em idade posterior pode dever-se ao modo como as crianças codificam as lembranças. As primeiras lembranças episódicas são temporárias, podem ser parte de um roteiro genérico para orientar o comportamento em situações recorrentes. AN02FREV001/REV 4.0 103 FIGURA 48 – PAI E FILHO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. A formação de lembranças autobiográficas permanentes começa em torno dos quatro anos e pode estar relacionada com o desenvolvimento da linguagem. As crianças têm maior probabilidade de lembrar-se de atividades incomuns que envolvam participação ativa. O modo dos adultos conversarem com as crianças sobre os eventos influenciam a formação da memória (PAPALIA & OLDS, 2006). As crianças também diferem na capacidade cognitiva, conforme mensuraçõesfeitas por meio de testes padronizados da inteligência. Os escores desses testes preveem a performance escolar e são, no mínimo, moderadamente consistentes durante certo tempo (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 49 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 104 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. As diferenças de QI têm sido atribuídas à hereditariedade e ao ambiente. Estudos sobre gêmeos e crianças adotadas deixam claro que, pelo menos, metade das variações nos escores do QI deve-se a diferenças genéticas, sendo que o restante ao ambiente e à interação entre hereditariedade e ambiente (PAPALIA & OLDS, 2006). As qualidades ambientais que parecem fazer uma diferença incluem a complexidade da estimulação, a resposta e o envolvimento dos pais, a relativa falta de restrições mais rígidas e as elevadas expectativas quanto à performance das crianças. Os QIs das crianças podem ser elevados pela oferta de ambientes especialmente estimulantes, de maneira bem precoce, como uma instituição para atendimento diário ou pré-escolas com propostas de aperfeiçoamento. Várias espécies de diferenças de raça no QI ou em testes de desempenho têm sido encontradas de maneira consistente. Tais diferenças parecem poder ser mais adequadamente atribuídas à variação ambiental, e não à genética. Meninas e meninos não diferem no QI total, embora difiram em algumas habilidades que o compõem. Os meninos costumam sair-se melhor em tarefas que exijam visualização espacial e raciocínio matemático, ao passo que as meninas saem-se melhor em muitas tarefas de caráter verbal. A educação infantil prepara as crianças para o ensino formal. Alguns programas concentram-se mais em tarefas cognitivas estruturadas, outros em desenvolvimento social e emocional e atividades iniciadas pela criança (PAPALIA & OLDS, 2006). 6.1.4 Desenvolvimento da Linguagem FIGURA 50 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 105 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. O desenvolvimento da linguagem se dá a um ritmo rápido, entre dois e três anos. As crianças começam por formar frases com duas palavras, vindo a mudar para frases mais complexas, acrescentando várias inflexões gramaticais. Uma variedade de significados é transmitida, até mesmo por meio da frase mais simples (BEE, 1997). Desde as primeiras frases, a linguagem da criança é criativa, o que inclui formas e combinações que a criança não ouviu, mas que seguem regras aparentes. Estudos do significado das palavras sugerem que muitas delas são somente aprendidas quando a criança já compreende seu conceito subjacente. As primeiras categorias que a criança tem das palavras costumam ser mais superampliadas do que subampliadas (BEE, 1997). Alguns teóricos defendem que as crianças possuem coerções inatas no aprendizado das palavras, como o princípio do contraste. Teorias do desenvolvimento da linguagem pela simples imitação ou do reforço não são adequadas para explicar o fenômeno. Teorias ambientais mais complexas que enfatizam o papel da riqueza ambiental ou da linguagem maternal são mais úteis, embora não suficientes ainda (BEE, 1997). Teorias dos fatores inatos que pregam a existência de princípios operatórios desde o nascimento, ou “regras pelas quais se escuta”, são mais persuasivas, embora omitam o papel da criança como um analista e sintetizador das informações linguísticas. O desenvolvimento da linguagem segue a velocidades variadas, em crianças diferentes, com o desenvolvimento mais rápido associado a ambientes linguisticamente mais ricos (BEE, 1997). O atraso no desenvolvimento da linguagem pode envolver problemas no rápido mapeamento (incorporação de novas palavras ao vocabulário) e, se não tratado, pode ter consequências cognitivas, sociais e emocionais graves. AN02FREV001/REV 4.0 106 As conversas com adultos, usando vocabulário e assuntos relativamente desafiadores, são importantes na preparação das crianças para alfabetização, como no jogo imaginativo. 6.1.5 Desenvolvimento Social e da Personalidade Segundo FAW (1981), a personalidade é o termo usado para referir-se à maneira pela qual um indivíduo se relaciona com seu ambiente. Incorpora o pensar, o sentir e o agir da pessoa. A amplitude etária de dois a seis anos é um período significante no desenvolvimento da personalidade, porque as capacidades conceituais permitem que as crianças tenham novas perspectivas a respeito do mundo. Elas desenvolvem maior consciência do impacto que os outros têm sobre elas, assim também como de seu impacto sobre os demais. Podem simbolizar eventos em suas vidas e criar suas imagens, de modo que estes possam influenciar seu comportamento em data posterior. O maior entendimento de tempo e de relacionamentos de causa e efeito permite-lhes conceituar não apenas o aqui e agora, mas também o futuro (BEE, 1997). FIGURA 51 – MÃE E FILHO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/crian%C3%A7a.html. Acesso em: 18 jul. 2009. Tanto as relações verticais, como aquelas com os pais e professores, quanto às horizontais, como as com os colegas, são bastante importantes nesses anos. Somente nas brincadeiras com os colegas a criança consegue aprender sobre relações recíprocas, tanto cooperativas quanto competitivas (BEE, 1997). AN02FREV001/REV 4.0 107 O apego da criança ao pai à mãe continua forte, embora os comportamentos de apego se tornem cada vez menos visíveis à medida que a criança cresce, a não ser em situações de estresse. Os pré-escolares também evidenciam mais recusa e desafio em relação às tentativas de influência paterna, se comparados aos bebês. O desafio direto declina dos dois aos seis anos. Tais mudanças estão sem dúvida, ligadas ao desenvolvimento cognitivo e linguístico da criança (BEE, 1997). Segundo Erikson, a principal crise de desenvolvimento da segunda infância é a iniciativa versus culpa. O êxito na resolução desse conflito resulta na “virtude” do propósito e permite à criança planejar e realizar atividades dentro de limites apropriados. De acordo com BEE (1997), o brinquedo com os companheiros já é visível antes dos dois anos de idade, tornando-se cada vez mais importantes ao longo dos anos pré-escolares. É evidente também a agressividade com os colegas, mais física nos dois e três anos, mais verbal nos cinco e seis anos. FIGURA 52 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 18 jul. 2009. As mudanças nos tipos de brincadeiras das crianças refletem o desenvolvimento social e cognitivo. O jogo imaginativo torna-se cada vez mais comum durante a segunda infância e ajuda as crianças a desenvolver habilidades sociais e cognitivas. As maneiras de brincar variam de cultura para cultura e são influenciadas pelos ambientes que os adultos criam para as crianças (BEE, 1997). Crianças com dois anos já mostram comportamento altruísta para com os outros, e tal comportamento parece aumentar à medida que aumenta a capacidade da criança de assumir a perspectiva do outro (BEE, 1997). AN02FREV001/REV 4.0 108 A autoestima é o julgamento de nosso próprio valor. Uma importante fonte de autoestima na segunda infância é o suporte social de pais, professores e pares. Amizades em curto prazo, a maioria baseada na proximidade, são evidentes nessa variação etária. As maiores partes desses pares são do mesmo sexo. O pré-escolar continua a definir-se ao longo de uma série de dimensões objetivas, embora ainda não possua um senso global de autoestima. FIGURA 53 – CRIANÇA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul.2009. Diferenças sexuais são diferenças físicas entre homens e mulheres. Diferenças de gênero são diferenças psicológicas ou comportamentais. Existem poucas diferenças comportamentais entre os sexos na segunda infância, e essas diferenças geralmente são muito pequenas. Os meninos são mais agressivos do que as meninas, e as meninas são mais empáticas. As diferenças de gênero no brincar aparecem mais cedo do que outras diferenças de gênero, entre a segunda e a terceira infância, as crianças de todas as culturas segregam-se cada vez mais pelo sexo. FIGURA 54 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 109 Todas as sociedades têm crenças sobre comportamentos apropriados para os dois sexos, e as crianças aprendem essas expectativas em idade precoce. Os papéis sexuais são os comportamentos e atitudes que uma cultura julga apropriados para homens e mulheres. A tipificação sexual refere-se ao aprendizado de papéis sexuais culturalmente determinados. Os estereótipos sexuais são as generalizações exageradas que podem não se aplicar a indivíduos (BEE, 1997). Na teoria freudiana, a criança desenvolve identidade sexual por meio da identificação com o genitor de mesmo sexo depois de abandonar o desejo de possuir o outro genitor. Segundo a teoria da aprendizagem social, a identidade sexual se desenvolve por meio da observação e imitação de modelos ou pelo reforço de comportamento apropriado ao sexo. A teoria do desenvolvimento cognitivo sustenta que o desenvolvimento da identidade sexual é resultado do pensamento sobre a experiência. A teoria do esquema sexual sustenta que as crianças ajustam seu autoconceito ao esquema sexual de sua cultura, um padrão socialmente organizado de comportamento para homens e mulheres (PAPALAIA & OLDS, 2006). FIGURA 55 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Tanto fatores biológicos quanto ambientais, como a influência dos pais e da mídia, parecem ter impacto na tipificação sexual. Nestes mesmos anos, as crianças começam a aprender o que é “apropriado”, em termos de comportamento, ao seu gênero. Por volta dos três ou quatro anos, meninos e meninas evidenciam padrões ou estilos diferentes de interação com os companheiros, diferença essa que perdura até a vida adulta. Por volta dos 5 ou 6 anos, a maioria das crianças desenvolveu regras bastante rígidas sobre aquilo que meninos e meninas devem fazer ou ser (PAPALIA & OLDS, 2006). AN02FREV001/REV 4.0 110 FIGURA 56 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. As crianças ainda diferem muito no comportamento social e na personalidade. O temperamento desempenha algum papel. As crianças com o temperamento mais difícil são mais propensas a mostrar problemas posteriores de comportamento ou delinquência. Os estilos da parentagem são também importantes. Parentagem com figura de autoridade, combinando bastante afeto, regras claras e comunicação, além de elevadas exigências maturacionais, está associada aos resultados mais positivos. Parentagem negligente está associada aos resultados menos positivos. Dois outros padrões, cada um com efeitos específicos, são ditatorial e o permissivo (PAPALAIA & OLDS, 2006. A estrutura familiar também afeta os filhos. Após um divórcio, as crianças costumam mostrar comportamento de instabilidade durante vários anos. Os estilos de parentagem também se modificam, tornando-se baseados em menor autoridade (PAPALAIA & OLDS, 2006). 6.1.6 A influência na criação dos filhos FIGURA 57 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 111 Os pais influenciam muito no comportamento das crianças por meio da disciplina, como a maneira de ensinar o caráter, autocontrole e comportamento aceitável. O reforço geralmente é mais efetivo do que o castigo. O castigo é mais efetivo quando é imediato, consistente, acompanhado de uma explicação e dado por alguém que tem um bom relacionamento com a criança. O castigo físico pode ter efeitos prejudiciais (PAPALAIA & OLDS, 2006). A disciplina baseada na indução geralmente é mais efetiva. A retirada temporária de amor e a afirmação de poder é menos efetiva de todas as técnicas. A internalização dos ensinamentos parentais depende do grau de precisão na percepção da mensagem e se a mesma é aceita ou rejeitada. O mau trato, incluindo o abuso de crianças, o abuso sexual e a negligência, muitas vezes tem efeitos graves de longa duração. As características da criança, da família, da comunidade e da cultura mais ampla podem contribuir para o mau trato. Existe uma teoria de Miller de “pedagogia perniciosa” sugere que certos comportamentos parentais podem prejudicar a futura saúde psicológica da criança e podem ser transmitidos às gerações futuras. FIGURA 58 – CRIANÇAS E MÃE FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. O comportamento antissocial ou agressivo das crianças é influenciado pelo tratamento dado pelos pais, bem como por sua observação de modelos na vida real e na mídia. A maior parte das interações entre irmãos são positivas. O irmão mais velho tende a iniciar alguma atividade e o mais novo a imitar. As crianças que são AN02FREV001/REV 4.0 112 agressivas ou retraídas tendem a ser menos populares entre seus pares do que as que são simpáticas. O tipo de relacionamento que as crianças têm com os pais pode afetar a facilidade com a qual elas encontram parceiros e amigos. 6.2 DESENVOLVIMENTO FÍSICO, MOTOR, COGNITIVO, SOCIAL E DA PERSONALIDADE DA CRIANÇA PRÉ-ESCOLAR (6 A 12 ANOS) Os anos intermediários da infância, aproximadamente dos seis aos doze anos, são muitas vezes chamados de anos escolares ou período da meninice. Caracteriza-se como um período de cristalização, já que os seus desenvolvimentos são lentos, uniformes e proporcionam previsores razoavelmente estáveis das características da criança como jovem adulto. Embora a família continue a desempenhar um papel importante nos processos de desenvolvimento, a escola surge nesta época como contribuidor fundamental para o crescimento da criança. Não somente ela provê uma atmosfera para o desenvolvimento das habilidades cognitivas e acadêmicas, como também representa um ambiente em que os grupos de pares podem influenciar a socialização da criança (PAPALAIA & OLDS, 2006). 6.2.1 Desenvolvimento Físico Segundo PAPALAIA & OLDS (2006), o desenvolvimento físico não é tão rápido na terceira infância quanto nos períodos anteriores. Os meninos são levemente maiores que as meninas no início desse período, mas as meninas passam pelo surto de crescimento do que os meninos no final. A obesidade é cada vez mais comum entre as crianças americanas. Ela é influenciada por fatores genéticos e ambientais e pode ser tratada. Já existe uma tendência mundial no sentido de alimentação a base de frutas e verduras, exercícios físicos sistemáticos, pois passou a ser preocupação de saúde pública. Cada paciente obeso custa muito aos cofres públicos apresentando quadros de hipertensão, diabetes, entre outras doenças. AN02FREV001/REV 4.0 113 O desenvolvimento motor permite que as crianças em idade escolar participem de uma gama mais ampla de atividades motoras do que os pré-escolares. Dos sete aos onze anos, as brincadeiras mais impetuosas diminuem à medida que as crianças envolvem-se em jogos com regras.As diferenças nas habilidades motoras de meninos e meninas aumentam à medida que chega a puberdade, em parte devido à maior força dos meninos e em parte devido a expectativas e experiências culturais (PAPALAIA & OLDS, 2006). FIGURA 59 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. As doenças são menos comuns durante esse período do que nos estágios anteriores, embora se mantenham bastante regulares. Outros problemas de saúde incluem a obesidade e acidentes. A obesidade parece ser causada por tendências hereditárias, ou por baixos níveis de movimentação ou exercício, além de dietas altamente gordurosas e calóricas. As crianças de hoje não têm tão boa forma quanto às de anos anteriores. É importante desenvolver hábitos e habilidades vitalícias para manter a boa forma (PAPALAIA & OLDS, 2006). As infecções respiratórias e outros problemas de saúde comuns tendem a ter curta duração. A maioria das crianças dessa idade não tem problemas de saúde crônicos, mas a prevalência de tais males aumentou. 6.2.2 Desenvolvimento Motor Desenvolvimento Motor de Meninos e Meninas na Terceira Infância IDADE COMPORTAMENTOS SELECIONADOS 06 As meninas são superiores na precisão do movimento; os meninos são AN02FREV001/REV 4.0 114 superiores em ações menos complexas que envolvam força. Pular (com os dois pés) é possível. As crianças sabem arremessar com transferência de peso e passo adequados. 07 Equilíbrio em um dos pés sem olhar torna-se possível. As crianças são capazes de caminhar sobre barra fixa de 5 cm de largura. As crianças são capazes de pular e saltar com precisão em pequenos quadrados. As crianças são capazes de executar polichinelos. 08 Dispõem de poder de preensão de 5,4 kg. Faixa etária com o maior número de jogos nos quais ambos os sexos participam. As crianças podem executar saltos rítmicos alternados num padrão de 2-2, 2-3 ou 3-3. As crianças podem arremessar uma bola pequena a aproximadamente 12 metros. 09 Os meninos são capazes de correr a uma velocidade de 5 metros por segundo. Os meninos são capazes de arremessar uma bola pequena a aproximadamente 21,3 m de distância. 10 As crianças são capazes de avaliar e interceptar a trajetória de pequenas bolas arremessadas a distância. As meninas são capazes de correr a uma velocidade de 5,1 metros por segundo. 11 Salto à distância de 1,5 metros é possível para os meninos; 15,2 cm a menos para as meninas. 12 Salto em altura de 91 cm é possível. FONTE: Cratty, 1986. 6.2.3 Desenvolvimento Cognitivo Segundo BEE (1997), Piaget propôs uma grande mudança no pensamento da criança por volta dos seis anos, quando “operações” poderosas, como a reversibilidade, a adição ou a classificação múltipla são entendidas. No período das operações concretas, a criança aprende ainda o uso da lógica indutiva, embora ainda não utilize a lógica dedutiva. Pesquisas recentes sobre esse período confirmam muitas das descrições de Piaget sobre as sequências de desenvolvimento, embora questionem seu conceito básico de estágios. Parece haver muito menos consistência no desempenho por meio de tarefas cognitivas similares do que exigiria a teoria piagetiana (BEE, 1997). Estudos sobre a especialização indicam um papel mais importante da experiência em tarefas específicas na sofisticação do pensamento infantil do que Piaget acreditava. AN02FREV001/REV 4.0 115 Evidências de pesquisas dão apoio à ideia de que o desenvolvimento cognitivo se dá em sequências, sendo o momento de cada sequência afetado por experiência ou especialização específicas. Os teóricos do processamento de informações buscam os blocos básicos construtores da cognição, tanto o hardware quanto o software. A maioria dos teóricos conclui pela não existência de mudanças relacionadas com a idade, quanto à capacidade do hardware, embora ocorram aperfeiçoamentos na velocidade e eficiência. Uma forma de maior eficiência é o uso cada vez mais intensivo, com a idade, de vários tipos de estratégias de processamento, o que inclui estratégias para recordar-se. Os pré-escolares utilizam algumas delas, embora crianças em idade escolar utilizem-nas com maior frequência e flexibilidade (BEE, 1997). Quando em idade escolar, a maioria das crianças também desenvolve algumas “habilidades executivas”, isto é, a capacidade de monitorar seus próprios processos cognitivos e, assim, planejar sua atividade mental. A memória se aperfeiçoa muito durante a terceira infância porque o tempo de processamento de informações diminui, a capacidade de atenção e a memória de curto prazo aumentam, e as crianças se tornam mais aptas no uso de estratégias mnemônicas, tais como os recursos externos, o ensaio, a organização e a elaboração (BEE, 1997). A inteligência das crianças em idade escolar é avaliada por testes em grupo (como o Teste de Capacidade Escolar OtisLennon) e testes individuais (como o WISC-III, Stanford-Binet e o K-ABC). Os testes de QI são bons preditores do sucesso escolar, mas podem subestimar a inteligência de algumas crianças (BEE, 1997). FIGURA 60 – ESCOLA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 116 Diferenças individuais no funcionamento cognitivo, em idade escolar, são mensuradas, basicamente, por meio de testes do QI e testes de desempenho. Ambos são controversos. Tanto os testes do QI quanto os de desempenho precisam ser entendidos como medidas da performance, e não da competência. As diferenças de QI entre grupos étnicos parecem resultar basicamente de diferenças culturais e ambientais. Tentativas de criar testes “livres da influência de cultura” ou “culturalmente justos” não tiveram êxito (BEE, 1997). A compreensão das crianças de sintaxe cada vez mais complexa se desenvolve pelo menos até a idade dos nove anos, e a compreensão dos processos de comunicação se aperfeiçoa. A interação com os colegas auxilia o desenvolvimento da alfabetização (BEE, 1997). Os programas de segunda língua mais efetivos parecem ser os programas de alta qualidade que estimulam a fluência em duas línguas. Diferenças individuais no processamento de informações são também estudadas. A velocidade de processamento parece bastante ligada ao QI, bem como a flexibilidade e a capacidade para generalizar o uso de estratégias. FIGURA 61 – CRIANÇA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. O desenvolvimento intelectual e social das crianças é influenciado pela qualidade das escolas que elas frequentam. Escolas bem-sucedidas ou eficientes possuem muitas das qualidades encontradas em famílias com figura de autoridade: regras claras, bom controle, boa comunicação e muito afeto (BEE, 1997). AN02FREV001/REV 4.0 117 Logo, a criança nesta idade, está no estágio de operações concretas e pode usar o pensamento para resolver problemas concretos. Elas são menos egocêntricas do que antes, e são mais proficientes nas tarefas que requerem pensamento lógico, como conservação, classificação, trabalho com números e distinção entre fantasia e realidade. Segundo Piaget, o desenvolvimento moral está ligado à maturação cognitiva e ocorre em dois estágios. O primeiro, a moralidade de restrição, é caracterizada pela rigidez moral. O segundo, a moralidade da cooperação, é caracterizada pela flexibilidade moral (BEE, 1997). OS DOIS ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO MORAL DE PIAGET Estágio I: Moralidade de Restrição Estágio II: Moralidade de Cooperação Ponto de Vista A criança vê um ato como totalmente certo ou errado e pensa que todo mundo o vê da mesma maneira. Ascrianças não são capazes de se colocar no lugar dos outros. As crianças são capazes de se colocar no lugar dos outros. Elas não são absolutistas nos julgamentos e veem que mais de um ponto de vista é possível. Intenção A criança julga os atos em termos de suas consequências físicas reais, e não pela motivação por trás dos mesmos. A criança julga os atos pelas intenções, não pelas consequências. Regras A criança obedece às regras porque elas são sagradas e inalteráveis. A criança reconhece que as regras são feitas pelas pessoas e podem ser mudadas pelas mesmas. As crianças se consideram tão capazes de mudar as regras quanto qualquer outra pessoa. Respeito pela autoridade Respeito unilateral leva a sentimento de obrigação para conformar-se a padrões adultos e obedecer a regras. Respeito mútuo pela autoridade e pelos companheiros permite às crianças valorizarem suas próprias opiniões e habilidades e julgarem as outras pessoas de maneira realista. Punição A criança favorece punição severa. Ela sente que a própria punição define o aspecto errôneo de um ato; um ato é errado se provoca punição. A criança favorece punição mais leve que compense a vítima e ajude o culpado a reconhecer porque um determinado ato estava errado, levando assim à reparação. Conceito de Justiça A criança confunde lei moral com lei física e acredita que qualquer acidente físico ou infortúnio que ocorra após uma má ação é uma punição desejada por Deus ou alguma outra força sobrenatural. A criança não confunde infortúnio natural e punição. FONTE: PAPALAIA & OLDS (2006) FIGURA 62 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 118 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. De acordo com PAPALAIA & OLDS (2006), as características, como o temperamento e o estado emocional, influenciam o desempenho escolar. Os pais influenciam o aprendizado das crianças motivando-as a realizar, envolvendo-se em sua escolarização e transmitindo atitudes e crenças sobre aprendizagem. As atitudes dos professores influenciam o êxito das crianças na escola. As profecias autodeterminadas podem limitar o desempenho de crianças pobres e minoritárias. As crianças minoritárias podem se beneficiar dos programas educacionais adaptados aos seus estilos culturais. No caso de crianças com capacidade e necessidades especiais, o retardamento mental tem diversas causas. A maioria das pessoas retardadas pode se beneficiar da escolarização. As deficiências de aprendizagem, as quais interferem no aprendizado da leitura e em outras tarefas escolares, pode dever-se a problemas no processamento das informações sensórias (PAPALIA & OLDS, 2006). A hiperatividade e os transtornos de déficit de atenção são mais comuns nos meninos do que nas meninas e, a menos que tratados, podem levar a graves problemas na escola e na vida adulta. Um QI de 130 ou superior é um padrão comum para identificação de crianças superdotadas para programas especiais. Definições mais amplas para caracterizar o superdotado incluem criatividade, talento artístico e outras habilidades, e utilizam critérios múltiplos para identificação. A criatividade, às vezes, AN02FREV001/REV 4.0 119 é identificada por testes de pensamento divergente, mas sua validade é questionável (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 63 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Alguns estudos de Termann constatam que as crianças superdotadas tendem a ser adultos de êxito incomum, essas crianças podem precisar de programas educacionais especiais para ajudá-las a desenvolver todo o seu potencial (PAPALIA & OLDS, 2006). 6.2.4 Desenvolvimento Social e da Personalidade Segundo PAPALAIA & OLDS (2006), os padrões de relacionamentos estabelecidos na escola elementar podem causar um maior impacto sobre os padrões da adolescência e da vida adulta, do que as mudanças cognitivas nesses mesmos anos. Na terceira infância, o conceito de self torna-se mais abstrato, mais comparativo e mais generalizado. Mudanças semelhantes ocorrem nas descrições que as crianças fazem das outras pessoas e na sua compreensão das relações, como as amizades. Essas são cada vez mais entendidas como relações recíprocas, em que generosidade e confiança constituem elementos importantes. AN02FREV001/REV 4.0 120 Essas mudanças equivalem às mudanças cognitivas que são encontradas nos mesmos anos, sobremaneira a reduzida confiança da criança nas aparências. FIGURA 64 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. De acordo com BEE (1997), embora as crianças em idade escolar gastem menos tempo com os pais do que com os pares, os relacionamentos com os pais continuam a serem os mais importantes. A cultura influencia os relacionamentos e os papéis familiares, incluindo a importância da família maior. As relações com os pais tornam-se menos abertamente afetivas, com menos comportamentos de apego. A força do apego, entretanto, parece permanecer sólida. Atualmente, a maioria das mães trabalha fora. Em geral, os efeitos nas crianças parecem positivos. O impacto do trabalho das mães depende de fatores como a idade, o sexo, o temperamento e a personalidade da criança; se a mãe trabalha em meio expediente ou em tempo integral, como ela se sente em relação a seu trabalho, se ela tem um companheiro favorável, a condição social e econômica da família e o tipo de cuidado que a criança recebe. O papel familiar dos homens parece ser tão importante para eles quanto seus papéis no trabalho (BEE, 1997). FIGURA 65 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 121 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. A reação das crianças ao divórcio depende de diversos fatores, incluindo idade, sexo e resiliência; o modo como os pais lidam com a situação; o esquema de guarda da criança; as circunstâncias econômicas; o contato com o genitor distante; e as circunstâncias em torno do segundo casamento de um genitor. Algumas crianças mostram efeitos negativos em longo prazo do divórcio dos pais (BEE, 1997). As crianças que vivem com apenas um dos pais ou em segundas famílias podem ter pior desempenho escolar e outros problemas. Em famílias com apenas um dos pais, esses efeitos parecem ser em grande parte consequência da baixa renda. Embora os meninos tendam a ter mais problemas para se ajustar ao divórcio, as meninas têm mais dificuldades com o segundo casamento da mãe que tem sua guarda (BEE, 1997). FIGURA 66 – FAMÍLIA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Os irmãos aprendem sobre relacionamentos sociais a partir de seus relacionamentos uns com os outros. Os papéis e as responsabilidades dos irmãos em sociedades não industrializadas são mais significativos e mais estruturados durante toda a vida do que nas sociedades industrializadas (BEE, 1997). FIGURA 67 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 122 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Os grupos de pares geralmente consistem de crianças que têm idade, sexo, etnia e condição socioeconômica semelhante, e que vivem perto umas das outras (PAPALIA & OLDS, 2006). O grupo tem diversas funções positivas no desenvolvimento: ele ajuda as crianças a desenvolver habilidades sociais, lhes dá um sensode pertencer e fortalece o autoconceito. Um efeito negativo é o estímulo à conformidade; outro é a segregação racial ou étnica, a qual pode reforçar o preconceito (PAPALIA & OLDS, 2006). A popularidade influencia a autoestima. As crianças que são rejeitadas pelos pares têm risco de sofrer de problemas emocionais e comportamentais. A amizade difere da popularidade no sentido de que ela envolve comprometimento mútuo e troca. Os amigos geralmente são de mesma idade, sexo e etnia e têm interesses comuns. A base da amizade muda com a idade; a intimidade e a estabilidade dos relacionamentos aumentam durante a terceira infância (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 68 – CRIANÇAS FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. As relações com os companheiros tornam-se cada vez mais importantes. A segregação de gênero nas atividades grupais com amigos está no auge nesses anos, aparecendo em todas as culturas. As amizades individuais também se tornam mais comuns e mais duradouras, são, quase todas, ditadas pela segregação de gênero. As amizades AN02FREV001/REV 4.0 123 entre os meninos e entre as meninas parecem diferir de maneiras bastante específicas. As relações dos garotos são mais extensivas e “limitadas”, com níveis maiores de competição e agressividade. As relações entre as meninas são mais intensas e facilitadoras, com maior concordância e condescendência (PAPALIA & OLDS, 2006). A agressão física reduz-se, ao passo que aumentam as agressões verbais e os insultos. Os meninos mostram níveis significativamente maiores de agressividade do que as meninas, e taxas mais elevadas de desvios de conduta, diferença essa que, sem dúvida, tem origens biológicas e sociais (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 69 – AUTOESTIMA FONTE: ttp://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html>. Acesso em: 21 jul. 2009. A autoestima está ligada aos aspectos cognitivos, emocionais e sociais da personalidade. Segundo Erikson, a principal fonte de autoestima é a opinião da criança de sua própria competência produtiva, a “virtude” que se desenvolve pela resolução da crise da terceira infância: produtividade versus inferioridade. De acordo com a pesquisa de Susan Harter, a autoestima, ou valor próprio geral, depende tanto do quão competente as crianças acham que são quanto do apoio social que elas recebem (PAPALIA & OLDS, 2006). A autoestima parece modelada por dois fatores: o grau de discrepância que uma criança vivencia entre as metas e as conquistas, e o grau de apoio social que ela percebe por parte dos companheiros e dos pais. Uma baixa autoestima está fortemente associada à depressão nas crianças dessa idade. Crianças socialmente rejeitadas caracterizam-se, mais fortemente, por elevados níveis de agressividade e níveis reduzidos de prestatividade. Crianças AN02FREV001/REV 4.0 124 agressivas/rejeitadas estão bem mais propensas a evidenciar problemas comportamentais na adolescência e uma variedade de distúrbios na vida adulta (PAPALIA & OLDS, 2006). FIGURA 70 – BAIXA AUTOESTIMA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Crianças rejeitadas estão mais propensas a interpretar os comportamentos alheios como ameaçadores ou hostis. Elas possuem modelos internos diferentes das relações. É importante compreendermos que o comportamento desviado tende a persistir, podendo causar profundos efeitos sobre todo o padrão de vida de um indivíduo. Sempre são carregados os traços de nossa infância ao longo de nossas vidas, sob a forma de padrões estabelecidos de comportamento e poderosos modelos internos de ação (PAPALIA & OLDS, 2006). Uma grande proporção de crianças, inclusive a maioria das crianças negras, cresce na pobreza e vivencia maior perigo e violência. O estresse associado a esse ambiente é um dos fatores a ser considerado para um desempenho escolar deficiente. FIGURA 71 – CRIANÇAS AN02FREV001/REV 4.0 125 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/fotos-imagens/crian%C3%A7a-social_2.html. Acesso em: 21 jul. 2009. Os problemas emocionais e de comportamento entre crianças em idade escolar aumentaram desde meados da década de 70. Transtornos comuns incluem transtornos de ansiedade de separação (como fobia escolar) e depressão infantil. Recomenda-se para tratamento a psicoterapia. Os estresses normais da infância assumem muitas formas e podem afetar o desenvolvimento emocional. Estresses incomuns, como desastres naturais e guerras, também afetam muitas crianças. Como resultado de exposição à mídia, pressão para ter êxito e responsabilidades familiares, atualmente muitas crianças estão tendo uma infância mais curta e estressante. Outra fonte de estresse na vida moderna é a mobilidade frequente. As crianças de classe média tendem a se preocupar com sua segurança pessoal, com a escola e com a saúde. As inúmeras atividades como balé, judô, inglês, acabam ocupando todos os horários, levando-as também ao estresse (PAPALIA & OLDS, 2006). Os fatores que contribuem para a resiliência das crianças incluem a personalidade destas, os relacionamentos familiares favoráveis, as experiências de aprendizagem, o número reduzido de fatores de risco e as experiências compensadoras (PAPALIA & OLDS, 2006). Embora seja difícil o estabelecimento de relações de causalidade, muitas evidências indicam a existência de um elo entre níveis elevados de assistência à TV e a agressão atual e futura. Observamos que a TV traz poucos efeitos educativos benéficos no ensino de conhecimentos ou atitudes específicas, pois mostram muitas imagens de violência e delinquência, estimulando um determinado tipo de comportamento da população. Muitas crianças assistem demais a programas de TV, que está associado a níveis mais reduzidos de um bom desempenho escolar em quase todos os grupos (PAPALIA & OLDS, 2006). AN02FREV001/REV 4.0 126 DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA TERCEIRA INFÂNCIA Aspecto do Desenvolvimento IDADES 6 7 8 9 10 11 12 Desenvolvimento Físico Pular Corda, pode andar de bicicleta. Andar de bicicleta Andar bem de bicicleta de duas rodas. Puberdade começa para algumas garotas. Puberdade começa para alguns garotos. Desenvolvimento Cognitivo Constância de gênero, várias habilidades para operações concretas, inclusive alguma conservação, inclusão de classe, várias estratégias mnemônicas. Lógica indutiva, cada vez melhor uso de habilidades para operações concretas, conservação de peso. Conservação de volume. Desenvolvimento da Personalidade Conceito do self cada vez mais abstrato, menos ligado à aparência; Descrições dos outros, focalizando cada vez mais qualidades internas e duradouras. Senso global de autovalia. Amizade baseada na confiança recíproca. Segregação de gênero no brinquedo e nas amizades é quase total. A parecem as amizades mais durarouras, continuam ao longo desses anos. FONTE: BEE, 1997. 6.3 PRINCÍPIOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO PARA WINNICOTT O homem maduro é aquele capaz de identificar-se com a sociedade sem ter que sacrificar excessivamente sua espontaneidade, é capaz de atender suas necessidades pessoais sem tornar-se por isto um ser antissocial, e de aceitar certa responsabilidade quando isto se tornar necessário (WINNICOTT, 2001). 6.3.1 Quem foi Winnicott? Donald Woods Winnicott, nasceu na Inglaterra em 7 de abril de 1896, filho de Elizabeth Martha (Woods) Winnicott e do Sr. John Frederick Winnicott, um comerciante que se tornou cavaleiro em 1924 após servir duas vezes como prefeito de Plymouth.A família era próspera e aparentemente feliz, mas atrás desse verniz, Winnicott se viu como oprimido por uma mãe com tendências depressivas como também por duas irmãs e uma babá. Foi a influência do seu pai, que era um livre- pensador e empreendedor que o encorajou em sua criatividade. Winnicott se AN02FREV001/REV 4.0 127 descreveu como um adolescente perturbado, reagindo contra a própria autorrepressão que adquirindo sua capacidade de cuidar ao tentar suavizar os sombrios humores de sua mãe. Estas sementes de autoconsciência se tornaram a base do interesse dele trabalhando com pessoas jovens e problemáticas. FIGURA 72 – WINNICOTT FONTE: http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/donald-winnicott-427693.shtml. Acesso em: 23 jul. 2009. Decidindo-se tornar um médico, completando sua formação em medicina em 1920 e em 1923, no mesmo ano do seu primeiro casamento com Alice Taylor, foi contratado como médico no Paddington Green Children's Hospital em Londres. Foi também em 1923, que Winnicott iniciou sua análise pessoal com James Strachey (1887 – 1967), o tradutor das obras de Sigmund Freud para o inglês. Em 1927 Winnicott foi aceito como iniciante na Sociedade Britânica de Psicanálise, qualificado como analista em 1934 e como analista de crianças em 1935. O tratamento de crianças mentalmente transtornadas e das suas mães lhe deu a experiência com a qual ele construiria a maioria das suas originais teorias. Um acontecimento relevante da vida desse autor foi a chegada em Londres, no ano 1926, de Melanie Klein (1882-1960), uma das mais importantes analistas de criança da sua época, logo fazendo escola e seguidores. Fez parte de uma divisão dentro da Sociedade Psicanalítica Britânica entre os Freudianos ortodoxos e o Kleinianos. Porém, em 1945, um acordo tipicamente britânico estabeleceu três cordiais grupos: os Freudianos, o Kleinianos e um grupo “conciliador" ao qual Winnicott pertenceu. Para Freud, ao brincar, a criança tem prazer na aparente onipotência que adquire ao manipular os objetos cotidianos associando-os a símbolos imaginários http://en.wikipedia.org/wiki/James_Strachey http://pt.wikipedia.org/wiki/Sigmund_Freud AN02FREV001/REV 4.0 128 como no jogo fort-da, que evocava a presença da mãe na análise infantil que realizou. Não há dúvidas, porém que foi Melanie Klein quem efetivamente trouxe a brincadeira para o trabalho psicanalítico com crianças. Klein reconhecera uma similitude entre (1) a atividade lúdica infantil e o sonho do adulto, e (2) as verbalizações da criança ao brincar e a associação livre clássica. Discípulo de Klein, Winnicott redimensiona a brincadeira, situando o brincar do analista e o valor que essa atividade possui em si, instituída como uma atividade infantil, e que também faz parte do mundo adulto. Para ele, os analistas infantis por se ocuparem tanto dos possíveis significados do brincar não possuíam um claro enunciado descritivo sobre o brincar. Para ele “Brincar é algo além de imaginar e desejar, brincar é o fazer”. Winnicott tornou-se um médico contratado do Departamento Infantil do Instituto de Psicanálise durante 25 anos; foi presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise por duas gestões; membro da UNESCO e do grupo de experts da OMS; atuou como professor no Instituto de Educação e na London School of Economics, da Universidade de Londres; dissertou e escreveu amplamente como atividade profissional independente. Ele divorciou-se de sua primeira esposa em 1951 e, nesse mesmo ano, casou-se com Elsie Clare Nimmo Britton, assistente social psiquiátrica e psicanalista. Morreu em 28 de janeiro de 1971, após o último de uma série de ataques de coração e foi cremado em Londres. 6.3.2 Concepções do Desenvolvimento Emocional e Físico da Criança Segundo Winnicott, o desenvolvimento emocional inicia desde as primeiras horas do nascimento ou a partir do último estágio de vida pré-natal. Não é possível ignorar a evolução da personalidade e do caráter, pois até a experiência do nascimento pode ser significativa (WINNICOTT, 2001). A mãe de um bebê se torna particularmente qualificada para proteger seu filho nesta fase de vulnerabilidade, e que a torna capaz de contribuir positivamente com as claras necessidades da criança. A mãe é capaz de desempenhar esse papel e se sentir segura, amada em sua relação com o pai da criança e com a própria AN02FREV001/REV 4.0 129 família. Ao se sentir aceita nos círculos cada vez mais amplos que circundam a família e constituem a sociedade (WINNICOTT, 2001). FIGURA 73 – BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. A criança com um ano de idade já é capaz de manter viva a ideia da mãe e também do tipo de cuidado que acostumou a receber; é capaz de manter viva esta ideia por certa extensão de tempo, talvez dez minutos, talvez uma hora ou mais (WINNICOTT, 2001). Desde o início é possível a um observador perceber que a criança já é um ser humano, uma unidade. Com um ano, a maioria das crianças já adquiriu de fato o status de indivíduo. Em outras palavras, a personalidade tornou-se integrada. É claro que isto nem sempre é verdade, mas pode-se dizer que, em certos momentos, ao longo de certos períodos e em certas relações, a criança de um ano é uma pessoa inteira. Mas, a integração não é algo automático, é algo que deve desenvolver-se pouco a pouco em cada criança individual. Não é mera questão de neurofisiologia, pois, para que seu processo se desenrole, há a necessidade da presença de certas condições ambientais, a saber: aquelas cujo melhor provisor é a própria mãe da criança (WINNICOTT, 2001). FIGURA 74 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. AN02FREV001/REV 4.0 130 A existência de um grau razoável de adaptação às necessidades da criança é o que melhor possibilita o rápido estabelecimento de uma relação forte entre psique e soma. Havendo falhas nessa adaptação, surge uma tendência de a psique desenvolver uma existência fracamente relacionada à experiência corporal, acarretando como resultado que as frustrações físicas não sejam sentidas em toda a sua intensidade (WINNICOTT, 2001). A visão que a criança tem do mundo exterior ao self2 baseia-se em grande medida no padrão da realidade pessoal interna. Cumprindo fazer notar que o comportamento real do ambiente em relação a uma criança é até certo ponto afetado pelas expectativas positivas e negativas da própria criança (WINNICOTT, 2001). FIGURA 75 – FAMÍLIA FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. A vida institiva da criança baseia-se no funcionamento alimentar. Os interesses ligados às mãos e a boca predominam, mas as funções excretoras aos poucos vão acrescentando sua contribuição. A começar de certa idade, talvez aos cinco meses, a criança torna-se capaz de relacionar a excreção à alimentação, e vincular fezes e urina ao consumo oral. De acordo com isso, tem início o desenvolvimento do mundo pessoal interno, que, consequentemente, tende a ser localizado na barriga. Originando-se, a experiência do psique-soma se expandindo a todo o funcionamento corporal (WINNICOTT, 2001). 2 Conceito psicanalítico que inclui o eu (ego) e o não eu. É a totalidade da própria pessoa. Inclui também o corpo com todas as suas partes, o vínculo com os objetos internos e externos e o sujeito como oposto ao mundo dos objetos. AN02FREV001/REV 4.0 131 Todas as funções tendem a ter uma qualidade orgática, na medida em que todas, cada uma a seu modo, contêm uma fase de preparação e estímulo local, um clímax em que o corpo inteiro está envolvido, e um períodode pós-satisfação (WINNICOTT, 2001). FIGURA 76 – MÃE E BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. As experiências instintivas, durante o primeiro ano de vida, são portadoras da crescente capacidade que a criança tem de relacionar-se com objetos, capacidade essa que culmina num relacionamento amoroso entre mãe e filho (WINNICOTT, 2001). O impulso instintivo cria uma situação que pode evoluir, por um lado, para a satisfação, ou se diluir numa insatisfação difusa ou num desconforto generalizado da psique e do soma. Há hora certa para a satisfação de um impulso, há um clímax interno que deve vir junto com a experiência de fato. As satisfações têm extrema importância para a criança no decorrer de seu primeiro ano de vida, e a capacidade de esperar só pode ser adquirida de modo gradual. O que se pede, evidentemente, é que a criança sacrifique sua espontaneidade em favor das necessidades daqueles que dela cuidam. Muitas vezes exigimos das crianças mais do que de nós mesmos (WINNICOTT, 2001). FIGURA 77 – BEBÊ AN02FREV001/REV 4.0 132 FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. A espontaneidade, assim, é ameaçada por dois conjuntos de fatores: Pelo desejo da mãe de libertar-se das cadeias da maternidade. A isso pode sobrepor-se a falsa ideia de que uma mãe deve educar seu filho desde muito cedo a fim de produzir um “bom” filho. Pelo desenvolvimento de complexos mecanismos de restrição da espontaneidade no interior da própria criança (o estabelecimento de um superego). FIGURA 78 – BEBÊ FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/baby_3.html. Acesso em: 23 jul. 2009. A mecânica do autocontrole é tão rude quanto os próprios impulsos, e a severidade da mãe ajuda por ser menos brutal e mais humana, pois uma mãe pode sempre ser desafiada, mas a inibição interna de um impulso é passível de ter efeito total. A severidade das mães, portanto, tem um significado inesperado: leva, de modo gradual e gentil, à complacência, e salva a criança da ferocidade do autocontrole. Por uma evolução natural (supondo-se que as condições exteriores permaneçam favoráveis), a criança estabelece uma severidade interna de caráter “humano”, adquirindo seu autocontrole sem perder demais daquela espontaneidade que, só ela, faz a vida valer a pena (WINNICOTT, 2001). O tema da espontaneidade naturalmente nos leva a considerar o impulso criativo, o qual dá à criança a prova de que está viva. AN02FREV001/REV 4.0 133 Na criança sadia, grande parte do potencial de agressão funde-se às experiências instintivas e ao padrão dos relacionamentos do pequeno indivíduo. Para que esse desenvolvimento ocorra são necessárias certas condições ambientais suficientemente boas (WINNICOTT, 2001). À medida que a criança cresce, o significado do termo “amor” vai se alterando, ou enriquecendo-se com novos elementos: - Amor significa existir, respirar; estar vivo identifica-se a ser amado. - Significa apetite. Aqui não há preocupação, apenas a necessidade de satisfação. - Significa o contato afetivo com a mãe. - Significa a integração do objeto da experiência instintiva com a mãe integral do contato afetivo. O dar passa a relacionar-se ao receber, etc. - Significa afirmar os próprios direitos à mãe, ser compulsivamente voraz, forçar a mãe a compensar as privações pelas quais ela é responsável. - Significa cuidar da mãe, como ela cuidou da criança, uma prefiguração da atitude de responsabilidade adulta. Todo o desenvolvimento pode ser observado nos primeiros anos de vida. É fundamental estar atento nesta fase, pois quase todas as aquisições podem ser perdidas frente a uma posterior ruptura das condições mínimas ambientais, ou mesmo pela ação de certas ansiedades inerentes ao amadurecimento emocional (WINNICOTT, 2001). 6.3.3 Relação entre mãe e bebê De acordo com Winnicott (1985), quando a gravidez é desejada, constata-se na mãe grávida uma identificação cada vez maior com o seu filho. A criança é associada pela mãe com uma ideia de um “objeto interno”, um objeto imaginado para ser instalado dentro e aí mantido apesar de todos os elementos persecutórios que também tem lugar na situação. O bebê tem outros siginificados na fantasia inconsciente da mãe, mas é possível que o traço predominante nesta seja uma vontade e uma capacidade de desviar o interesse do seu próprio self para o bebê. Só a mãe sabe como o bebê pode estar se sentindo. AN02FREV001/REV 4.0 134 Muitas crianças colocadas sob os cuidados terapêuticos regridem e revivem os relacionamentos primeiros que não foram satisfatórios em seu passado. No processo de maternagem, a presença de uma mãe suficientemente boa, a criança pode iniciar um processo de desenvolvimento pessoal e real. Caso a maternagem não seja boa o suficiente, a criança torna-se um acumulado de reações à violação; o self verdadeiro da criança não consegue formar-se, ou permanece oculto por trás de um falso self que a um só tempo quer evitar e compactuar com as bofetadas do mundo (WINNICOTT, 1985). Quando o par mãe-filho funciona bem, o ego da criança é de fato muito forte. O ego da criança é capaz de organizar defesas e desenvolver padrões pessoais fortemente marcados por tendências hereditárias. Caso o apoio do ego da mãe não exista, ou é fraco, a criança não consegue desenvolver-se numa trilha pessoal (WINNICOTT, 1985). Os bebês bem cuidados rapidamente estabelecem-se como pessoas, cada um deles diferente de todos os outros que já existiram ou existirão, ao passo que os bebês que recebem apoio egoico inadequado ou patológico tendem a apresentar padrões de comportamento semelhantes (inquietude, estranhamento, apatia, inibição e complacência) (WINNICOTT, 1985). Quando a mãe identifica-se com seu filho, é capaz e tem vontade de dar apoio no momento em que for necessário. As crianças quando são saudáveis desenvolvem suficientemente uma crença em si mesmas e nos outros, o que faz com que passem a odiar todo tipo de controle externo, o controle se muda em autocontrole. Nesse, o conflito é trabalhado com antecedência no interior da própria pessoa. É assim, pois, que entendo a questão: as boas condições de cuidado num primeiro estágio de vida geram um sentido de segurança, que por sua vez gera o autocontrole, e quando o autocontrole se realiza de fato, a segurança imposta do exterior transforma-se num insulto (WINNICOTT, 1985). Os pais quando são normais, não desejam ser adorados pelos filhos. Suportam os extremos de serem idealizados e odiados, esperando que, finalmente, os filhos os vejam como os seres humanos comuns que certamente são (WINNICOTT, 1985). AN02FREV001/REV 4.0 135 Outro ponto importante na relação dos pais e do bebê é a saúde, quer dizer maturidade apropriada à idade. No desenvolvimento emocional de um ser humano, se não houver entraves ou desvios no processo evolutivo, há saúde. Todos os cuidados que a mãe e o pai dediquem ao seu bebê não constituem apenas um prazer para eles e para a criança, trata-se também de uma necessidade absoluta e o bebê não poderá transformar-se num adulto sadio ou prestimoso (WINNICOTT, 1985). A figura da mãe é necessária como pessoa viva para o bebê. Ele deve estar apto a sentir o calor de sua pele e alento, a provar e a ver. Isso é vitalmente importante. Deve existir completo acesso ao corpo vivo da mãe. Sem a presença viva da mãe, a mais erudita técnica materna nada vale. Outro aspecto fundamental que acontece na figura da mãe é a apresentação do mundo ao bebê. As pessoas e a realidade externa ao mundo em seu redor, que assistem o bebê são apresentados pela mãe. A mãe que se adapta de um modo fértil, dá ao seu bebê uma basepara estabelecer contato com o mundo e propicia ao bebê uma riqueza em suas relações com o mundo que pode desenvolver-se e atingir plena fruição, com o decorrer do tempo, quando a maturidade chegar. Uma parte importante dessa relação inicial do bebê com a mãe é a inclusão na mesma de poderosos impulsos instintivos, a sobrevivência do bebê e da mãe ensina ao bebê, por meio da experiência, que são permissíveis as experiências instintivas e as ideias excitadas, e que elas não destroem, necessariamente, o tranquilo tipo de relações, de amizade e de participação (WINNICOTT, 1985). Em resumo, o desenvolvimento emocional de um bebê, no início, só pode ser bem consolidado na base das relações com uma pessoa que, idealmente, deveria ser a mãe. 6.3.4 Relação da Criança com a Família Segundo Winnicott (2001), a família é um dado essencial de nossa civilização. O modo pelo qual é organizada a família demonstra na prática o que é a AN02FREV001/REV 4.0 136 nossa cultura, assim como uma imagem do rosto é suficiente para retratar o indivíduo. Partindo do pressuposto de família saudável, ela tem seu próprio crescimento, e a pequena criança experimenta mudanças que advêm da gradual expansão e das tribulações familiares. A família protege a criança no mundo e aos poucos vai introduzindo as tias, os tios, os vizinhos, os primeiros grupinhos de crianças e por fim a escola. Em relação ao casamento, que é uma constituição de uma família, nem sempre é sinal de maturidade parental. Cada membro do casal está em processo de crescimento e permanece assim, ao longo de toda a sua vida (WINNICOTT, 2001). Cada criança individual, com seu crescimento emocional sadio e seu desenvolvimento pessoal satisfatório, promove a família e a atmosfera familiar. Os pais, em seus esforços de constituição da família, beneficiam-se da somatória das tendências integrativas de cada um dos filhos. Não se trata de saber meramente se o bebê ou a criança é cativamente e digna de amor, deve haver algo mais, pois as crianças nem sempre são boazinhas. Os filhos lisojeiam os pais, por esperarem certa confiabilidade e disponibilidade, ao que é respondido, em parte, devido à capacidade de identificação com os filhos. Essa capacidade também vai depender de como os pais desenvolveram sua própria personalidade, se foi de modo satisfatório, quando tinham a mesma idade que tem seus filhos. A partir daí, as próprias capacidades são descobertas e desenvolvidas pelo que os filhos esperam dos pais (WINNICOTT, 2001). A relação do pai com a criança vai depender da atitude que a mãe toma, se o pai vai acabar ou não por conhecer o seu bebê. Há todo um rosário de motivos pelos quais é difícil para um pai participar na criação do seu filho pequeno. Para começar, raramente estará em casa quando o bebê está acordado e, mesmo quando está em casa, a mãe acha um pouco difícil saber quando utilizar seu marido ou quando deseja que ele saia do caminho (WINNICOTT, 2001). É incomparavelmente melhor um pai forte, que pode ser respeitado e amado, do que apenas uma combinação de qualidades maternas, normas e regulamentos, permissões e proibições. AN02FREV001/REV 4.0 137 Quando o pai entra na vida da criança, como pai, ele assume sentimentos que ela já alimentava em relação a certas propriedades da mãe e para esta constitui um grande alívio verificar que o pai se comporta da maneira esperada. A união sexual de pai e mãe fornece um fato concreto em torno do qual a criança poderá construir uma fantasia, uma rocha a que ele se pode agarrar e contra a qual pode desferir seus golpes, além de fornecer parte dos alicerces naturais para uma solução pessoal do problema das relações triangulares (WINNICOTT, 2001). A presença do pai não precisa estar o tempo todo para cumprir essa missão, mas tem de aparecer com bastante frequência para que a criança sinta que o pai é um ser vivo e real. Grande parte da organização da vida de uma criança deve ser feita pela mãe, e os filhos gostam de sentir que a mãe pode dirigir o lar enquanto o pai não está realmente nele (WINNICOTT, 2001). A criança precisa do pai por causa das suas qualidades positivas e das coisas que o distinguem de outros homens, bem como da vivacidade de que se reveste a sua personalidade. Quando o pai e a mãe aceitam facilmente a responsabilidade pela existência da criança, o cenário fica montado para um bom lar (WINNICOTT, 2001). 6.3.5 Diferenças de uma criança normal para uma deliquente Segundo Winnicott (2001), uma criança normal, se tem confiança no pai e na mãe, provoca constantes sobressaltos. Com o tempo, procura exercer o seu poder de desunião, de destruição, tenta amedrontar, cansar, desperdiçar, seduzir e apropriar-se das coisas. Tudo o que leva as pessoas aos tribunais. Durante a infância, é importante que a criança precise ter consciência de uma estrutura, se quiser sentir-se livre e estar apta a brincar, a fazer seus próprios desenhos, enfim, ser uma criança irresponsável. As primeiras fases do desenvolvimento emocional estão repletas de conflitos e rupturas potenciais. A relação com a realidade externa não está ainda radicada com firmeza, a personalidade ainda não está plenamente integrada, o amor primitivo tem uma finalidade destrutiva e a criança não aprendeu ainda a tolerar e dominar AN02FREV001/REV 4.0 138 seus instintos. Ela poderá vir a controlar todas essas coisas e ainda mais, se o seu ambiente circundante for estável e pessoal. É essencial que ela viva em um círculo de amor e de força, com tolerância, se não quisermos que tenha medo de seus próprios pensamentos e de sua imaginação, para realizar progressos em seu desenvolvimento emocional (WINNICOTT, 2001). Caso o lar não corresponder ao que a criança precisa, antes dela elaborar a ideia de uma estrutura como parte de sua própria natureza, pode ter consequências maléficas para o seu crescimento. A ideia é que, encontrando-se “livre”, ela trata de obter seu próprio prazer. A partir disso, verifica-se que a estrutura de sua vida foi quebrada, ela deixa de sentir-se livre. Torna-se inquieta, angustiada, e se tiver esperança tratará de procurar uma estrutura fora de casa. A criança cujo lar não conseguiu dar-lhe sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram. Tem a esperança de buscar nos avós, tios, amigos e na escola o que lhe falta. Procura uma estabilidade externa, sem a qual enlouquecerá. Fornecida em tempo adequado, essa estabilidade poderá consolidar-se na criança, gradativamente, passará da dependência e da necessidade de ser dirigida para a independência (WINNICOTT, 2001). Uma criança colhe nas suas relações e na escola aquilo que lhe faltou no verdadeiro lar. A criança antissocial está meramente olhando um pouco mais longe, para a sociedade em lugar de sua própria família ou escola, a fim de lhe fornecer a estabilidade de que precisa, se quiser superar as primeiras e essenciais fases da sua evolução emocional. O comportamento antissocial não passa, por vezes, de um S.O.S para que a criança seja controlada por pessoas fortes, carinhosas e confiantes. O sentimento de segurança não chegou à vida da criança suficientemente cedo para ser incorporado às suas convicções e crenças. O delinquente ofende a sociedade, sem saber o que está fazendo, a fim de restabelecer o controle proveniente de fora (WINNICOTT, 2001). A criança antissocial, sem oportunidade para criar um bom “ambiente interno”, necessita absolutamente de um controle de fora para ser feliz e estar apta a brincar ou trabalhar. AN02FREV001/REV 4.0 139 Às vezes, confunde-se sobre o significado da agressividade. Por um lado, constitui uma reação à frustração e por outro lado, é uma das muitas fontes de energia de um indivíduo.Usualmente, a mãe deve, nos primeiros anos do desenvolvimento da criança, dar tempo do filho para adquirir toda espécie de processos para enfrentar o choque de reconhecer a existência de um mundo que está situado fora do seu controle mágico. Se for concedido tempo suficiente para os processos de maturação, a criança capacita-se, então, a ser destrutiva, odiar, agredir e gritar, em vez de aniquilar magicamente o mundo. Dessa maneira é possível encarar a agressão concreta como uma realização positiva. Comparados com a destruição mágica, as ideias e o comportamento agressivos adquirem um valor positivo, e o ódio converte-se num sinal de civilização, sempre que tivermos presente todo o processo de evolução emocional do indivíduo, especialmente em suas primeiras fases (WINNICOTT, 2001). 6.3.6 A Criança e o Brincar As crianças têm prazer em todas as experiências de brincadeiras física e emocional e são capazes de encontrar objetos e inventar brincadeiras com muita facilidade. Normalmente as crianças dão escoamento ao ódio e a agressão nas brincadeiras, como se a agressão fosse alguma substância má de que fosse possível uma pessoa livrar-se. O ressentimento recalcado e os resultados de experiências coléricas podem ser encarados pela criança como uma coisa má dentro dela. Porém, é importante afirmar que essa ideia dizendo que a criança aprecia concluir que os impulsos coléricos ou agressivos podem exprimir-se num meio conhecido, sem o retorno do ódio e da violência do meio para a criança. Um bom meio ambiente, sentiria a criança, deveria ser capaz de tolerar os sentimentos agressivos, se esses fossem expressos de uma forma aceitável. Deve-se aceitar a presença da agressividade, na brincadeira da criança, e essa se sente desonesta, se o que está presente tiver de ser escondido ou negado (WINNICOTT, 1985). AN02FREV001/REV 4.0 140 A brincadeira para a criança fornece uma organização para a iniciação de relações emocionais e assim propicia o desenvolvimento de contatos sociais. Estimular a capacidade de brincar na criança é sempre positivo. Se ela estiver brincando, haverá lugar para um sintoma ou dois, e se ela gostar de brincar, tanto sozinha como na companhia de outras crianças, não há qualquer problema grave à vista. Se nessas brincadeiras for empregada uma fértil imaginação e se, também, o prazer que houver nelas depender de uma exata percepção da realidade externa, então a mãe poderá sentir-se bastante feliz, mesmo que a criança em questão urine na cama, gagueje, demonstrando explosões de mau humor, ou repetidamente sofra de ataques ou depressão. Suas brincadeiras revelam que essa criança é capaz, dado um ambiente razoavelmente bom e estável, de desenvolver um modo de vida pessoal e, finalmente, converter-se num ser humano integral, desejado como tal e favoravelmente acolhido pelo mundo em geral (WINNICOTT, 1985). 6.4 PRINCÍPIOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO PARA MELAINE KLEIN 6.4.1 Biografia de Melaine Klein FIGURA 79 – M. KLEIN FONTE: http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=melaine+klein&lr. Acesso em: 25 jul. 2009. Melanie Née Reizes (1882-1960) nasceu em Viena, mais conhecida como Melanie Klein, psicanalista britânica de origem austríaca. Seu pai, Moritz Reizes, era um médico judeu polonês, que se tornou clínico geral graças a uma ruptura com pais tradicionalistas. Sua mãe, judia eslovaca brilhante, dedica-se, por necessidades http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://img.mercadolivre.com.br/jm/img?s=MLB&f=76076907_57.jpg&v=P&imgrefurl=http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-81652567-_JM&usg=__7C2TQGZYcWtOQfG3r3cV7IbdCC8=&h=250&w=250&sz=8&hl=pt-BR&start=4&um=1&tbnid=mAzNbU7kqjuwvM:&tbnh=111&tbnw=111&prev=/images?q=melaine+klein&hl=pt-BR&lr=lang_pt&sa=X&um=1 AN02FREV001/REV 4.0 141 familiares, ao comércio de plantas e répteis, cuja família, erudita e culta, era dominada por uma linhagem de mulheres. Melanie Klein, pouco desejada, foi à quarta entre os filhos desse casal que não se entendia. Quando, por sua vez, se tornou mãe, também sofreu em sua vida particular as intrusões de sua mãe, Libussa, personalidade tirânica, possessiva e destruidora. A juventude de Melanie foi marcada por séries de lutos. Muitos provavelmente responsáveis pela culpa, cujos vestígios se encontram em sua obra teórica. Tinha quatro anos quando sua irmã Sidonie morreu de tuberculose com a idade de oito anos; tinha 18 quando o pai, debilitado há longos anos, morreu, deixando-a com a mãe; tinha 20 quando seu irmão Emmanuel, que a influenciara muito e a quem estava ligada por uma relação de tons incestuosos, morreu esgotado pela doença, pelas drogas e pelo desespero. Phyllis Grosskurth observou que Melanie se casou pouco depois desse falecimento, pelo qual se sentia culpada, o que, acrescentou, “provavelmente tinha sido o objetivo perseguido por Emmanuel”. Klein estudou de início arte e história na Universidade de Viena, porém as dificuldades econômicas que se seguiram à morte do pai parecem ter sido a causa de sua renúncia aos estudos de medicina, que ela decidira empreender com o objetivo de ser psiquiatra. Essas mesmas dificuldades explicariam igualmente seu casamento precipitado, em 1903, com Arthur Klein, engenheiro químico de caráter sombrio, que ela conhecera dois anos antes, que por força de suas atividades profissionais era obrigado a muitos deslocamentos o que possibilitou a Melanie aprender muitas línguas estrangeiras e do qual se divorciaria em 1926. Em 1910, por insistência de Melanie, cronicamente deprimida, o casal, cujo desentendimento era alimentado pelas incessantes intervenções de Libussa, se fixou em Budapeste. Em 1914, sua mãe morreu e nasceu seu terceiro filho, Erich Klein (futuro Eric Clyne), que ela analisaria, como Hans e Melitta, o irmão e a irmã mais novos. Mas esse ano de 1914 foi também o de sua primeira leitura de um texto de Sigmund Freud, “Sobre os sonhos”, e do início de sua análise com Sandor Ferenczi. Essa análise foi concluída em Londres, com S. Payne. Melaine Klein logo começou a participar das atividades da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, da qual se tornou membro em 1919. AN02FREV001/REV 4.0 142 Antes, em 28 e 29 de setembro de 1918, sob a presidência de Karl Abraham, o V Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA) se realizou nessa cidade, que Freud considerava como o centro do movimento psicanalítico. Era a primeira vez que Melanie Klein via Freud. Escutou-o ler, na tribuna, sua comunicação “Os novos caminhos da terapêutica psicanalítica” e, fortemente impressionada, tomou consciência de seu desejo de se consagrar à psicanálise. FIGURA 80 – M. KLEIN FONTE: http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=melaine+klein&lr. Acesso em: 25 jul. 2009. Em julho de 1919, levada por Ferenczi, apresentou, diante da Sociedade Psicanalítica de Budapeste, seu primeiro estudo de caso, dedicado à análise de uma criança de cinco anos, que na realidade era o seu próprio filho Erich. Uma versão reformulada dessa intervenção, na qual ela dissimulou a identidade do jovem paciente chamando-o de Fritz, constituiu seu primeiro escrito, publicado no “Internationale Zeitschrift für Psychoanalyse”. No congresso psicanalítico de Haia, em 1920, conheceu Abraham, que a convidou a se mudar para Berlim, onde ela se instalou como psicanalista, continuando com ele sua análise pessoal. Quando Abraham morreu, Melanie Klein deixou Berlim, cujo meio psicanalítico aderia às ideias da Anna Freud, julgando as suas pouco ortodoxas. Em 1925, no congresso de Salzburgo, leu seu primeiro artigo sobre a técnica da análise de crianças. Impressionado com esse trabalho, Jones a convidou para dar conferências na Inglaterra, país onde Melanie Klein se instalou definitivamente em 1926. Em 1922se divorciara do marido, de que já estava separada havia algum tempo. No começo de 1924, Melanie Klein começou uma segunda análise, com Karl Abraham, de quem adotaria algumas ideias para desenvolver suas próprias AN02FREV001/REV 4.0 143 perspectivas sobre a organização do desenvolvimento sexual. Em abril, no VIII Congresso da IPA em Salzburgo, apresentou uma comunicação altamente controvertida sobre a psicanálise das crianças pequenas, na qual começava a questionar certos aspectos do complexo de Édipo. Foi apoiada por Abraham e também por Ernest Jones, que seduzido por esse discurso contestatário, até interviria junto a Freud para que esse aceitasse levar em consideração essas declarações heréticas. Em 17 de dezembro do mesmo ano, Melanie foi a Viena para fazer uma comunicação sobre a psicanálise de crianças na Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV), e nessa ocasião confrontou-se diretamente com Anna Freud. Em Londres, Melanie Klein experimentou suas teorias, tratando filhos perturbados de alguns de seus colegas: o filho e a filha de Jones, por exemplo. Sua personalidade invasiva provocou à sua volta a paixões e repulsas. As ideias de Melanie Klein suscitaram fortes oposições, que tomaram uma amplitude considerável com a chegada à Inglaterra dos psicanalistas expulsos pelo nazismo, entre os quais A. Freud e E. Glover, que consideravam suas ideias metas psicológicas uma heresia idêntica às de Jung e Rank. Em janeiro de 1929, começou a tratar de uma criança autista de quatro anos, filha de um dos seus colegas da BPS, à qual deu o nome de Dick. Logo percebeu que ele apresentava sintomas que ela nunca havia encontrado. Não expressava nenhuma emoção, nenhum apego, e não se interessava pelos brinquedos. Para entrar em contato com ele, colocou dois trenzinhos lado a lado e designou o maior como “trem papai” e o menor como “trem Dick”. Dick fez o trem com o seu nome andar e disse a Melanie: “Corta!”. Ela desengatou o vagão de carvão e o menino guardou então o brinquedo quebrado em uma gaveta, exclamando: “Acabou!”. A história desse caso se tornaria célebre, por mostrar como alguns psicanalistas não conseguem dar aos filhos o amor que esperam deles. Dick continuou a análise com Melanie Klein até 1946, com uma interrupção durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1930 começou as análises didáticas e o atendimento de adultos. Em 1932 publicou a obra A psicanálise da criança, simultanemante em inglês e alemão. Na qual expunha a estrutura de seus futuros desenvolvimentos teóricos, sobretudo o conceito de posição (posição esquizo-paranoide/posição depressiva), assim como http://pt.wikipedia.org/wiki/1932 AN02FREV001/REV 4.0 144 sua concepção ampliada da pulsão de morte. Mas, nesse mesmo ano, que inaugurou um aparente período de calma institucional para ela, sua vida particular foi perturbada por conflitos que teriam alguns anos depois, grandes repercussões em sua vida profissional. Sua filha Melitta Schmideberg, casada com Walter Schmideberg, amigo da família Freud e de Ferenczi, tornou-se analista. Sem perceber, Melanie repetiu com sua filha o comportamento que Libussa tivera com ela. Foi por ocasião de uma retomada da análise com Edward Glover que Melitta se afastou de Melanie. Logo, seria publicamente apoiada em sua atitude por seu analista, que não hesitou em manipular as tensões familiares para reforçar suas próprias posições teóricas diante de Melanie. A partir de 1933, Melanie Klein, que sofria os ataques incessantes de Glover e de Melitta, via com terror a chegada a Londres dos analistas vienenses e berlinenses que fugiam do nazismo. Confidenciou a Donald Woods Winnicott que pressentia, na instalação desses refugiados que lhe era na maioria, hostis, a iminência de um “desastre”. Alguns meses depois da chegada dos Freud a Londres, as hostilidades irromperam efetivamente. Em 1936 realizou conferência sobre O desmame; em 1937 publicou Amor, ódio e reparação, com Joan Rivière; Em 1945 foi solicitada a expulsão dos kleinianos da Sociedade, sem sucesso. Em 1947, aos 65 anos, publicou Contribuições à psicanálise. Em 1955 foi fundada a Fundação Melanie Klein. No mesmo ano foi publicado o artigo A técnica psicanalítica através do brinquedo; sua história, sua significação, escrito a partir de uma conferência de 1953. Nunca tendo se reconciliado com sua filha Melitta, deixando inacabada uma autobiografia parcelar e seletiva, Melanie Klein morreu de câncer do cólon em Londres, a 22 de setembro de 1960, aos 78 anos de idade. 6.4.2 Características da análise Kleiniana http://pt.wikipedia.org/wiki/1937 http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Joan_Rivi%C3%A8re&action=edit&redlink=1 http://pt.wikipedia.org/wiki/1945 http://pt.wikipedia.org/wiki/1947 http://pt.wikipedia.org/wiki/1955 http://pt.wikipedia.org/wiki/1953 AN02FREV001/REV 4.0 145 FIGURA 81 – BRINQUEDO FONTE: http://www.fotosearch.com.br/ilustracao/brinquedo_3.html. Acesso em: 25 jul. 2009. Diferentemente de A. Freud, Melanie Klein considerava o brincar como um material suscetível de interpretação no quadro da situação transferencial. As brincadeiras eram a seu ver, equivalentes às fantasias, dando acesso à sexualidade infantil e à agressividade: em torno delas podia se instaurar uma relação transferencial-contratransferencial entre a criança e o analista (KLEIN, 1975). Melanie Klein conferiu lugar capital à pulsão de morte, conceito que, no entanto estava longe de gozar de unanimidade no seio do mundo psicanalítico. Radicalizando a posição de Freud, fez da angústia a consequência direta da ação da pulsão de morte no seio do organismo. Essas considerações estavam também presentes em sua concepção das fases ou posições por que a criança passava: a posição esquizoparanoide, que traduziria o modo de relação dos quatro primeiros meses da existência, seria caracterizada por uma união entre as pulsões sexuais e as pulsões agressivas, por um objeto vivido como parcial e clivado em “bom” (gratificador) e “mau” (frustrador). “Na posição paranoide-esquizoide”, escreve Hana Segal, “a angústia dominante provém do temor de que o objeto ou os objetos persecutórios penetrem no eu, esmagando ou aniquilando o objeto ideal e o “self”. Dois mecanismos psíquicos seriam dominantes nessa fase: a introjeção e a projeção. Instalando-se por volta dos quatro meses, a posição depressiva se seguiria à posição paranoide, sendo por sua vez superada por volta do final do primeiro ano. O objeto já não é parcial, podendo ser apreendido pela criança como total, a clivagem “bom”-“mau” já não é tão categórica como outrora, a angústia é de natureza depressiva e está ligada ao temor de perder e de destruir a mãe. Em face de suas angústias, a criança desenvolve vários tipos de defesa e de atividades reparatórias, que constituem a primeira fonte da criatividade e da sublimação. A AN02FREV001/REV 4.0 146 posição esquizoparanoide e a posição depressiva voltam a se fazer presentes posteriormente na vida, em especial no adulto acometido de paranoia, de esquizofrenia ou de estados depressivos (KLEIN, 1975). Sustenta que apenas os meios analíticos permitem instaurar uma situação analítica. Coloca que o processo analítico e processo educativo podem coexistir se são conduzidos por pessoas diferentes, optando pela divisão do trabalho. Mesmo que reconheçamos a necessidade de introduzir a psicanálise na educação, não somos por isso, obrigados a renegar os princípios da educação que achamos bons e que aprovamos até o presente. A psicanálise deveria servir à educação como um auxiliar, um aperfeiçoamento, deixando intactos os princípios aceitos até então (...) (Melaine Klein) A psicanálise da criança tem a função de preparar o terreno para a educação – não poderia substituí-la, e nem mesmo modificar seusprincípios. Utiliza como técnica psicanalítica do brinquedo, mas o que caracterizava sua técnica foi o método de interpretação, cuja orientação corresponde a um princípio básico da psicanálise: a livre associação (KLEIN, 1975). Coloca que a exploração do inconsciente é a tarefa principal da psicanálise, e a análise da transferência é o caminho para atingir esse objetivo. Por meio de sua experiência, define os brinquedos mais adequados para a técnica psicanalítica do brinquedo. Brinquedos pequenos facilitam na criança a expressão de ampla série de fantasias e vivências, devido a sua quantidade e variedade. A função do brinquedo é possibilitar a criança, a apresentar uma variedade de experiências e situações reais ou de fantasia para compor um quadro mais coerente dos mecanismos da mente (KLEIN, 1975). As instalações da sala devem ser igualmente simples, sem conter nada além do necessário para a psicanálise. Os brinquedos não são os únicos requisitos para uma análise do brincar. É muito comum a criança desenhar, escrever, pintar, fazer recortes, consertar brinquedos etc. É fundamental também permitir que a criança libere sua agressividade (KLEIN, 1975). Palavras de Melaine Klein: “Meu trabalho com crianças e as conclusões teóricas daí extraídas exerceram influência cada vez maior na minha técnica com adultos. A Psicanálise sempre teve como dogma que o inconsciente, que se origina na mente do bebê, precisa ser explorado no adulto. Minha experiência com crianças AN02FREV001/REV 4.0 147 me levou a mergulhar nessa direção muito mais do que se fizera até então e possibilitou a elaboração de uma técnica que permitiu acesso àquelas camadas. Minha técnica do brinquedo me ajudou, especialmente, a verificar qual material tinha mais necessidade de ser interpretado naquele momento e de que modo seria mais facilmente transmitido ao paciente; parte desse conhecimento pode aplicar na análise de adultos. Conforme já assinalei antes, isso não significa que a técnica usada com crianças seja idêntica às etapas mais precoces, é de grande importância, na análise de adultos, levar em conta o ego adulto exatamente como, no caso das crianças, é preciso considerar o ego infantil sempre em relação com sua etapa de desenvolvimento (KLEIN, 1975).” Durante 34 anos, a vida de Melanie Klein foi completamente ligada à psicanálise, às atividades da Sociedade Britânica e ao movimento internacional. Em 1960, às vésperas da morte, ela ainda estava dando instruções sobre seu último manuscrito e aos alunos que tinha em formação. 6.5 PRINCÍPIOS SOBRE O DESENVOLVIMENTO PARA ARMINDA ABERASTURY 6.5.1 Trajetória e lógica profissional da autora Arminda Aberastury Arminda Aberastury, de nacionalidade Argentina, reconhecida como uma das maiores autoridades na área de análise infantil. Trabalhou muito na difusão do método psicanalítico no país. O desenvolvimento inicial do trabalho de Aberastury foi muito solitário, contava apenas com uma colaboradora. Seu trabalho teve influências de vários analistas diferentes, como Hug Hellmuth, Anna Freud e Sophie Morgenstein, o pensamento de Melanie Klein foi o que mais marcou o seu trabalho com análise de crianças, que teve o seu início supervisionado pela própria Klein. Como Klein, a autora formula sua teoria a partir do material clínico, usando a sua experiência com crianças para desenvolver a investigação e a metodologia psicanalíticas. Também como Klein, considera a subjetividade como constituída pelo AN02FREV001/REV 4.0 148 mundo interno, apesar de ter um interesse especial pela realidade externa do paciente. A princípio Aberastury se nutriu da técnica de Melaine Klein durante muitos anos, porém permitiu-se depois fazer nela uma série de modificações. Diferenciando-se de Klein, a autora passa a apresentar uma preocupação em examinar a família do paciente. Aberastury mostra uma forma diferenciada de conduzir e utilizar as entrevistas com os pais das crianças candidatas a tratamento analítico. Já nos contatos preliminares com os pais, o analista poderia perceber como se apresenta o funcionamento da família, observando se vêm ambos os pais as entrevistas, como lhes foi recomendado, se vem só a mãe justificando de alguma forma a ausência do pai, ou mesmo outra pessoa representando os pais (ABERASTURY, 1984). FIGURA 82 – ABERASTURY FONTE: http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=Arminda+Aberastury. Acesso em: 25 jul. 2009. Para a autora, desde o primeiro contato é importante que o analista tenha uma postura de analista da criança, embora seu papel seja também o de tentar aliviar a angústia e a culpa que a doença do filho desperta (ABERASTURY, 1984). Na entrevista inicial, Aberastury interroga os pais a respeito de vários aspectos básicos que considera conveniente tratar antes de se atender a criança. Esses aspectos são os seguintes: o motivo da consulta, a história da criança, como é um dia de sua vida diária e o que faz nos finais de semana e feriados, como costuma passar seu aniversário, como é a relação dos pais entre si, com seus filhos e que proximidade tem de seus familiares (ABERASTURY, 1984). Todos esses detalhes ajudam o analista a entender, durante a análise da criança as suas necessidades. Na anamnese é essencial saber também, se exigem http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b2/Arminda_Aberastury.jpg&imgrefurl=http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arminda_Aberastury.jpg&usg=__Wt4bEopT8HVO4-YCPt5e1dOdrPE=&h=300&w=210&sz=31&hl=pt-BR&start=12&um=1&tbnid=w6kUNilWx6Y4bM:&tbnh=116&tbnw=81&prev=/images?q=Arminda+Aberastury&hl=pt-BR&sa=X&um=1 AN02FREV001/REV 4.0 149 da criança movimentos compatíveis com a sua idade, se os pais submetem a criança a castigos e prêmios, se a criança apresenta uma precocidade ou um atraso no seu desenvolvimento e como são suas reações diante das negativas que recebe dos pais. Para a autora, poucos dados verdadeiros são obtidos na entrevista sobre as relações entre pais e filhos, pois os pais tendem a distorcer a realidade por estarem muito mobilizados pela culpa e com o seu narcisismo ferido. Existem outros dados importantes também como, as diferenças de idade entre os irmãos, da profissão dos pais, das horas que permanecem fora de casa, de quem é o responsável pela casa, das condições gerais de vida e de sociabilidade deles e de seus filhos. Essa postura do analista interessado também pela realidade externa da criança provoca nos pais uma redução das suas ansiedades persecutórias, favorecendo uma aliança terapêutica (ABERASTURY, 1984). Uma vez que o tratamento seja contratado, na entrevista subsequente ao contato inicial com a criança o analista assume integralmente o seu papel, enquanto a função dos pais se limita ao compromisso de fazer o filho chegar ao tratamento e pagá-lo. Caso os pais se proponham a colaborar com o analista, a autora recomenda que se deixe claro para os pais o quanto já estão cooperando ao permitir que o filho tenha um tratamento, dessa forma favorecendo o seu êxito (ABERASTURY, 1984). Uma das técnicas utilizadas é o método do desenho de Sophie Morgenstein (1937), considerado um dos mais importantes no tratamento psicanalítico de crianças. A autora manifesta uma restrição ao método do desenho, com relação a crianças muito inibidas ou mesmo crianças muito pequenas teriam dificuldades em sua utilização. A primeira sessão de brinquedo é de grande importância, pois toda criança, mesmo muito pequena mostra desde a primeira sessão a compreensão de sua doença e o desejo de curar-se. A utilização sistemática da primeira hora de brinquedo para diagnóstico foi realizada pela primeira vez na Argentina, para depois passar a ser uma prática reconhecida mundialmente por todos os analistasque se dedicam à análise infantil (ABERASTURY, 1984). AN02FREV001/REV 4.0 150 Aberastury desenvolveu um trabalho original sobre a primeira sessão de brinquedo. Segundo a autora, por meio da técnica do brincar, apresentava-se a fantasia inconsciente da doença ou da cura. Essa sua conclusão era completamente diferente das afirmações que faziam Anna freud e Malaine Klein a respeito de suas experiências com crianças. Elas afirmavam categoricamente que as crianças, diferente dos adultos, não têm consciência de que estão doentes e não desejam ser curadas, de sorte que não possuem incentivos para iniciar a análise e, tampouco, estímulo para prosseguir com ela (ABERASTURY, 1984). Para Aberastury, desde o início do tratamento a criança traz suas fantasias inconscientes sobre sua doença, e na maioria das vezes também sua fantasia de cura, por temer que se repita com ela o comportamento daqueles que provocaram seus conflitos. A criança tem o desejo de que o analista assuma um papel diferente do papel dos objetos originários que a prejudicaram, ou seja, um papel que possa suprir a criança do que necessita para recuperar-se (ABERASTURY, 1984). A autora faz um paralelo entre as ansiedades do nascimento e o início do tratamento da criança. Ao começar sua terapia, o pequeno paciente vive a separação inicial dos pais com ansiedades semelhantes às que conheceu à época de seu nascimento. A desconfiança que a criança apresenta em relação ao analista seria produto do medo de que se repita com esse a mesma relação que a criança tem com o objeto original temido e ameaçador. Quanto aos aspectos amorosos do objeto, estariam projetados no terapeuta como aquilo que é próprio para curar o paciente (ABERASTURY, 1984). Assim, segundo Aberastury tanto a transferência negativa como a positiva deve ser interpretada à criança desde a primeira sessão de brinquedo, bem como no decorrer do tratamento, já que ambos os aspectos apresentam-se sempre. Quanto aos pais, muitas vezes têm dificuldades em aceitar um tratamento psicanalítico para seu filho. Nesse caso, a atitude de manter a indicação para o tratamento da criança deve ter lugar apenas se se tem a convicção de que esta é a única saída para libertar a criança de sua doença. Uma das alternativas seria marcar entrevistas com a mãe, com a intenção de prepará-la para a aceitação de um tratamento para o filho. Outra seria encaminhá-la para um grupo de mães, já que muitas vezes o sintoma de uma criança é fabricado por sua mãe, que frequentemente mantém ou mesmo agrava o AN02FREV001/REV 4.0 151 sintoma de seu filho. Por outro lado, nem sempre uma orientação pode mudar a atitude da mãe, uma vez que seus próprios conflitos a impedem de ter outro tipo de comportamento com seu filho (ABERASTURY, 1984). Os grupos oferecem possibilidades otimistas para a profilaxia das neuroses infantis, principalmente quando começam a ser frequentados pelas mães ainda grávidas. São grupos que visam oferecer informações para que se promova um desenvolvimento saudável da criança e para que haja uma boa relação da criança com seus familiares durante a primeira infância. Trata-se de um trabalho de prevenção da doença mental, já que é na infância que surgem os problemas que mais tarde vão resultar em um indivíduo muito prejudicado psicologicamente. Podemos perceber que a postura de Aberastury de ver os pais como principais responsáveis pela problemática dos filhos a coloca em contradição com a teoria kleiniana que adotava. Embora na teoria Aberastury afirme que a subjetividade é constituída apenas pelo mundo interno, na prática procurou meios alternativos de considerar a influência do mundo externo na subjetividade da criança, como por exemplo, no caso dos grupos de orientação de mães. Essa foi uma solução intermediária, pois ao mesmo tempo em que os pais eram levados em consideração, não eram incluídos diretamente no tratamento (ABERASTURY, 1984). Por outro lado, Aberastury reconhece a limitação do trabalho de orientação das mães, já que, como os seus conflitos com os filhos são inconscientes, não era por meio de conselhos e recomendações que a mãe poderia elaborá-los. No entanto, adotava esse tipo de trabalho por acreditar que poderia diminuir as ansiedades da mãe. 6.5.2 Pontos relevantes na Psicologia do Adolescente O trabalho específico sobre adolescência começou com os grupos de estudos preparatórios para colocar e acrescer ideias e experiências ao 1º Congresso Interno e ao IX Simpósio da Associação Psicanalítica Argentina, realizado em Buenos Aires em fins de 1964. A partir daí, Arminda Aberastury e Mauricio Knobel, AN02FREV001/REV 4.0 152 resolveram organizar e reproduzir alguns estudos psicanalíticos da adolescência em obra intitulada “Adolescência Normal”. Segundo os autores, esta temática provoca o interesse de diversos setores de estudiosos da conduta humana e exige todas as contibuições das diferentes disciplinas científicas. Entrar no mundo dos adultos, desejado e temido, significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. É o momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou com o nascimento (ABERASTURY, 1991). As mudanças psicológicas que se reproduzem neste período, e que são a correlação de mudanças corporais, levam a uma nova relação com os pais e com o mundo. Isso só é possível quando se elabora, lenta e dolorosamente, o luto pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância (ABERASTURY, 1991). Quando o adolescente se inclui no mundo com este corpo já maduro, a imagem que tem do seu corpo mudou também sua identidade, e precisa então adquirir uma ideologia que lhe permita sua adaptação ao mundo e/ou sua ação sobre ele para mudá-lo (ABERASTURY, 1991). Nesse período flutua entre uma dependência e uma independência extrema, e só a maturidade lhe permitirá, mais tarde, aceitar ser independente dentro de um limite de necessária dependência. Mas, no começo, mover-se-á entre o impulso ao desprendimento e a defesa que impõe o temor à perda do conhecido. É um período de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado fricções com o meio familiar e social. Este quadro é frequentemente confundido com crises e estado patológico (ABERASTURY, 1991). Adolescência é sinônimo de crise, pois nessa fase busca-se uma identidade adulta a qual passa por um período "turbulento", variável segundo o seu ecossistema sociofamiliar, em que comportamentos considerados como anormais ou patológicos em outras fases do desenvolvimento devem ser considerados normais nessa transição para a vida adulta (KNOBEL, 1999). Segundo Knobel (1981) a adolescência é entendida como um período marcado por mudanças não apenas orgânicas, constituindo-se em um período no qual o indivíduo busca estabelecer sua identidade adulta e, nesse intento, necessita AN02FREV001/REV 4.0 153 desprender-se do seu mundo infantil e enfrentar o mundo adulto. O autor esclarece que, quando fala de identidade, se refere a um contínuo processo evolutivo humano, definindo a adolescência como a etapa da vida durante a qual o indivíduo procura estabelecer sua identidade adulta, apoiando-se nas primeiras relações objeto- parentais, internalizadas e verificando a realidade que o meio social lhe oferece, mediante o uso dos elementos biofísicos em desenvolvimento à sua disposição e que por sua vez tendem à estabilidade da personalidade num plano genital, o que só é possível quando consegue o luto pela identidade infantil. (ABERASTURY e KNOBEL, 1981). Aberastury (1981) destaca que a adolescência é um momento crucial na vida do homem, constituindo a etapa decisiva de um processo de desprendimento atravessandotrês momentos fundamentais: o primeiro é o nascimento, o segundo surge ao final do primeiro ano com a eclosão da genitalidade, a dentição, a linguagem, a posição de pé e a marcha. O terceiro momento aparece na adolescência, quando a maturidade sexual estimula um relacionamento com um objeto externo fazendo também possível, a consumação do incesto e, ao mesmo tempo, define-se seu papel procriador e, escapando do incesto, o adolescente inicia a busca do objeto de amor no mundo externo, o que concretizará com a descoberta do par, se for conseguido o desprendimento interno dos pais. Somente a maturidade lhe dará permissão de aceitar-se independente dentro de um marco de necessária dependência; é um período de contradições, confuso, doloroso e permeado de conflitos com o meio familiar e o meio circundante. Aberastury (1981) considera que a adolescência está implicada tanto na questão da busca da identidade adulta, assim como em uma série de modificações ou reestruturações que se expressam das mais variadas formas que poderão refletir na existência de conflitos e angústias subjacentes. Knobel (1981) enfatiza que o adolescente busca a sua identidade adulta; no entanto assinala a identidade não como fenômeno próprio apenas do adulto, mas que a cada momento do desenvolvimento o indivíduo tem uma identidade própria, fruto das identificações e experiências vitais (interação mundo interno-externo). Assim, a identidade adulta não é alcançada antes que o adolescente tenha elaborado o que chama de as três perdas fundamentais desse período evolutivo apresentadas por Aberastury. A autora aponta como característica da adolescência a flutuação entre dependência e AN02FREV001/REV 4.0 154 independência, período esse permeado de contradições, confuso, ambivalente, doloroso, caracterizado por “fricções com o meio familiar e social” (ABERASTURY, 1981). Entende que são três os lutos fundamentais que o adolescente deve realizar para desprender-se do mundo infantil e enfrentar o mundo adulto: a) O luto pelo corpo infantil perdido, base biológica da adolescência, imposta ao indivíduo que, não poucas vezes, tem que sentir suas mudanças como algo externo, frente aos quais se encontra como um espectador impotente em relação ao que ocorre no seu próprio organismo. b) Luto pelo papel e identidade infantis, que o obriga a uma renúncia da dependência e uma aceitação de responsabilidade que muitas vezes desconhece. c) O luto pelos pais da infância, os quais persistentemente tenta reter na sua personalidade, procurando o refúgio e a proteção que eles significam. Esta situação se complica pela própria atitude dos pais, que também são obrigados a aceitar o seu envelhecimento assim como o fato de que seus filhos já não são mais crianças, mas adultos, ou então, em vias de sê-lo. A elaboração destes lutos, para Aberastury, se faz de forma lenta e dolorosa. Muitas vezes, para se defender desse processo, o adolescente recorre a mecanismos psicopáticos de atuação, ou ainda, à intelectualização e à onipotência narcísica. No capítulo IV serão abordados mais detalhes sobre o processo de desenvolvimento do adolescente, na visão de outros autores. Curiosidades: Leitura Complementar AJUDANDO AS CRIANÇAS A SE TORNAREM MAIS COMPETENTES As descobertas do Projeto Pré-escola de Harvard e de estudos usando as escalas HOME (Observação do Lar para Medição do Ambiente) podem ser traduzidas nas seguintes recomendações para cuidadores de bebês e crianças jovens: 1. A melhor época para aumentar a competência de seu filho é a partir da idade de seis a oito meses até aproximadamente os dois anos, mas nunca é tarde demais. 2. Estimule seus filhos a terem relacionamentos sociais próximos com pessoas importantes em suas vidas, especialmente a partir de seu primeiro aniversário. 3. Dê ajuda a seus filhos quando eles necessitarem, em vez de impô-la cedo demais, ignorá-los, ou encará-los como uma carga da qual livrar-se rapidamente. 4. Mantenha-se bastante próximo às crianças pequenas, mas não as vigie a ponto AN02FREV001/REV 4.0 155 de desestimulá-las a desenvolverem tarefas que exijam atenção. 5. Converse com elas sobre o que quer que lhes interesse no momento e brinque em seu nível em vez de tentar redirecionar sua atenção a outra coisa. 6. Fale com elas. Elas não irão assimilar a língua ouvindo o rádio ou a televisão ou outras conversas. Elas precisam de interação com adultos. 7. Crie um ambiente e fomente a aprendizagem, incluindo livros, objetos interessantes e um lugar para brincar. 8. Dê-lhes liberdade física para explorar. Não as confine regularmente num cercado, berço, cadeira ou peça pequena. 9. Use o castigo de maneira controlada; ao invés disso, descubra oportunidades para um retorno positivo. FONTE: PAPALIA & OLDS, 2006. Questão para Debate em Grupo. 1) Descreva algumas características do desenvolvimento físico e motor para a criança de até dois anos de idade. 2) Reflita com seus colegas sobre o marco no desenvolvimento da linguagem do nascimento aos dois anos de idade. 3) Que conselho você daria aos pais que desejam saber como criar o seu bebê, a partir do desenvolvimento social e da personalidade? 4) Quem deveria ser responsável pelo bem-estar das crianças quando os pais não podem proporcionar alimentação, abrigo e assistência médica adequados: o governo, as instituições religiosas e comunitárias, ou o setor privado, ou uma combinação de todos esses? FIM DO MÓDULO III