Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

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Apocalípticos e Integrados 
 
Umberto Eco 
 
# Coleção Debates 
Dirigida por J. Guinsburg 
 
Conselho Editorial: Anatol Rosenfeld, Anita Novinsky, Aracy Amaral, Boris Schnaiderman, 
Celso Lafer , Gita K. Ghinzberg, Haroldo de Campos, Rosa Krausz, Sábato Magaldi e 
Zulmira Ribeiro Tavares. 
 
Equipe de realização: Pérola de Carvalho, tradução; 
Geraldo Gerson de Souza, revisão; Moysés Baumstein, 
capa e trabalhos técnicos. 
 
#Título do original: 
A pocalittici e Integrati 
 
# SUMARIO 
 
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 
ALTO, MÉDIO, BAIXO 
Cultura de Massa e "Niveis" de Cultura . . . . . . . 33 
A cultura de massa no banco dos réus. - Cahier 
de doléances. - pefesa da cultura de massa. - 
Uma problemática mal formulada. - Crítica dos 
três níveis. - Uma possível conclusão, mais algu- 
mas propostas de pesquisa. 
A Estrutura do Mau Gôsto . . . . . . . . . . . . . . 69 
Estilística do Kitsch. - Kitsch e cultura de massa. 
- O Midcult. - Estrutura da mensagem poética. 
- Recuperação da mensagem poética. - O 
"Kitsch" como boldinismo. - O leopardo da Ma- 
lásia. - Conclusão. 
Leitura de "Steve Canyon" . . . . . . . . . . . . . . . . 129 
Análise da mensagem. - A linguagem da estória 
em quadrinhos. - Questões derivadas. - Hume 
e o selvagem: introdução à pesquisa empírica. - 
A tarefa da crítica e da historiografia. 
#Retórica e Ideologia em Os Mistérios de Paris de 
Eugène Sue ..... .... ..... , ... .... 181 
Eugène Sue: uma �posíção ideológica. �- A� estru- 
tura da consolação. - Conclusão. 
AS PERSONAGENS 
O Uso Prático da Personagem . . . . . . . . . . . . 209 



O problema estético do "tipo". - Razões das poé- 
ticas da tipicidade. - Especificações estéticas sôbre 
o típico. - Fisionomia da personagem típica. - 
Tipo, símbolo, tópico. - O uso científico da tipi- 
cidade. - Tipo e "topos". - Recurso ao típico e 
sensibilidade decadente. - Conclusões. 
O Mito do Superman ...... .............. 239 
I 
Símbolos e culturas de massa. - O mito do Super- 
man. - A estrutura do mito e a civilização do 
romance. - O enrêdo e o consumo da persona- 
gem. - Consumo e temporalidade. - Um enrêdo 
sem consumo. - O Superman como modêlo de 
heterodireção. 
II 
Defesa do esquema iterativo. - O esquema itera- 
tivo como mensagem redundante. - Consciência 
civil e consciência política. - Conclusões. 
O Mundo de Minduim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 281 
OS SONS E AS IMAGENS 
A Canção de Consumo ......... .... ..... 295 
A canção "diferente". - Uma proposta de pesqui- 
sa. - Um mito generacional. 
A Música, o Rádio e a Televisão . . . . . . . . . . . 315 
Os meios audiovisuais como instrumento de infor- 
mação musical. - Os meios audiovisuais como 
fato estético. 
A pontamentos sôbre a Televisão . . . . . . . . . . . . 325 
Tomada direta e :influência sôbre o filme. - Co- 
municação e expressão. - A relação com o público. 
- A TV como "serviço". - As pesquisas expe- 
rimentais. - Vigilância e participação. - Passivi- 
dade e relação crítica. - A média dos gastos e a 
modelação das exigências: - O universo da iconos- 
fera. - A elite sem poder. - A recusa do inte- 
lectual. - Um cauteloso dirigismo cultural. - 
Conclusões. 
Para uma InvestigaÇão Semiológica sôbre a ,Men- 
sagem Televisional ................ .. .. 365 
I. Introdução. - II. Fases da pesquisa. - III. De- 
finições preliminares. - IV. O sistema de códigos 
e subcódigos que intervêm para definir uma men- 
sagem televisional. - V. A mensagem. - VI. Con- 
clusões. 
# PREFÁCIO 
 



É profundamente injusto subsumir atitudes huma- 
nas - com tôda a sua variedade, com todas os seus 
matizes - sob dois conceitos genéricos e polêmicos 
como "apocalíptico" e "integrado". Certas coisas se fa- 
zem porque a escolha de título para um livro tem suas 
exigências (trata-se, como veremos, de indústria cultu- 
ral, têrmo, aliás, que procuraremos inserir numa acepção 
a mais descongestionada passível); e também porque, 
se quisermos impos.tar um discurso introdutório aos 
ensaios que se seguem, teremos que, fatalmente, iden- 
tificar algumas linhas metodológicas gerais: e para de- 
finir n que não se quer fazer, é mais cômodo tipicizar 
 
7 
#ao extremo uma série de apções culturais, que natu- 
ralmente seriam anaiisadas de modo concreto e cam 
maior serenidade. Essa, porém, é tarefa que cabe aos 
vários ensaios, e não a uma introdução. Par autro lado, 
são êstes mesmos, que definimos camo apocalípticos 
ou integrados, os que censuramos pelo fato de have- 
rem difundido caneeitos igualmente genéricas - "con- 
ceitos-fetiche" - e de havê-los usado como alvo de 
chacota em polêmicas improdutivas ou em operações 
mercantis de que nós mesmos cotidianamente nos nu- 
trimos. 
Tanto isso é verdade que para definixmas a na- 
tureza dêstes ensaios, paxa nas podermos fazer enten- 
der pelo leitor, até nós somos obrigadas a recorrer a 
um conceito genérico e ambíguo como o de "cultura 
de massa". Tãa genérico, ambíguo e impróprio, que 
é justamente a êle que se deve o desenvolvimento dos 
dois tipos de atitude aos quais (com não generosa mas 
indispensável vis polemica) estamos levantando algumas 
contestações. 
Se a cultura é um fata aristacrático, o cioso culti- 
vo, assíduo e solitária, tle uma interioridade que se 
apura e se opõe à vulgaridade da multidão (Heraclito: 
"Par que quereis levar-me a tôda parte, ó iletrados? não 
escrevi para vós, mas para quem me pode compreen- 
der. Um, para mim, vale cem mil, e a multidão nada"), 
então só o pensar numa cultuxa partilhada po�r todas, 
produzida de maneira que a todos se adapte, e ela- 
borada na medida de todos, já será um monstruoso 
contra-senso. A cultura de massa é a anticultura. Mas, 
como nasce no momento em que a presença das massas, 
na vida associada, se torna a fenômeno mais evidente de 



um contexta histórico, a "cultura de massa" nãa in- 
dica uma aberração transitória e limitada: torna-se o 
sinal de uma queda irrecuperável, ante a qual o ho- 
mem de cultura (último supérstite da pré-história, des- 
tinada a extinguir-se) pode dar apenas um testemu- 
nho extrcmo, em têrmos de Apocalipse. 
Em contrapasição, a resposta otimista do integra- 
do: já que a televisão, o jornal, o rádia, a cinema e a 
estória em quadrinhas, o ramance popular e o Reader's 
Digest agora colocam os bens culturais à disposição de 
tados, tornando leve e agradável a absorção das noções 
 
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#e a recepção de informações, estamos vivendo numa 
época de alargamento da área cultural, onde finalmente 
se realiza, em amplo nível, com o concurso dos me- 
lhores, a circulação de uma arte e de uma cultura "po- 
pular". Para o integrado, não existe o problema de 
essa cultura sair de baixo ou vir confeccionada de cima 
para consumidares indefesos. Mesmo porque, se os 
apocalípticas sobrevivem confeccionando teorias sôbre 
a decadência, os integrados raramente teorizam, e, assim, 
mais fàcilmente, operam, produzem, emitem as suas 
mensagens cotidianamente em todos os níveis. O Apo� 
calipse é uma obsessão do dissenter, a integração é a 
realidade concreta dos que não dissentem. A imagem 
do Apocalipse ressalta das textos sôbre a cultura de 
massa; a imagem da integraçãa emerge da leitura dos 
textos da cultura de massa. Mas até que ponto não 
nos encontramos ante duas faces de um mesmo proble- 
ma, e não representarão êsses textos apocalípticos o 
mais sofisticado produto oferecido ao consumo de mas- 
sa? Então a fórmula "Apocalípticos e integrados" não 
sugeriria a oposição entre duas atitudes (e os dois têr- 
mos não teriam valor de substantivo), mas a predica- 
ção de adjetivas complementares, adaptáveis a êsses 
mesmas produtores de uma "crítica popular da cultura 
popular". 
 
No fundo, o apocalíptico consola o leitor porque 
lhe permite entrever, sob o derrocar da catástro�fe, a 
existência de uma comunidade de "super-homens", ca- 
pazes de se elevarem, nem que seja apenas através da 
recusa, acima da banalidade média. No limite, a co- 
munidade reduzidíssima - e eleita - de quem escreve 
" 



e de quem lê, nós