Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

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a uma recepção de tipo esquemático e superficial. Nu- 
ma saciedade dominada pela cultura de massa, tôda 
manifestação está submetida a êsse consumo, e a me- 
lhor prova disso é que as próprias críticas à cultura 
de massa, veiculadas através de livros de grande tira- 
gem, jornais e revistas, tarnaram-se perfeitos produtos 
de uma cultura de massa, repetidas como s�logan, co- 
merciadas co�mo bens de consumo e ocasiões de entre- 
tenimento esnob�e (como múltiplos episódios conterrâ- 
neas de crítica à dissipação jornalística, feita através das 
calunas dos jarnais, tristemente no-la demonstram). 
(21) Cf. O artig0 CiLadO dC DANIEL BELL e IiAVID MANNING VVHlTE, 
"Mass Culture in America: Another Point of View", in: Mass Culture, 
op. cit., onde se aponta com intentos polêmicos para o tipo de diver- 
timentos deteriores praticados durante a era isabelina, na Inglaterra. 
(22) FxANz FANoN, em L'an V de la Révolution Algerienne, Paris 
Maspero, 1%0, assinala a importãncia que o rádio e outras técnicas de 
comunicação de massa tiveram na tomada de consciência da nação arge- 
lina. V. também o ensaio de CLAUDE BREMOND, "Les communications 
de masse dans les pays en voie de développement", in: Communicatlons, 
op. cit. Naturalmente, é também preciso levar em conta os elementos 
de choque negativo que podem comportar as emissões aceleradas de 
aspectos de cultura pós-alfabética em zonas paradas numa civifização 
pré-alfabética. Mas a êsse propósito, estudiosos como Cohen-Séat sus- 
tentam que, nas zonas subdesenvolvidas, só e exclusivamente os meios 
de comunicação audiovisual permitiriam superar a situação de analfa- 
betismo no espaço de poucos anos. 
 



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# h) Os mass medìa oferecem um acervo de ìn- 
formações e dados acêrca do universo sem sugerir cri- 
térios de discriminação; mas, indiscutìvelmente, sen- 
sibilizam o homem contemporâneo nos confrontos do 
mundo; e na realidade, as massas submetidas a êsse 
tipo de info�rmação parecem-nos bem mais sensíveis e 
participantes, no bem e no mal, da vida associada, do 
que as massas da antiguidade, gropensas a reverências 
tradicionais nos confrontos de sistemas de valores estáveis 
e indiscutíveis. Se esta é a épaca das grandes loucuras 
totalitárias, também nâo é a época das grandes muta- 
çôes sociais e dos renascimentos nacionais dos povos 
subdesenvolvidos? Sinal, portanto, de que os grandes 
canais de comunicação� difundem informações indiscri- 
minadas, mas provocam subversões culturais de algum 
relêvo23. 
i) Por fim, não é verdade que os meios de massa 
sejam estilística e culturalmente conservadores. Pelo 
fato mesmo de constituírem um canjunto de novas lin- 
guagens, têm introduzido novos modos de falar, novos 
estilemas, novos esquemas perceptivos (basta pensar na 
mecânica de percepção da imagem, nas novas gramá- 
ticas do cinema, da transmissão direta, na estória em 
quadrinhos, no estilo jornalístico. . . ) :- boa ou má, 
trata-se de uma renovação estilística, que tem, amiúde, 
constantes repercussões na plano das artes chamadas 
superiores, promavendo-lhes o desenvolvimentoL4. 
 
Uma �roblemática mal formulada 
 
A defesa dos rnass media teria numerosos títulos 
de validade, não pecasse ela, quase sempre, num certo 
"livre-cambismo" cultural. Isto é, já se dá de barato 
a idéia de que a circulação livre e intensiva dos vários 
produtos culturais de massa, visto que sãa indubitáveis 
o�s seus aspectos. positivos, seja, em si, naturalmente 
(23) As recentes experiéncias de "Tribuna eleitoral" que mudou 
a nosso ver para inelhor. a rotina eleitoral na Itátia, parecem sustentar 
essa tese. Veja-se, também, a discussão de Armanda Guiducci e Ester 
Fano sôbre o efeito da TV nas áreas subdesenvolvidas in Pa.rsato e 
Presente, abril de 1959. Bem como, ainda, o livro de Mannucci. 
(24) Cf. em geral as pesquisas de Gi�Lo DonF�es Le oscilazionl 
del gusto, Milão, Lerici. 1958, e I! divenire delle arti, Turim, Einaudi, 
1959. 
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#"boa". Quando muito, avançam-se propostas para um 
ccmtrôle pedagógica-política das manifestações mais 
deteriores (censura sôbre estórias em quadrinhos sá- 
dico-pornográficas) ou dos canais de transmissão (can- 
trôle das rêdes de televisão) . Raramente se leva em 
conta a fato de que, da mamento em que a cultura de 
massa é, o mais das vêzes, produzida por grupas de 
poder econômica com fins lucrativas, ficará submetida 
a tôdas as leis econômicas que regulam a fabricação, a 
saída e o eonsumo do�s outros pradutos industriais: "O 
praduto deve agradar aa freguês", não levantar-lhe pro- 
blemas, a freguês. deve desejar o praduta e ser induzido 
a um recâmbio progressiva do produto. Daí as carac- 
terísticas aculturais dêsses mesmos produtos, e a ine- 
vit�l.vel "relaeão de persuasor para persuadida", que é, 
indiscutìvelmente, uma relação paternalista, estabelecida 
entre produtar e consumidor. 
Note-se que, até num regime ecanômico diverso, 
a relação paternalista pade, muito bem, purmanecer 
inalterada; no caso, por exempla, em que a difusão da 
cultura de massa permaneça nas mãos, se não dos gru- 
pos de poder econômico, dos grupas de poder políticn 
que empreguem os mesmas meios para fins de persua- 
são e domínio. Mas tudo isso serve apenas para pro- 
var-no5 que a cultura de massa é um fata industrial e, 
coma tal, sofre muitos dos condicionamento�s típicos de 
qualquer atividade industrial. 
O êrro das apologistas é afirmar que a multipli- 
cação dos produtos da indústria seja baa em si, segundo 
uma ideal hameastase do livre mercado, e não deva 
submeter-se a uma crítica e a novas orientaçõesz�. 
O êrra dos apocalípticos-aristocráticos é pensar 
que a cultura de massa seja radicalmente má, justa- 
mente poryue é um fata industrial, e que hoje se passa 
dar cultura subtraída ao condicionamento industrial. 
A falha está em formular os problemas nestes têr- 
��ios: "é bom ou mau que exista a cultura de massa?" 
(mesmo porque a pergunta subentende a desconfiança 
reacianária na ascensão das massas, e pretende pôr em 
dúvida a validade da progressa tecno�lógico, do sufrágio 
(25) "Mrs. Shils esperançosamente sustenta que a cultura `superior' 
tornou-se agora fru(vel por maior número de pessoas do que há tempos 
atrás. Isso é verdade, mas ésse é o problema, não a solução." (E. van 
den Haag, art. cit.) 
 
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#universal, da educação estendida às classes subalternas 
etc.). 
Quando, na verdade, o problema é: "do momento 
em que a presente situação de uma sociedade industrial 
torna ineliminável aquêle tipo de relação comunicativa 
conhecido como canjunto dos meios de massa, qual a 
ação cultural passível a fim de permitir que êsses meios 
de massa possam veicular valores culturais?" 
Não é utópica pensar que uma intervenção cultu- 
ral passa mudar a fisionomia de um fenômeno dêsse 
gênero. Pensemos no que hoje se entende par "indús- 
tria editorial". A fabricação de livros tornou-se um 
fato industrial, submetido a tôdas as regras da produ- 
ção e do consumo; daí uma série de fenômenas nega- 
tivas, como a produção de encomenda, o consumo 
provocada artificialmente, o mercado sustentado com 
a criação publicitária de valores fictícios. Mas a in- 
dústria editorial distingue-se da dos dentifrícios pelo 
seguinte: nela se acham inseridos homens de cultura, 
para os quais a fim primário (nos melhores casos) não 
é a pradução de um livro� para vender, mas sim a pro- 
dução de valores, para cuja difusão o livro surge como 
o instrumento mais cômado. Issa significa que, segun- 
do uma distribuição percentual que não saberei preci- 
sar, ao lada de "produtores de objetos de cansumo 
cultural", agem "produtores de cultura" que aceitam o 
sistema da indústria da livra para fins que dêle exor- 
bitam. Por mais pessimista que se queira ser, a apa- 
recimento de ediçôes críticas ou de coleções populares 
testemunha uma vitória da comunidade cultural sôbre 
o instrumento industrial com o qual ela felizmente se 
camprameteu. A menos que se pense que a própria 
multiplicação das coletâneas universais baratas seja um 
fato