Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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a uma recepção de tipo esquemático e superficial. Nu-
ma saciedade dominada pela cultura de massa, tôda
manifestação está submetida a êsse consumo, e a me-
lhor prova disso é que as próprias críticas à cultura
de massa, veiculadas através de livros de grande tira-
gem, jornais e revistas, tarnaram-se perfeitos produtos
de uma cultura de massa, repetidas como s�logan, co-
merciadas co�mo bens de consumo e ocasiões de entre-
tenimento esnob�e (como múltiplos episódios conterrâ-
neas de crítica à dissipação jornalística, feita através das
calunas dos jarnais, tristemente no-la demonstram).
(21) Cf. O artig0 CiLadO dC DANIEL BELL e IiAVID MANNING VVHlTE,
"Mass Culture in America: Another Point of View", in: Mass Culture,
op. cit., onde se aponta com intentos polêmicos para o tipo de diver-
timentos deteriores praticados durante a era isabelina, na Inglaterra.
(22) FxANz FANoN, em L'an V de la Révolution Algerienne, Paris
Maspero, 1%0, assinala a importãncia que o rádio e outras técnicas de
comunicação de massa tiveram na tomada de consciência da nação arge-
lina. V. também o ensaio de CLAUDE BREMOND, "Les communications
de masse dans les pays en voie de développement", in: Communicatlons,
op. cit. Naturalmente, é também preciso levar em conta os elementos
de choque negativo que podem comportar as emissões aceleradas de
aspectos de cultura pós-alfabética em zonas paradas numa civifização
pré-alfabética. Mas a êsse propósito, estudiosos como Cohen-Séat sus-
tentam que, nas zonas subdesenvolvidas, só e exclusivamente os meios
de comunicação audiovisual permitiriam superar a situação de analfa-
betismo no espaço de poucos anos.

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# h) Os mass medìa oferecem um acervo de ìn-
formações e dados acêrca do universo sem sugerir cri-
térios de discriminação; mas, indiscutìvelmente, sen-
sibilizam o homem contemporâneo nos confrontos do
mundo; e na realidade, as massas submetidas a êsse
tipo de info�rmação parecem-nos bem mais sensíveis e
participantes, no bem e no mal, da vida associada, do
que as massas da antiguidade, gropensas a reverências
tradicionais nos confrontos de sistemas de valores estáveis
e indiscutíveis. Se esta é a épaca das grandes loucuras
totalitárias, também nâo é a época das grandes muta-
çôes sociais e dos renascimentos nacionais dos povos
subdesenvolvidos? Sinal, portanto, de que os grandes
canais de comunicação� difundem informações indiscri-
minadas, mas provocam subversões culturais de algum
relêvo23.
i) Por fim, não é verdade que os meios de massa
sejam estilística e culturalmente conservadores. Pelo
fato mesmo de constituírem um canjunto de novas lin-
guagens, têm introduzido novos modos de falar, novos
estilemas, novos esquemas perceptivos (basta pensar na
mecânica de percepção da imagem, nas novas gramá-
ticas do cinema, da transmissão direta, na estória em
quadrinhos, no estilo jornalístico. . . ) :- boa ou má,
trata-se de uma renovação estilística, que tem, amiúde,
constantes repercussões na plano das artes chamadas
superiores, promavendo-lhes o desenvolvimentoL4.
Uma �roblemática mal formulada
A defesa dos rnass media teria numerosos títulos
de validade, não pecasse ela, quase sempre, num certo
"livre-cambismo" cultural. Isto é, já se dá de barato
a idéia de que a circulação livre e intensiva dos vários
produtos culturais de massa, visto que sãa indubitáveis
o�s seus aspectos. positivos, seja, em si, naturalmente
(23) As recentes experiéncias de "Tribuna eleitoral" que mudou
a nosso ver para inelhor. a rotina eleitoral na Itátia, parecem sustentar
essa tese. Veja-se, também, a discussão de Armanda Guiducci e Ester
Fano sôbre o efeito da TV nas áreas subdesenvolvidas in Pa.rsato e
Presente, abril de 1959. Bem como, ainda, o livro de Mannucci.
(24) Cf. em geral as pesquisas de Gi�Lo DonF�es Le oscilazionl
del gusto, Milão, Lerici. 1958, e I! divenire delle arti, Turim, Einaudi,
1959.
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#"boa". Quando muito, avançam-se propostas para um
ccmtrôle pedagógica-política das manifestações mais
deteriores (censura sôbre estórias em quadrinhos sá-
dico-pornográficas) ou dos canais de transmissão (can-
trôle das rêdes de televisão) . Raramente se leva em
conta a fato de que, da mamento em que a cultura de
massa é, o mais das vêzes, produzida por grupas de
poder econômica com fins lucrativas, ficará submetida
a tôdas as leis econômicas que regulam a fabricação, a
saída e o eonsumo do�s outros pradutos industriais: "O
praduto deve agradar aa freguês", não levantar-lhe pro-
blemas, a freguês. deve desejar o praduta e ser induzido
a um recâmbio progressiva do produto. Daí as carac-
terísticas aculturais dêsses mesmos produtos, e a ine-
vit�l.vel "relaeão de persuasor para persuadida", que é,
indiscutìvelmente, uma relação paternalista, estabelecida
entre produtar e consumidor.
Note-se que, até num regime ecanômico diverso,
a relação paternalista pade, muito bem, purmanecer
inalterada; no caso, por exempla, em que a difusão da
cultura de massa permaneça nas mãos, se não dos gru-
pos de poder econômico, dos grupas de poder políticn
que empreguem os mesmas meios para fins de persua-
são e domínio. Mas tudo isso serve apenas para pro-
var-no5 que a cultura de massa é um fata industrial e,
coma tal, sofre muitos dos condicionamento�s típicos de
qualquer atividade industrial.
O êrro das apologistas é afirmar que a multipli-
cação dos produtos da indústria seja baa em si, segundo
uma ideal hameastase do livre mercado, e não deva
submeter-se a uma crítica e a novas orientaçõesz�.
O êrra dos apocalípticos-aristocráticos é pensar
que a cultura de massa seja radicalmente má, justa-
mente poryue é um fata industrial, e que hoje se passa
dar cultura subtraída ao condicionamento industrial.
A falha está em formular os problemas nestes têr-
��ios: "é bom ou mau que exista a cultura de massa?"
(mesmo porque a pergunta subentende a desconfiança
reacianária na ascensão das massas, e pretende pôr em
dúvida a validade da progressa tecno�lógico, do sufrágio
(25) "Mrs. Shils esperançosamente sustenta que a cultura `superior'
tornou-se agora fru(vel por maior número de pessoas do que há tempos
atrás. Isso é verdade, mas ésse é o problema, não a solução." (E. van
den Haag, art. cit.)
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#universal, da educação estendida às classes subalternas
etc.).
Quando, na verdade, o problema é: "do momento
em que a presente situação de uma sociedade industrial
torna ineliminável aquêle tipo de relação comunicativa
conhecido como canjunto dos meios de massa, qual a
ação cultural passível a fim de permitir que êsses meios
de massa possam veicular valores culturais?"
Não é utópica pensar que uma intervenção cultu-
ral passa mudar a fisionomia de um fenômeno dêsse
gênero. Pensemos no que hoje se entende par "indús-
tria editorial". A fabricação de livros tornou-se um
fato industrial, submetido a tôdas as regras da produ-
ção e do consumo; daí uma série de fenômenas nega-
tivas, como a produção de encomenda, o consumo
provocada artificialmente, o mercado sustentado com
a criação publicitária de valores fictícios. Mas a in-
dústria editorial distingue-se da dos dentifrícios pelo
seguinte: nela se acham inseridos homens de cultura,
para os quais a fim primário (nos melhores casos) não
é a pradução de um livro� para vender, mas sim a pro-
dução de valores, para cuja difusão o livro surge como
o instrumento mais cômado. Issa significa que, segun-
do uma distribuição percentual que não saberei preci-
sar, ao lada de "produtores de objetos de cansumo
cultural", agem "produtores de cultura" que aceitam o
sistema da indústria da livra para fins que dêle exor-
bitam. Por mais pessimista que se queira ser, a apa-
recimento de ediçôes críticas ou de coleções populares
testemunha uma vitória da comunidade cultural sôbre
o instrumento industrial com o qual ela felizmente se
camprameteu. A menos que se pense que a própria
multiplicação das coletâneas universais baratas seja um
fato