Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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negativo de desperdício intelectual (com o que se
volta à posição aristocrático�reacionária já por nós dis-
cutida) .
O problema da cultura de massa é exatamente o
seguinte: ela é hoje manobrada par "grup�s econômi-
cas" que miram fins lucrativos, e realizada por "exe-
cutores especializados" em fornecer ao cliente o que
julgam mais vendável, sem que se verifique uma inter-
venção maciça dos homens de cultura na produção. A
atitude dos homens de cultura é exatamente a do pro-
SO
#testo e da reserva. E não venham dizer que a inter-

venção de um homem de cultura na produção da cul-
tnra de massa se resolveria num gesto tão nobre quanto
infeliz, logo sufocado pelas leis inexoráveis do mercado.
Dizer: "o sistema em que nos movemos representa um
exemplo de O�rdem de tal forma perfeito e persuasivo,
que todo ato isolado, praticado no _sentido de modifi-
car fenômenos isolados, redunda em puro testcmunho"
(e sugerir: "portanto, melhor o silêncio, a rebeliâo
passiva") - é posição aceitável no plano místico, mas
singular quando sustentada, como ocorre de hábito,
com base em categorias pseudomarxistas. De fato, em
tal caso, uma dada situação histórica enrijece-se num
modêlo, onde as contradições originais se compuseram
numa espécie de maciço sistema relacional puramente
sincrônico. Nesse ponta, tôda a atenção se desloca para
o modêlo como toda inscindível, e a única solução é
vislumbrada como total negação do modêlo. Estamos
no campo das abstrações e das mal-entendidas pre-
sunções de totalidade: nesse ponto, ignora-se que, no
interior do modêlo, continuam a agitar-se as cantradi-
ções concretas, que ali se estabelece uma dialética de
fenômenos tal que cada fato que modifique um aspecto
do canjunto, embora aparentemente perca relêvo ante
a capacidade de recuperação do sistema-modêlo, na ver-
dade nos restitui não mais o sistema A inicial, mas um
sistema A1.
Negar gue uma soma de pequenos fatos, devidos
à iniciativa humana, possam modificar a natureza de
um sistema, significa negar a própria possibilidade das
alternativas revolucionárias, que se manifestam apenas
num dado momento, em seguida à pressão de fatas
infinitesimais, cuja agregação (embora puramente
quantitativa) explodiu numa modificação qualitativa.
Repousa, comumente, em equívocos do gênero, a
convicção de que propor intervenções modificadoras
parciais em campo cultural, equivalha ao "reformismo"
em politica, atitude considerada como oposta à atitude
revolucionária. Não se calcula, antes de tudo, que, se
reformismo significa acreditar na eficácia das modifi-
cações parciais, excluindo as alternativas radicais e
violentas, nenhuma atitude revolucionária jamais excluiu
aquelas séries de intervenções parciais que visem a
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#criar as condições para alternativas radicais, e que se-
jam conduzidas aa longo da linha diretiva de uma hi-

pótese mais ampla.
Em segundo lugar, a categoria do reformismo
parece-nos absoluta.mente inaplicável ao mundo� dos
valores culturais (e portanta, um discurso válido para
os fenômenos de "base" seria inaplicável a certas l.eis
específicas de algumas manifestações superestruturais ) .
No nível da base sócio-econômica, uma modificação
parcial pode atenuar certas cantradições e evitar a ex-
plasãa delas por longuíssimo tempo; em tal sentido,
a o�peração refarmista pode assumir valor de contribui-
çâo para a conservação do status quo. Mas no nível
de circulação das. idéias, pelo contrário, jamais ocorre
que uma idéia, embora posta em circulação isolada-
mente, se torne a ponto de referência estático de de-
sejas ora apaziguados; ao contrário, ela solicita uma
ampliação do discursa. Em têrmos bastante claros, se
numa situação de tensãa social, eu aumentar os salá-
rios dos operários de uma fábrica, pode acontecer que
essa salução refarmista dissuada as operários da ocupa-
ção da estabelecimento. Mas, se a uma comunidade
agrícala de analfabetos ensino a ler para que estejam
aptos a ler só "meus" pronunciamentos políticos, nada
poderá impedir que amanhã êsses hamens leiam tam-
bém os pronunciamentos "alheios".
Ao nível das valores culturais não se verifica cris-
talização reformista; mas tão-sòmente a existência de
processos de conhecimento progressivo, os quais, uma
vez abertos, nâo são mais controláveis por quem os
desencadeou.
Daí a necessidade de uma intervenção ativa das
comunidades culturais, no campo das comunicações de
niassa. O silêncio nãa é pratesto, é cumplicidade; o
miesmo ocorrendo com a recusa ao campromisso.
Naturalmente, para que a intervenção seja eficaz,
é preciso que venha precedida de um conhecimento do
material sôbre o qual se trabalha. No mais das vêzes,
até hoje, a palêmica aristocrática sôbre os meios de
massa fugiu ao estudo das suas modalidades específicas
(au arientou para tal estudo ùnicamente aquêles que
davam de barato a pacífica bondade de tais meios, e
por isso lhes examinavam as modalidades a fim de
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#usá-los das maneiras mais desconsideradas ou mais in-
teressadas). Tal menosprêzo teve, igualmente, a seu
favor outra convicção: a de que as modalidades das

comunicações de massa constituíssem, sem sombra de
dúvida, aquela série de características que tais comu-
nicações assumem num determinado sistema sócio�
-econômico, o de uma sociedade industrial fundada
na livre concorrência. Ora, já se tentou sugerir como,
provàvelmente, muitos dos fenômenos conexos à co-
municaçâo de massa também poderão sobreviver em
outros contextos sócio-econômicos, visto serem frutos
da específica natureza da relação comunicativa, que se
efetua quando, devendo alguém comunicar-se com vas-
tas massas de público, tem que recorrer a procedimen-
tos industriais, com todos os condicionamentos devidos
à mecanização, à reprodutibilidade em série, ao nivela-
mento do produto segundo uma média, e assim por
diante. Antecipar como tais fenômenos se possam
configurar em outros contextos concerne à planificação
política. No plano científico, ocorre, por ora, uma só
alternativa fecunda, que é a de examinar, nesse ínterim,
como o fenômeno se configura agora, dentro do âmbito
em que é possível exercer uma investigação concreta,
baseada em dados experimentais.
Nesse ponto, pode-se transferir o discurso do pla-
no dos problemas gerais para o das decisões particula-
res. Em tal caso, êle se restringe a um simples apêlo:
o apêlo a uma intervenção que se realize sob a dúplice
forma da colaboração e da análise crítica construtiva.
Os meios de massa, para muitos, jamais foram alvo
de uma análise científica, que não fôsse execratória,
ou de um comentário crítico assíduo e orientativo.
Quando tal ocorreu, observaram-se mudanças. O exem-
plo da televisão é sintamático.
Ninguém pode negar que, através de uma crítica
cultural cerrada (não· separada, o que é importante,
de uma ação em nível político), se tenha obtido a me-
lhara de um certo setor dos programas, e uma abertura
do discurso. Nesse sentido, a crítica cultural cria o
mercado e oferece aos produtores orientações capazes
de assumir relêvo coativo. A comunidade dos homens
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# de cultura, felizmente, ainda constitui um "grupo de
pressão".
A interven�Ção crítica pode, antes de mais nada,
levar à correção da convicção implícita de que cultura
de massa seja a produção de cibo cultural para as mas-
sas (entendidas como categaria de subcidadãos), reali-

p p p
zadas por uma elite de rodutores. Pode re ro or o
tema de uma cultura de massa como cultura exercida
no nível de todos os cidadãos". Embora isso não sig-
nifique que cultura de massa seja cultura produzida
pelas massas; não há forma de criação coletiva", que
não seja medida por personalidades mais dotadas que
se fazem intérpretes de uma sensibilidade da comuni-
dade onde vivem. Logo, não se exclui a presença de
um grupo culto de produtores e de uma massa de frui-
dores; salvo que a relação, de paternalista, passa a
dialética: uns interpretam as exigências e as