Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.822 seguidores

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negativo de desperdício intelectual (com o que se 
volta à posição aristocrático�reacionária já por nós dis- 
cutida) . 
O problema da cultura de massa é exatamente o 
seguinte: ela é hoje manobrada par "grup�s econômi- 
cas" que miram fins lucrativos, e realizada por "exe- 
cutores especializados" em fornecer ao cliente o que 
julgam mais vendável, sem que se verifique uma inter- 
venção maciça dos homens de cultura na produção. A 
atitude dos homens de cultura é exatamente a do pro- 
 
SO 
#testo e da reserva. E não venham dizer que a inter- 



venção de um homem de cultura na produção da cul- 
tnra de massa se resolveria num gesto tão nobre quanto 
infeliz, logo sufocado pelas leis inexoráveis do mercado. 
Dizer: "o sistema em que nos movemos representa um 
exemplo de O�rdem de tal forma perfeito e persuasivo, 
que todo ato isolado, praticado no _sentido de modifi- 
car fenômenos isolados, redunda em puro testcmunho" 
(e sugerir: "portanto, melhor o silêncio, a rebeliâo 
passiva") - é posição aceitável no plano místico, mas 
singular quando sustentada, como ocorre de hábito, 
com base em categorias pseudomarxistas. De fato, em 
tal caso, uma dada situação histórica enrijece-se num 
modêlo, onde as contradições originais se compuseram 
numa espécie de maciço sistema relacional puramente 
sincrônico. Nesse ponta, tôda a atenção se desloca para 
o modêlo como toda inscindível, e a única solução é 
vislumbrada como total negação do modêlo. Estamos 
no campo das abstrações e das mal-entendidas pre- 
sunções de totalidade: nesse ponto, ignora-se que, no 
interior do modêlo, continuam a agitar-se as cantradi- 
ções concretas, que ali se estabelece uma dialética de 
fenômenos tal que cada fato que modifique um aspecto 
do canjunto, embora aparentemente perca relêvo ante 
a capacidade de recuperação do sistema-modêlo, na ver- 
dade nos restitui não mais o sistema A inicial, mas um 
sistema A1. 
Negar gue uma soma de pequenos fatos, devidos 
à iniciativa humana, possam modificar a natureza de 
um sistema, significa negar a própria possibilidade das 
alternativas revolucionárias, que se manifestam apenas 
num dado momento, em seguida à pressão de fatas 
infinitesimais, cuja agregação (embora puramente 
quantitativa) explodiu numa modificação qualitativa. 
Repousa, comumente, em equívocos do gênero, a 
convicção de que propor intervenções modificadoras 
parciais em campo cultural, equivalha ao "reformismo" 
em politica, atitude considerada como oposta à atitude 
revolucionária. Não se calcula, antes de tudo, que, se 
reformismo significa acreditar na eficácia das modifi- 
cações parciais, excluindo as alternativas radicais e 
violentas, nenhuma atitude revolucionária jamais excluiu 
aquelas séries de intervenções parciais que visem a 
 
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#criar as condições para alternativas radicais, e que se- 
jam conduzidas aa longo da linha diretiva de uma hi- 



pótese mais ampla. 
Em segundo lugar, a categoria do reformismo 
parece-nos absoluta.mente inaplicável ao mundo� dos 
valores culturais (e portanta, um discurso válido para 
os fenômenos de "base" seria inaplicável a certas l.eis 
específicas de algumas manifestações superestruturais ) . 
No nível da base sócio-econômica, uma modificação 
parcial pode atenuar certas cantradições e evitar a ex- 
plasãa delas por longuíssimo tempo; em tal sentido, 
a o�peração refarmista pode assumir valor de contribui- 
çâo para a conservação do status quo. Mas no nível 
de circulação das. idéias, pelo contrário, jamais ocorre 
que uma idéia, embora posta em circulação isolada- 
mente, se torne a ponto de referência estático de de- 
sejas ora apaziguados; ao contrário, ela solicita uma 
ampliação do discursa. Em têrmos bastante claros, se 
numa situação de tensãa social, eu aumentar os salá- 
rios dos operários de uma fábrica, pode acontecer que 
essa salução refarmista dissuada as operários da ocupa- 
ção da estabelecimento. Mas, se a uma comunidade 
agrícala de analfabetos ensino a ler para que estejam 
aptos a ler só "meus" pronunciamentos políticos, nada 
poderá impedir que amanhã êsses hamens leiam tam- 
bém os pronunciamentos "alheios". 
Ao nível das valores culturais não se verifica cris- 
talização reformista; mas tão-sòmente a existência de 
processos de conhecimento progressivo, os quais, uma 
vez abertos, nâo são mais controláveis por quem os 
desencadeou. 
Daí a necessidade de uma intervenção ativa das 
comunidades culturais, no campo das comunicações de 
niassa. O silêncio nãa é pratesto, é cumplicidade; o 
miesmo ocorrendo com a recusa ao campromisso. 
Naturalmente, para que a intervenção seja eficaz, 
é preciso que venha precedida de um conhecimento do 
material sôbre o qual se trabalha. No mais das vêzes, 
até hoje, a palêmica aristocrática sôbre os meios de 
massa fugiu ao estudo das suas modalidades específicas 
(au arientou para tal estudo ùnicamente aquêles que 
davam de barato a pacífica bondade de tais meios, e 
por isso lhes examinavam as modalidades a fim de 
 
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#usá-los das maneiras mais desconsideradas ou mais in- 
teressadas). Tal menosprêzo teve, igualmente, a seu 
favor outra convicção: a de que as modalidades das 



comunicações de massa constituíssem, sem sombra de 
dúvida, aquela série de características que tais comu- 
nicações assumem num determinado sistema sócio� 
-econômico, o de uma sociedade industrial fundada 
na livre concorrência. Ora, já se tentou sugerir como, 
provàvelmente, muitos dos fenômenos conexos à co- 
municaçâo de massa também poderão sobreviver em 
outros contextos sócio-econômicos, visto serem frutos 
da específica natureza da relação comunicativa, que se 
efetua quando, devendo alguém comunicar-se com vas- 
tas massas de público, tem que recorrer a procedimen- 
tos industriais, com todos os condicionamentos devidos 
à mecanização, à reprodutibilidade em série, ao nivela- 
mento do produto segundo uma média, e assim por 
diante. Antecipar como tais fenômenos se possam 
configurar em outros contextos concerne à planificação 
política. No plano científico, ocorre, por ora, uma só 
alternativa fecunda, que é a de examinar, nesse ínterim, 
como o fenômeno se configura agora, dentro do âmbito 
em que é possível exercer uma investigação concreta, 
baseada em dados experimentais. 
Nesse ponto, pode-se transferir o discurso do pla- 
no dos problemas gerais para o das decisões particula- 
res. Em tal caso, êle se restringe a um simples apêlo: 
o apêlo a uma intervenção que se realize sob a dúplice 
forma da colaboração e da análise crítica construtiva. 
Os meios de massa, para muitos, jamais foram alvo 
de uma análise científica, que não fôsse execratória, 
ou de um comentário crítico assíduo e orientativo. 
Quando tal ocorreu, observaram-se mudanças. O exem- 
plo da televisão é sintamático. 
Ninguém pode negar que, através de uma crítica 
cultural cerrada (não· separada, o que é importante, 
de uma ação em nível político), se tenha obtido a me- 
lhara de um certo setor dos programas, e uma abertura 
do discurso. Nesse sentido, a crítica cultural cria o 
mercado e oferece aos produtores orientações capazes 
de assumir relêvo coativo. A comunidade dos homens 
 
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# de cultura, felizmente, ainda constitui um "grupo de 
pressão". 
A interven�Ção crítica pode, antes de mais nada, 
levar à correção da convicção implícita de que cultura 
de massa seja a produção de cibo cultural para as mas- 
sas (entendidas como categaria de subcidadãos), reali- 



p p p 
zadas por uma elite de rodutores. Pode re ro or o 
tema de uma cultura de massa como cultura exercida 
no nível de todos os cidadãos". Embora isso não sig- 
nifique que cultura de massa seja cultura produzida 
pelas massas; não há forma de criação coletiva", que 
não seja medida por personalidades mais dotadas que 
se fazem intérpretes de uma sensibilidade da comuni- 
dade onde vivem. Logo, não se exclui a presença de 
um grupo culto de produtores e de uma massa de frui- 
dores; salvo que a relação, de paternalista, passa a 
dialética: uns interpretam as exigências e as