Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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todavia,
se instaura efetivamente através de uma série de r�
lações culturais de vários tiposso. A diferença de nível
entre os vários produtos não constitui a priori uma
diferença de valor, mas uma diferença da relação frui-
tiva, na qual cada um de nós alternadamente se coloca.
Em outros têrmos: entre o consumidor de poesia de
Pound e o consumidor de um romance policial, de di-

reito, não existe diferença de classe social ou de nível
intelectual. Cada um de nós pode ser um e outro, em
diversos momentos de um mesmo dia; num caso, bus-
cando uma excitação de tipo altamente especializada,
no outro, uma forma de entretenimento capaz de vei-
cular uma categoria de valores específica.
Digo "de direito". Porque se poderia objetar que,
de fato, eu possa fruir tanto de Pound quanto do ro-
mance policial, ao passo que um guarda-livros de ban-
co de categoria C, por uma série de motivos (muitos
dos quais nâo irremediáveis, mas, no estado atual dos
fa`.os, insuperáveis), pode fruir ùnicamente do roman-
ce policial, e encontra-se, destarte, culturalmente em
estado de sujeição.
O problema fôra, porém, levantado em linha de
direito, justamente por isso. Porque só em linha de
direito nos será possível entender a diferenciação dos
níveis como uma diferenciação puramente circunstan-
cial da procura (e não dos que procuram), podendo,
nos vários níveis, produzirem-se obras que conduzam,
no âmbito estilístico predeterminado, um discurso cul-
turalmente criativo. Isto é: só quando adquirirmos
consciência do fato de que o consumidor de estórias
uadrinhos é o cidadão no momento em que de-
em experiê a p -
q ncia estilístic ró
seja distra.ir-se através da ue ortanto as
pria das estórias em quadrinhos, e q p
estórias em quadrinhos são um produto cultural fruído
e julgado por um consumidor, que, naquela ocasião,
está especificando a própria demanda naquela direção,
(30) Eooxxo MoxIN (L'esprtt du temps Paris Grasset 1%2) oPor�c
insiste e a lusto tftulo s8bre a tendência atualmcntc constante p P
dos mass mcdta, de nivelarem-se� 4uebrando as arestns cxtrcmas e for-
mando em posiçóes mtddle brow.
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#rnas leva para aquela experiência de fruição a sua
experiência inteira de homem educado, também, na
fruição de outros níveis, só então a produção de estó-
rias em quadrinhos aparecerá como sendo determina-
da por um tipo de procura culturalmente avisada. O
curioso é que essa situação de direito, no tocante aos
consumidores intelectualmente mais aguerridos, já se
verifica de fato. O homem de cultura, que, em deter-
minadas haras, ouve Bach, em outros momentos sente-

-se propenso a ligar o rádio para ritmar a própria
atividade através de uma "música de uso" para ser
consumida em nível superficial. Salvo que, nessa ati-
vidade ( dominado por uma implícita desconfiança mo-
ralista para com o que julga um ato culpável), aceita
"acanalhar-se" e não forrnula exigências particulares ao
produto que usa; assim fazendo, aceita descer de nível,
diverte-se com bancar o "normal", igual à massa que,
de coraçâo, despreza, mas da qual sofre o fascínio, o
apêlo primordial. Ao passo que o problema não é exe-
crar o recurso a uma música de entretenimento, mas
sim pretender uma música que entretenha segundo
módulos de dignidade estilística, com perfeita aderên-
cia ao escopo (e portanto com artisticidade), e sem
que os apelos viscerais, indispensáveis ao mister, pre-
valeçam além de uma certa medida sôbre outros ele-
mentos de equilíbrio formal. Portanto, só aceitando
a visão dos vários níveis como complementares e todos
êles fruíveis pela mesma comunidade de fruidores, é
que se pode abrir caminho para uma melhoria cultural
dos mass media; e note-se que recorremos ao exemplo
mais extremo, o de uma música consumida como fun-
do rítmico. Pensemos, porém, nos programas de entre-
tenimento televisional, na narrativa de evasão, no filme
co�mercial.
Mas o problema é ainda mais grave, sempre em
linha de fato, quando considerado do ponto de vista
do consumidor comum (o guarda-livros de quem se
falava acima) : daí por que nasce o problema �le uma
ação político-sacial que permita não só ao hahitual
fruidor de Pound poder recorrer ao romance polìcial,
mas também ao habitual fruidor de romance policial
poder adir uma fruição cultural mais complexa. O
problema, já o dissemos, é, primeiramente, político (um
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#problema de escolaridade, antes de mais nada, e depois,
de tempo livre, mas entendido nãa camo "presente"
de horas a dedicar à cultura e ao ócio; e sim, como
uma nova relaçãa nos confrantos da momenta labo-
rativa, não mais sentido camo "alienado" porque efe-
tivamente recolocado sob nosso contrôle), mas tem
a solução facilitada pelo reconhecimento de uma pa-
ridade em dignidade dos várias níveis, e por uma
ação cultural que parta da assunção dêsse pressuposto.

Nesse meio tempo, aceita essa paridade, acentuar-se-
-á um jôgo de passagens recíprocas entre os vários
níveis.
Não passa pela cabeça de ninguém que tudo isso
deva acontecer de mada pacífico e institucionalizado.
A luta de uma "cultura de praposta" cantra uma
"cultura de entretenimento" sernpre se estabelecerá
através de uma tensão dialética feita de intolerâncias
e reações violentas. Nem se deve pensar que uma
visão mais equilibrada das relações entre os várias
níveis leve à eliminação dos desequilíbrios e daqueles
fenômenos negativos deplorados pelo5 críticos das mass
media. Uma cultura de entretenimento jamais poderá
escapar de submeter-se a certas leis da oferta e da
procura (salvo quando se torna, uma vez mais, cul-
tura paternalista de entretenimento "edificante" impôsa.y�
de cima). A utopia prefigurada tem valor de "norma
metodalógica" a que as homens de cultura poderiam
ùltimamente ater-se para moverem-se entre os vários
níveis. O resto pertence à realização concreta, com
todos os desvios e malogros do casa.
Sempre recordarei a episódio de um cronista de
TV, amigo meu, profissional seguro e digno, que, com
os olhas no monitor, fazia uma crônica sôbre fato
ecorrido numa cidadezinha da província piemontesa.
Enquanto o diretor lhe passava as últimas imagens,
o cronista concluía o seu comentário, na verdade bas-
tante sóbrio, com uma referência à noite que descia
sôbre a cidade. Naquele ponto, por uma inexplicável
bizarria do diretor, ou por um êrro de mensagem,
apareceu no monitor, completamente fara de propó-
sito, a imagem de crianças brincando numa ruela.
O cronista viu-se, então, na contingência de comentar
a imagem, e, recorrendo a um batido repertório bai-
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#xamente retórico, disse: "E eis os garotos, ocupados
com os seus jogos de hoje, seus jogos de sempre. . ."
A imagem tornara-se simbólica, universal, patética, e
representava um modêlo daquele midcult que Mac-
Donald execrava, feito de falsa universidade, de ale-
gorismo vazio. Por outro lado, o cronista não teria
podido calar-se, visto que, no âmbito de uma discutí-
vel "poética da crônica de TV", êle julgava dever asso-
ciar, por exigências de ritmo, um continuum falado
ao continuum das imagens. A natureza do meio, sua

acidentálidade, a exigênci� de respeitar a expectativa
dos telespectadores tinham-no feito cair no poncif. Mas
antes de reagir contra essa irremediável trivialidade
doa meios de massa, convém perguntar quantas vêzes,
na literatura de "alto nível", as exigências do metro
ou da rima, a obediência ao comitente, ou outras de-
terminações pertinentes às leis estéticas ou sociológi-
cas não terão levado a compromissos análogos. O
episódio, se nos diz que no nôvo panorama humano
determinado por uma cultura de massa as possibilidades
de regressão são infinitas, também nos indica como
se pode exercer uma crítica construtiva dos vários fe-
nômenos e uma individuação dos pontos fracos.
Não é nosso objetivo indicar como os homens
de cultura possam intervir como "operadores" na área
da cultura de massa. Podemos ùnicamente apontar,
em síntese, para algumas