Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

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todavia, 
se instaura efetivamente através de uma série de r� 
lações culturais de vários tiposso. A diferença de nível 
entre os vários produtos não constitui a priori uma 
diferença de valor, mas uma diferença da relação frui- 
tiva, na qual cada um de nós alternadamente se coloca. 
Em outros têrmos: entre o consumidor de poesia de 
Pound e o consumidor de um romance policial, de di- 



reito, não existe diferença de classe social ou de nível 
intelectual. Cada um de nós pode ser um e outro, em 
diversos momentos de um mesmo dia; num caso, bus- 
cando uma excitação de tipo altamente especializada, 
no outro, uma forma de entretenimento capaz de vei- 
cular uma categoria de valores específica. 
Digo "de direito". Porque se poderia objetar que, 
de fato, eu possa fruir tanto de Pound quanto do ro- 
mance policial, ao passo que um guarda-livros de ban- 
co de categoria C, por uma série de motivos (muitos 
dos quais nâo irremediáveis, mas, no estado atual dos 
fa`.os, insuperáveis), pode fruir ùnicamente do roman- 
ce policial, e encontra-se, destarte, culturalmente em 
estado de sujeição. 
O problema fôra, porém, levantado em linha de 
direito, justamente por isso. Porque só em linha de 
direito nos será possível entender a diferenciação dos 
níveis como uma diferenciação puramente circunstan- 
cial da procura (e não dos que procuram), podendo, 
nos vários níveis, produzirem-se obras que conduzam, 
no âmbito estilístico predeterminado, um discurso cul- 
turalmente criativo. Isto é: só quando adquirirmos 
consciência do fato de que o consumidor de estórias 
uadrinhos é o cidadão no momento em que de- 
em experiê a p - 
q ncia estilístic ró 
seja distra.ir-se através da ue ortanto as 
pria das estórias em quadrinhos, e q p 
estórias em quadrinhos são um produto cultural fruído 
e julgado por um consumidor, que, naquela ocasião, 
está especificando a própria demanda naquela direção, 
(30) Eooxxo MoxIN (L'esprtt du temps Paris Grasset 1%2) oPor�c 
insiste e a lusto tftulo s8bre a tendência atualmcntc constante p P 
dos mass mcdta, de nivelarem-se� 4uebrando as arestns cxtrcmas e for- 
mando em posiçóes mtddle brow. 
 
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#rnas leva para aquela experiência de fruição a sua 
experiência inteira de homem educado, também, na 
fruição de outros níveis, só então a produção de estó- 
rias em quadrinhos aparecerá como sendo determina- 
da por um tipo de procura culturalmente avisada. O 
curioso é que essa situação de direito, no tocante aos 
consumidores intelectualmente mais aguerridos, já se 
verifica de fato. O homem de cultura, que, em deter- 
minadas haras, ouve Bach, em outros momentos sente- 



-se propenso a ligar o rádio para ritmar a própria 
atividade através de uma "música de uso" para ser 
consumida em nível superficial. Salvo que, nessa ati- 
 
vidade ( dominado por uma implícita desconfiança mo- 
ralista para com o que julga um ato culpável), aceita 
"acanalhar-se" e não forrnula exigências particulares ao 
produto que usa; assim fazendo, aceita descer de nível, 
diverte-se com bancar o "normal", igual à massa que, 
de coraçâo, despreza, mas da qual sofre o fascínio, o 
apêlo primordial. Ao passo que o problema não é exe- 
crar o recurso a uma música de entretenimento, mas 
sim pretender uma música que entretenha segundo 
módulos de dignidade estilística, com perfeita aderên- 
cia ao escopo (e portanto com artisticidade), e sem 
que os apelos viscerais, indispensáveis ao mister, pre- 
valeçam além de uma certa medida sôbre outros ele- 
mentos de equilíbrio formal. Portanto, só aceitando 
a visão dos vários níveis como complementares e todos 
êles fruíveis pela mesma comunidade de fruidores, é 
que se pode abrir caminho para uma melhoria cultural 
dos mass media; e note-se que recorremos ao exemplo 
mais extremo, o de uma música consumida como fun- 
do rítmico. Pensemos, porém, nos programas de entre- 
tenimento televisional, na narrativa de evasão, no filme 
co�mercial. 
Mas o problema é ainda mais grave, sempre em 
linha de fato, quando considerado do ponto de vista 
do consumidor comum (o guarda-livros de quem se 
falava acima) : daí por que nasce o problema �le uma 
ação político-sacial que permita não só ao hahitual 
fruidor de Pound poder recorrer ao romance polìcial, 
mas também ao habitual fruidor de romance policial 
poder adir uma fruição cultural mais complexa. O 
problema, já o dissemos, é, primeiramente, político (um 
 
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#problema de escolaridade, antes de mais nada, e depois, 
de tempo livre, mas entendido nãa camo "presente" 
de horas a dedicar à cultura e ao ócio; e sim, como 
uma nova relaçãa nos confrantos da momenta labo- 
rativa, não mais sentido camo "alienado" porque efe- 
tivamente recolocado sob nosso contrôle), mas tem 
a solução facilitada pelo reconhecimento de uma pa- 
ridade em dignidade dos várias níveis, e por uma 
ação cultural que parta da assunção dêsse pressuposto. 



Nesse meio tempo, aceita essa paridade, acentuar-se- 
-á um jôgo de passagens recíprocas entre os vários 
níveis. 
Não passa pela cabeça de ninguém que tudo isso 
deva acontecer de mada pacífico e institucionalizado. 
A luta de uma "cultura de praposta" cantra uma 
"cultura de entretenimento" sernpre se estabelecerá 
através de uma tensão dialética feita de intolerâncias 
e reações violentas. Nem se deve pensar que uma 
visão mais equilibrada das relações entre os várias 
níveis leve à eliminação dos desequilíbrios e daqueles 
fenômenos negativos deplorados pelo5 críticos das mass 
media. Uma cultura de entretenimento jamais poderá 
escapar de submeter-se a certas leis da oferta e da 
procura (salvo quando se torna, uma vez mais, cul- 
tura paternalista de entretenimento "edificante" impôsa.y� 
de cima). A utopia prefigurada tem valor de "norma 
metodalógica" a que as homens de cultura poderiam 
ùltimamente ater-se para moverem-se entre os vários 
níveis. O resto pertence à realização concreta, com 
todos os desvios e malogros do casa. 
Sempre recordarei a episódio de um cronista de 
TV, amigo meu, profissional seguro e digno, que, com 
os olhas no monitor, fazia uma crônica sôbre fato 
ecorrido numa cidadezinha da província piemontesa. 
Enquanto o diretor lhe passava as últimas imagens, 
o cronista concluía o seu comentário, na verdade bas- 
tante sóbrio, com uma referência à noite que descia 
sôbre a cidade. Naquele ponto, por uma inexplicável 
bizarria do diretor, ou por um êrro de mensagem, 
apareceu no monitor, completamente fara de propó- 
sito, a imagem de crianças brincando numa ruela. 
O cronista viu-se, então, na contingência de comentar 
a imagem, e, recorrendo a um batido repertório bai- 
 
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#xamente retórico, disse: "E eis os garotos, ocupados 
com os seus jogos de hoje, seus jogos de sempre. . ." 
A imagem tornara-se simbólica, universal, patética, e 
representava um modêlo daquele midcult que Mac- 
Donald execrava, feito de falsa universidade, de ale- 
gorismo vazio. Por outro lado, o cronista não teria 
podido calar-se, visto que, no âmbito de uma discutí- 
vel "poética da crônica de TV", êle julgava dever asso- 
ciar, por exigências de ritmo, um continuum falado 
ao continuum das imagens. A natureza do meio, sua 



acidentálidade, a exigênci� de respeitar a expectativa 
dos telespectadores tinham-no feito cair no poncif. Mas 
antes de reagir contra essa irremediável trivialidade 
doa meios de massa, convém perguntar quantas vêzes, 
na literatura de "alto nível", as exigências do metro 
ou da rima, a obediência ao comitente, ou outras de- 
terminações pertinentes às leis estéticas ou sociológi- 
cas não terão levado a compromissos análogos. O 
episódio, se nos diz que no nôvo panorama humano 
determinado por uma cultura de massa as possibilidades 
de regressão são infinitas, também nos indica como 
se pode exercer uma crítica construtiva dos vários fe- 
nômenos e uma individuação dos pontos fracos. 
Não é nosso objetivo indicar como os homens 
de cultura possam intervir como "operadores" na área 
da cultura de massa. Podemos ùnicamente apontar, 
em síntese, para algumas