Apocalipticos e Integrados
663 pág.

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.213 materiais22.174 seguidores
Pré-visualização50 páginas
direções de pesquisa, ao
longo das quais é possível estabelecer uma análise
científica dos mas.s media também no nível da pes-
quisa universitária. Quando mais não seja, para for-
necer os elementos de uma discussão canstrutiva que
parta de uma objetiva tomada de consciência dos fe-
nômenos. Eis, em seguida, algumas propostas de pes-
quisa.
a) Uma pesquisa técnico-retórica sôbre as lin-
guagens tipicas dos meios de mcrssa e sôbre as novida-
des formais por elcv:s introduzidas. Sirvam-no�s três
exemplos.
I. Estórias em quadrinhos: a sucessão cine-
matográfica das strips. Ascendências históricas. Dife-
renças. Influências do cinema. Processos de aprendi-
zagem implicados. Possibilidades narrativas conexas.
União palavra-ação, realizada mediante artifícios grá-
6l
#ficos. Nôvo ritmo e nôvo tempó narrativo derivado.
Novos estilemas para a representação do movimento
(os desenhadores de estórias em quadrinhos capiam
no banco de mantagem; não de modelos imóveis, mas
de fotogramas que fixam um momento do movimento).
Inovações na técnica da onomatopéia. Influências das
experiências pictóricas precedentes. Nascimento de um
nôvo repertório iconográfico e de padronizações, que
agora funcianam como topoi para a koiné dos fruido-
res (destinadas a tornarem-se elementos de linguagem
adquirida pelas novas gerações). Visualização da me-

táfara verbal. Estabilização de tipos caracterológicos,
seus limites, suas possibilidades pedagógicas, sua fun-
ção mitopoietica.31
2. Televisão: gramática e sintaxe da tomada di-
reta. Sua específica temporalidade. Sua relação de imi-
tação-interpretação-adulteração da realidade. Efeitos
psicológicos. Relações de recepção. Transformações so-
fridas por uma obra realizada em outro lacal (teatra,
cinema), uma vez tomada ou transmitida dentro das
dimensões do pequeno vídeo: modificação dos efeitas
e dos valares formais. Técnica e estética das comuni-
cações não especìficamente artísticas, uma vez subme`
tidas às leis gramaticais da tomada e da transmissão.3z
3. Romances policiais ou de "science-fiction":
primordialidade do plot em relação aos outros valores
formais. Valor estético do "achado" conclusivo camo
elemento em tôrno do qual gira tôda a invenção. Es-
trutura "informativa" da trama. Elemento de crítica
social, utopia, sátira moralista; suas dili?cerenças em
relação a produtos da cultura "superior". Recurso a
diversos tipos de escrita e diferenças estilísticas entre
"policiais" tradicionais e "policiais" de ação; relação
com autros madelos literários.33
(31) Foi o que se tcntou no cnsaio Leltura de "Stevc Canvon".
(32) Cf., p. ex., o nosso Enrédo e casualidade (A expertlncta da
televisão e a estética) (in Obra Aberta, São Paulo, Pcrspectiva, I%B).
S6bre a técnica de dramatização de comunicaçáes não especlficamente
artísticas, cf., p. ex., Roees'r K. Mee'rox, Mass Persuasion: The Social
Psychology oJ War Bonds Drive? New York, 1940, ou então H��Lex
C�N'rxic, The Invasion from Mars, Princeton, 1940. S6bre vários
aspectos da finguagem televisional, Feoexcco Doo�to, Televisione c spc-
ttacolo, Roma, Studium, 1%1.
(33) Já existem interessantes análiees a respeito. Citaremos W. H.
Au�sN, "La parrochia delittuosa (Osservazioni sul romanzo poliziesco)",
in: Paragone, dezembro de 1956; seu ensaio de interpretação "cstrutural"
que encontra interessantes correspondências em análises análogas, rea·
llzadas recentemente na União Soviótica s6bre as novelas dc Conan
62
# b) Uma pesquisa critica sôbre as modalidades
e os êxitos dos transvasamentos de estilemas do nivel
superior para o nivel médio. Casos em que parece
válida a denúncia de MacDonald (o estilema, uma
vez transposto, aparece banalizado) e casos em que
se tem, pelo contrário, real aquisição e revivescência
do estilema em outro contexto. Poderíamos dar dois

exemplas. Dnlrante o telejaflial de 14 de março de 1963,
Sergjo Zavoli, comentando não me lembra que triste
ocarrência, mostrava uma multidão acompanhando um
féretro ao cemitério, e assim comentava: "Cada um
tem sua morte a chorar, sua dar a emparedar . . "
Assim, enquanto víamos desenharem-se no chão as
sombras dos enlutados: "Pelo chão, a piedade desenha
as suas sombl·as". Cla.ro está que, embora se possa
perdoar a metáfora "cada um tem sua dor a empa-
redar", é mais difícil sobrevoar aquela piedade que
desenha no chão as suas sombras. Trata-se, evidente-
mente, de uma clara tentação esteticista, da ineapa-
cidade de renunciar a uma imagem visiva formalmente
interessante (os enlutados identificados pelas sombras),
à qual se sobrepôs uma imagem verbal, que transpunha
para o âmbito de um discurso cronístico um marinis-
mo, que talvez possa ter tido seu avatar em alguns
lócais qualificados, mas que, naquele, parecia mais do
que gratuito: representava uma espécie de lôgro, li-
sonjeava o público cam a ilusão de que fôra admiti-
do a fruir de tesouros poéticos originais, mas em grau
de poderem ser por êle apreciado, quando, na verda-
Doyle (1. K. Cheglov, Per la costruzionc di un modello strutturalc dellc
novelle di Sherlock Hotrnes, in Simposio sullo studio struturale de! sls-
temi di seqni, Moscou, 1%2). Em Mass Culture, op. cit., contra um
mau exemplo de leitura "aristocrática" do poficial, dado por um crítico
ainda que grande como Edmund Wilson, temos um sensato ensaio de
Geonoe Oewe�c, RajJles and Miss Blandish, e uma contribuição, de
certo modo útil, dC CHARLES J. ROLO, The Metaphysics oj the Murder
Jor the Millions. Para a Science-Fiction, cituemos K�NosLex AMis,
Nuove mappc delt'injerno, Milão, Bompiani, 1%2, e o agora conheci-
dlssimo "Divagazioni sulla Sciencc Fiction, 1'utopia e il tempo", de
Seno�o So�na� (Nuovt Argomenti, novembro-deumbro de 1953). Todos
êsses exemplos, e são apenas os mais insignes, demonstram como existc
a possibilidade de �ma pesquisa crítica sóbre os produtos válidos ou
deteriores de uma cultura de massa. Uma pesquisa que s6 pode levar
a um esclarecimento dos meios, dos fins, das possibilidades; a uma des-
mìstificação dos equivocos; a uma sensibilização de energias pbsitivas
por parte de novas categorias de operadores. Cf. algumas das nossas
observaçáes nos ensaios O mito do Superman, 2? parte.
63
#de, desfrutava o seu próprio hábito de estilemas agora
verdadeiramente consumidos e depauperados.34
O segundo exemplo é representado por um ro-
mance como Parágrafo 22, de Heller. � um romance

"de consumo", que se apresenta com todos os atrati-
vos do fácil e espirituoso dialogado do tecnicólor
hollywoodiano. Com efeito, desenvolve sua polêmica
antibelicista clara e pontual, e manifesta com autenti-
cidade sua visão anárquica e absurda da vida contem-
porânea, do exército, das relações de propriedade, da
intalerância política. Para tanto, lança mão de todos
os expedientes de uma narrativa de vanguarda, do
flnsh baek à circularidade temporal, do monólogo
interior à amplificaçâo grotesca, típica de um certo
Joyce (o do capítulo do Cíclope, em Ulisses), e assim
por diante. Assiste-se, aqui, à transposição para nível
de consumo de estilemas já adquiridas pela sensibili-
dade e pela cultura corrente, e no entanto, motivados
pelas exigências de um certo discurso. Surge a dúvida
de que os estilemas se encontrem aqui depauperados
e traídos. mas que só aqui tenham encontrado a sua
verdadeira razão de ser. Dúvida paradoxal, bem en-
tendido, mas que serve para demonstrar como neste
caso as passagens e transfusões entre vários níveis
parecem legítimos e produtivos; e como se pode fazer
narrativa de consumo, realizando valores artísticos ori-
ginais; como através de exemplos seme ��iae ),dpod m
cultura de massa (ou de uma cultura
os leitores ser encaminhados à degustação de produtos
até mais complexos; como, enfim, cada um de nós,
até o mais culto e sofisticado, pode recorrer a seme-
lhantes formas de entretenimento sem ter a impressão
de acanalhar-se.
mplo deterior de emprê8o 8ratuito de estilemas ex-