Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.634 seguidores

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direções de pesquisa, ao 
longo das quais é possível estabelecer uma análise 
científica dos mas.s media também no nível da pes- 
quisa universitária. Quando mais não seja, para for- 
necer os elementos de uma discussão canstrutiva que 
parta de uma objetiva tomada de consciência dos fe- 
nômenos. Eis, em seguida, algumas propostas de pes- 
quisa. 
a) Uma pesquisa técnico-retórica sôbre as lin- 
guagens tipicas dos meios de mcrssa e sôbre as novida- 
des formais por elcv:s introduzidas. Sirvam-no�s três 
exemplos. 
I. Estórias em quadrinhos: a sucessão cine- 
matográfica das strips. Ascendências históricas. Dife- 
renças. Influências do cinema. Processos de aprendi- 
zagem implicados. Possibilidades narrativas conexas. 
União palavra-ação, realizada mediante artifícios grá- 
 
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#ficos. Nôvo ritmo e nôvo tempó narrativo derivado. 
Novos estilemas para a representação do movimento 
(os desenhadores de estórias em quadrinhos capiam 
no banco de mantagem; não de modelos imóveis, mas 
de fotogramas que fixam um momento do movimento). 
Inovações na técnica da onomatopéia. Influências das 
experiências pictóricas precedentes. Nascimento de um 
nôvo repertório iconográfico e de padronizações, que 
agora funcianam como topoi para a koiné dos fruido- 
res (destinadas a tornarem-se elementos de linguagem 
adquirida pelas novas gerações). Visualização da me- 



táfara verbal. Estabilização de tipos caracterológicos, 
seus limites, suas possibilidades pedagógicas, sua fun- 
ção mitopoietica.31 
2. Televisão: gramática e sintaxe da tomada di- 
reta. Sua específica temporalidade. Sua relação de imi- 
tação-interpretação-adulteração da realidade. Efeitos 
psicológicos. Relações de recepção. Transformações so- 
fridas por uma obra realizada em outro lacal (teatra, 
cinema), uma vez tomada ou transmitida dentro das 
dimensões do pequeno vídeo: modificação dos efeitas 
e dos valares formais. Técnica e estética das comuni- 
cações não especìficamente artísticas, uma vez subme` 
tidas às leis gramaticais da tomada e da transmissão.3z 
3. Romances policiais ou de "science-fiction": 
primordialidade do plot em relação aos outros valores 
formais. Valor estético do "achado" conclusivo camo 
elemento em tôrno do qual gira tôda a invenção. Es- 
trutura "informativa" da trama. Elemento de crítica 
social, utopia, sátira moralista; suas dili?cerenças em 
relação a produtos da cultura "superior". Recurso a 
diversos tipos de escrita e diferenças estilísticas entre 
"policiais" tradicionais e "policiais" de ação; relação 
com autros madelos literários.33 
(31) Foi o que se tcntou no cnsaio Leltura de "Stevc Canvon". 
(32) Cf., p. ex., o nosso Enrédo e casualidade (A expertlncta da 
televisão e a estética) (in Obra Aberta, São Paulo, Pcrspectiva, I%B). 
S6bre a técnica de dramatização de comunicaçáes não especlficamente 
artísticas, cf., p. ex., Roees'r K. Mee'rox, Mass Persuasion: The Social 
Psychology oJ War Bonds Drive? New York, 1940, ou então H��Lex 
C�N'rxic, The Invasion from Mars, Princeton, 1940. S6bre vários 
aspectos da finguagem televisional, Feoexcco Doo�to, Televisione c spc- 
ttacolo, Roma, Studium, 1%1. 
(33) Já existem interessantes análiees a respeito. Citaremos W. H. 
Au�sN, "La parrochia delittuosa (Osservazioni sul romanzo poliziesco)", 
in: Paragone, dezembro de 1956; seu ensaio de interpretação "cstrutural" 
que encontra interessantes correspondências em análises análogas, rea· 
llzadas recentemente na União Soviótica s6bre as novelas dc Conan 
 
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# b) Uma pesquisa critica sôbre as modalidades 
e os êxitos dos transvasamentos de estilemas do nivel 
superior para o nivel médio. Casos em que parece 
válida a denúncia de MacDonald (o estilema, uma 
vez transposto, aparece banalizado) e casos em que 
se tem, pelo contrário, real aquisição e revivescência 
do estilema em outro contexto. Poderíamos dar dois 



exemplas. Dnlrante o telejaflial de 14 de março de 1963, 
Sergjo Zavoli, comentando não me lembra que triste 
ocarrência, mostrava uma multidão acompanhando um 
féretro ao cemitério, e assim comentava: "Cada um 
tem sua morte a chorar, sua dar a emparedar . . " 
Assim, enquanto víamos desenharem-se no chão as 
sombras dos enlutados: "Pelo chão, a piedade desenha 
as suas sombl·as". Cla.ro está que, embora se possa 
perdoar a metáfora "cada um tem sua dor a empa- 
redar", é mais difícil sobrevoar aquela piedade que 
desenha no chão as suas sombras. Trata-se, evidente- 
mente, de uma clara tentação esteticista, da ineapa- 
cidade de renunciar a uma imagem visiva formalmente 
interessante (os enlutados identificados pelas sombras), 
à qual se sobrepôs uma imagem verbal, que transpunha 
para o âmbito de um discurso cronístico um marinis- 
mo, que talvez possa ter tido seu avatar em alguns 
lócais qualificados, mas que, naquele, parecia mais do 
que gratuito: representava uma espécie de lôgro, li- 
sonjeava o público cam a ilusão de que fôra admiti- 
do a fruir de tesouros poéticos originais, mas em grau 
de poderem ser por êle apreciado, quando, na verda- 
Doyle (1. K. Cheglov, Per la costruzionc di un modello strutturalc dellc 
novelle di Sherlock Hotrnes, in Simposio sullo studio struturale de! sls- 
temi di seqni, Moscou, 1%2). Em Mass Culture, op. cit., contra um 
mau exemplo de leitura "aristocrática" do poficial, dado por um crítico 
ainda que grande como Edmund Wilson, temos um sensato ensaio de 
Geonoe Oewe�c, RajJles and Miss Blandish, e uma contribuição, de 
certo modo útil, dC CHARLES J. ROLO, The Metaphysics oj the Murder 
Jor the Millions. Para a Science-Fiction, cituemos K�NosLex AMis, 
Nuove mappc delt'injerno, Milão, Bompiani, 1%2, e o agora conheci- 
dlssimo "Divagazioni sulla Sciencc Fiction, 1'utopia e il tempo", de 
Seno�o So�na� (Nuovt Argomenti, novembro-deumbro de 1953). Todos 
êsses exemplos, e são apenas os mais insignes, demonstram como existc 
a possibilidade de �ma pesquisa crítica sóbre os produtos válidos ou 
deteriores de uma cultura de massa. Uma pesquisa que s6 pode levar 
a um esclarecimento dos meios, dos fins, das possibilidades; a uma des- 
mìstificação dos equivocos; a uma sensibilização de energias pbsitivas 
por parte de novas categorias de operadores. Cf. algumas das nossas 
observaçáes nos ensaios O mito do Superman, 2? parte. 
 
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#de, desfrutava o seu próprio hábito de estilemas agora 
verdadeiramente consumidos e depauperados.34 
O segundo exemplo é representado por um ro- 
mance como Parágrafo 22, de Heller. � um romance 



"de consumo", que se apresenta com todos os atrati- 
vos do fácil e espirituoso dialogado do tecnicólor 
hollywoodiano. Com efeito, desenvolve sua polêmica 
antibelicista clara e pontual, e manifesta com autenti- 
cidade sua visão anárquica e absurda da vida contem- 
porânea, do exército, das relações de propriedade, da 
intalerância política. Para tanto, lança mão de todos 
os expedientes de uma narrativa de vanguarda, do 
flnsh baek à circularidade temporal, do monólogo 
interior à amplificaçâo grotesca, típica de um certo 
Joyce (o do capítulo do Cíclope, em Ulisses), e assim 
por diante. Assiste-se, aqui, à transposição para nível 
de consumo de estilemas já adquiridas pela sensibili- 
dade e pela cultura corrente, e no entanto, motivados 
pelas exigências de um certo discurso. Surge a dúvida 
de que os estilemas se encontrem aqui depauperados 
e traídos. mas que só aqui tenham encontrado a sua 
verdadeira razão de ser. Dúvida paradoxal, bem en- 
tendido, mas que serve para demonstrar como neste 
caso as passagens e transfusões entre vários níveis 
parecem legítimos e produtivos; e como se pode fazer 
narrativa de consumo, realizando valores artísticos ori- 
ginais; como através de exemplos seme ��iae ),dpod m 
cultura de massa (ou de uma cultura 
os leitores ser encaminhados à degustação de produtos 
até mais complexos; como, enfim, cada um de nós, 
até o mais culto e sofisticado, pode recorrer a seme- 
lhantes formas de entretenimento sem ter a impressão 
de acanalhar-se. 
mplo deterior de emprê8o 8ratuito de estilemas ex-