Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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direções de pesquisa, ao
longo das quais é possível estabelecer uma análise
científica dos mas.s media também no nível da pes-
quisa universitária. Quando mais não seja, para for-
necer os elementos de uma discussão canstrutiva que
parta de uma objetiva tomada de consciência dos fe-
nômenos. Eis, em seguida, algumas propostas de pes-
quisa.
a) Uma pesquisa técnico-retórica sôbre as lin-
guagens tipicas dos meios de mcrssa e sôbre as novida-
des formais por elcv:s introduzidas. Sirvam-no\ufffds três
exemplos.
I. Estórias em quadrinhos: a sucessão cine-
matográfica das strips. Ascendências históricas. Dife-
renças. Influências do cinema. Processos de aprendi-
zagem implicados. Possibilidades narrativas conexas.
União palavra-ação, realizada mediante artifícios grá-
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#ficos. Nôvo ritmo e nôvo tempó narrativo derivado.
Novos estilemas para a representação do movimento
(os desenhadores de estórias em quadrinhos capiam
no banco de mantagem; não de modelos imóveis, mas
de fotogramas que fixam um momento do movimento).
Inovações na técnica da onomatopéia. Influências das
experiências pictóricas precedentes. Nascimento de um
nôvo repertório iconográfico e de padronizações, que
agora funcianam como topoi para a koiné dos fruido-
res (destinadas a tornarem-se elementos de linguagem
adquirida pelas novas gerações). Visualização da me-

táfara verbal. Estabilização de tipos caracterológicos,
seus limites, suas possibilidades pedagógicas, sua fun-
ção mitopoietica.31
2. Televisão: gramática e sintaxe da tomada di-
reta. Sua específica temporalidade. Sua relação de imi-
tação-interpretação-adulteração da realidade. Efeitos
psicológicos. Relações de recepção. Transformações so-
fridas por uma obra realizada em outro lacal (teatra,
cinema), uma vez tomada ou transmitida dentro das
dimensões do pequeno vídeo: modificação dos efeitas
e dos valares formais. Técnica e estética das comuni-
cações não especìficamente artísticas, uma vez subme`
tidas às leis gramaticais da tomada e da transmissão.3z
3. Romances policiais ou de "science-fiction":
primordialidade do plot em relação aos outros valores
formais. Valor estético do "achado" conclusivo camo
elemento em tôrno do qual gira tôda a invenção. Es-
trutura "informativa" da trama. Elemento de crítica
social, utopia, sátira moralista; suas dili?cerenças em
relação a produtos da cultura "superior". Recurso a
diversos tipos de escrita e diferenças estilísticas entre
"policiais" tradicionais e "policiais" de ação; relação
com autros madelos literários.33
(31) Foi o que se tcntou no cnsaio Leltura de "Stevc Canvon".
(32) Cf., p. ex., o nosso Enrédo e casualidade (A expertlncta da
televisão e a estética) (in Obra Aberta, São Paulo, Pcrspectiva, I%B).
S6bre a técnica de dramatização de comunicaçáes não especlficamente
artísticas, cf., p. ex., Roees'r K. Mee'rox, Mass Persuasion: The Social
Psychology oJ War Bonds Drive? New York, 1940, ou então H\ufffd\ufffdLex
C\ufffdN'rxic, The Invasion from Mars, Princeton, 1940. S6bre vários
aspectos da finguagem televisional, Feoexcco Doo\ufffdto, Televisione c spc-
ttacolo, Roma, Studium, 1%1.
(33) Já existem interessantes análiees a respeito. Citaremos W. H.
Au\ufffdsN, "La parrochia delittuosa (Osservazioni sul romanzo poliziesco)",
in: Paragone, dezembro de 1956; seu ensaio de interpretação "cstrutural"
que encontra interessantes correspondências em análises análogas, rea·
llzadas recentemente na União Soviótica s6bre as novelas dc Conan
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# b) Uma pesquisa critica sôbre as modalidades
e os êxitos dos transvasamentos de estilemas do nivel
superior para o nivel médio. Casos em que parece
válida a denúncia de MacDonald (o estilema, uma
vez transposto, aparece banalizado) e casos em que
se tem, pelo contrário, real aquisição e revivescência
do estilema em outro contexto. Poderíamos dar dois

exemplas. Dnlrante o telejaflial de 14 de março de 1963,
Sergjo Zavoli, comentando não me lembra que triste
ocarrência, mostrava uma multidão acompanhando um
féretro ao cemitério, e assim comentava: "Cada um
tem sua morte a chorar, sua dar a emparedar . . "
Assim, enquanto víamos desenharem-se no chão as
sombras dos enlutados: "Pelo chão, a piedade desenha
as suas sombl·as". Cla.ro está que, embora se possa
perdoar a metáfora "cada um tem sua dor a empa-
redar", é mais difícil sobrevoar aquela piedade que
desenha no chão as suas sombras. Trata-se, evidente-
mente, de uma clara tentação esteticista, da ineapa-
cidade de renunciar a uma imagem visiva formalmente
interessante (os enlutados identificados pelas sombras),
à qual se sobrepôs uma imagem verbal, que transpunha
para o âmbito de um discurso cronístico um marinis-
mo, que talvez possa ter tido seu avatar em alguns
lócais qualificados, mas que, naquele, parecia mais do
que gratuito: representava uma espécie de lôgro, li-
sonjeava o público cam a ilusão de que fôra admiti-
do a fruir de tesouros poéticos originais, mas em grau
de poderem ser por êle apreciado, quando, na verda-
Doyle (1. K. Cheglov, Per la costruzionc di un modello strutturalc dellc
novelle di Sherlock Hotrnes, in Simposio sullo studio struturale de! sls-
temi di seqni, Moscou, 1%2). Em Mass Culture, op. cit., contra um
mau exemplo de leitura "aristocrática" do poficial, dado por um crítico
ainda que grande como Edmund Wilson, temos um sensato ensaio de
Geonoe Oewe\ufffdc, RajJles and Miss Blandish, e uma contribuição, de
certo modo útil, dC CHARLES J. ROLO, The Metaphysics oj the Murder
Jor the Millions. Para a Science-Fiction, cituemos K\ufffdNosLex AMis,
Nuove mappc delt'injerno, Milão, Bompiani, 1%2, e o agora conheci-
dlssimo "Divagazioni sulla Sciencc Fiction, 1'utopia e il tempo", de
Seno\ufffdo So\ufffdna\ufffd (Nuovt Argomenti, novembro-deumbro de 1953). Todos
êsses exemplos, e são apenas os mais insignes, demonstram como existc
a possibilidade de \ufffdma pesquisa crítica sóbre os produtos válidos ou
deteriores de uma cultura de massa. Uma pesquisa que s6 pode levar
a um esclarecimento dos meios, dos fins, das possibilidades; a uma des-
mìstificação dos equivocos; a uma sensibilização de energias pbsitivas
por parte de novas categorias de operadores. Cf. algumas das nossas
observaçáes nos ensaios O mito do Superman, 2? parte.
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#de, desfrutava o seu próprio hábito de estilemas agora
verdadeiramente consumidos e depauperados.34
O segundo exemplo é representado por um ro-
mance como Parágrafo 22, de Heller. \ufffd um romance

"de consumo", que se apresenta com todos os atrati-
vos do fácil e espirituoso dialogado do tecnicólor
hollywoodiano. Com efeito, desenvolve sua polêmica
antibelicista clara e pontual, e manifesta com autenti-
cidade sua visão anárquica e absurda da vida contem-
porânea, do exército, das relações de propriedade, da
intalerância política. Para tanto, lança mão de todos
os expedientes de uma narrativa de vanguarda, do
flnsh baek à circularidade temporal, do monólogo
interior à amplificaçâo grotesca, típica de um certo
Joyce (o do capítulo do Cíclope, em Ulisses), e assim
por diante. Assiste-se, aqui, à transposição para nível
de consumo de estilemas já adquiridas pela sensibili-
dade e pela cultura corrente, e no entanto, motivados
pelas exigências de um certo discurso. Surge a dúvida
de que os estilemas se encontrem aqui depauperados
e traídos. mas que só aqui tenham encontrado a sua
verdadeira razão de ser. Dúvida paradoxal, bem en-
tendido, mas que serve para demonstrar como neste
caso as passagens e transfusões entre vários níveis
parecem legítimos e produtivos; e como se pode fazer
narrativa de consumo, realizando valores artísticos ori-
ginais; como através de exemplos seme \ufffd\ufffdiae ),dpod m
cultura de massa (ou de uma cultura
os leitores ser encaminhados à degustação de produtos
até mais complexos; como, enfim, cada um de nós,
até o mais culto e sofisticado, pode recorrer a seme-
lhantes formas de entretenimento sem ter a impressão
de acanalhar-se.
mplo deterior de emprê8o 8ratuito de estilemas ex-