Apocalipticos e Integrados
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(34) Um exe ortivo Gianni Brera, que repre-
-cultos é dado pela prosa do cronista esp � num luBar onde o
senta um exe mplo de "Baddismo explicado ao povo' a ropriada à ma-
enas de uma fin8uagem P
' povo" teria necessidade ap rosa contra o qual se lança RoLnrrn
téria tratada. R o mesmo ttpo de p � põe a nu a raiz
pe-
BARTHES quando, em Le déRré zéro de 1'écritnre
queno-burguesa pretensiosa e mistificante, do �ali � o "� c�letg ia dcanta-
Garaudy: metáforas como "arranhar a linotip "
va-lhe nos músculos" são exemplos perfeitos de ntidcult. É óbvio que
uma análise do gênero poria em crise ttês quartas partes da literatura
de sucesso do nosso país (mesmo tratando-se de um midcult bem mais
requintado, que se situa "depois" de experimentns como o é c otad ápítulo
quais só a prosa esp ortiva permanece ancorac:a). Veja
Estrutura do mau gôsto.

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# Só através de observações críticas dêsse gênero
se torna possível um discurso equilibrado sôbre os
significados que continuadamente possam assumir as
relações de transfusão entre o�s vários níveis.
c) Uma ancilise estético-psicológico-sociológica
de como as diferenciações de atitude fruitiva podem
influir no valor do produto fruido95. Isto é: não é a
difusão em disco da Quinta de Beethoven que a bana-
liza. Se me dirijo a uma sala de concertos cozn intuito
de passar duas horas deixando-me embalar pela mú-
sica, realizo uma banalização da mesma ordem; Bee-
thoven vira tema de assobia. Então, é fatal que muitos
produtos culturalmente válidos, difundidos através de
determinadas canais, submetam-se à banalizaçãa devida
não ao próprio praduto, mas às modalidades de fruição.
Convirá analisar, antes dc mais nada, se, no caso de
obras de arte, até mesmo o colhêr o aspecto superficial
de uma forma complexa não me permite, pelo menos,
adir por via lateral a fruição da vitalidade formativa
que a obra ostenta, ainda que nos seus aspectos mais
superficiais��. Em cantraposição, convirá estabelecer
se, no caso dos produtos nascidos para um $imples en-
tretenimento, a fruição em nível sofisticado não os es-
tará carregando de significados arbitrários ou nêles in-
dividuando valores mais camplexos do que de fato vei-
culavam. Deve-se, a seguir, proceder a uma análise dos
limites teóricos e práticos, dentro dos quais uma dada
atitude fruitiva não altere irremediàvelmente a nature-
za da obra fruída; e os limites dentro dos quais uma
obra é capaz de impor certos valores, independente-
mente da atitude fruitiva com que a abordemos.
d) Finalmente, análise critico-sociológica dos
casos em que novidades formais, até mesmo dignns',
agem como simples artificios retóricos para veicularem
(35) Recomendamos mais uma vez, as investigações de Cantril ou
de Merton já citadas. Veja-se tambóm o que relata Lso Boonx'r em
The Age oJ Televiston, op. cit.: Theodor Geiger, na Dinamarca, trans-
mitiu por duas vézes com alguns dias de intervalo, a mesma sinfonia,
apresentando-a da primeira vez como "música popular" e da segunda
como trecho clássico precedido �de uma explicação. A primeira execução
foi mais bem aceita.
(36) E aqui recomendamos as proposições da estótica de Luigi
Pareyson particularmente as do capítulo ' Acabamento da obra de arte' ,
da sua Estetica.

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#um sistema de valores que, de falo, nada têm a ver
com elas. Por exemplo: quem segue as estórias em
quadrinhos de Mary A tkins, publicadas no Il Giorno,
notará como o desenho se articula mediante soluções
de enquadramentos e mantagem de alto nível técrlico
(o desenhista pertence à escala do grande Alex Ray-
mond), exibindo angulações inusitadas e ousadíssimas
escorços inspirados na gramática cinematográfica, cor-
tes (vinheta após vinheta) de tomadas a longa distân-
cia, focalizadas de cima, a tomadas em que a "câmara"
(puramente ideal) enquadra as personagens através da
asa formada pelo braço de uma personagem colocada em
primeiríssimo plano etc. Aí todos êsses artifícios estilísti-
cos são empregadas sem nenhuma referência às necessi-
dades da narrativa, a título meramente sensacionalista; e
não só isso, mas a narrativa ostenta um repertório de si-
tuações bastante vulgares, ,de sentimentos chatamente
e�ementa'ces, de esgotad�ss�mas so�oções nar�a�.��as. Tem-
-se, assim, aqui, o caso patente de uma apazente novida-
de gráfica posta a serviço de uma vulgaridade total.
Mais interessantes são os casos em que a absoluta no-
vidade gráfica serve para veicular conteúdos política e
socialmente conformistas (o artifício modernista usado
como instrumento retórico para fins de poder) ; os casos
em que o desenho de tipo tradicional veicula conteúdos
tradicionalistas; os casos em que o desenho nôvo e ori-
ginal se torna, pelo contrário, o instrumento perfeita-
mente amalgamado de um discurso de ruptura, e assim
por diante3'.
(37) A4ui naturalmente, a pesquisa se amplia, implicagdo na
desmistificação ,de substratos ideológicos, na investigação socioló ica cm
vários níveis etc. Citamos o ensaio de Lyle Shannon sbbre as raízes
politicas da estória em quadrinhos de Little Orphan Annie: veja-se na
mesma ordem de pesquisas, em Mass Culturc, Cxnls'roruER LA FARoE,
Hammer" (policial de ação e anti-
"Michcy Spillane and His Bloody bbrc as letras das cançõe ;
comunismo maccartista) e S.I. Hayakw'a, s s
com êsse propósito assinalamos a pes9uisa sdbre os aspectos estilistico·
-psicológico-ideológicos da música e das letras das cançonetas italianas,
reafiZada pOT M. L. STRANIERO, S. LIHEROVICI, E. JONA e G. DE MARIA,
Le canzont della catttva coscienza, Milão, Bompiani, 1964. Uma anáfisc
histórico-estillstico-sociológica da imprensa feminina está em La pressc
Jéminlne de EvEI.xNe SuI.I.ERar, Paris, Collin 1%3. Para os aspectos
positivos (amálgama entre signo gráfico conteúdos ideológicos cons-

ciência cultural), veja-se a vasta litcratura crítica desabrochada em
nossos diários e semanários por ocasião da publicação dos volumes dc
JuI.Es FEIFnER, Il complesso jacile e Passionella (cf o nosso prefácio
tura" dessas estórias em
no primeiro volume sôbre o valor de "rup de "Steve Canyon".
quadrinhos). Cf., alóm disso, todo o ensaio Leitura
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# Propôs-se, destarte, uma série de pesquisas possí-
veis (cada uma das quais poderia constituir argumento
para um seminário universitário), mediante as quais
poder-se-ia trazer elementos de discussão para um de-
bate sôbre a cultura de massa, que leve em conta seus
meios expressivos, o modo pelo qual são usados, o modo
com que são fruídos, o contexto cultural em que se
inserem, o pano de fundo político ou social que lhes
dá caráter e função.
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# A ESTRUTURA Di0 MAU GÔSTO
O mau gôsto padece a mesma sorte que Croce reco-
nhecia ser típica da arte: todos sabem muito bem o que
seja e não hesitam em individuá-lo e apregoá-lo, mas
atrapalham-se ao defini-lo. E tão difícil parece a defi-
nição, que até para reconhecê-lo nos fiamos nãa num
paradigma, e sim no juízo dos spoudaioi, dos peritos, o
que vale dizer, das pessoas de gôsto: em cujo comporta-
mento nos baseamos para definir, em âmbitos de cos-
tume precisos, o bom ou o mau gôsto.
As vêzes, o reconhecimento é instintivo, deriva da
reação irritada a algumas desproporções patentes, a
algo que parece fora do lugar: a gravata verde sôbre
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#um terno azul, a observação impertinente feita no am-
biente menos adequado (e aqui o mau gôsto, no plano
do costume, torna-se gafe e falta de tato) ou mesmo
a expressão enfática não justificada pela situação: "Via-
-se o coração de Luís XVI pulsar com violência sob a
renda da camisa . . . Joana ferida [no orgulho] , mas
alimentando a chaga como os leopardos feridos pela fle-
cha. . ." (são duas frases de uma velha tradução italia-
·na de Dumas). Em todos êsses casos, o mau gôsto é
individuado como ausência de medida, mas resta, em
seguida, definir as regras dessa "medida", e então nos

apercebemos de que elas variam com as épocas e as ci-
vilizações.
Por outro lado, haverá