Apocalipticos e Integrados

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Disciplina:metodologia-de-pesquisas1164 materiais18493 seguidores

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coisa mais instintivamente 
de mau gôsto que as esculturas funerárias do Cemi- 
tério Monumental de Milão? E como poderemos acusar 
de falta de medida êsses corretos exercícios canovianos, 
representando, ora aqui ara ali, a Dor, a Piedade, a 
Fama, o Olvido? Observemos que, formalmente, não 
se pode acoimá-los de falta de medida. E que, portanto, 
se a medida subsiste no objeto, então a falta de medi- 
da será histórica (fora de medida é imitar Canova em 
pleno século XX), ou circunstancial (a coisa no lugar 
errado: mas será fora de medida erigir estátuas da Dor 
nuxn lugar como o cemitério?), ou então - ainda, e 
aqui mais nos aproximamos do núcleo do problema - 
fora de medida será prescrever às pessoas enlutadas, me- 
diante determinada estátua, os modos e a intensidade 
da dor, ao invés de deixar ao gôsto e ao humor de cada 
um a possibilidade de articular os pról5rios sentimentos 
mais autênticos. 
E eis que com essa última sugestão nos avizinha- 
mos de uma nova definição do mau gôsto, ao que parece 
a mais acreditada, e que põe de lado a referência a uma 
medida (mas apenas aparentemente, e a isso voltaremos 
nos parágrafos seguintes) : a definição do mau gôsto, 
em arte, como pref abriccrção e imposição do ef eito. 
A cultura alemã, talvez para exorcizar um fantas- 
ma que a obsedia de perto, foi quem elaborou com 
maior empenho uma definição dêsse fenômeno, resumin- 
do-o numa categoria, a do Kitsch; de tal forma precisa 
 
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#que o têrmo, tornado intraduzível, foi de imediato trans- 
portado para outras línguas'. 
 
Estilistica do Kitsch 
"Sussurra ao longe o mar e no silêncio enfeitiçado o vento 
move brandamente as rígidas fôlhas. Uma veste opaca de 
sêda, recamada de branco marfim e ouro, flutua-lhe em tôrno 
dos membros e deixa perceber um colo macio e sinuoso, sô- 
bre o qual pesam as tranças côr de fogo. Ainda não se acen- 
dera a luz no quarto solitário de Brunilde - as palmas esbeltas 
erguiam-se como sombras escuras' e fantasiosa� dos preciosos 
vasos da China: no centro, branqueavam os cofpos marmóreos 
das estátuas antigas, como fantasmas, e nas paredes mal se 
entreviam os quadros em suas largas molduras de ouro por 



entre os submissos reflexos. Brunilde estava sentada ao piano, 
e fazia deslizar as mãos sôbre o teclado, imersa num doce 
cismar. Um `largo' fluía num soturno ricercare, como véus de 
fumaça se desprendem das cinzas incandescentes e se esgar- 
çam ao vento, rodopiando em farrapos bizarros, separados da 
chama sem essência. Lentamente, a melodia crescia, majes- 
tosa, rompia em acordes possantes, voltava sôbre si mesma 
com vozes infantis, súplicas, encantadas, indizìvelmente doces, 
com coros de anjos, e sussurrava sôbre florestas noturnas e 
despenhadeiros solitários, amplos, de um vermelho ardente, 
pelas estelas antigas, brincando em tôrno de cemitérios cam- 
pestres abandonados. Abrem-se claros prados, primaveras brin- 
cam com figuras em airosos movimentos, e, diante do outono, 
está sentada uma mulher velha, 'uma mulher perversa, e ao 
seu redor tombam, uma a uma, tôdas as fôlhas. Quando fôr 
inverno, grandes anjos reluzentes, . sem roçar a neve, mas altos 
como os céus, inclinar-se-ão para os pastôres atentos e Ihes 
cantarão sôbre o menino fabuloso de Belém. 
O encanto celeste, pleno de segredós do santo Natal, tece 
à volta do despenhadeiro hibernal que dorme em profunda paz, 
como se soasse ao longe um canto de hárpa, perdido no ru- 
mor do dia, como se o próprio segrêdo da tristeza cantasse a 
origem divina. E fora, o vento noturno acaricia com o toque 
de suas mãos macias a casa de ouro, e as estrêlas vagam pela 
noite hibernal." 
(1) Luowto Glesz, in Phaenomenologie des Kitsches, Rothe Verlag, 
Heidelberg, 1%0, sugere algumas etimologias do têrmo. Segundo a pri- 
meira, remontaria êle à segunda metade do sóculo XIX, quando os tu- 
ristas norte-americanos em Manaco, querendo adquirir um quadro, mas 
 
barato, pediam um esbóço (sketch). Deria vindo daí o têrmo alemão 
para indicar a vulgar pacotilha artfstica destinada a compradores dese- 
josos de fáceis experiências estóticas. Todavia, em dialeto mecklembur- 
guês, já existia o verbo kltschen para "tirar a lama da rua". Outra 
acepção do mesmo verbo seria tambóm "reformar móveis para fazê-los 
parecer antigos", e tem-se igualmente o verbo verkitschen para "vender 
barato". 
 
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#i 
 
O trecho citado constitui um maldoso pasticho ela- 
borado por Walther Killy2, utilizando excertos de seis 
autores alemães; cinco produtores de renomada merca- 
doria literária de consumo, e mais um outsider, que, 
pesa-nos dizer, é Rilke. Observa Killy que a origem 



` compósita do trecho é difìcilmente discernível porque a 
característica constante dos vários excertos é a vontade 
de provocar um efeito sentimental, ou melhor, ofere- 
cê-lo já provocado e comentado, já confeccionado, de 
modo que o conteúdo objetivo da acorrência (o vento 
da noite? uma jovem ao piano? o nascimento do Reden- 
tor?) seja menos importante do que a Stimmung de ba- 
se. O que prevalece é o intento de criar uma atmosfera 
liricizante, e para tanto, os autores utilizam expressões 
já carregadas de fama poética, où então elementos que 
possuam como peculiandade própria uma capacidade 
de noção afetiva ( vento, noite, mar etc. ) . Os autores, 
contudo, não parecem fiar-se apenas na capacidade 
evocadora das palavras e as envolvem e b arnecem de 
palavras acessórias, de modo que, caso se perca o efei- 
to, esteja êle já devidamente reiterado e garantido. Assim 
o silêncio em que o mar sussurra, para evitar dúvidas, 
será "enfeitiçado", e as mãos do vento, não bastasse 
o� serem "macias", "acariciam", e a casa. sôbre a qual 
; vagam as estrêlas será "de ouro". 
Killy insiste, pois, e muito, não só na técnica da 
reiteração do estímulo, mas também no fato de que o 
estímulo é absolutcunente f ungivel: e a abservação po- 
deria ser entendida em têrmos de redundância. O tre- 
cho lido tem tôdas as características da mensagem re- 
" dundante: aí um estímulo ajuda o outro mediante a 
acumulação e a repetição - porque todo estímulo iso- 
lado, já submetido a desgaste por antiga tradição lírica, 
expõe-se a consumir-se, e portanto é reforçado de ou- 
i tra forma. 
Os verbos (sussurra, flutua, desliza, vagueia) con- 
correm, a seguir, para reforçar a "liqüidez" do texto , 
condição de sua "liricidade", de modo que, em cada 
fase da lição, prevaleça o efeito Thomentâneo, destina- 
(2) WALTtmR KILLY, Deutscher Kitsch, Vandenhock & Ruprecht. 
Gáttingcn, 1%2. O ensaio de Killy introduz uma antologia de trechos 
caracteristicos extiafdos da literatura alemã. , Os autores utilizados no 
pastiche são pela ordem: Werner Jansen, 1`lataly von Eschtruth, Rei- 
nhold Muschler, Agnes Gdnther, Reiner Marre Rilke, Nathanael Jünger 
 
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#do a extínguir-se na fase subseqüente (que, afortuna- 
damente, o reintegra). 
Lembra Killy como até mesmo grandes poetas ex- 
perimentaram a necessidade de recorrer à evocação líri- 
ca, chegando mesmo a inserir versos no curso de uma 



narração, como Goethe, a fim de revelar de chôfre um 
traço essencial do enrêdo, que a narrativa, articulada 
lògicamente, não poderia exprimir. Mas no Kitsch a 
mudança de registro nâo assume funções de conheci- 
mento, intervém apenas para reforçar o estímulo senti- 
mental, e a inserção episódica passa, definitivamente 
a ser a norma. 
Articulando-se, assim, como uma comunicação ar- 
tística em que o projeto fundamental não é envolver o 
leitor numa aventura de descoberta ativa, mas simples- 
mente dobrá-lo com fôrça ou assinalar determinado efei- 
to - acreditando que nessa emoção consista a fruição 
estética - surgiria o Kitsch como uma espécie de 
mentira artística, ou, como diz Hermann Broch, "o mal 
no sistema de valores da arte . . . A malícia de uma 
geral falsidade da vida"3. 
Ersatz, fàcihnente comestível, da arte, é lógico que 
o Kitsch se proponha, então, como um cíbo ideal para 
um público preguiçoso que deseje adir os valores do 
belo e convencer-se de que os goza, sem