Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1164 materiais18601 seguidores

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perder-se em 
esforços empenhativos; e Killy refere-se ao Kitsch como 
típica atitude de origem pequeno-burguesa, meio de 
fácil afirrnação cultural para um público que julga estar 
fruindo de uma representação original do mundo, quan- 
do, na realidade, goza ùnicamente uma imitação secun- 
dária da fôrça primária das imagens. 
Em tal sentido, Killy alinha-se nas fileiras de tô- 
da uma tradição crítica, que se espalhou desde a Ale- 
manha até os países anglo-saxônicos, e que, tomado 
o Kitsch nos têrmos acima referidos, identifica-o como 
a forma mais aparatosa de uma cultura de massa e de 
uma cultura média, e conseqüentemente, de uma cultu- 
ra de consumo. 
Por outro lado, o próprio Broch avança a suspeita 
de que, sem uma gôta de Kitsch, não possa existir ne- 
nhum tipo de arte; e Killy pergunta-se a si mesmo se 
a falsa representação da mundo que o Kitsch oferece 
(3) Henr,t�Nrr Bxocn "Einige Hemerkungen zum Problem des Kits- 
ches" in: Dichtrn and Erkenncn (Essays, I, Zurique, 1955). 
 
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#seja efetiva e ùnicamente mentira, ou se não satisfaz 
uma ineliminável exigência de ilusão que o homem nu- 
tre. E quando define o Kitsch como filho espúrio da 
arte, deixa em nós a suspeita de que, à dialética da 
vida artística e do destino da arte na sociedade, seja 



essencial a presença dêsse filha espúrio, que produz 
ef eitos naqueles momentos em que seus consumidores 
desejam, efetivamente, gozar efeitos, ao invés de em- 
penharem-se na mais difícil e reservada operação de 
uma fruição estética complexa e responsável. Em ar- 
gumentações de tal gênero, está sempre presente, além 
do mais, uma assunção a-histórica do conceito de arte; 
e de fato, bastaria pensarmos na função de que a arte 
se investiu em outros contextos históricos para nos aper- 
cebermos de que o fato de que uma obra tenda a pro- 
vocar um efeito não implica, absolutamente, na sua 
exclusão do reino da arte. Dentro da perspectiva cultu- 
ral grega, a arte tinha, efetivamente, a função de pro- 
vocar efeitos psicológicos, sendo êsse o objetivo da mú- 
sica e da tragédia, pelo menos se dermos crédito a Aris- 
tóteles. Mas daí a que seja possível, naquele âmbito, 
individuar uma segunda acepção do conceito de gôzo 
estético, entendido como valorização da forma com que 
se realiza o efeito, é outro problema. Significa, de fato, 
que, em determinadas sociedades, a arte se integra tão 
profundamente na vida cotidiana que sua função pri- 
mária parece ser, a de estimular determinadas reações, 
lúdicas, religiosas, eróticas, e de estimulá-las bem. Quan- 
do muito se poderá, em segunda instância, avaliar "quão 
bem"; mas a função primária continua sendo a estimula- 
ção de efeitos. 
A estimulação do efeito torna-se Kitsch num con- 
texto cultural em que a arte seja vista, pelo contrário, 
não como tecnicidade inerente a uma série de operações 
diversas (e é a noção grega e medieval) mas como for- 
ma rte conhecimento realizada mediante uma formatì- 
vídade com fim em si mesma, que permita uma contem- 
plação desinteressada. Nesse caso, então, tôda operação 
que tenda, com meios artísticos, a fins heterônimos, 
cai dcbaixo da rubrica mais genérica de uma artistici- 
dade que se realiza de várias formas, mas não se con- 
funde com a arte. Poderá estar empapada de habilidade 
artística a maneira pela qual torno apetecível uma igua- 
ria, mas a iguaria, efeito de artisticidade, não será arte 
 
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#. no sentido mais nobre do têrmo, enquanto não gozável 
pelo puro gôsto no formar que nela se manifesta, mas 
sim desejável pela sua comestibilidade4. 
Mas, nesse ponto, o que nos autoriza a dizer que 
um objeto em que se manifeste uma artisticidade vol- 



tada para fins heterônomos, seja, por isso mesmo de 
mau gôsto? 
Um vestido que, com sabedoria artesanal, saiba 
pôr em relêvo as graças da mulher que o usa, não é 
um produto de mau gôsto (virá a sê-lo caso forçar a 
atenção de quem olha apenas para certos aspectos mais 
vistosos da pessoa que o veste: mas nesse caso não 
põe, absolutamente, em relêvo a graça total da mulher 
mas desequilibra-lhe a personalidade, rcduzindo-a a rne- 
ro suporte de um aspecto físico particular). Conse- 
qüentemente, se por si só a provocação do efeito não 
caracteriza o Kitsch, alguma outra coisa intervirá para 
constituir o fenômeno. E essa alguma outra coisa emer- 
ge fundamentalmente dessa mesma análise de Killy, des- 
de que fique bem claro que o trecho por êle �xaminado 
tende a propor-se como trecho de arte. E tende a 
apresentar-se como obra de arte justamente porque 
emprega ostensivamente modos expressivos, que, por 
tradlção, costumamos ver empregados em obras de arte 
reconhecidas como tais pela tradição. O trecho citado 
é Kitsch nilo só porque estimula efeitos senrimentais, 
mas porque tende contìnuamente a sugerir a idéia de 
que, gozando dêsses efeitos, o leitor esteja aperfeiçoan- 
do uma experiência estética privilegiada. 
Daí por que, para caracterizá-lo como trecho 
Kitsch, não só intervêm os fatôres lingüísticos da men- 
sagem como também a inten ão com que o autor a 
"vende" ao público. Nesse caso, tem razão Broch quan- 
(4) Luici P�aeYson, in I tcortct dell'Ersatz (publicado em "De 
Homine" 5-6, 1%3· maa��ãp�lemizando com fetoma os temas tcóricos já 
desenvolvidos na Esret um pactfico reconhecimcnto 
da consuroibilidade do produto artí5tico distin 
genérica, que invade todo o o Buc entre artisticidade 
perar humano e a arte como "auge e 
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de tnovos dmodos tdedformar�roo e modglo" cduca ão do ásto proposta 
formar. As ç Peração intencional cm que se forma por 
produ õcs da indústria cultural seriam, cntSo, slmples ma- 
nifestações de artisticidade e como tais submeddas a consumo e des- 
gaste. Naturalmente Parcyson (como ficou esclarecido pelo contexto do 
seu � p 
dc artisticidade as t ob ás de o artcnsa em dcfinir como puras operações 
tcnd8ncia gcral dc um 9ue com base numa poéti� ou np 
(pedagóBicoso histórico, tendam inten�lonalmentc para 
fins heterónomos polfticos ou utilitarlstas · nesses casos, 
tem-se arte na medida em qué o artista resolve 8see propósito em pro- 



jeto formativo inerente à obra· e a obra erobora tendendo para outro 
fim, especifica-se, também, como uro formar intencionado em si mcsmo. 
#do lembra q não diz tanto respeito à arte 
ue o 'Kitsch , que o Kitsch � 
quanto a um comportamento de vida visté um Kitsch- 
existiss 
não poderia prosperar se não a de mentira para 
-Mensch que necessita dessa form 
reconhecer-se nela. Então o consumo do Kitsch sur- 
iria em tôda a sua fôrça negativa, como uma contínua 
mistificação, uma fuga das responsabilidades que a ex- 
periência da arte, pelo contráno, impõe; segundo afir- 
mava o teólo o Egenter, o Pai da Mentira usaria o 
Kitsch ara agenar as massas da salvação, julgando-o 
p na sua fôrça mistificante e consoladora, do 
mais eficaz, 
que os próprios escândalos, os quais, pelo menos, sem- 
re despertam investindo, no ápice de sua energia ne- 
P ' 
gadora, contra as defesas morais dos virtuosos'. 
 
Kitsch e cultura de massa 
 
Evidenciada a definição do Kitsch como comuni- 
cução que ten.de à provocação do efeito compreende-se 
então com que espontaneidade se identificou o Kitsch 
cvm a cultura de massa: encarando-se a relação entre 
cultura "superior" e cultura de massa como uma dialé- 
tica entre vanguarda e Kitsch. 
A indústria da cultura, que se dirige a uma massa 
de consumidores genérica, em grande parte estranha à 
com lexidade da vida cultural especiahzada, é levada 
a vender ejeitos já confeccionados, a prescrever com o 
produto as condições de uso, com a mensagem a rea- 
q p refácio dêste livro, refe- 
ção ue deve rovocar. N m iros impressos popula 
rimo-nos aos títulos dos p res 
quinhentistas, onde a técnica da solicitação emotiva 
emerge como primeira característica indispensável de 
u,n produto popular que tente adequar-se à sensibilidade 
de um úblico médio e estimular-lhe a procura comer- 
cial: do título do impresso popular para o do jornal, 
o processo não muda; a narrativa de folhetim aperfei-