Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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dois, você e eu, os únicos que com-
preendem, e estão salvos: os únicos que não são massa".
Dissemos "super-homens" pensando na origem nietzs-
cheana (cu pseudo-nietzscheana) de muitas dessas ati-
tudes. Mas dissemo-lo com malícia, pensando na ma-
lícia com que Gramsci insinuava que o modêlo do
super-homem nietzscheano se poderia individuar nos
heróis do folhetim oitocentista, no Conde de Monte
Cristo, em Athos, em Rodalfo de Geroldstein ou (con-
cessão generosa) em Vautrin.
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# Se a camparação parecer peregrina, reflitamos sô-
bre o fato de que sempre fai típico da cultura de massa
o fazer cintilar aos alhos de seus leitores, dos quais
exige uma disciplinada "mediedade", a possibilidade de
que ainda - dadas as candições existentes, e mesmo
graças a elas - possa um dia florir da crisálida de cada
um de nós um Uebermensch. O preço a pagar é que
êsse Uebermensch se ocupe de uma infinidade de pe-
quenos prablemas, mas mantenha a ordem fundamen-
tal das caisas: é a pequeno vício refarmista da Rodolfo
dos Mistérios de Paris, fato de que se apercebexam não
apenas Marx e Engels mas também - contemporâ-
neamente a êles - Belinski e Poe, em duas apreciações
que parecem estranhamente decalcadas sôbre a polêmi-
ca da Sagrada Familia.
Num das ensaias que se seguem, estudaremos um
Super-homem típico da cultura de massa cantemporâ-
nea, o Superman das estórias em quadrinhos: e parece-
-nas pader concluir que êsse herói superdotado usa das
suas vertiginosas possibilidades aperativas para reali-
zar um ideal de absoluta passividade, renunciando a
todo prajeto que não tenha sido prèviamente homalo-
gado pelos cadastros do bam senso oficial, tornando-se
o exemplo de uma proba consciência ética desprovida de
tôda dimensão política: o Superman jamais estacionará
seu carro em local proibido, e nunca fará uma revolução.
Se bem lembramos, dos Uebermenschen citados por
Gramsci, o único que tem consciência política e se
propõe a mudar a ordem das coisas é a José Bálsama,
de Dumas. Mas, atentemos para a coincidência: Bál-
samo, aliás Cagliostro, embara use suas múltiplas vidas
para apressar o advento da revolução francesa, empe-
nhado como está em organizar seitas de iluminados e
místicas reuniões de franco-mações, au em urdir tramas

galantes para atenazar Maria Antanieta, simplesmente
se esquece de redigir a Enciclapédia e fomentar a to-
mada da BastiLha (dais fatas, um de cultura de massa,
autro de arganização das massas).
Do outro lado da barricada, temas o super-homem
proposto pelo crítico apocalíptica: êste opõe, à banali-
dade imperante, a recusa e o silêncio, alimen'ado que é
pela total desconfiança em qualquer ação que possa
modificar a ardem das coisas. Mesmo quando se consi-
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#dera a super-humanidade como um mito nostálgico
(cujas referências históricas não são precisadas), ainda
assim, no fim das contas, o que se faz é um convite à
passividade. Expulsa pela parta, a integração volta
pela janela.
Mas êste mundo, que uns alardeiam recusar e
outros aceitam e incrementam, não é um mundo para
o super-homem. � também o nosso. Nasce com o
acesso das classes subalternas à fruição dos bens cultu-
rais, e com a possibilidade de produzir êsses bens, gra-
ças a pracessos industriais. A indústria cultural, camo
veremos, aparece com Gutenberg e a invenção da
imprensa de tipos móveis, e mesmo antes. Daí por
que o mundo do Superman é também o mundo dos ho-
mens de hoje. Estarão êstes últimos inexoràvelmente
condenados a tornar-se "supermen", e, por conseguinte,
subdotados, ou poderão individuar neste mundo as li-
nhas de fôrça para um nôvo e civil colóquio? Será êste
mundo só para o Uebermensch, ou pode ser também
um mundo para o homem?
A nosso ver, se devemos operar em e para um
mundo construído na medida humana, essa medida será
individuada não adaptando o homem a essas condições
de fato, mas a partir dessas condições de fato. O uni-
verso das comunicações de massa é - reconheçamo-lo
ou não - o nosso universo; e se quisermos falar de
valores, as condições objetivas das comunicações são
aquelas fornecidas pela existência dos jornais, do rá-
dió, da televisão, da música reproduzida e reproduzí-
vel, das novas formas de comunicação visiva e auditiva.
Ninguém foge a essas condições, nem mesmo o vir-
tuoso, que, indignado com a natureza inumana dêsse
universo da informação, transmite o próprio protesto
através dos canais da comunicação de massa, pelas co-
lunas do grande diário, ou nas páginas do volume em

paperback, impresso em linotipo e difundido nos quios-
ques das estações.
Ao virtuaso apocalíptico devemos alguns concei-
tos-fetiche. E um conceito-fe`iche tem a particulari-
dade de bloquear o discurso, enrijecendo o colóquio
II
#num ato de reação emotiva. Consideremos o conceito-
fetiche de "indústria cultural". Que haverá de mais
reprovável Que o emparelhamento da idéia de cultura
(que implica um privado e sutil contato de almas) com
o de indústria (que evoca linhas de montagem, re-
produção em série, pública circulação e comércio con-
creta de objetos tornados mercadorias)? Evidentemen-
te, um mestre iluminador medieval, que confeccionava
as imagens do seu livro� de horas para o comitente, es-
tava ancorado a uma relação artesanal; cada imagem,
se par um lado se reportava a um código de crenças e
convenções, dirigia-se, por outro, àquele camitente em
particular, com êle estabelecendo uma relação precisa.
Mas tão logo alguém inventa a possibilidade de impri-
mir xilogràficamente páginas de uma bíblia reproduzí-
vel em mais exemplares, sucede um fato nôvo. Uma
bíblia que se reproduz num número maior de cópias
custa menos, e pode chegar a um maior número de
pessaas. E uma bíblia que se vende para mais gente
não será uma bíblia menor? Daí o nome que toma de
biblia pauperum. Por outro lado, o fator externo (di-
fusibilidade e preço) também influi sôbre a natureza do
produto: o desenho adaptar-se-á à co�mpreensão de
uma audiência mais vasta, menos letrada. Não será
mais útil aliar o desenho ao texto, com um jôgo de
fôlhas volantes que lembra muito de perto as estórias
em quadrinhos? A biblia pauperum começa a subme-
ter-se a uma condiçâo que, séculos depois, alguém atri-
buìrá aos modernos meios de massa: a adequação do
gôsto e da linguagem às capacidades receptivas da
média.
Depois, Gutenberg inventa os tipos móveis, e nas-
ce o livro. Um objeto de série, que deve conformar a
própria linguagem às possibilidades receptivas de um
público alfabetizado, agora (e graças ao livro, cada vez
mais) mais vasto que o do manuscrito. E não só isso:
o livro, criando um público, produz leitores, que, por
sua vez, o condicionarão.

Vejam-se os primeiros impressos populares do
século XVI, que retomam, num plano laico e cam bases
tipográficas mais aperfeiçoadas, a proposta da biblia
pauperum. São editados por tipografias menores, a pe-
dido de livreiros ambulantes e de saltimbancos, para
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#serem vendidas aa povo miúdo, nas feiras e praças.
Epopéias cavalheirescas, queixas sôbre fatos políticos
ou de ocorrência diária, motejos, anedotas ou coplas
são mal impressas, esquecendo, cam freqüência, de
mencionar local e data, porque já possuem a primeira
característica dos pradutos de massa, a efemeridade. Do
produto de massa têm, além disso, a conotação primá-
ria: oferecem sentimentos e paixões, amor e marte já
confeccionados de acôrdo cam o efeito que devem con-
seguir; os títulos dessas e�stórias já contêm o reclamo
publicitário e o juízo explícito sôbre o fato preanun-
ciada, e quase que o conselho sôbre como desfrutá-las.
Ogier, o dinamarquês. Obra bela e aprazivel, de amor
e armas, novamente reimpressa e corrigida com a rnorte
do gigante Marioto a qual nos outros não se encontra;
ou então: Nova narrativa do cruel e comovente caso
ocorrido em Alicante de uma mãe que matou o pró-
prio filho, e deu as entranhas de comer a uma cadela,
e os membros ao marido. Sem falar nas