Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.822 seguidores

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necessidades, não cor- 
rigissem certas distorções, não satisfizessem certos desejos". Definidas 
essas funções ótimas da comunicação, 6 claro que se torna bastante fácil 
julgar com critórios rigorosos, da bondade c da artisticidade de um 
produto. O que significa que a ideologia dos "integrados" pode ser 
tão genórica quanto a dos "apocalípticos" - salvo ser destituida de 
consciéncia problemática. 
 
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#tínuo proveito das descobertas da vanguarda. Assim 
esta, vendo-se de um lado funcionar, malgrado seu, 
como escritório de projetos da indústria cultural, rea- 
ge a êsse lôgro, procurando elaborar contìnuamente 
novas propostas eversivas - problema êsse que interes- 
sa a um discurso sôbre a sorte e a função da vanguarda 
no mundo contemporâneo - enquanto a indústria da 
cultura de consumo, estimulada pelas propostas da van- 
guarda, desenvolve contìnuamente uma obra de me- 
diaçâo, difusão e adaptação sempre e novamente pres- 
crevendo em modos comerciáveis como experimentar o 
devido efeito diante de modos de formar que, originà- 
riamente, pretendiam fazer-nos refletir ùnicamente sô- 
bre as causas. Nesse sentido, então, a situação antro- 
pológica da cultura de massa delineia-se como uma con- 
tínua dialética entre propostas inovadoras e adaptações 
homologadoras, as pnmeiras contìnuamente traídas pe- 
las últimas: com a maioria do público que frui das últi- 
mas julgando adir a fruição das primeiras. 
 
O Midcult 
 
Todavia, petrificada nesses têrmos, a dialética é 
demasiadamente simples. Teòricamente a formulação 
do problema parece convincente, mas examinemos na 
prática como se podem configurar alguns casos con- 
cretos. Seja dado o nível mínimo de uma cultura de 
massa, tal como a produção de lâmpadas votivas fu- 
nerárias, de bibelôs representando marujinhos ou oda- 
liscas, estórias em duadrinhos de aventuras, romances 
policiais ou filmes western classe B. Nesse caso, temos 
uma mensagem que visa a produzir um efeito (de ex- 
citação, evasão, tristeza, alegria etc.), e que assume os 



processos formativos da arte; no mais das vêzes, se os 
autores são artesanalmente atilados, tomarão de em- 
préstimo da cultura de proposta elementos novos, so- 
luções particularmente inéditas; no ensaio seguinte 
(Leitura de Steve Canyon), veremos como um dese- 
nhista de estórias em quadrinhos extremamente comer- 
ciáveis pode lançar mão das mais elaboradas técnicas 
cinematográficas. Com tudo isso, quem emite a men- 
sagem não pretende, de maneira alguma, que quem a 
recebe a interprete como obra de arte, nem quer que 
 
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#os elementos emprestados da vanguarda artística sejam 
visíveis e gozáveis como tal. EIe os usa só porque os 
julgou funcionais. O ignóbil modelador de odaliscas de 
gêsso ou de maiólica poderá ouvir mais ou menos con- 
fusamente os ecos de uma tradição decadente, sofrer o 
fascínio de arquétipos que vão da Salomé de Beardsley 
à de Gustave Moreau, e poderá pretender que a refe- 
rência esteja explícíta para o próprio comprador. i 
êste, por seu lado, poderá colocar o bibelô na sala de 
jantar, como ato de promoção cultural, ostentação de 
gôsto, estímulo para satisfações presumidamente cul- 
tas . . . Mas quando I�epero recorre aos processos fu- 
turistas para desenhar os anúncios dos produtos Cam- 
pari, ou um compositor de Timpan Alley toma de em- 
préstimo o tema beethoveniano do Pour Elise a fim de 
construir uma agradável música de dança, a utilizaçâo 
do produto culto visa a um cansumo que narla tem a 
ver com a presunção de uma experiência estética; quan- 
do muito, o co�nsumidor do produto, ao consumi-lo , 
entra em contato com modos estilísticos que conser- 
varam algo da nobreza original, e cuja origem êle igno- 
ra: e dá valo�r ao seu assestamento formal·, à sua efi- 
cácia funcional; gozando, assim, uma experiência es- 
 
tética sua, que não pretende, contudo, constituir um 
sucedâneo de experiências "superiores". Neste ponto, 
o problema ainda se desloca para outros níveis (licei- 
dade da publicidade, função pedagógica ou social da 
dança), mas a problemática do Kitsch está excluída 
disso. Temos aqui produtos de massa que tende�cn para 
a provocação de efeitos, mas que não se apresentam 
como substitutos da arte. 
Disso se aperceberam, mais ou menos confusamen- 
te, os mais argutos dentre os críticos da cultura de mas- 



sa. �stes, de um lado, relegaram os produtos "funcio- 
nais" para o rol dos fenômenos indignos de análise 
(desde que nã�o dizem respeito à problemática estética , 
não têm interêsse para o homem culto), e dedicaram- 
-se, ao contrário, a definir um outro nível do consumo 
cultural, o "médio". Para MacDonald, a cultura de 
massa de nível inferior, o Masscult, na sua vulgaridade, 
tem pelo menos sua própria razão histórica profunda, 
sua própria fôrça selvagem, semelhante à do primeiro 
capitalismo descrito par Marx e Engels, e no seu dina- 
mismo, subverte as barreiras de classe, as tradições àe 
 
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#cultura, as diferenciações de gôsto, instaurando uma 
discutível, execrável mas homogênea comunidade cultu- 
ral (em ou:ras palavras, embora o Masscult lance mão, 
de padrões e modos das vanguardas, na sua irreflexa 
funcionalidade, não levanta o problema de uma refe- 
rência à cultura superior, e não o levanta para a mas- 
sa dos consumidores). 
Bem diverso é, pelo contrário, o Midcult, bastar- 
do do Masscult, que surge como "uma corrupção da 
Alta Cultura", e que, de fato, �está sujeito aos desejos 
do público, como o Masscult, mas, na aparência, convi- 
da o fruidor a uma experiência privilegiada e difícil. 
Para compreender o que entende MacDonald por Mid- 
cult, vale a ena segui-lo na sua pérfida e saborosa aná- 
lise d'O Ve ho e o Mar, de Hemmgwayln. 
Mesmo dentro da produção de Hemingway pode- 
-se acompanhar uma dialética entre vanguarda e Kitsch: 
de um período em que a sua escrita constituiria ver- 
dadeiramente um instrumento de descoberta da reali- 
dade, e quando essa mesma escrita, embora se mantendo 
aparentemente inalterada, dobra-se, de fato, às exigên- 
cias de comestibilidade requeridas por um público mé- 
dio, 4ue agora quer adir a fruição de um escritor tão 
provocante. MacDonald transcreve o início de um dos 
primeiros contos, The Urulef eated, a estória de um 
taureiro "gira", escrita nos anos vinte: 
 
"Manuel Garcia subiu as escadas até o escritório de don 
Miguel Retana. Pôs a valise no chão e bateu à porta. Nin- 
guém respondeu. Manuel, de pé no patamar, sentiu, porém, 
que havia alguém na sala. Sentiu através da porta." 
 
o característico "estilo Hemingvray". Poucas 



palavras, uma situação traduzida em comportamentos. 
O tema assim introduzido é o de um homem derrotado 
que se apronta para a última batalha. Passemos agora 
ao início d'O Velho e o Mar, também aqui a apresen- 
tação de um homem derrotado que se apronta para a 
última batalha: 
"Era um velho que pescava sòzinho com seu barco na 
Corrente do Gôlfo e há oitenta e quatro dias não apanhava 
um peixe. Um garôto o acompanhara nos primeiros quar p ta 
dias, mas quando êstes se passaram sem sinal de peixe, os ais 
do garôto disseram que o velho estava decidida e definitiva- 
(10) Cf. Against the American Grain. op. cit., pp. 40-43. 
 
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#mente salao, o que é a pior forma de desgraça, e o garôto 
obedecera-Ihes, indo para outro barco, que logo na primeira 
semana apanhou três belos peixes. Era triste para o garôto 
ver o velho chegar todo dia com o barco vazio e êle sempre 
descia para ajudá-lo a carregar ou os rolos de linha, ou o 
gancho e o arpão e a vela enrolada ao mastro. A vela estava 
tôda remendada com sacos de farinha e assim enrolada, pa- 
recia a bandeira de uma derrota perene." 
Nota MacDonald que o trecho gstá escrito na prosa 
pseudobíblica usada por Pearl Buck em A Boa Terra 
( "estilo que parece exercer um maligno fascínio sôbre 
os midbrows"), com uma grande abundância de "e, e, 
e", substituindo a virgulação normal, de modo a confe- 
rir ao todo a cadência de um poema antigo; os persona- 
gens são mantidos dentro de uma aura de