Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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necessidades, não cor-
rigissem certas distorções, não satisfizessem certos desejos". Definidas
essas funções ótimas da comunicação, 6 claro que se torna bastante fácil
julgar com critórios rigorosos, da bondade c da artisticidade de um
produto. O que significa que a ideologia dos "integrados" pode ser
tão genórica quanto a dos "apocalípticos" - salvo ser destituida de
consciéncia problemática.
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#tínuo proveito das descobertas da vanguarda. Assim
esta, vendo-se de um lado funcionar, malgrado seu,
como escritório de projetos da indústria cultural, rea-
ge a êsse lôgro, procurando elaborar contìnuamente
novas propostas eversivas - problema êsse que interes-
sa a um discurso sôbre a sorte e a função da vanguarda
no mundo contemporâneo - enquanto a indústria da
cultura de consumo, estimulada pelas propostas da van-
guarda, desenvolve contìnuamente uma obra de me-
diaçâo, difusão e adaptação sempre e novamente pres-
crevendo em modos comerciáveis como experimentar o
devido efeito diante de modos de formar que, originà-
riamente, pretendiam fazer-nos refletir ùnicamente sô-
bre as causas. Nesse sentido, então, a situação antro-
pológica da cultura de massa delineia-se como uma con-
tínua dialética entre propostas inovadoras e adaptações
homologadoras, as pnmeiras contìnuamente traídas pe-
las últimas: com a maioria do público que frui das últi-
mas julgando adir a fruição das primeiras.
O Midcult
Todavia, petrificada nesses têrmos, a dialética é
demasiadamente simples. Teòricamente a formulação
do problema parece convincente, mas examinemos na
prática como se podem configurar alguns casos con-
cretos. Seja dado o nível mínimo de uma cultura de
massa, tal como a produção de lâmpadas votivas fu-
nerárias, de bibelôs representando marujinhos ou oda-
liscas, estórias em duadrinhos de aventuras, romances
policiais ou filmes western classe B. Nesse caso, temos
uma mensagem que visa a produzir um efeito (de ex-
citação, evasão, tristeza, alegria etc.), e que assume os

processos formativos da arte; no mais das vêzes, se os
autores são artesanalmente atilados, tomarão de em-
préstimo da cultura de proposta elementos novos, so-
luções particularmente inéditas; no ensaio seguinte
(Leitura de Steve Canyon), veremos como um dese-
nhista de estórias em quadrinhos extremamente comer-
ciáveis pode lançar mão das mais elaboradas técnicas
cinematográficas. Com tudo isso, quem emite a men-
sagem não pretende, de maneira alguma, que quem a
recebe a interprete como obra de arte, nem quer que
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#os elementos emprestados da vanguarda artística sejam
visíveis e gozáveis como tal. EIe os usa só porque os
julgou funcionais. O ignóbil modelador de odaliscas de
gêsso ou de maiólica poderá ouvir mais ou menos con-
fusamente os ecos de uma tradição decadente, sofrer o
fascínio de arquétipos que vão da Salomé de Beardsley
à de Gustave Moreau, e poderá pretender que a refe-
rência esteja explícíta para o próprio comprador. i
êste, por seu lado, poderá colocar o bibelô na sala de
jantar, como ato de promoção cultural, ostentação de
gôsto, estímulo para satisfações presumidamente cul-
tas . . . Mas quando I�epero recorre aos processos fu-
turistas para desenhar os anúncios dos produtos Cam-
pari, ou um compositor de Timpan Alley toma de em-
préstimo o tema beethoveniano do Pour Elise a fim de
construir uma agradável música de dança, a utilizaçâo
do produto culto visa a um cansumo que narla tem a
ver com a presunção de uma experiência estética; quan-
do muito, o co�nsumidor do produto, ao consumi-lo ,
entra em contato com modos estilísticos que conser-
varam algo da nobreza original, e cuja origem êle igno-
ra: e dá valo�r ao seu assestamento formal·, à sua efi-
cácia funcional; gozando, assim, uma experiência es-
tética sua, que não pretende, contudo, constituir um
sucedâneo de experiências "superiores". Neste ponto,
o problema ainda se desloca para outros níveis (licei-
dade da publicidade, função pedagógica ou social da
dança), mas a problemática do Kitsch está excluída
disso. Temos aqui produtos de massa que tende�cn para
a provocação de efeitos, mas que não se apresentam
como substitutos da arte.
Disso se aperceberam, mais ou menos confusamen-
te, os mais argutos dentre os críticos da cultura de mas-

sa. �stes, de um lado, relegaram os produtos "funcio-
nais" para o rol dos fenômenos indignos de análise
(desde que nã�o dizem respeito à problemática estética ,
não têm interêsse para o homem culto), e dedicaram-
-se, ao contrário, a definir um outro nível do consumo
cultural, o "médio". Para MacDonald, a cultura de
massa de nível inferior, o Masscult, na sua vulgaridade,
tem pelo menos sua própria razão histórica profunda,
sua própria fôrça selvagem, semelhante à do primeiro
capitalismo descrito par Marx e Engels, e no seu dina-
mismo, subverte as barreiras de classe, as tradições àe
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#cultura, as diferenciações de gôsto, instaurando uma
discutível, execrável mas homogênea comunidade cultu-
ral (em ou:ras palavras, embora o Masscult lance mão,
de padrões e modos das vanguardas, na sua irreflexa
funcionalidade, não levanta o problema de uma refe-
rência à cultura superior, e não o levanta para a mas-
sa dos consumidores).
Bem diverso é, pelo contrário, o Midcult, bastar-
do do Masscult, que surge como "uma corrupção da
Alta Cultura", e que, de fato, �está sujeito aos desejos
do público, como o Masscult, mas, na aparência, convi-
da o fruidor a uma experiência privilegiada e difícil.
Para compreender o que entende MacDonald por Mid-
cult, vale a ena segui-lo na sua pérfida e saborosa aná-
lise d'O Ve ho e o Mar, de Hemmgwayln.
Mesmo dentro da produção de Hemingway pode-
-se acompanhar uma dialética entre vanguarda e Kitsch:
de um período em que a sua escrita constituiria ver-
dadeiramente um instrumento de descoberta da reali-
dade, e quando essa mesma escrita, embora se mantendo
aparentemente inalterada, dobra-se, de fato, às exigên-
cias de comestibilidade requeridas por um público mé-
dio, 4ue agora quer adir a fruição de um escritor tão
provocante. MacDonald transcreve o início de um dos
primeiros contos, The Urulef eated, a estória de um
taureiro "gira", escrita nos anos vinte:
"Manuel Garcia subiu as escadas até o escritório de don
Miguel Retana. Pôs a valise no chão e bateu à porta. Nin-
guém respondeu. Manuel, de pé no patamar, sentiu, porém,
que havia alguém na sala. Sentiu através da porta."
o característico "estilo Hemingvray". Poucas

palavras, uma situação traduzida em comportamentos.
O tema assim introduzido é o de um homem derrotado
que se apronta para a última batalha. Passemos agora
ao início d'O Velho e o Mar, também aqui a apresen-
tação de um homem derrotado que se apronta para a
última batalha:
"Era um velho que pescava sòzinho com seu barco na
Corrente do Gôlfo e há oitenta e quatro dias não apanhava
um peixe. Um garôto o acompanhara nos primeiros quar p ta
dias, mas quando êstes se passaram sem sinal de peixe, os ais
do garôto disseram que o velho estava decidida e definitiva-
(10) Cf. Against the American Grain. op. cit., pp. 40-43.
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#mente salao, o que é a pior forma de desgraça, e o garôto
obedecera-Ihes, indo para outro barco, que logo na primeira
semana apanhou três belos peixes. Era triste para o garôto
ver o velho chegar todo dia com o barco vazio e êle sempre
descia para ajudá-lo a carregar ou os rolos de linha, ou o
gancho e o arpão e a vela enrolada ao mastro. A vela estava
tôda remendada com sacos de farinha e assim enrolada, pa-
recia a bandeira de uma derrota perene."
Nota MacDonald que o trecho gstá escrito na prosa
pseudobíblica usada por Pearl Buck em A Boa Terra
( "estilo que parece exercer um maligno fascínio sôbre
os midbrows"), com uma grande abundância de "e, e,
e", substituindo a virgulação normal, de modo a confe-
rir ao todo a cadência de um poema antigo; os persona-
gens são mantidos dentro de uma aura de