Apocalipticos e Integrados
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Apocalipticos e Integrados

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generalidade
(o Garôto, o Velho), na qual permanecerão até o fim,
justamente para sublinhar a impressão de que não são
indivíduos, mas Valores Universais - e que, portanto,
através dêles, está o leitor fruindo uma experiência de
ordem filosófica, uma revelação profunda da realidade.
The Undefeated tem 57 páginas, O Velho e o Mar,140,
mas tem-se a impressão de que, no primeiro, diz-se me-
nos do que aquilo que acontece, e no segundo ocorre
o contrário. O segundo conto não só procede contìnua-
mente beirando a falsa universalidade, mas desencadeia
o que MacDonald denomina de "constant editorializing"
(o aue nada mais é que aquêle pôr a publicidade do
produto no produto, que já salientamos na "obra bela
e aprazível" de Ogier, o Dinamarquês) : num certo
ponto, Hemingway coloca na bôca do protagonista a
seguinte fras.e: "Sou um velho estranho", e MacDonald
comenta, desapiedadamente: "Pois não diga, meu ve-

lho, prove". Fica claro o que um leitor médio encan-
tra num conto dêsse tipo; os modos exteriores de um
Hemingway da primeira fase (um Hemingway ainda
indigesto e arredio), mas diluídos, reiterados até que não
sejam mais assimilados; a hipersensibilidade de Manuel
Garcia, agora afeito ao azar, é sugerida, representada por
aquêle perceber a presença hostil do empresário inabor-
dável, do outro lado da porta fechada; o azar do velho é
explicado ao leitor estimulando-lhe a hipersensibilidade
com o acenar, até o exaurimento da emoção, daquela ve-
la que parece "a bandeira de uma derrota perene" (e que
é irmã de leite do silêncio encantado e dos submissos re-
flexos revoluteando pelo quarto de Brunilde, no primeiro
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#trecho examinado) . Fique bem claro, todavia, que o
leitor médio não perceberia plenamente a fôrça persua-
siva daquela vela-vexilo, se uma metáfora do gênero
não lhe evocass.e confusamente à memória metáforas
análo as, nascidas em outros contextos poéticos, mas
g pela tradição literária. Estabelecido
agora adquiridas ,
o curto-circuito mnemônico, experimentada a impressão
e a impressão de gue a impressão seja "poética , o jô-
o está feito. O leitor está cônscio de haver consumido
arte e de ter, através do rosto da Beleza, contemplado
a Verdade. Então Hemingway é, verdadeiramente, um
autor para todos e merecerá o Prêmio Nobel (que,
não por acaso, também foi entregue a Pearl Buck, como
sugere MacDonald).
Há representações da condição humana, nas quais
essa condição é levada aos limites de tamanha genera-
lidade que tudo quanto se apreende à sua volta é bom
para todos os usos como para nenhum; o fato de que
se dê a informação travestindo-a de exgeriência estética,
reafirma-lhe a substancial falsidade. Voltam à mente as
referências. de Broch e Egenter à mentira e à vida re-
duzida à mentira. Na verdade, nesses casos, o Mid-
cult toma a forma de Kitsch na sua lata expressão,
e exerce função de puro consôlo, torna-se estímulo para
evasões acríticas, faz-se ilusão comerciável.
Mas, se aceitamos a análise de MacDonald, deve-
mos estar atentos aos matizes que o problema assume,
justamente em virtude de suas intuições penetrantes.
Porque então o Midcult manifesta algumas característl-

cas que nem sempre, camo neste caso, caminham ne-
cessàriamente juntas. O trecho lido é um exemplo de
Midcult porque: 1 ) toma de empréstimo processos da
van uarda e adapta-os para confeccionar uma pnsg-
gem com reensível e desfrutável por todos; 2) em re a
processos quando já conhecidos, divulgados, gas-
êsses ) constrói a mensagem como pro-
tos, consumi�os� 3 5 tran-
vocação de efeitos; 4) vende-a como Arte; )
qüiliza o ró rio consumidora, c ltura�de modoe qer
g p ue
realizado um encontro com ,
êle não venha a sentir outras inquietações.
Ora essas cinco condições encontram-se em todo
produto de Midcult, au reúnem-se aqui nuxna síntese
articularmente insidiosa? Se faltar alguma dessas con-
dições, ainda teremos Midcult? O próprio MacDonald,
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#ao :ndicar outros exemplos de Midcult, parece vacilar
entre acepções diversas que dão cobertura ora a um ora
a vários dos cinco itens arrolados. Assim, é Midcult a
Revised Standard Version of the Bible, publicada sob
a égide da Yale Divinity School, versão que "destrói
um dos maiores monumentos da prosa inglêsa, a versão
do Rei Jaime, a fim de tornar o texto `claro e signifi-
cativo para o público hodierno', o que é o mesmo que fa-
zer em pedaços a Abadia de Westminster para com os
fragmentos construir Disneylândia": e nesse caso, está
claro que o que importa a MacDonald é o fato estético,
não lhe interessando em absoluto o problema de uma
maior aproximação do público médio às sagradas escri-
turas (projeto que, uma vez acatado como necessário,
torna bastante plausível a operação da Yale D�ivinity
School). Nesse caso, o Midcult identifica-se com a divul-
gação (ponto 1 ), que, portanto, em si, é má.
É Midcult o Clube do Livro do Mês, pelo fato de
difundir obras "médias" à Pearl Buck, e assim vender
como arte o que, pelo contrário, não passa de ótima
mercadoria de consumo ( ponto 4 e 5 ) . É Midcult a
Nossa Cidade, de Wilder, que emprega uma característi-
ca contribuição da vanguarda, o efeito brechtiano de
alienação, para fins consoladbres e hipnóticos, e não
para envolver o espectador num processo crítico (pon-
to 3 ) . Mas depois aparecem como exemplos de Midcult
os produtos de um design médio, que divulga em ob-

jetos de uso comum as velhas descobertas do Bauhaus
(ponto 2), e aqui não vemos por que deva o fate irritar
o crítico, visto que os projetistas do Bauhaus projeta-
vam justamente formas de uso comum que se deveriam
ter difundido em tados os níveis sociais. Claro está
que, a propósito dos objetos de design, a polêmica po-
deria versar sôbre o fato de que êsses modelos adqui-
riam sentido nas intenções dos projetistas, só se inse-
ridos num contexto urbanístico e social profundamente
transformado; e que, realizados como puros instrumen-
tos de consumo, isolados do seu contexto ideal, adqui-
rem um significado bem pobre. Pesa, porém, sôbre
MacDonald a suspeita de que o simples fato da divul-
gação é que o irnta. O fato é que, para êle, a dialética
entre vanguarda e produto médio coloca-se de modo
bastante rígido e unidirecional (a passagem entre Alto
e Médio está em entrogia constante. . . ), e no seu
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#ao ;ndicar outros exemplos de Midcult, parece vacilar
entre acepções diversas que dão cobertura ora a um ora
a vários dos cinco itens arrolados. Assim, é Midcult a
Revised Standard Version of the Bible, publicada sob
a égide da Yale Divinity School, versão que "destrói
um dos maiores monumentos da prosa inglêsa, a versão
do Rei Jaime, a fim de tornar o texto `claro e signifi-
cativo para o público hodierno', o que é o mesmo que fa-
zer em pedaços a Abadia de Westminster para com os
fragmentos construir Disneylândia": e nesse caso, está
claro que o que importa a MacDonald é o fato estético,
não lhe interessando em absoluto o problema de uma
maior aproximação do público médio às sagradas escri-
turas (projeto que, uma vez acatado como necessário,
torna bastante plausível a operação da Yale D�ivinity
School). Nesse caso, o Midcult identifica-se com a divul-
gação (ponto 1 ), que, portanto, em si, é má.
É Midcult o Clube do Livro do Mês, pelo fato de
difundir obras "médias" à Pearl Buck, e assim vender
como arte o que, pelo contrário, não passa de ótima
mercadoria de consumo ( ponto 4 e 5 ) . É Midcult a
Nossa Cidade, de Wilder, que emprega uma característi-
ca contribuição da vanguarda, o efeito brechtiano de
alienação, para fins consoladbres e hipnóticos, e não
para envolver o espectador num processo crítico (pon-
to 3 ) . Mas depois aparecem como exemplos de Midcult
os produtos de um design médio, que divulga em ob-

jetas de uso comum as velhas descobertas do Bauhaus
(ponto 2), e aqui não vemos por que deva o fate irritar
o crítico, visto que os projetistas do Bauhaus projeta-
vam justamente formas