Apocalipticos e Integrados

Apocalipticos e Integrados

Disciplina:Metodologia de Pesquisas1.167 materiais19.822 seguidores

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possa ser lnterpretada de vá- 
rios modos; elimina a possibilidade de uma decodifi- 
cação unívoca, dá ao decodificador a s.ensação de que 
o código vigente esteja de tal modo violado que não 
sirva mais para decodificar a mensagem. Nesse sentido, 
o receptor vê-se na situação de um criptanalista 
forçado a decodificar uma mensagem cujo código desco- 
nhece, e que, para isso, deve deduzir o código não de 
conhecimentos precedentes à mensagem, mas do con- 
texto da prápria mensagem2o. Dêsse modo, vê-se o 
receptor a tal ponto empenhado, pessoalmente, na 
mensagem, que sua atenção se desloca dos significados, 
a que a mensagem podia conduzi-lo, para a estrutura 
mesma dos significantes: e assim fazendo, obtempera 
ao fim que lhe estava prescrito pela mensagem poéti- 
ca, que se constitui como ambígua, porque se propõe 
a si mesma como primeiro objeto de atenção: "a posição 
de relêvo em que a mensagem por si mesma se situa 
(20) As noções de código e decodificação são apficáveis (como dís- 
semos) também a comunicações de ordem não lingilística, por exemplo, a 
uma mensagem visual ou a uma mensagem musical enquanto organização 
de estímulos perceptivos. Será todavia, possível uma decodificação de 
tais mensagens em nível semântico? O caso é simples quando se trata de 
pintura figurativa ou mesmo simbólica (onde existem referências semãn- 
ticas de ordem imitativa ou devidas a convenções iconológicas' embora 
menos cogente Que o sistema lingüístico, pode existir um código interpreta- 
tivo baseado numa Iradição cultural, em que até mesmo uma côr assume 
referência precisa)' quanto à música CcAune Lhvt-S'rRnuss (Georges 
Charbonnier Entreiiens avec C.L.S., Paris, Plon-Julliard, 1%1) refere-se a 
ela como sistema significativo enquanto se apóia a uma gramática (a gra- 
mática tonal ou a dedecafônica)' mas a propósito da música serial, chega 
à conclusão de que a noção de sistema de significados perde o pé, e ela- 
bora a� hipótese de que aí atuam regras prosódicas e não regras fingufs- 
ticas: `Já Que a essência das regras lingüísticas é de que, com sons em 



si mesmos arbitrários conseguimos diferenciar significações e êsses sons 
se acham integrados num sistema de oposições binárias..." Ora, na mú- 
sica serial, "a noção de oposição subsiste mas não a articulação das opo- 
sições em sistema. Nesse sentido o código me parece mais expressivo 
Que semãntico" (pp, 127-128). A objeção de Lévi-Strauss é importante' e 
também se dirige à arte abstrata. Salvo que atinge apenas a música �to- 
nal: a qual se rege por um código gramat,cal além do mais destituldo de 
dimensão semãntica - como bem se sabe a partir de Hansfick, a não ser 
que se aceitem os ideais de uma música descritiva. Como veremos na no- 
ta seguinte, o eQuívoco consiste em associar, estreitamente demais, as fun- 
ções poética e semántica. 
 
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#é o que caracteriza pròpriamente a função poéti- 
ca. . . "�1. Quando se especifica a arte como função 
autônoma, como um f ormar por f ormar, acentua-se 
a característica da comunicaçãu artística, que, em têrmos 
de teoria da comunicação e de lingüística estrutural, 
pode ser definida da seguinte maneira: "O enfaque 
(21) Jakobson, op. ctt., p. 30. Aqui se esclarecem as objeções pro- 
postas na nota (20). A característica da mensagem poética é de ter 
uma ambig�idade de estrutura, que, estimulando interpretações múltiPlas, 
obriga a fixar a atenção sõbre a própria estrutura. A mensagem pode 
comunicar significados precisos, mas a primeira comunicação que atua 
diz respeito a ela mesma. Portanto, o fato de não se constituir em siste- 
ma semãntico definido, não invalida uma determinzda forma de arte, como 
a música (em geral) ou a música serial, ou a pintura abstrata (e natu- 
ralmente, informai). Mesmo quando possui uma dimensão semãntica, a 
mensagem poética convida-nos a verificar a eficácia da significação como 
fundada sbbre a estrutura sintática do contexto. Mas pode haver men- 
sagens em que as referências semânticas sejam abertíssimas e imprecisas, 
enquanto que a estrutura sintática é bastante precisa: como um quadro 
de Pollok, por exemplo. E bem possível que depois, no âmbito de uma 
dada cultura, também obras do Bênero permitam, através de uma tradi- 
ção interpretativa, conferir uma certa validade semantica aos s�gnos im- 
plicados. Em Obra Aberta, no capítulo O inlorma! como obra aberta, 
citou-se um protocolo de leitura em que Audiberti, interpretando os qua- 
dros de Camille Bryen, confere valor semântico a um sistema de signos 
do qual emerge, antes de mais nada, a relação sintática, a relação estru- 
tural. 
Mas, no mais das vêzes, a eficácia semântica de tais mensagens é 
produzida justamente pelo vzlor de conhecimento que se costuma con- 
ferir ao sistema de relações contextuais. Em arquitetura, por exemplo, 
fala-se de valor semântico de um edifício não só pela referência dos 
seus elementos isolados (janelas, teto, escadas etc.) a precisas funções 
utilitaristas, mas justamente pela natureza simbólica que o contexto geral 



assume em virtude de articular-se estruturalmente de um certo modo, e 
relacionar-se com o contexto urbanístico (cf., por exemplo, G���o Doeet.es 
in Simbolo, comsanirazione, consumo, Turim, Einaudi, 1%2, capítulo V: 
Vatort camunicativt e simbotici nell'architettura, ne! disegno industriale 
e nella publicitd). Mas isso tambbm acontece com os modos de formar 
musicais, Que a tal ponto adquirem valor de referência precisa a situa- 
ções ideológicas, que podem ser usados com função cemântica. E acon- 
tece em pintura, onde também um estilo pode adquirir (com base num 
processo interpretativo adquirido pela tradição) valor significativo quase 
convencionalizado: pode-se ver, assim, que um gráfico, disposto a ilustrar 
(e isso foi feito) a capa de um livro de Robbe-Grillet com um quadro 
de Mondrian, nunca ousaria assinalar com um quadro análogo um volu- 
me de Becket. Naturalmente, em todos êsses casos, a relação signifi- 
cante-significado não é precisa como na Iinguagem falada; mas essa re- 
lação é secundária no tocante à definiçâo de mensagem poética e passa 
a ser posta em crise também na estruturação de uma mensagem lingüís- 
tica com fins poéticos. Na mensagem poética, a estruturação dos signos 
pode tender a coordenar não só uma ordem de significantes, mas tam- 
bém uma ordem de emoções ou de puras percepções, como acontece nas 
artes decorativas e - precisamente - na música. Mais freqüentemente, 
os verdadeiros siBnificados dos significantes são os problemas de estru- 
turação dos significantes. Portanto, quando Lévi-Strauss acusa a pintura 
abstrata porque "nela falta, a meus olhos, o atributo essencial da obra 
de arte que é trazer uma realidade de ordem semãntica", simplesmente 
restringe a noção de arte a um tipo de arte, ou recusa-se a reconhecer 
que, na mensagem poética, a noção de semanticidade se articula de modo 
diverso. 
Justamente para fugir a êsse impasse, A. A. Moces desenvolveu uma 
distinção entre aspecto semântico e aspecto estótico da mensagem - 
ligado, êsse último, à estruturação dos materiais, cf. Theórie de !'inlor- 
mation et perception esthéttque, Paris, Flammarion, 1958; e o ensaio 
L'analyse des structure.r du message poétique aux dtllerents niveaux de 
la sensibilité, na coletânea (Autori Vari) Poetics, Gravenhage, Mouton & 
Co.; 1%1, pp. 811 e segs. 
 
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#da mensagem enquanto tal, o relêvo que a mensagem, 
por conta própria, se atribui - eis o que caracteriza 
a função poética da linguagem"zz. Com êsse fim, a 
ambigüidade não é uma característica acessória da 
mensagem: é a mola fundamental que leva o decodi- 
ficador a assumir uma atitude diversa no que tange 
à mensagem, a não consumi-la como puro veículo 
de significados, compreendidos os quais, a mensagem, 
que dêles constituía o simples trâmite, é esquecida: 
mas a vê-la como um manancial contínuo dc significados 



jamais imobilizáveis numa só direção, e portanto, a 
apreciar a estrutura típica dêsse manancial de infor- 
mação, que me estimula uma contínua decodificação,